Prezad@s,
Como é praxe neste espaço aprendemos a valorizar as polêmicas. E com elas aprendemos pois aguçamos “as armas da crítica”, algo absolutamente pertinente ao fazer do cientista social que não se atém exclusivamente na busca (sempre precária e ilusória) por mimetizar o real. Valorizando a polêmica sobre o texto de Roberto Mangabeira Unger, sem dúvida um autor importantíssimo para o presente momento histórico, eu irei adiantar alguns pontos de uma resenha que preparo sobre seu último livro lançado em língua portuguesa, “O que a esquerda deve propor” (Editora Civilização Brasileira – 2008). Tudo leva a crer que a versão final do texto ganhará muitíssimo em qualidade com as questões que porventura provenham dos futuros comentários. Desde já agradeço pela oportunidade.
Antes, acho que é importante me posicionar sobre um ponto pertinente na atuação das ciências sociais: as ciências sociais tem um compromisso “normativo” a priori, posto ciência positiva, de compreender e explicar o real. Neste simples enunciado acho que é sintetizado o primado que nos distancia de parte da filosofia “pura”, onde é passível e mesmo cabível perscrutar questões eminentemente especulativas – como afirmar que não existe o real, há jogos de linguagem e etc... O que não é nada menor, diga-se de passagem, pois produz conseqüências inúmeras nos processos de elaboração de conhecimento aplicado ou não. Mas, prosseguindo, justamente por ser ciência social, seus “produtos” (pesquisa, artigos, etc.) obviamente podem e muitas vezes tem conseqüências “normativas” ou, simplesmente, as vezes políticas e morais. Por vezes até mesmo temos conseqüências pragmáticas na execução de políticas públicas, onde obrigatoriamente expressam-se noções de “bem viver” dentre as disponíveis no mercado de legitimações morais, que podem estar conectadas com estudos filosóficos ou sociológicos de toda ordem.
Ainda há a determinação de algo tão basilar, como o recorte do objeto, que é permeado por nossas opções valorativas (Weber). Não disse nenhuma novidade, mas, é importante sabermos de onde estamos falando. O que queria ressaltar que o binarismo “normativos” ou “não normativos” é tão grosseiro quando ingênuo. Sem pretensões de ineditismo (retomarei este ponto adiante).
Portanto não sou positivista ou tampouco algum tipo de “ativista”. E não gostaria que as minhas críticas e observações não fossem neste texto interpretadas sob qualquer tipo de alcunha deste tipo dado que não condizem com a minha proposta. Acredito enquanto valor, sim, que as ciências sociais podem produzir revoluções trazendo a tona o confrontamento com o senso comum e com os sensos informados ideologicamente de todo o tipo. Em suma, desencantando o mundo, mostrando onde este possui suas vértebras, e como estão dispostas. Tudo isto permeado por uma das melhores contribuições das ciências sociais para qualquer projeto civilizatório: o seu próprio pluralismo epistemológico.
Desta feita considero absolutamente inadequado que os atos argumentativos científicos ou pesquisas sejam guiados por um critério de validação que seja estranho ao fazer científico. Me recuso, peremptoriamente, a dividir o universo de cientistas sociais entre aqueles “corajosos” e os “covardes” dado que elementos de virilidade talvez sejam passíveis em eventos de luta livre. Mas não para o fazer científico. Ainda considero que para se fazer ciência se precise muito mais de cérebro do que de culhões. São opções as quais precisam ser compartilhadas. São minhas opções. Como estes pontos foram levantados nos comentários passados, de maneira esparsa, julguei que era importante traze-los a tona nesta análise.
Ainda, no campo da advertências ao leitor, minhas críticas não são para o conjunto da obra do valoroso Mangabeira Unger. E nem ao ministro. Eu não teria competência neste momento para avaliar nem um ou o outro. Na verdade nutro simpatia política por seu papel no Governo Lula e considero progressista sua participação na vida pública brasileira, embora que não sem ambigüidades. Minha leitura se dará unicamente sobre o texto “O que a esquerda deve propor”. Nada mais. E a crítica, antes de significar a prática do desprestígio, implica na possibilidade de avaliar argumentos.
Feitas as justificativas e os backgrounds teóricos-epistemológicos mínimos, vamos então ao texto.
Mangabeira Unger, um homem que logrou logo no início de sua carreira ser resenhado por ninguém menos que Talcott Parsons, nos brinda em seu “O que a esquerda deve propor”, com um complexo corpo de idéias que, em minha leitura, pertencem ao intrincado universo da filosofia política. Ao menos parcialmente pois discute: a) o que pode ser uma ordem coletiva moralmente justa; b) quais caminhos podem ser trilhados, programaticamente, em prol desta nova ordem. Outros elementos que me parecem importantes no debate da filosofia política parecem esmaecidos pois não se discute quem é o ser humano, o agente que faz a política (uma ontologia minimamente presente – natureza humana) e, em uma lógica processualista “neutra”, não se discute Estado, mercado, sociedade. Tem a trilogia hegeliana, a assume enquanto existente, mas não a problematiza adequadamente. Na verdade o autor propõe a inversão de pólos (profundo reajuste estrutural) destas três esferas possibilitando uma “revolução” de tons reformistas – há uma dialética de fato interessante entre reforma e revolução no texto. Todavia tudo se concentra em um “Fiat” (faça-se) pouco crível na medida em que não se dá ao trabalho de realizar um mínimo de análise conjuntural que permita essa “revolução reformista”. O próprio Mangabeira compreende as dificuldades de sua “profecia” – eis o substantivo utilizado pelo autor nos últimos capítulos - pois reconhece que o eleitorado capaz de operar mudanças tão substantivas sequer nasceu (e não há até o momento qualquer evidência que nascerá algum dia).
Prosseguindo, Mangabeira elabora uma crítica, bastante acertada, na aposta da esquerda “tradicional” de concentrar suas esperanças em um tipo de agente social, o famoso agente que resume em si a síntese do espírito histórico. Ora, não é necessário ser um grande leitor das obras socialistas elaboradas a partir do século XIX para compreendermos que na teodicéia secular de esquerda há um agente “ungido” da capacidade de representar o próprio espírito histórico: a classe trabalhadora. Todavia a resposta elaborada para este dilema, a ausência de um agente, se dá.... Retomando a classe trabalhadora!!!!! Simples assim. Renovada em seus anseios pequeno-burgueses, tendo este como um novo telos (mudança qualitativa em padrões de vida) que deve ser o fio interpretativo deste novo-velho agente reformado (?!?!), a classe trabalhadora, sobretudo situada entre os estratos médios, algo deve auxiliar a corporificar as profecias (seria o próprio Mangabeira um profeta?) elaborada em seu “conjunto de proposições”.
Tendo as aspirações pequeno burguesas para a classe trabalhadora é desnecessário dizer algo sobre o papel secundário reservado para a sub-classe e as políticas redistributivas. Ambos (sub-classe e políticas sociais) encontram-se em um grau hierárquico de prioridades menor. De alguma forma na leitura de ação de esquerda do autor há certa mitificação (fetichização pura e simples) dos processos educacionais caríssimos que possibilitariam, talvez, resgatar estes grupos de sua condição de miserabilidade. Sem detalhar em qualquer segundo como de fato seria viável tão ousada política educacional integrada e “para a vida toda” o que relegaria a “ralé” e um tipo de limbo desconfortável da modernidade.
Há coerência discursiva, se pensarmos no “preço” destas políticas educacionais, ao levarmos adiante o debate importante levantado pelo autor acerca da contradição gerada pelo direito de herança pois perpetua as diferenciações entre classes e aniquila em muito qualquer pretensão meritocrática existente na sociedade (outro ponto provocativo importante do texto). Mas, mesmo assim, supondo que políticas do lastro proposto por Mangabeira não se efetivem tão rapidamente (reconhecendo inclusive o elemento reformista de sua proposta), há de se pensar na ralé, que estaria desemparada em sua ascese para se tornar ao menos “gente” por processos educacionais de alta sofisticação. Preterida mais uma vez aqui, tanto como o fez em instigante entrevista para o jornal “O Globo”, onde há a preferência pelos “batalhadores”.
Um elemento muitíssimo interessante é a crítica de uma “leitura de mundo da calamidade” que percorre a esquerda, dado que faticamente alguns dos maiores avanços civilizatórios em um sentido progressista ocorreram em crises profundas. Foi assim após 1929, pós Segunda Grande Guera... E nestes termos há a preocupação do autor em buscar caminhos que fujam desta “pedagogia da crise”. O livro foi publicado originalmente nos EUA em 2005, antes da bolha imobiliária americana estourar levando à catástrofe do sistema financeiro que estamos hoje presenciando. Não teria exatamente, evidentemente, como prever o que estamos vivendo neste início de 2009. A grande ironia histórica é que, pelo caráter cíclico deste tipo de ocorrência estrutural, justamente neste momento temos mais uma crise que nos possibilitará os “experimentalismos institucionais” vaticinados pelo autor! Voltemos para a fática narrativa positiva da calamidade. Em outros termos, não desconsiderando a sua queixa, justa, vemos faticamente mais uma vez a oportunidade histórica de pensarmos determinados elementos do modo de produção sob uma outra ótica. Mesmo que não tenhamos mudanças estruturais. Mas, isto é uma outra questão.
Caminhando para o desfecho: sobre as pretensões de ineditismo.
Não duvido que eu tenha sido demasiado apressado nas minhas colocações, o que poderia permitir que eu não seja suficientemente compreendido em minha inegável crítica quando utilizei o termo “pretensões de ineditismo”. O outro caminho, o do elogio das “pretensões ao ineditismo” nos empurra para o pior dos mundos. Na verdade o elogio das “pretensões de ineditismo” é o elogio da ignorância ou da arrogância da recusa ao diálogo com autores que produziram peças mais convincentes sobre determinado tema. E muitíssimo antes do Mangabeira em questão.
O que devemos lutar, isto sim é fundamental para a ciência, é por estudos originais. Mas, “pretensões de ineditismo” são problemáticas na medida em que se recusam a participar do processo de acumulação do conhecimento. Reitero, a produção teórica deve primar pelo rigor na medida que a produção do conhecimento deve se reconhecer como parte integrante de um esforço coletivo.
Uma das formas possíveis, e me parece absolutamente produtivo que assim o seja, de ler o texto “O que a esquerda deve propor” envolve reconhecermos limites na democracia representativa liberal.
Ora, este formato de organização da ação coletiva, a democracia como via legítima e política, conquista hoje realidades até então impensáveis. Numericamente “nunca fomos tão democráticos”. O imbróglio está na seguinte questão: ouve a ampliação numérica mas sem gerar sociedades “movimentadas” politicamente. Esta é ao menos a impressão, ou o diagnóstico, de parte dos teóricos da sociedade a partir da década de 1990. Creio que Mangabeira faz o mesmo caminho. Portanto, vão me desculpar, aí que as suas “pretensões de ineditismo” (a questão de trazer a tona questões que já foram trabalhadas sem qualquer intenção de acrescentar diretamente com vias de aumentar o acúmulo do debate) vão pras cucuias. Habermas, Giddens, Wallerstein, Boaventura de Sousa Santos, Claus Offe.... Todos estes pensaram os dilemas da esquerda, e da ação coletiva, de maneira ou de outra. Todos reconhecem que a chamada “esquerda tradicional” peca muitíssimo em vários campos de atuação. Todos reconhecem que o Estado, sociedade civil e mercado precisam ser repensandos. Mas, NENHUM deles o faz sem apresentar minimamente as articulações exigidas para um projeto como esse. Há diálogos aí que são claramente construídos nos autores entre pontos de vista diferenciados. Há, evidentemente, problemas quando ocorrem momentos de “pseudo-originalidade”, vide Giddens como autor quase proto-típico. O que os diferencia é que estes autores promovem um diálogo que propicia um sentido acumulativo do debate que é notoriamente enriquecedor. Algo que não é feito por Mangabeira nem por um segundo. Não há qualquer diálogo. Há assinatura de um “manifesto esperançoso” que parece isolado do restante do universo acadêmico de onde o próprio autor provém.
Por fim, me causa absoluto desconforto a reedição da idéia de uma “religião da humanidade” secularizada. Tive um déjà vu comteano. Pensei que viria após esta idéia algum tipo de toque de trombetas apocalípticas e em anexo algum homem cabeludo e de vestido dizendo: “I´m the way”. Sem messianismos, por favor, a filosofia e a ciência social não precisam de profetismos ou de guias espirituais. O texto tem insights absolutamente interessantes, passíveis de maior aprofundamento e verificação dentro do corpo metodológico vasto e eclético das ciências sociais, que são amplamente prejudicados por este tipo de messianismo atabalhoado. Ninguém elegeu Mangabeira ou quem quer que seja como líder espiritual.
PS: Claro que a resenha “acadêmica” será mais cuidadosa.
Como é praxe neste espaço aprendemos a valorizar as polêmicas. E com elas aprendemos pois aguçamos “as armas da crítica”, algo absolutamente pertinente ao fazer do cientista social que não se atém exclusivamente na busca (sempre precária e ilusória) por mimetizar o real. Valorizando a polêmica sobre o texto de Roberto Mangabeira Unger, sem dúvida um autor importantíssimo para o presente momento histórico, eu irei adiantar alguns pontos de uma resenha que preparo sobre seu último livro lançado em língua portuguesa, “O que a esquerda deve propor” (Editora Civilização Brasileira – 2008). Tudo leva a crer que a versão final do texto ganhará muitíssimo em qualidade com as questões que porventura provenham dos futuros comentários. Desde já agradeço pela oportunidade.
Antes, acho que é importante me posicionar sobre um ponto pertinente na atuação das ciências sociais: as ciências sociais tem um compromisso “normativo” a priori, posto ciência positiva, de compreender e explicar o real. Neste simples enunciado acho que é sintetizado o primado que nos distancia de parte da filosofia “pura”, onde é passível e mesmo cabível perscrutar questões eminentemente especulativas – como afirmar que não existe o real, há jogos de linguagem e etc... O que não é nada menor, diga-se de passagem, pois produz conseqüências inúmeras nos processos de elaboração de conhecimento aplicado ou não. Mas, prosseguindo, justamente por ser ciência social, seus “produtos” (pesquisa, artigos, etc.) obviamente podem e muitas vezes tem conseqüências “normativas” ou, simplesmente, as vezes políticas e morais. Por vezes até mesmo temos conseqüências pragmáticas na execução de políticas públicas, onde obrigatoriamente expressam-se noções de “bem viver” dentre as disponíveis no mercado de legitimações morais, que podem estar conectadas com estudos filosóficos ou sociológicos de toda ordem.
Ainda há a determinação de algo tão basilar, como o recorte do objeto, que é permeado por nossas opções valorativas (Weber). Não disse nenhuma novidade, mas, é importante sabermos de onde estamos falando. O que queria ressaltar que o binarismo “normativos” ou “não normativos” é tão grosseiro quando ingênuo. Sem pretensões de ineditismo (retomarei este ponto adiante).
Portanto não sou positivista ou tampouco algum tipo de “ativista”. E não gostaria que as minhas críticas e observações não fossem neste texto interpretadas sob qualquer tipo de alcunha deste tipo dado que não condizem com a minha proposta. Acredito enquanto valor, sim, que as ciências sociais podem produzir revoluções trazendo a tona o confrontamento com o senso comum e com os sensos informados ideologicamente de todo o tipo. Em suma, desencantando o mundo, mostrando onde este possui suas vértebras, e como estão dispostas. Tudo isto permeado por uma das melhores contribuições das ciências sociais para qualquer projeto civilizatório: o seu próprio pluralismo epistemológico.
Desta feita considero absolutamente inadequado que os atos argumentativos científicos ou pesquisas sejam guiados por um critério de validação que seja estranho ao fazer científico. Me recuso, peremptoriamente, a dividir o universo de cientistas sociais entre aqueles “corajosos” e os “covardes” dado que elementos de virilidade talvez sejam passíveis em eventos de luta livre. Mas não para o fazer científico. Ainda considero que para se fazer ciência se precise muito mais de cérebro do que de culhões. São opções as quais precisam ser compartilhadas. São minhas opções. Como estes pontos foram levantados nos comentários passados, de maneira esparsa, julguei que era importante traze-los a tona nesta análise.
Ainda, no campo da advertências ao leitor, minhas críticas não são para o conjunto da obra do valoroso Mangabeira Unger. E nem ao ministro. Eu não teria competência neste momento para avaliar nem um ou o outro. Na verdade nutro simpatia política por seu papel no Governo Lula e considero progressista sua participação na vida pública brasileira, embora que não sem ambigüidades. Minha leitura se dará unicamente sobre o texto “O que a esquerda deve propor”. Nada mais. E a crítica, antes de significar a prática do desprestígio, implica na possibilidade de avaliar argumentos.
Feitas as justificativas e os backgrounds teóricos-epistemológicos mínimos, vamos então ao texto.
Mangabeira Unger, um homem que logrou logo no início de sua carreira ser resenhado por ninguém menos que Talcott Parsons, nos brinda em seu “O que a esquerda deve propor”, com um complexo corpo de idéias que, em minha leitura, pertencem ao intrincado universo da filosofia política. Ao menos parcialmente pois discute: a) o que pode ser uma ordem coletiva moralmente justa; b) quais caminhos podem ser trilhados, programaticamente, em prol desta nova ordem. Outros elementos que me parecem importantes no debate da filosofia política parecem esmaecidos pois não se discute quem é o ser humano, o agente que faz a política (uma ontologia minimamente presente – natureza humana) e, em uma lógica processualista “neutra”, não se discute Estado, mercado, sociedade. Tem a trilogia hegeliana, a assume enquanto existente, mas não a problematiza adequadamente. Na verdade o autor propõe a inversão de pólos (profundo reajuste estrutural) destas três esferas possibilitando uma “revolução” de tons reformistas – há uma dialética de fato interessante entre reforma e revolução no texto. Todavia tudo se concentra em um “Fiat” (faça-se) pouco crível na medida em que não se dá ao trabalho de realizar um mínimo de análise conjuntural que permita essa “revolução reformista”. O próprio Mangabeira compreende as dificuldades de sua “profecia” – eis o substantivo utilizado pelo autor nos últimos capítulos - pois reconhece que o eleitorado capaz de operar mudanças tão substantivas sequer nasceu (e não há até o momento qualquer evidência que nascerá algum dia).
Prosseguindo, Mangabeira elabora uma crítica, bastante acertada, na aposta da esquerda “tradicional” de concentrar suas esperanças em um tipo de agente social, o famoso agente que resume em si a síntese do espírito histórico. Ora, não é necessário ser um grande leitor das obras socialistas elaboradas a partir do século XIX para compreendermos que na teodicéia secular de esquerda há um agente “ungido” da capacidade de representar o próprio espírito histórico: a classe trabalhadora. Todavia a resposta elaborada para este dilema, a ausência de um agente, se dá.... Retomando a classe trabalhadora!!!!! Simples assim. Renovada em seus anseios pequeno-burgueses, tendo este como um novo telos (mudança qualitativa em padrões de vida) que deve ser o fio interpretativo deste novo-velho agente reformado (?!?!), a classe trabalhadora, sobretudo situada entre os estratos médios, algo deve auxiliar a corporificar as profecias (seria o próprio Mangabeira um profeta?) elaborada em seu “conjunto de proposições”.
Tendo as aspirações pequeno burguesas para a classe trabalhadora é desnecessário dizer algo sobre o papel secundário reservado para a sub-classe e as políticas redistributivas. Ambos (sub-classe e políticas sociais) encontram-se em um grau hierárquico de prioridades menor. De alguma forma na leitura de ação de esquerda do autor há certa mitificação (fetichização pura e simples) dos processos educacionais caríssimos que possibilitariam, talvez, resgatar estes grupos de sua condição de miserabilidade. Sem detalhar em qualquer segundo como de fato seria viável tão ousada política educacional integrada e “para a vida toda” o que relegaria a “ralé” e um tipo de limbo desconfortável da modernidade.
Há coerência discursiva, se pensarmos no “preço” destas políticas educacionais, ao levarmos adiante o debate importante levantado pelo autor acerca da contradição gerada pelo direito de herança pois perpetua as diferenciações entre classes e aniquila em muito qualquer pretensão meritocrática existente na sociedade (outro ponto provocativo importante do texto). Mas, mesmo assim, supondo que políticas do lastro proposto por Mangabeira não se efetivem tão rapidamente (reconhecendo inclusive o elemento reformista de sua proposta), há de se pensar na ralé, que estaria desemparada em sua ascese para se tornar ao menos “gente” por processos educacionais de alta sofisticação. Preterida mais uma vez aqui, tanto como o fez em instigante entrevista para o jornal “O Globo”, onde há a preferência pelos “batalhadores”.
Um elemento muitíssimo interessante é a crítica de uma “leitura de mundo da calamidade” que percorre a esquerda, dado que faticamente alguns dos maiores avanços civilizatórios em um sentido progressista ocorreram em crises profundas. Foi assim após 1929, pós Segunda Grande Guera... E nestes termos há a preocupação do autor em buscar caminhos que fujam desta “pedagogia da crise”. O livro foi publicado originalmente nos EUA em 2005, antes da bolha imobiliária americana estourar levando à catástrofe do sistema financeiro que estamos hoje presenciando. Não teria exatamente, evidentemente, como prever o que estamos vivendo neste início de 2009. A grande ironia histórica é que, pelo caráter cíclico deste tipo de ocorrência estrutural, justamente neste momento temos mais uma crise que nos possibilitará os “experimentalismos institucionais” vaticinados pelo autor! Voltemos para a fática narrativa positiva da calamidade. Em outros termos, não desconsiderando a sua queixa, justa, vemos faticamente mais uma vez a oportunidade histórica de pensarmos determinados elementos do modo de produção sob uma outra ótica. Mesmo que não tenhamos mudanças estruturais. Mas, isto é uma outra questão.
Caminhando para o desfecho: sobre as pretensões de ineditismo.
Não duvido que eu tenha sido demasiado apressado nas minhas colocações, o que poderia permitir que eu não seja suficientemente compreendido em minha inegável crítica quando utilizei o termo “pretensões de ineditismo”. O outro caminho, o do elogio das “pretensões ao ineditismo” nos empurra para o pior dos mundos. Na verdade o elogio das “pretensões de ineditismo” é o elogio da ignorância ou da arrogância da recusa ao diálogo com autores que produziram peças mais convincentes sobre determinado tema. E muitíssimo antes do Mangabeira em questão.
O que devemos lutar, isto sim é fundamental para a ciência, é por estudos originais. Mas, “pretensões de ineditismo” são problemáticas na medida em que se recusam a participar do processo de acumulação do conhecimento. Reitero, a produção teórica deve primar pelo rigor na medida que a produção do conhecimento deve se reconhecer como parte integrante de um esforço coletivo.
Uma das formas possíveis, e me parece absolutamente produtivo que assim o seja, de ler o texto “O que a esquerda deve propor” envolve reconhecermos limites na democracia representativa liberal.
Ora, este formato de organização da ação coletiva, a democracia como via legítima e política, conquista hoje realidades até então impensáveis. Numericamente “nunca fomos tão democráticos”. O imbróglio está na seguinte questão: ouve a ampliação numérica mas sem gerar sociedades “movimentadas” politicamente. Esta é ao menos a impressão, ou o diagnóstico, de parte dos teóricos da sociedade a partir da década de 1990. Creio que Mangabeira faz o mesmo caminho. Portanto, vão me desculpar, aí que as suas “pretensões de ineditismo” (a questão de trazer a tona questões que já foram trabalhadas sem qualquer intenção de acrescentar diretamente com vias de aumentar o acúmulo do debate) vão pras cucuias. Habermas, Giddens, Wallerstein, Boaventura de Sousa Santos, Claus Offe.... Todos estes pensaram os dilemas da esquerda, e da ação coletiva, de maneira ou de outra. Todos reconhecem que a chamada “esquerda tradicional” peca muitíssimo em vários campos de atuação. Todos reconhecem que o Estado, sociedade civil e mercado precisam ser repensandos. Mas, NENHUM deles o faz sem apresentar minimamente as articulações exigidas para um projeto como esse. Há diálogos aí que são claramente construídos nos autores entre pontos de vista diferenciados. Há, evidentemente, problemas quando ocorrem momentos de “pseudo-originalidade”, vide Giddens como autor quase proto-típico. O que os diferencia é que estes autores promovem um diálogo que propicia um sentido acumulativo do debate que é notoriamente enriquecedor. Algo que não é feito por Mangabeira nem por um segundo. Não há qualquer diálogo. Há assinatura de um “manifesto esperançoso” que parece isolado do restante do universo acadêmico de onde o próprio autor provém.
Por fim, me causa absoluto desconforto a reedição da idéia de uma “religião da humanidade” secularizada. Tive um déjà vu comteano. Pensei que viria após esta idéia algum tipo de toque de trombetas apocalípticas e em anexo algum homem cabeludo e de vestido dizendo: “I´m the way”. Sem messianismos, por favor, a filosofia e a ciência social não precisam de profetismos ou de guias espirituais. O texto tem insights absolutamente interessantes, passíveis de maior aprofundamento e verificação dentro do corpo metodológico vasto e eclético das ciências sociais, que são amplamente prejudicados por este tipo de messianismo atabalhoado. Ninguém elegeu Mangabeira ou quem quer que seja como líder espiritual.
PS: Claro que a resenha “acadêmica” será mais cuidadosa.
