segunda-feira, 19 de maio de 2008

Entrevista com Sérgio Diniz





O blog “Outros Campos” segue hoje sua série de entrevistas conversando com o professor universitário e sociólogo, Sérgio Diniz Nogueira. Sérgio Diniz já deixou fortes marcas na vida pública de Campos. Foi diretor da Universidade Cândido Mendes, deputado estadual e também vereador. No seu último mandato como vereador (PSDB), destacou-se por ser um solitário e bravo foco de resistência ao governo Arnaldo Vianna, tendo alguns companheiros na oposição somente a partir do terceiro ano de governo. Sérgio Diniz também mantém um blog, onde discute com seus leitores problemas do Brasil e de Campos.


1. Blog “Outros Campos”: Como o Sr vê a possibilidade de uma coligação entre o PT e o PSDB para as próximas eleições municipais em Campos? E como analisa que uma candidatura própria do PSDB à prefeitura tenderia a fortalecer o partido em Campos?
Sérgio Diniz: Vejo-a como necessária e indispensável às urgentes e válidas transformações ao perfil político, administrativo e moral de Campos. Ambos possuem bons quadros, capazes de atender, plenamente, às demandas do perfil acima identificado. No entanto, no momento, não se deveria falar em nomes e sim, em propostas no que tange tanto ao campo do Poder Executivo, como e, sobretudo, ao do Poder Legislativo. Aliás, sem falarmos qualquer novidade, este é o mais significativo, política e constitucionalmente, dos três poderes. Para tanto, a coligação PSDB- PT teria que se dar, óbvio, na majoritária e na proporcional e estes dois partidos se preocupando em formar a melhor nominata possível para a Câmara Municipal. Quanto à escolha do nome para a chapa majoritária, far-se-iam de quatro a cinco pesquisas dentre aqueles que se dispusessem a essa disputa. Claro, o maior detentor de intenção de votos seria o escolhido e estes partidos se comprometeriam a apoiar e a trabalhar a favor desse candidato. A escolha do vice, contudo, no meu entender, ficaria à exclusiva opção do candidato a prefeito, não só pra não haver futuras e comprometedoras divergências entre eles, porém, e, principalmente, muito positivo que o vice-prefeito fosse, também, um elemento de proa na administração municipal, consciente e motivadamente ombro a ombro com o prefeito.


2. Blog “Outros Campos”: Qual a avaliação do Sr acerca da participação de seu partido, no governo Mocaiber?
Sérgio Diniz: Sempre me posicionei contrário a esse apoio, pois, Mocaiber, pouco tempo depois de assumir o governo, revelou-se (o que era esperado, ainda que não o desejado) o perfeito DNA do governo (?) Arnaldo, ao qual fui oposição isolada nos dois primeiros anos do meu mandato e, posteriormente, acompanhado de alguns colegas. Governos (?) de desmandos, sustentados por excessivo fisiologismo (tão comum neste Brasil), fronteira inevitável com a corrupção. Para sermos objetivos, politicamente falando, Garotinho, Arnaldo e Mocaiber são vinagre da mesma pipa. (Só pensarmos que, etimologicamente, vinagre significa vinho azedo.) O resultado desta aproximação com Mocaiber foi e é um PSDB desunido, preocupado com ações e interesses que não devem ser prioritários na vida pública.


3. Blog “Outros Campos”: O PSDB nacional surgiu a partir de uma base intelectual paulista, quais seriam as bases de sustentação do PSDB campista?
Sérgio Diniz: Acredito que o PSDB tenha realmente surgido de uma costela do PMDB, face a algumas figuras, neste partido, que não demonstravam o essencial compromisso com os valores públicos indispensáveis ao bem estar de uma coletividade. Digo isto, pensando, principalmente, em Franco Montoro, Mario Covas e Artur da Távola, infelizmente já falecidos. Portanto, o `` pulsar das ruas `` , tão reverenciado no ninho tucano, está órfão, até surgirem nomes ( acho que eles existem) que alcancem o patamar dos três ícones acima mencionados. Afinal, quando, hoje, o PSDB faz acordo, por exemplo, com Orestes Quércia, a suas propostas nascituras perdem sentido. Mais ainda, o que se esperava de Fernando Henrique, como presidente, decepcionou-me, por retirar do Estado brasileiro alguns dos seus elementos políticos e administrativos indispensáveis, privatizando-o, sobretudo, como instituição e, como inevitável conseqüência, não priorizar e implementar políticas públicas essenciais à estrutura de cidadania, ainda tão ausente em nossa sociedade. Pior, sem dúvida, sobre todos os aspectos, a atuação do PT. Infelizmente, ambos os partidos se diminuíram politicamente. Trocaram o programático pelo absurdamente pragmático. No Brasil, há 508 anos encobertos, repetindo, aqui, a lógica observação de Raymundo Faoro, o Estado brasileiro surgiu antes da sua sociedade e acrescento eu, privatizou-se contra ela. Desta forma, o sistema que o manipula, inescrupulosamente, comprometeu-se, óbvio, somente como o conjuntural, não com o estrutural. Por isto, a nossa democracia é mais formal que substancial. O “republicano” tão marqueteiramente propagado pelo PT é, na realidade, comprometido com a `` Res Privata `` e, claro, não com a “Res Publica ”, o que deveria ser , tanto pelo respeito ao povo brasileiro, como pela imposição do seu discurso e do seu Estatuto. E o PSDB , quando governo federal, implementou, igualmente, esta mesma perversidade política. Em O Globo de ontem (17/ 05 / 08), o deputado federal Arnaldo Madeira(PSDB-SP), ex-líder do governo FHC, fez a seguinte declaração: “ O PSDB está fazendo água”. Aqui em Campos, o nosso partido já fez água e está afundando, com muita tristeza.

4. Blog “Outros Campos”: Em sua opinião, qual será o principal desafio que a próxima prefeitura de Campos terá que enfrentar?
Sérgio Diniz: Seria fundamental que primeiramente, o futuro prefeito não se submetesse a pressões e interesses maléficos à administração do município e a visse sob a ótica fidedigna de um “munus publicus” e, também, que tal visão fosse a dos segmentos líderes da nossa comunidade, pois não podemos nos esquecer de que o Estado resulta (bem ou mal) da sua sociedade, porquanto povo, nação são fatores indispensáveis e inerentes a ele. O principal desafio seria unificarmos, sobretudo em atitudes, ética, moral e desenvolvimento, já que Campos possui um excelente potencial natural e, há alguns anos, financeiro invejável. Para sermos intencionalmente repetitivos, algumas capitais e cidades bem desenvolvidas do Brasil não dispõem do orçamento à nossa disposição, anualmente.

5. Blog “Outros Campos”: Em seu Blog, e em seus discursos, o Sr fala muito do potencial universitário do nosso Município, com também já falou uma vez da necessidade de nosso município ter um instituto de pesquisa próprio. Como o Sr vê este potencial? De que maneira este suposto potencial poderia ser usado em prol de Campos?

Sérgio Diniz: A sua pergunta é oportuna, porém, enseja muitas e complexas respostas. Pinço uma delas, no meu entender, a base das demais: em um mundo globalizado e globalizante, o conhecimento (educação) se faz primordial, pois é ele a sua grande riqueza, priorizando o ter que, assim desejamos, possa se comprometer com o ser. Por conseguinte, indispensável e já tardio, que o poder público municipal, em nossa Campos, envolva suas Universidades em projetos de pequeno, médio e longo alcance. Não mais se pode lhes dar o dinheiro do nosso povo sem esta prévia e comprometedora condição, na qual deveriam estar engajados seus alunos, como estagiários. Só a título de exemplo, seria importante que a UENF se acoplasse a muitos desses projetos, mormente na área compreendida pela Secretaria de Agricultura. Aliás, também, todo o “corpus operandi” da prefeitura, criteriosamente atrelado a esses cursos superiores, sob as suas mais variadas facetas. Tudo, absolutamente tudo disponibilizado na internet, para conhecimento e avaliações da comunidade campista e das muitas e valiosas sugestões que, motivadamente, viriam e nos enriqueceriam.

16 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

A entrevista do professor Sérgio Diniz nos aponta para algumas questões que nos são, neste momento, talvez um pouco redundantes... Mas que necessitam de objetivação (o farei também em relação ao que o prof. Roberto Moraes disse):

a) A necessidade da auto-crítica de ambos partidos (PT e PSDB). Me parece que na imprensa tradicional ainda nada similar ocorreu;

b) Qual foi o saldo da participação de ambos partidos nos últimos anos da política campista? Digo saldos objetivos em termos de alcance e impacto em políticas públicas que justificassem a ambos os grupos só depois da ação da polícia federal reavaliarem suas posições no atual governo. Me refiro aos partícipes do governo dado que sabemos que os partidos, ainda bem, não são blocos monolíticos. Ao menos os partidos de fato modernos e não reféns de personalismos;

c) A importância de qualificar o que venhamos a considerar como "terceira via". Quais quadros irão constituí-la?

Estas perguntas podem nos fazer entender o porque destes nossos entrevistados estarem aqui hoje, neste momento, em movimento de contra-hegemonia em uma via alternativa de intervenão no espaço público.

Fabrício Maciel disse...

Concordo que Garotinho, Arnaldo e Mocaiber sejam farinha do mesmo saco. A questão agora é saber como mobilizar fronts sociais e políticos que consigam dribar os usos que os grupos dominantes tem feito sobre os mecanismos formais da democracia.

Roberto Torres disse...

Não aguento esse liberalismo ignorante do PSSB!!!! Os caras acham que a sociedade e como Locke imaginava retirando a história de sua explicação! O pior é que se trata de um socíologo sem nenhum auto-critica em relação ao consenso ideológico montado pela matriz paulista de seu partido. Eu so apoio essa aliança com o PT na cabeça de chapa. Caso contrário eu so voto.

bill disse...

Acho importante insistir naquilo que está sendo chamado de "terceira via" como o george aponta em seu terceiro ponto. Isto pode servir para os próprios partidos como critério definidor da luta política, como definidor de posições internas. Parece-me que os dois entrevistados estão se orientando desta forma, se apresentando como reivindicadores de uma posição inovadora. E isso pode ajudar os eleitores também, afinal de contas.

Abraço.

Paulo Sérgio disse...

Uma pergunta: quando será a eleição nos diretórios dos respectivos partidos para candidatura própria ou coligação para outubro?

.

Anônimo disse...

Não entendo a entrevista do Professor Sérgio Diniz. A terceira pergunta é clara: “quais seriam as bases de sustentação do PSDB campista.” O Professor Sérgio fez uma análise sobre o PSDB nacional e ao final da resposta afirmou: “Aqui em Campos, o nosso partido já fez água e está afundando, com muita tristeza.”
Convenhamos que pode até ter razão, mas é hora de dizer isso? No momento em que setores do seu partido, inclusive o próprio entrevistado, se dispõem a participar de uma frente com o PT.
Qualquer manual de política informa que toda a campanha tem como objetivo principal criar esperança e não recrutar afogados.
Além disso, o professor Sérgio Diniz se diz decepcionado com o governo FHC: “decepcionou-me, por retirar do Estado brasileiro alguns dos seus elementos políticos e administrativos indispensáveis, privatizando-o, sobretudo, como instituição e, como inevitável conseqüência, não priorizar e implementar políticas públicas essenciais à estrutura de cidadania.” E ainda completa: “Pior, sem dúvida, sobre todos os aspectos, a atuação do PT.”
Gostaria que o professor fosse mais específico quando diz “pior”. O que foi pior? Onde estão os números professor? Foi pior no investimento em educação? Na abertura de vagas no ensino superior? Foi pior no tratamento das universidades e dos funcionários públicos? Foi pior na redução da miséria? No investimento em agricultura familiar? Ou será que foi pior no quesito endividamento público? A política externa? Os investimentos em infra-estrutura? O crescimento economico? A ampliação do acesso a casa própria?
Professor seria oportuno o Sr. Escrever um artigo fazendo uma comparação entre os dois governos. Mas um artigo em que apareçam os resultados efetivamente comparáveis. Acho que o Sr. Poderia comparar inclusive os oito anos de FHC com os seis incompletos de Lula.
Por fim, não me parece muito coerente defender uma aliança atacando o aliado.

Carlos Gustavo Sarmet Moreira Smiderle disse...

Penso que não seria difícil construir uma agenda básica consensual para embasar uma candidatura alternativa à Prefeitura de Campos. Alguns tópicos relativos à transparência no uso dos recursos públicos e uns poucos compromissos mais específicos em áreas como meio ambiente, saneamento, educação e transporte públicos seriam facilmente pactuáveis e tranqüilamente executáveis. Mas algo me chama a atenção: um tom excessivamente amargo dos dois primeiros entrevistados. A situação não está mesmo para sorrisos falsos, mas qualquer governo minimamente republicano terá tudo para fazer história com o orçamento que temos. Penso, portanto, que seja preciso reconstruir a possibilidade da esperança, e isto num sentido bem concreto, e não como simples peça retórica.

Brand Arenari disse...

Se alguns dos comentaristas apontaram para a necessidade de reconstruir a esperanca, ou tão somente juntar alguns cacos perdidos no chao, farei aqui alguma tentativa inicial disso. Se na entrevista do Sérgio foi apresentado alguns pontos que eu não concordo, em especial no que se refere a comparação entre o Governo Lula e o FHC, é digno de nota que em ambas entrevistas (Sérgio e Roberto) destacam-se características raras em nosso quadro político, sobretudo o da planície. Se a postura do PSDB pode não parecer a melhor, ao menos temos um quadro político (Sérgio) que ao demonstrar forte identidade partidária, é capaz de articular a história e a visão de mundo que o seu partido tem, permitindo que possamos ser reflexivos e superemos os problemas através de debates. Para a maioria dos nossos dos políticos, e isso se agrava na planície, partidos são tão simplesmente meios de se eleger; projetos, idéias passam longe de ter alguma importância. Esse tipo de postura instrumentalista rasa da maioria dos nossos políticos inviabiliza qualquer possibilidade de debate maduro. Alguns de nós se imagina fazendo essas perguntas, e sobretudo, críticas da natureza das quais aqui fizemos, para a maioria dos políticos de nossa região? Se as fizéssemos, poderíamos fazer em qualquer língua desse mundo que não faria muita diferença. As entrevistas do Sérgio Diniz e do Roberto Moraes são mais importantes pela forma com que a política é encarada por eles do que propriamente as idéias e proposições que eles defendem (independente se essas idéias e proposições sejam boas ou não). Creio que seja este o aspecto fundamental dessas entrevistas, a partir disso, a esperança de construir uma forma de encarar a política de maneira diferente se levanta no horizonte.

Xacal disse...

lamentável...!
"trocou o programático pelo pragmático"...
como frasista o entrevistado é um desastres...!
será que alguém poderia informar ao nobre professor que programa de partido nãos e transfere como correia de transmissão ao governo...
partido é uma coisa...governo é de todos os brasileiros,petistas ou não...a inflexão pragmática foi para gerir o caos deixado pelo governo ffhhcc...!
dólar a 3,98...57% da dívida pública em relação ao PIB, cresciemnto ,médio de 2.8% na era fernandista...
o professor como o ffhhcc está no limite da irresponsabilidade!

pesquisa como parâmetro para viabilidade eleitoral é se render ao ibope...chama logo a globo e a folha para dizer quem será o candidato...

movimentos políticos é que determinam os números da pesquisa, e não o contrário...

claro, não seria leviano a ponto de desprezar as pesquisas como instrumento de ,monitoramento, mas submeter os desígnios de candidatiras a ditadura dos núemros e das estatísticas, nem Augusto Comte...

pela madrugada...tá pior que eu pensava...!

com todos os equívocos é melhor fazer política com feijó, pelo menos sabemos o que ele pretende, é menos confuso...nas palavras do entrevistado: pragmático...!

Anônimo disse...

Transcrevo, abaixo, na integra a entrevista dada a Folha da Manhã, hoje (22/5), pela professora Odisséia de Carvalho. Em que deixa bem claro que para o seu grupo o importante é a boquinha, não importa como e nem com quem.

Não vou fazer mais comentários, deixo para os bloqueiros, em especial os petistas, lerem e refletirem, neste feriado, sobre essa entrevista, para depois decidirem se realmente são esses os rumos que preferem para o partido.

Para todos nós petistas (filiados ou não) e não petistas, talvez esteja na hora, de forma pragmática de se começar a pensar, pelo bem de Campos, a composição da Terceira Via, sem a presença do PT (diretório), formalmente. Porém, é de fundamental importância para o êxito dessa proposta, a presença dos grupos de petistas que são favoráveis a ela, presentes na discussão do programa e na participação de todo o processo. Além de terem o status de partido, dentro da composição da frente.

Estou lançando essa idéia para ser discutida, por puro falta de tempo e por não podermos ficar esperando o termino das manobras protelatórias da direção local do PT. Os prazos estão terminando e ao que parece vai se desenhar o mesmo processo de 2004. Perderemos no primeiro turno, como sempre, e por falta de opção e para garantir a boquinha, vamos apoiar o menos pior, que certamente será Arnaldo ou o candidato da aliança dele com Mocaiber.

E viveremos felizes até o próximo telhado de vidro, quando essa direção do PT, virá a público fazer uma patética e ridícula autocrítica e dizer que foram pegos de surpresa e que não sabiam de nada, como fizeram, agora no governo Mocaiber.

| ENTREVISTA > ODISSÉIA CARVALHO |

Makhoul ou apoio a Arnaldo






A professora Odisséia Carvalho é uma petista de posições, afirmando que “só pode errar quem está fazendo; quem não faz, não erra”, criticando a postura de companheiros que dizem que “a vida partidária” não precisa ser interna, citando Luciano D’Ângelo e Roberto Moraes. Com a mesma firmeza, defende uma candidatura própria do PT com o médico Makhoul Moussallem na cabeça de chapa, com aliança envolvendo outros partidos, como o PSDB, se uma pesquisa eleitoral feita pelo PT estadual, nos dias 17 e 18, indicar esta viabilidade. Se não for viável, declara apoio à candidatura do deputado federal Arnaldo Vianna (PDT), mesmo com o partido não tendo retornado ao governo municipal.

Folha da Manhã — Com o PT caminha hoje para outubro, para candidatura própria, para aliança?

Odisséia Carvalho — Todo o processo que ocorreu dentro do partido, inclusive com a candidatura de Makhoul, o quantitativo de votos que ele recebeu, na última votação, de 33 mil votos, e depois 23 mil votos, o credenciam e o PT para que a gente possa estar fazendo essa disputa pela candidatura própria. Essa é uma discussão muito intensa dentro do partido, e temos agora em 1º de junho uma eleição de delegados, que irão participar de encontro de tática eleitoral. O PT é diferente dos demais partidos, porque discute internamente e tem um calendário.

Folha — Esse desenho, para 1º de junho sinaliza o caminho que o partido vai tomar?

Odisséia — Sem sombra de dúvida. Estaremos elegendo delegados, e logo após teremos encontro de tática eleitoral, onde estaremos definindo ou candidatura própria, ou aliança, e com quais partidos. Depois, se houver candidatura própria, teremos uma prévia interna no partido, para ver quais os candidatos que poderão estar sendo eleitos.

Folha — O partido recentemente optou por não entrar no governo interino do vice-prefeito Roberto Henriques (PMDB), e por não reingressar na coalizão do prefeito Alexandre Mocaiber (PSB). Ao mesmo tempo, membros do partido externam opção pelo diálogo com o PSDB, por uma terceira via. Dizem que você representa uma proposta diferente, a da aliança com o deputado federal Arnaldo Vianna (PDT).

Odisséia — Primeiro eu quero comentar nossa entrada no governo Mocaiber. Tivemos conversa com PT nacional, estadual, onde havia orientação para que a gente fizesse uma aliança municipal com o PSB, não era com Mocaiber, partido de base do governo nacional. Dentro dessa perspectiva conversamos com Mocaiber, em processo longo, demorado. A gente entendia, por ter o peso que tem, a nível nacional, precisaríamos ocupar secretarias que representasse esse peso. Para desenvolver políticas que pudessem ter efeitos. Sabíamos que tínhamos algumas falas sobre malversação do dinheiro público, mas não tínhamos a dimensão. Tivemos essa clareza no dia 11 de março.

Folha — Essa participação, a do PT, ainda que vocês julguem que o saldo foi positivo administrativamente, e a decisão pela não reentrada, não sinaliza que o partido teria cometido um erro de ter participado do governo?

Odisséia — A gente não tinha a dimensão do que era, e isso ficou evidente. O Mocaiber mostrou claramente que não era uma pessoa para o Executivo, ele pode até ter sido um bom legislador, enquanto vereador, como presidente da Câmara.

Folha — Mas isso não enfraquece a discussão da aliança com Arnaldo, como seu grupo defende?

Odisséia — Acredito que não. A nossa decisão de saída do governo Roberto Henriques, e de não entrar novamente na administração Mocaiber, para a gente ficou muito claro, que não dava para voltar para um governo que estava em suspeita, sendo investigado. Então, nós resolvemos recuar, e ter candidatura própria. Mas também não vamos entrar em uma aventura. Dia 17, 18 de maio, o PT nacional implementou aqui uma pesquisa qualitativa e quantitativa, para que a gente observe se o município pretende estar no que a gente chama de primeira via.

Folha — Qual o instituto?

Odisséia — Não posso ter dar essa informação, só depois que for montada, o Makhoul é que ficou na negociação direta junto com o Alberto Cantalice, que é o presidente atual do partido. Foi feita dias 17 e 18. Em cima dessa pesquisa é que a gente vai ter a noção se a população realmente pretende essa mudança. Se a pesquisa não apontar efetivamente esse caminho, vamos ter que fazer opção de aliança.

Folha — Quer dizer, a candidatura própria, com o PT na cabeça da chapa?

Odisséia – Até porque, temos que lembrar, que o Makhoul na última eleição, na complementar, ficou em terceiro lugar, na frente de Feijó. A partir do momento que tomamos essa linha, existe possibilidade de aliança, com candidatura própria, e o PT na cabeça de chapa, é isso que se desenha, com os partidos, o PSDB, PV, PHS, PC do B...

Folha — O PPS...

Odisséia – O PPS não, só faz aliança se viermos em aliança com Arnaldo. Não faz aliança com a gente em perspectiva de candidatura própria. Aí temos outra opção, é que a de aliança com Arnaldo. Aí você me fez a pergunta que vou responder. Bem, qual é a nossa expectativa? Não vai ser qualquer aliança, mas que represente o peso do partido nesta administração, com secretarias de peso e a vice do PT.

Folha — Mas ainda a assim a administração não seria do PT. Como garantir que ainda assim o PT não seria surpreendido com futuros problemas?

Odisséia – Mas nós estaríamos influenciando diretamente, essa é a nossa perspectiva. Se ocuparmos secretaria de ponta dentro do governo Arnaldo, se tivermos o vice-prefeito atuando conjuntamente. Se o Makhoul tem potencial para ser cabeça de chapa, com certeza estaríamos o indicando também para ser o vice. Mas hoje, minha linha é de candidatura própria. Se formos entrar em uma aventura, eu defendo sim, uma aliança com Arnaldo Vianna.

Folha — Mas o Lula no PT não teve que se aventurar três vezes para chegar a ser presidente?

Odisséia — A nossa aliança em nível nacional, para o Lula poder mostrar o trabalho dele, e ser reconhecido, precisou ser feita com o PL na época, com o José Alencar (vice-presidente). Mas em uma perspectiva de tornar reconhecido o partido, de resgatar a Câmara dos Vereadores, a gente entende que só tem uma linha, candidatura própria se tiver possibilidade de ganhar...

Folha — Mas o PSDB não seria uma candidatura?

Odisséia — Sim, mas existe uma discussão. O balizador para a gente vai ser as pesquisas que estão sendo colocadas, uma do partido, outra de empresários. Em encontro com empresários, saímos de lá com essa proposta, de empresários financiarem uma pesquisa. Uma coisa é o que os formadores de opinião pensam, outra é quem realmente elege.

Folha — Com o PDT, o PT para você pode ser vice, mas a única possibilidade de aliança do PT com o PSDB seria o PT sendo cabeça de chapa, não é a fase agora de conversar?

Odisséia – Vou defender minha posição. Estou muito na perspectiva que o nome de Makhoul está mais consolidado. A gente poderia até fazer essa discussão se fosse o candidato o Paulo Feijó, que seria o nome mais forte, aí sentaria para discutir, mas ele já se determinou que vai vir como candidato a vereador.

Folha — Ter um nome significa impor esse nome em uma aliança com o PSDB?

Odisséia – Estou dizendo a minha opinião, porque a opinião majoritária do partido seria de querer o cabeça de chapa, e o PSDB também. A gente vai sentar e conversar. Na segunda, vamos ter uma reunião do GTE, o grupo de trabalho eleitoral.

Folha — E essa conversa de Robinho e Félix com Roberto Henriques? Você vê alguma possibilidade?

Odisséia – Não, nenhuma. É uma fala, uma perspectiva de que Roberto Henriques não representa Garotinho. Eu não tenho essa visão. Para mim Roberto Henriques é Garotinho sim. É só ver o secretariado. Suledil (Bernardino), Maria Auxiliadora, impossível querer descolar a imagem. Não é Sérgio Cabral que no segundo turno determinou na campanha dele e não falou em Garotinho, em Rosinha.

Folha — Você não teme que aconteça com Arnaldo, por parte do PT, problemas que o partido já teve antes com o grupo de Garotinho, de depois da candidatura vir a ser vitoriosa, os petistas serem isolados?

Odisséia – Quem botou toda essa negociação por água abaixo foi o Garotinho. Nós até confiamos, Garotinho é oriundo do PT, foi o candidato mais votado, e não conseguiu legenda para se eleger vereador. Na primeira eleição de Garotinho o PT racha, o PT tinha candidatura própria mas apoiou majoritariamente.

Folha — Como vocês fizeram em 2004 com a eleição de Feijó...

Odisséia – Isso. Existem várias críticas quanto à nossa postura. Quando o Makhoul entra, entra para ser candidato, e essa foi nossa crítica principal. Havia uma orientação a nível nacional pela aliança com o PSDB, com o Feijó na cabeça de chapa, e o Makhoul vice. Na época, nem o Makhoul, nem o Helinho (Anomal, ex-presidente do PT), entenderam a importância de construir esse movimento. Se seguíssemos aquele caminho, estaríamos no governo.

Folha – Esse caminho pode ser reconstruído?

Odisséia – Depende das pesquisas. Nós erramos de declarar publicamente, ferindo o estatuto do partido, ter feito a campanha nas ruas. Mas o que defendemos estava correto. Estaríamos todos juntos e neste momento teríamos eleito um vereador. Neste momento, ficamos um pouco chateados com a posição de companheiros que são altamente respeitados dentro do partido. Dizer que a vida diária do partido não é fundamental, isso não é verdade...

Folha — Você fala do professor Luciano D’Ângelo?

Odisséia – Do Luciano e do Roberto Moraes. Eu tenho que aliar minha vida, minha atividade política, com a sociedade, com a vida partidária. Não pode fazer essa separação, que eu não estou no dia-a-dia do partido, mas eu atuo aqui fora, porque senão nós cometemos equívocos, como ele foi convidado para ir para o governo de Campista, e não passou pelo partido.

Folha – Foi convidado agora para o de Roberto Henriques, apesar de ter negado.

Odisséia – E não comunicou o partido. Eu tenho que ser petista, internamente, disputando espaços. Não concordo dizer que nós dirigentes do partido erramos, apontar o dedo. Quem faz, pode errar, quem não faz não vai poder ser apontado como quem errou, porque não está fazendo. Não posso apontar o dedo para outro e apostar no quanto pior melhor. Preciso ocupar espaços e construindo junto, nos erros e acertos.

Roberto Torres disse...

Ora, eu sou petista, como Brand, Vitor, Renato (os outros eu nao sei), e nao nego que a boquinha seja a motivação principal de grande maioria de nossos dirigentes partidários. E como é de todos os partidos. Mas sem dúvida há história de clivagens nisso ai. O PT durante mt tempo se fez como um partido da esfera pública, tendo a maior e mais critica militancia que esse pais já viu, sem ocupar nenhuma boquinha de governo para tal. A nossa memoria de peixe, que tucanos com Sérgio Diniz mobilizam pra soltar a idéia maldosa de que todos os partidos sempre foram farinha do mesmo saco, não é capaz de levantar uma só prova contra isso. Nenhum partido no Brasil teve a grandesa que teve o PT, porque nehum se formou tão densamente na esfera pública.


Para amadurecer nosso debate temos que parar com essa coisa de achar de querer boquinha e defeito pessoal. As pessoas motivam sua ação politica por interesses mesquinhos sempre que interesses mais ousados não podem ser vislumbrados, nao possue credito social. Não são as pessoas que escolhem conduzir os partidos para o pragmatismo imediato. São as condições e a dinamica social que impõem restrições a outro tipo de conduta politica.

Valorizar a politica hoje e tentar politizar os fatos sociais responsáveis pela despolitização dos partidos.

Brand Arenari disse...

Caro anônimo, obrigado por incentivar o debate aqui, foi muito boa sua iniciativa. Mesmo concordando com as colocações de Roberto, que nos fazem ver que o PT, mesmo com mil problemas ainda é um partido diferenciado, porém é impossível não lamentar e até se envergonhar da entrevistada da Odisséia. Fiquei muito impressionado com a estreiteza da visão política por ela apresentada. Na entrevista, transpareceu (não a conheço pessoalmente e nem mesmo por outras fontes, por isso não posso fazer um julgamento dela, mas apenas do q ela falou na entrevista) que política para ela se resume a estar ou não no poder. Com essa visão de política nos estamos F. . . E tem mais coisa alarmante na entrevista, mas deixo isso pra vcs. . .-

Roberto Torres disse...

Anonimo (que bom seria saber quem é vc, rs), quero dizer que concordo com Brand, e com vc tb. Em consideração a sua sinceridade e disposição para o debate, eu so quis chamar a atenção para irmos além das intençoes pessoais na analise politca.

Xacal disse...

Como já disse e repito...
O moralismo é um terreno estéril para a política...

A necessidade de ocupar cargos públicos por nomeação é uma necessidade, portanto, alguém terá que demonstrar essa vontade...

Reduzir o caos político do pt a uma questão de "erros" pessoais é tão grave quanto a incapacidade política do grupo majoritário do pt em apliar sua esfera de atuação e intervenção...!

Se fose só isso, bastava um pedido de exoneração para redimir todos os equívocos...

O problema do pt e psdb é muito mais grave...

Por anos foram a reboque de projetos alheios, esvaziaram sua base social e perderam quase todo capital político que dispunham...

Isso se repercute na difilcudade em formular projetos e propostas que sensibilizem a sociedade...!

Não há, no entanto, futuro político viável sem afastarmos o açodamento de todos os lados, bem como o fato de saberem conviver com críticas e discordâncias...!

Um abraço.

Anônimo disse...

Prezado Brand,
corrijo-me:
Na resposta de número 3, a frase "Pior,sem dúvida,sobre todos os aspectos..." deve ser :Pior,sem dúvida,sob todos os aspectos...e, onde se lê na mesma resposta de número 3:"...óbvio, somente como o conjuntural,não com o..." deve-se ler: ...óbvio,somente com o conjuntural, não com o...

Abraços
Sérgo Diniz

Tainara disse...

Meu querido professor,
Sábias palavras como sempre!

Saudades, abraços e sucesso!