
De tempo em tempo ocorre um retorno de uma antiga concepção que tende a relacionar grau civilizatório alcançado por um país com expressões como “tradição” e “cultura”. O que geralmente se quer ressaltar é que a história de um povo é reconhecida em sua solidez institucional, que promove limites normativos dentro dos quais a inovação e a mudança são aceitas. Se é sólida a cultura em um período relativamente longo de tempo, há a tendência de considerar o país “civilizado”, a despeito do grau de desenvolvimento econômico alcançado. Portanto, a mudança aceitável é a incremental, não estrutural. Nas instituições econômicas, ocorre o mesmo: as análises de risco econômico, como o “risco Brasil” leva em conta exatamente a possibilidade de permanência do grau institucional alcançado, por exemplo, a tendência a honrar contratos firmados. É por isso que o Governo Lula representa um dos maiores saltos civilizatórios feito pelo Brasil.
1 – A história institucional
Nossa história é feita de rupturas institucionais duras e conviveu com uma profunda latência à quebra de expectativas de agentes políticos e econômicos. Após a proclamação da república sabe-se lá quantas vezes as expectativas institucionais foram alteradas. Já ouvi alguns senhores lembrarem que votaram em uma eleição, mas não sabiam se votariam na seguinte. Recentemente: Ditadura, a não posse de Tancredo, A Nova Constituição, Collor, planos econômico, congelamento de poupanças... quais são nossas expectativas em relação ao futuro diante de tantas mudanças?
2 – O Partido dos Trabalhadores
Já faz 28 anos desde que o PT se tornou um partido político. Muito mais que isso, um partido de esquerda de massas que representava finalmente as possibilidades de mudanças na equação de classe que perdurava: uma pequena parte com o bolo e o resto sem convite para a festa. Uma desigualdade social lastimável e vergonhosa que resistia a tudo, mesmo ao fato de ser o Brasil o país que mais cresceu desde a segunda guerra mundial, até a década de 70. O novo partido aglutinava bandeiras e tinha tintas socialistas e uma indefectível tendência à mudança radical, à revolução. Estava ali a ameaça às expectativas dos agentes, econômicos ou não, e esta verborragia petista renovou as expectativas passadas de mudanças bruscas, inclusive antes de lula tomar posse. Mas estes extremos se tornaram insustentáveis, como se a garra revolucionária fosse tomada de uma preguiça macunaímica e uma programática tucana, misturado com uma pragmática leninista. No fim, deu no que deu, Lula afirmando: “nunca fui de esquerda”.
3 – De intelectuais e tucanos.
O PSDB é uma social democracia liberal que tentou em oito anos de governo federal impedir os excessos de estado e escassez de mercado, estabilizar a moeda e promover políticas sociais para atenuar as conseqüências humanas de tal “projeto”. Estabilizou a moeda, a um preço altíssimo, indicou caminhos de promoção de renda e fez da estabilidade monetária o ponto arquimédico para se pensar na estabilidade institucional. O Real adquiriu a face de uma tradição secular consensual, e se fez marca de um país que em um aspecto se mantinha estável. Foi só isso. Não fez nação com a estabilidade monetária. Os custos humanos viriam em 2002...
4 – Eleições
A posse do operário fora precedida de encontros entre membros do governo que se encerrava e do novo governo. O intelectual apertou a mão do operário, a esquerda estava sentada com o centro, o capital com o trabalho (ainda que isto soe demodé). Esta imagem talvez seja o símbolo mais forte da nova república. Havia uma renovação sem ruptura institucional, e um revezamento de entidades políticas antagônicas no plano político, ainda que não o fosse no plano político-programático. O que há de novidade é isto.
5 – Alguns anos depois
Estável institucionalmente e, o que parece, financeiramente, já que o país resiste, ainda, a uma crise econômica sem precedente. Não há como negar que a substância desta força seja a manutenção de marcos institucionais após dois governos sucessivos. Ou melhor, há sim, mas não há como negar que a substância desta força seja também a manutenção de marcos institucionais após dois governos sucessivos. Não há sorte nisso, a não ser que queiram acreditar em bruxaria, oráculos e magia. Há competência, não deste ou daquele governo, mas daquilo que PSDB e PT souberam expressar juntos até agora: uma nação, como uma civilização, se constrói com expectativas institucionais correspondidas no tempo.
6 - Enfim
O país é sólido economicamente agora, na crise? Creio, é por que é sólido institucionalmente. Promover a permanência, ás vezes, pode ser a postura política mais revolucionária no momento.
