terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Reunião Anual dos Blogueiros - Versão 2.0

Prezad@s,

Amanhã teremos a segunda edição da reunião anual dos blogueiros mais ou menos etílicos. Ou seria uma reunião mais ou menos etílica? Ah, claro, não etílicos também devem ir. Não somos segregacionistas!

Tod@s estão convidad@s. Decerto não levarei vinil para sorteio mas pretendo levar algo aqui do acervo para ser degustado nessa festa tropical onde o subversivo senhor Samba pedirá passagem.

De todo modo aproveito, como é praxe, a chamada do companheiro Vitor Menezes:


Atenção senhores e senhoras! Atendendo intimação do pessoal do Sociedade Blog e do blog Outros Campos, este urgente! convoca solenemente todos os blogueiros que estiverem desocupados na próxima quarta, 23, 22h, para o nosso II Encontro.

Vamos aproveitar o furdunço da última noite do vinil do ano, na Taberna Dom Tutti (rua das Palmeiras, 23, próximo ao Alzira Vargas) para realizar mais este momento histérico.

Haverá amigo oculto de vinil. O sorteio é feito na hora e para participar basta levar um daqueles discos que você esqueceu no armário desde a adolescência.

No vinil vai rolar samba, para fechar o ano em alto astral.

Vamo que vamo!

PS: A histeria é por conta do Vitor.... Não nos responsabilizamos por patologias modernas demonstradas naquele espaço...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Lula vs. Globo


No início da década de 1980, centenas de milhares de brasileiros cantaram em coro “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo!”, quando a corporação na qual se apoiou a ditadura militar censurou as mobilizações populares contra o regime militar, utilizando fotonovelas e futebol para tentar anestesiar a opinião pública. Hoje, um segmento crescente do público brasileiro expressa seu descontentamento frente o grupo midiático hegemônico.

Por Dario Pignotti*, no Le Monde Diplomatique (Cone Sul e Espanha), via
Vermelho

Medições de audiência e investigações acadêmicas detectaram um dado, em certa medida inédito, sobre as relações de produção e consumo de informação: a credibilidade da rede Globo, inquestionável durante décadas, começa a dar sinais de erosão. Contudo, é possível perceber uma diferença substantiva entre a indignação atual e o descontentamento daqueles que repudiavam a Globo durante as mobilizações de três décadas atrás em defesa das eleições diretas.

Em 1985, José Sarney, primeiro presidente civil desde o golpe de Estado de 1964, obstruiu qualquer pretensão de iniciativa reformista relativa à estrutura de propriedade midiática e ao direito à informação, em cumplicidade com a família Marinho – proprietária da Globo, da qual, aliás, era sócio. O atual chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, parece disposto a iniciar a ainda pendente transição em direção à democracia na área da comunicação.

No início de 2009, no Fórum Social Mundial realizado na cidade de Belém, Lula convocou uma Conferência Nacional de Comunicação. A partir daí, mais de 10 mil pessoas discutiram em assembleias realizadas em todo o país os rumos da comunicação e definiram propostas para levar para a Conferência, realizada de 14 a 17 de dezembro, em Brasília.

“É a primeira vez que o governo, a sociedade civil e os empresários discutem a comunicação; isso, por si só, já é uma derrota para a Globo e sua política de manter esse tema na penumbra (...). O presidente Lula demonstrou estar determinado a instalar na sociedade um debate sobre a democratização das comunicações; creio que isso terá um efeito pedagógico e poderá converter-se em um dos temas da campanha (de 2010)”, assinala Joaquim Palhares, diretor da Carta Maior e delegado na Conferência.

O embate entre Lula e a Globo poderia ser resumido como uma disputa pela verossimilhança, um bem escasso no mercado noticioso brasileiro. Ao participar quase que diariamente de atos ou eventos públicos, o presidente dialoga de forma direta com a população, estabelecendo um contrato de confiança que contrasta com a obstinação dos meios dominantes em montar um discurso noticioso divorciado dos fatos que, às vezes, beira a ficção.

Lula configura um “fenômeno comunicacional singular; o povo acredita nele, não só porque fala a linguagem da gente simples, mas porque as pessoas mais carentes foram beneficiadas com seus programas sociais; isso é concreto, o Bolsa Família atende a 45 milhões de brasileiros que não prestam muita atenção ao que diz a Globo”, observa a professora Zélia Leal Adghirni, doutora em Comunicação e coordenadora do programa de investigação sobre Jornalismo e Sociedade da Universidade de Brasília.

“Por que Lula ganhou duas vezes as eleições (2002 e 2006), uma delas contra a manifesta vontade da Globo? Por que Lula tem uma popularidade de 80%?”, pergunta Adghirni, para quem “as teorias de comunicação clássica que estudamos na universidade não são aplicadas ao fenômeno Lula. Desde a teoria da ‘agulha hipodérmica’ até a da ‘agenda setting’, dizia-se que os meios formam a opinião ou pautam o temário do público, mas com Lula isso não ocorre: os meios de comunicação estão perdendo o monopólio da palavra”.

Por outro lado, como se sabe, a construção de consensos sociais não se galvaniza só com mensagens racionais ou versões críveis da realidade, também é necessário trabalhar no imaginário das massas, um território no qual a Globo segue sendo praticamente imbatível. A empresa do clã Marinho controla o patrimônio simbólico brasileiro: é a principal produtora de novelas e detém os direitos de transmissão das principais partidas de futebol e do carnaval carioca.

Frente à gigantesca indústria de entretenimento da Globo, o governo é praticamente impotente. Não obstante, a imagem do presidente-operário provavelmente ganhará contornos míticos em 2010, com o lançamento do longa-metragem Lula, o Filho do Brasil, que será exibido no circuito comercial e em um outro alternativo (sindicatos e igrejas). O produtor Luis Carlos Barreto prevê que cerca de 20 milhões de pessoas assistirão à história do ex-torneiro mecânico que se tornou presidente, o que seria a maior bilheteria da história no país.

O balanço provisório da política de comunicação de Lula indica que esta tem sido errática. Em seu primeiro mandato (2203-2007), impulsionou a criação de um Conselho de Ética informativa, iniciativa que arquivou diante da reação empresarial. Após essa tentativa fracassada, o governo não voltou a incomodar as “cinco famílias” proprietárias da grande imprensa local, até o final de sua primeira gestão.

Em seu segundo governo – iniciado em 1° de janeiro de 2007, Lula nomeou Hélio Costa como ministro das Comunicações, um ex-jornalista da Globo que atua como representante oficioso da empresa no ministério. Mas enquanto a designação de Costa enviava um sinal conciliador aos grupos privados, Lula seguia uma linha de ação paralela.

Em março de 2008, o Senado, com a oposição cerrada do PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aprovou o projeto do Executivo para a criação da Empresa Brasileira de Comunicações, um conglomerado público de meios que inclui a interessante TV Brasil, para a qual, em 2010, o Estado destinará cerca de US$ 250 milhões. O generoso orçamento e a defesa da nova televisão pública feita pelos parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT) indicavam que Lula havia decidido enfrentar a direita política e midiática. Ao mesmo tempo em que media forças com a Globo – ainda que não de forma aberta -, Lula aproximou posições com as empresas de telefonia (interessadas em participar do mercado de conteúdos e disputar terreno com a Globo) e algumas televisões privadas, como a TV Record – de propriedade de uma igreja evangélica.

A estratégia foi tomando contornos mais firmes no final do mês de outubro quando Lula defendeu, durante uma cerimônia de inauguração dos novos estúdios da Record no Rio de Janeiro, o fim do "pensamento único" capitaneado por alguns formadores de opinião (em óbvia alusão à Globo) e a construção de um modelo mais plural. Dias mais tarde, o mesmo Lula afirmava: “Quanto mais canais de TV e quanto mais debate político houver, mais democracia teremos (...) e menos monopólio na comunicação”.

Com um discurso monolítico e repleto de ressonâncias ideológicas próprias da Doutrina de Segurança Nacional (como associar qualquer objeção à liberdade de imprensa empresarial com ocultas maquinações “sovietizantes”), o grupo Globo lançou uma ofensiva, por meios de seus diversos veículos gráficos e eletrônicos, contra a incipiente tentativa do governo de estimular o debate sobre a atual ordem informativa, que alguns definem como um “latifúndio” eletrônico.

O primeiro passo neste sentido, assinala Joaquim Palhares, foi “esvaziar e boicotar a Conferência Nacional de Comunicação, retirando-se dela, dando um soco na mesa e saindo impestivamente para tentar deslegitimá-la”, movimento seguido por outros grupos midiáticos. O segundo movimento consistiu em articular um discurso institucional para fazer um cerco sanitário contra o contágio de iniciativas adotadas por governos sulamericanos como os da Argentina, Equador e Venezuela, orientadas na direção de uma reformulação do cenário midiático.

A Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) “temem que o que ocorreu na Argentina se repita no Brasil; eles veem essa lei como uma ameaça e começaram a manifestar sua solidariedade com a imprensa da Argentina”, afirma Zélia Leal Adghirni. O receio expresso pelas entidades representativas dos grandes conglomerados midiáticos é o seguinte: se o descontentamento regional contra a concentração informática ganha força junto à opinião pública brasileira, poderia romper-se a cadeia de inércia e conformismo que já dura décadas e, quem sabe, iniciar-se um gradual – nunca abrupto – processo de democratização.

O inverso também se aplica: se o Brasil, liderado por Lula, finalmente assumir como suas as teses do direito à informação e à democracia comunicacional, é certo que essa corrente de opinião, atualmente dispersa na América Sul, poderá adquirir uma vertebração e uma legitimidade de proporções continentais.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A contrarrevolução jurídica



por Boaventura de Sousa Santos







Está em curso uma contrarrevolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles.

Entendo por contrarrevolução jurídica uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas pela via política, quase sempre a partir de novas Constituições.

Como o sistema judicial é reativo, é necessário que alguma entidade, individual ou coletiva, decida mobilizá-lo. E assim tem vindo a acontecer porque consideram, não sem razão, que o Poder Judiciário tende a ser conservador. Essa mobilização pressupõe a existência de um sistema judicial com perfil técnico-burocrático, capaz de zelar pela sua independência e aplicar a Justiça com alguma eficiência.

A contrarrevolução jurídica não abrange todo o sistema judicial, sendo contrariada, quando possível, por setores progressistas.

Não é um movimento concertado, muito menos uma conspiração. É um entendimento tácito entre elites político-econômicas e judiciais, criado a partir de decisões judiciais concretas, em que as primeiras entendem ler sinais de que as segundas as encorajam a ser mais ativas, sinais que, por sua vez, colocam os setores judiciais progressistas em posição defensiva.

Cobre um vasto leque de temas que têm em comum referirem-se a conflitos individuais diretamente vinculados a conflitos coletivos sobre distribuição de poder e de recursos na sociedade, sobre concepções de democracia e visões de país e de identidade nacional.

Exige uma efetiva convergência entre elites, e não é claro que esteja plenamente consolidada no Brasil. Há apenas sinais nalguns casos perturbadores, noutros que revelam que está tudo em aberto. Vejamos alguns.

- Ações afirmativas no acesso à educação de negros e índios. Estão pendentes nos tribunais ações requerendo a anulação de políticas que visam garantir a educação superior a grupos sociais até agora dela excluídos.

Com o mesmo objetivo, está a ser pedida (nalguns casos, concedida) a anulação de turmas especiais para os filhos de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.

- Terras indígenas e quilombolas. A ratificação do território indígena da Raposa/Serra do Sol e a certificação dos territórios remanescentes de quilombos constituem atos políticos de justiça social e de justiça histórica de grande alcance. Inconformados, setores oligárquicos estão a conduzir, por meio dos seus braços políticos (DEM, bancada ruralista) uma vasta luta que inclui medidas legislativas e judiciais.

Quanto a estas últimas, podem ser citadas as “cautelas” para dificultar a ratificação de novas reservas e o pedido de súmula vinculante relativo aos “aldeamentos extintos”, ambos a ferir de morte as pretensões dos índios guarani, e uma ação proposta no STF que busca restringir drasticamente o conceito de quilombo.

- Criminalização do MST. Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de o dissolver com o argumento de ser uma organização terrorista.

E, ao anúncio de alteração dos índices de produtividade para fins de reforma agrária, que ainda são baseados em censo de 1975, seguiu-se a criação de CPI específica para investigar as fontes de financiamento.

- A anistia dos torturadores na ditadura. Está pendente no STF arguição de descumprimento de preceito fundamental proposta pela OAB requerendo que se interprete o artigo 1º da Lei da Anistia como inaplicável a crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos praticados por agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar.

Essa questão tem diretamente a ver com o tipo de democracia que se pretende construir no Brasil: a decisão do STF pode dar a segurança de que a democracia é para defender a todo custo ou, pelo contrário, trivializar a tortura e execuções extrajudiciais que continuam a ser exercidas contra as populações pobres e também a atingir advogados populares e de movimentos sociais.

Há bons argumentos de direito ordinário, constitucional e internacional para bloquear a contrarrevolução jurídica. Mas os democratas brasileiros e os movimentos sociais também sabem que o cemitério judicial está juncado de bons argumentos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Racismo na UERJ
Numa das poucas instituições sociais pela qual devotamos expectativas positivas quanto ao convívio com as diferenças e à diversidade de pensamento, observamos de tempos em tempos o outro lado da fachada liberal a qual alguns intelectuais, políticos e “celebridades” se apegam e teimam em negar o óbvio: a inefetividade de direitos universais manifestada no racismo de classe que quase sempre se traveste de racismo de cor. Os últimos acontecimentos na UERJ são graves e merecem reflexão. Que os representantes dos segmentos docente, discentes e de funcionários dessa comunidade universitária sejam vigilantes quanto à punição dos agressores. Divulgando o primeiro dos protestos realizados na UERJ:
ATO EM LEGÍTIMA DEFESA
Àquelas e Àqueles que aguardavam, o tempo chegou: Ato em Legítima Defesa a favor da equidade racial e repúdio as agressões raciais ocorridas na UERJ e no em torno.
No horário de Brasília às 17horas terça feira dia 15 de dezembro de 2009.
No Hall do Queijo
Em menos de uma semana agressões racistas ocorreram nesta Universidade. No sábado dia 05 de dezembro de 2009 a Negra estudante do serviço social foi agredida por aluno branco do IME – UERJ que a xingou de Chimpanzé e na última sexta feira dia 11 de dezembro, 3 alunos brancos do curso de FILOSOFIA - UERJ depredaram a sala Abdias Nascimento, sede coletivo Denegrir, a chutes, seguidos gritos ofenderam todas e todos as negras e os negros com as seguintes palavras: “ COTISTAS DE MERDA!, PODER ARIANO, PODER BRANCO, SOMOS BRANCOS POR ISSO SOMOS SUPERIORES E DOMINAMOS TUDO e pichações racistas onde afirma no banheiro feminino: “MULHERES NEGRAS SÓ PODEM TER 3 FILHOS POR QUE O 4º É FORMAÇÃO DE QUADRILHA”.
NÃO PODEMOS DEIXAR ISSO PASSAR EM BRANCO.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O medo da rua

Quero começar dizendo que não desejo parecer arrogante escrever mais um texto de Berlim. Estou a trabalho e não de férias por conta própria. Uma das coisas que mais me impressiona é não sentir medo de andar na rua. É uma sensação impressionante. Apreciar a beleza de uma grande cidade, como qualquer capital brasileira, sem o medo da violência. A sociedade é altamente policiada, neurótica como nós brasileiros somos com nossa violência, mas por motivos distintos. As neuroses do velho mundo são mais íntimas. Não dependem de querermos nos livrar de um terço da população que ameaça a segurança do espaço público.
O medo que aqui se sente dos skinheads, uma minoria, é o medo que se sente no Brasil de uma maioria, principalmente nas capitais. Em Berlim se sente realmente o que é um espaço público, no qual você se sente tão a vontade quanto dentro de casa. No Brasil somos socializados com medo da rua. Ou se é classe média trancado no carro e no condomínio ou se socializa na brasilidade ambigua que lida com os vizinhos perigosos, em bairros pobres, com tato, medo e respeito passivo. Logo, os honestos e decentes sentem prazer quando o Caveirão sobe o morro e aparece no Fantástico. Nos sentimos um pouquinho defendidos.
Este dado parece associado ao erro de Roberto Damatta ao afirmar que no Brasil casa e rua são opostos. Não são assim por que a casa é o melhor lugar do mundo, mas por que a rua não é dos melhores. Por aqui, se fala em sociedade do risco. Mesmo se tendo a rua como um lugar seguro.
A noção de espaço público não se dissocia da idéia de segurança. O que todas as comparações entre centro e periferia que vem a mente da maioria das pessoas que conhece a Europa nunca percebe, entretanto, é que nossa violência depende da segurança deles. OU vice versa. O século XX foi o século da auto proteção da burguesia mundial e de seu espaço, de suas nações. Este fenomeno não se dissocia da divisão internacional da produção, que precariza as sociedades periféricas, tornando-as mais tensas, desiguais, nervosas e perigosas. Não se tem calma com as necessidades materiais ameaçadas. Logo, parece que o centro é mais civilizado, pois o maior grau de dignidade constroi uma sociedade mais calma, quase todo mundo sabe que vai achar sua comida em casa ao chegar.
Num refluxo do capitalismo mundial, agora a ralé tenta entrar no centro. É severamente controlada, atráves de uma tecnologia de Estado, de um biopoder, como diria Foucault, que agora se configura entre Atlantico NOrte e o Resto. ESte é o novo muro de Berlin. Esta é a nova ordem mundial. Os portoes do primeiro mundo estão fechados e bem controlados. A tecnologia de EStado agora é multinacional. OU será multicultural...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O que é multiculturalismo?

Fabrício Maciel


Tenho agora a oportunidade de conhecer Berlin, uma das capitais multiculturais do mundo. A cidade é marcada pela presenca de etnias distintas das nativas, dentre elas os arabes, dentre os quais muitos comerciantes. O convivio parece pacifico. O mundo funciona normalmente. Logo me lembrei do recente livro de Richard Sennett, Carne e Pedra, no qual ele analisa dentre outras coisas a realidade da Nova York multicultural, semelhante a nossa Sao Paulo, Cidade do Mexico, Bombaim, e tb Berlin. O autor percebe o multiculturalismo como um traco marcante destas cidades, nas quais o capitalismo funciona atraves de maos etnicas distintas que cada ves mais tem conseguido conviver juntas,
Este parece o mote de nosso tempo, do novo capitalismo, flexivel, no qual pessoas migram todo o tempo em busca da dignidade. a partir disso podemos pensar no que é o multiculturalismo como um todo, como uma marca economica e cultural do mundo moderno. Seu discurso é o do convivio, do acordo, do respeito a toda forma de diferenca e etnia, o que normativamente pode ser muito bom, a partir de qualquer valor moderno. Nenhum governo atualmente pode prescindir deste discurso e de uma pratica semelhante que de fato tem realisado bons acordos internacionais.
Esta é a epoca do presidente negro da nacao mais rica, do presidente nordestino no Brasil, dos nacionalismos latinoamericanos que oferecem pouco perigo a nova ordem mundial, pos bipolar, agora multipolar, na qual uma idéia predominante é que as relacoes e o jogo de poder entre as nacoes tornou se menos hierarquisado e mais dinamico, abrindo margem para o crescimento de nacoes perifericas. É o caso do Brasil. todos os numeros do governo Lula sao recordistas, o que neste aspecto nao deixa duvidas de que sua linha de governo e a melhor. Entretanto, ha algo sobre o qual pouco se reflete no mundo multicultural.
Trata se de uma hierarquia opaca entre nacoes ricas e pobres, esquecida e legitimada pela ideia de multi. tudo hoje e multi. os aparelhos eletronicos sao cada ves mais multi. e as pessoas tb. o drama da classe media mundial, estudado pelo proprio Sennett e por outros, é ter que se adaptar rapidamente as exigencias de qualificacao das empresas, e apresentar espirito de criatividade. ser multi de si mesmo. Entretanto, ha outro drama maior. o de uma rale mundial, multicultural, heretogenea, que agora vem tomando a europa num refluxo historico do capitalismo.
este expurgou ate durante o Welfare State a pobresa e precarisacao para sua periferia, atraves do processo de reestruturacao produtiva, no qual uma nova divisao de trabalho no mundo aperfeicoou a dominacao do Atlantico norte, vigente desde sempre. isso dependeu de uma nova divisao tecnologica, na qual a periferia fica com o trabalho bracal que sustenta o capitalismo mundial. mas o centro tb precisa deste trabalho. hoje muitos imigrantes da periferia se tornam rale no centro. etnia e nacionalidade quase se tornam sinonimo de classe. E o discurso multicultural afirma que esta e a epoca da igualdade na diferenca. Talves seja melhor falar em igualdade formal, com avanco de direitos e diferenca. Ou sera desigualdade na pratica e indiferenca?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Seminário - Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política

Prezad@s,

Venho divulgar o seguinte seminário, pilotado pelo Darlan Ferreira Montenegro:

Título: "O Avesso do Príncipe: Programa e Organização nas origens do Partido dos Trabalhadores"
Data: Sexta-feira, dia 11 de Dezembro de 2009.
Horário: a partir das 14:00 horas.
Local: sala 107 - CCH - UENF

Trata-se de seminário que ocorrerá dentre as atividades da disciplina do professor Rogério Dultra, em curso neste segundo semestre de 2009.

A revista Veja, e as artimanhas do senhor da mentira

Qualquer menino ou menina, mesmo muito jovem, sem sequer ter lido uma linha de algum manual medieval que os ensinasse a perceber a presença oculta daquele o qual nós não devemos falar o nome, sabe muito bem, ou já ouvir falar, que “ele” se esconde nos detalhes, e que é através destes que ele age.

E na matéria abaixo, oriunda do “Blog do Azenha”, o nosso Azenha mostra ser digno de uma cátedra inquisitorial das melhores universidades, porque mostrou saber sentir o cheiro de enxofre a milhas de distância. E eu que sou um leigo nestas artes, arrisco a dizer, que talvez a grande imprensa brasileira seja a morada que o “senhor da mentira” encontrou para atacar e confundir o povo de Deus.

"A corrupção, na Veja













Curioso: só neste último caso a denúncia da revista não tem nome, nem partido. Por que?

PS: O leitor Edu Marcondes me manda outra capa, de 2000 (governo FHC), para provar que pelo menos a Veja é coerente. É a capa que aparece abaixo.






segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Reingresso na UFF

Caros,

Repasso informações recebidas da UFF, particularmente dos professores de Campos dos Goytacazes:

A UFF Campos oferece 60 vagas para o reingresso no curso de Licenciatura em Ciências Sociais (Complentação Pedagógica) para Bachareis em Ciências Sociais. Oferecem, também 20 vagas no Bacharelado para graduados em Serviço Social, Letras, História, Geografia, Direito.
O período de inscrições para o concurso de Reingresso é de 4 a 10 de dezembro de 2009.
Mais informações em no site http://www.coseac.uff.br/reingresso/2010/vagas.htm.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A imprensa aloprou

Por Alberto Dines (01/12/ 2009)

A Folha de S.Paulo consegue se superar a cada nova edição. Mais surpreendente do que a publicação do abjeto texto de Cesar Benjamin (sexta, 27/11), sobre o comportamento sexual do líder metalúrgico Lula da Silva quando esteve preso em 1979, foi a completa evaporação do assunto a partir do domingo (29), exceto na seção de cartas dos leitores.

Num dia o jornal chafurda na lama, dois dias depois se apresenta perante os leitores de roupa limpa e cara lavada, como se nada tivesse acontecido. E pronto para outra.

Não vai pedir desculpas? Não pretende submeter-se ao escrutínio da sociedade? Não se anima a fazer um debate em seu auditório e depois publicá-lo como faz habitualmente? E onde se meteram os procedimentos auto-reguladores que as empresas de mídia prometem há tanto tempo quando se apresentam como arautos da ética? Não seria esta uma oportunidade para ensaiar algo como a britânica Press Complaints Comission (Comissão de Queixas contra a Imprensa)?

E por que se cala a Associação Nacional de Jornais? Este não é um episódio que põe em risco a credibilidade da instituição jornalística brasileira? Um vexame destas proporções não poderia servir de pretexto para retaliações futuras? Ficou claro que depois do protesto inicial ("Isto é uma loucura!"), o presidente Lula encerrará magnanimamente o episódio. A Folha, em compensação, enfiará o rabo entre as pernas.

Ninguém estrila

É bom não perder de vista o fato de que esta lambança de um jornal isolado será fatalmente estendida à mídia como instituição. E logo alimentará as inevitáveis desavenças da próxima campanha eleitoral. Isto não interessa aos que desejam preservar o resto de republicanismo desta imensa republiqueta nem àqueles que levam o jornalismo a sério e não querem vê-lo desacreditado, como acontece na Venezuela.

A verdade é que a imprensa brasileira aloprou, levou a sério sua proximidade com o show-business; a obsessão pelo espetáculo e pela "leveza" levou-a para o âmbito da ligeireza, vizinha da irresponsabilidade.

Por outro lado, o controle centralizado das redações associado ao terror de iminentes demissões em massa desestimula qualquer cautela e a mínima prudência. Ninguém estrila ou esperneia. Os jornalistas brasileiros, apesar de tão jovens, andam encurvados – de tanto dar de ombros e não importar-se.

Ano penoso

Há exceções, tênues, percebidas apenas pelos especialistas, porque nossa mídia – ao contrário do que acontece nos EUA e Europa – faz questão de apresentar-se indiferenciada, uniformizada, monolítica, sem nuances.

Este 2009 foi um ano penoso para a Folha, o jornal talvez prefira esquecê-lo. Mas seus parceiros de corporação deveriam refletir sobre o perigo de atrelar uma indústria ou instituição aos faniquitos juvenis de quem ainda não conseguiu assimilar os compromissos públicos de uma empresa privada de comunicação.

***

Em tempo: O recuo da Folha na edição de terça-feira (1/12) é ainda mais vergonhoso do que a denúncia da sexta-feira anterior. Colocar na boca do pivô do episódio que "o artigo de Benjamim é um horror" é uma manobra capciosa, covarde, para responsabilizar um articulista delirante e inocentar diretores irresponsáveis. A Nota da Redação, na seção de cartas, está atrasada quatro dias: pode satisfazer as dezenas de missivistas que se manifestaram, mas despreza os milhares que, horrorizados, leram o resto do jornal.

III Jornada de Políticas Sociais da UENF

Será em 03/12/09, das 8h às 17h, no Anfiteatro 4 do Centro de Convenções da Uenf, a 3ª Jornada do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf. O evento, que tem apoio da Capes, será aberto às 8h30 pela professora Sônia Martins de Almeida Nogueira. Em seguida, a professora Martha Tupinambá Ulhôa discorre sobre o tema 'Interdisciplinaridade na pesquisa em Artes'. Após a palestra haverá debate mediado pelo professor Marcelo Gantos.

Das 10h30 às 12h, será realizado um painel com trabalhos representativos das diversas linhas de pesquisa do Programa de Políticas Sociais. O painel será apresentado pelos alunos Carlos Moraes (Linha 1), Júlio Cezar Pinheiro de Oliveira (Linha 2), Paulo Sérgio Ribeiro da Silva Junior (Linha 3) e Josete Soares Peres (Linha 4). A coordenação dos trabalhos é da professora Silvia Alicia Martinez.

O professor João Lupi ministra palestra às 14h sobre o tema 'O doutorado interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC (Florianópolis): experiências, resultados e dificuldades'. Em seguida, às 15h30, haverá mesa-redonda para debater o tema 'A pós-graduação interdisciplinar: visões e expectativas'. Os debatedores serão os professores Pedro Geraldo Pascutti e Édson Correa da Silva. A moderadora será a professora Simonne Teixeira.

O encerramento está previsto para as 17h, quando será realizada a atividade cultural 'Tango & Dança', com o argentino Aldo Priore. Mais informações podem ser obtidas pelo tel (22) 2739-7281 ou pelo email pgps-cch@uenf.br.

Fonte: http://www.uenf.br.

domingo, 29 de novembro de 2009

Projeto Segundas Debates - UFF Campos - Palestra José Luiz Vianna da Cruz

UFF - UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO REGIONAL

COORDENAÇÃO DE EXTENSÃO

Projeto de Extensão - “Segundas Debates: Estudos Acadêmicos Complementares à Graduação”.

CONVITE

O Projeto de Extensão Segundas Debates: convida você a participar da apresentação do relatório do projeto de extensão: “Estudos dos impactos sócio econômicos da implantação de estaleiro em Barra do Furado/Quissamã – RJ”, no dia 30 de Novembro de 2009, segunda-feira, no horário de 15:30h às 18:00h na UFF/Campos – sala 01.

Expositor: Profº. José Luiz Vianna da Cruz – Coordenador do projeto de extensão: “Estudos dos impactos sócio econômicos da implantação de estaleiro em Barra do Furado/Quissamã – RJ” e Diretor do Polo da UFF/Campos;

Mediadora: Profª. Ana Maria Almeida da Costa – Coordenadora de Extensão – UFF/Campos.

Profª. Ana Maria Almeida da Costa

Coordenadora

Informações: Rua José do Patrocínio, 71 – Centro – Campos dos Goytacazes – RJ. Tel. (22) 27220622 e 27330319, Ramal 4104 e 4112 no horário de 14:30h às 17:30h. Os certificados poderão ser solicitados na Secretaria da Coordenação de Extensão.

sábado, 28 de novembro de 2009

I Colóquio da Uenf em Educação Básica


Se você é professor ou professora da rede pública e deseja se informar em detalhes sobre o Plano Nacional de Formação de Professores (ParFor), que oferece cursos superiores de licenciatura em instituições públicas, a Uenf está criando a oportunidade ideal para tirar todas as suas dúvidas. Será realizado em 30/11, no Centro de Convenções da Universidade, o I Colóquio da Uenf em Educação Básica. Além de massificar informações sobre o Plano do MEC para qualificar os professores, o Colóquio vai discutir a educação superior a distância com professores do Norte e do Noroeste Fluminense.


O Colóquio começa às 9h e terá, entre outras, a presença da professora Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e membro do Conselho Nacional de Educação - Câmara de Educação Básica. O tema geral é o seguinte: 'Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica e a Educação a Distância: apontando as perspectivas para o Norte/Noroeste Fluminense'. O evento pretende motivar os professores do ensino básico e informá-los sobre os caminhos para acessar a formação de que necessitam, além de promover o conhecimento e adesão dos docentes da Uenf ao programa de educação a distância.

O primeiro item da programação será a abertura oficial, com a presença do reitor da Uenf, Almy Junior, e de representantes de outras instituições públicas que aderiram ao ParFor, o programa de qualificação de professores lançado pelo MEC. Também está prevista, a confirmar, a participação de representante da Secretaria de Estado de Educação. A mesa terá ainda a pró-reitora de Graduação da Uenf, Lílian Bahia; e o coordenador do curso de Biologia a distância pelo Cederj na Uenf, Milton Kanashiro.

Em seguida, às 9h30, a professora Maria Izabel Azevedo Noronha, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, vai abordar aspectos do ParFor. Está prevista a presença de representantes das Secretarias de Educação do Estado e do Município de Campos, que deverão explicar como se dá a seleção dos professores que se candidatam às vagas e o encaminhamento destes nomes às universidades ou institutos participantes do programa. O público poderá fazer perguntas e esclarecer suas dúvidas.

A partir das 13h30, os participantes do Colóquio assistem a duas palestras: 'Apresentação da plataforma Moodle', com Daniel Salvador (Consórcio Cederj); e 'Produção de material didático para educação a distância (EAD)', com Cristiane Brasileiro (Cederj). Paralelamente, a partir das 14h, haverá uma oficina sobre a Plataforma Freire (ambiente da internet onde os professores se candidatam às vagas abertas pelas universidades) dirigida especificamente a representantes das secretarias de Educação dos Municípios e das Coordenadorias Estaduais. A oficina será ministrada por técnico da Capes, o órgão do MEC responsável pela elaboração e gestão desta política pública.

Às 15h10, todos se reencontram na mesa-redonda 'Educação a distância; uma modalidade que veio para ficar?'. Com a moderação do professor Milton Kanashiro, a mesa reunirá as professoras Ana Beatriz Garcia, docente da Uenf e diretora acadêmica do Cederj; e Rosana Giacomini, coordenadora do curso de Química a distância pelo Cederj na Uenf e participantes do Consórcio Cederj. O encerramento será às 17h.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O muro de Berlin, a exclusão, o território e a liberdade dos corpos

Roberto Torres

O vigésimo aniversário da queda do muro de Berlin foi marcado como uma comemoração da vitória da liberdade contra a tirania, em termos concretos, da vitória da democracia de mercado sobre a ditadura do socialismo de Estado. É este consenso que parece estar presente no “significado universal” da queda do muro. Eu não consigo encontrar nenhum argumento que invalide este sentido. Mas creio haverem alguns argumentos que demonstrem que esta semântica é incapaz de considerar as condições estruturais necessárias para que a queda de “um muro politicamente centralizado” opere de fato como um ganho de liberdade. O argumento é que o “muro politicamente centralizado” não é o único que restringe a “liberdade de movimento dos corpos” ( o que entendemos como o direito civil de “ir e vir”). Estruturalmente também podem atuar “muros politicamente descentralizados”, como sempre procurou mostrar Michel Foucault, capazes de restringir cotidianamente para onde certos corpos podem ou não se deslocar.
O “problema do muro” (de Berlin) é que ele é exposto em praça pública de modo que todos podem vê-lo sem nenhum esforço. Ele destaca desde sempre que a política se relaciona com o território, com a administração burocrático-militar de uma jurisdição. O muro se tornou uma forma de regular a relação entre território e corpo, entre certo território e certo tipo de corpo. Mas ele é apenas o recurso visível entre várias outras possibilidades de obter o mesmo sucesso. A tese de Foucault me parece avassaladora quanto a isso: a especificidade da “política moderna” é que ela é feita com enquadramentos, limites, decisões, que ocorrem de modo intransparente para o “público”. Elas acontecem em organizações autárquicas, as quais nem o “poder central”, representado na ideia do “Estado soberano”, com sua legitimidade juridicamente assegurada, nem a “opinião pública”, hegemonizada pela comunicação de massa, conseguem dirigir.
E é justamente o poder autônomo destas organizações para limitar e induzir o “movimento dos corpos” que confere à política moderna sua estrutura antidemocrática. Para Foucault, isso se condensa na fórmula “Estado policial versus Estado de direito”. Mas também a burocracia em geral, com o monopólio do “poder simbólico” (a começar pelo de emitir ou negar vistos, controlar fronteiras, e que sempre produz e controla a dinâmica dos corpos.), atua a revelia de tudo que venha da representação soberana do Estado. Em resumo: organizações políticas que não aparecem na política oficial executam poderes sobre o corpo cuja forma de operação ignora o que acontece nas proclamações e festejos da liberdade nas praças, nos parlamentos e na televisão.
O poder direcionado ao corpo, que o toma como “matéria” de suas operações, atua antes de tudo na relação do corpo com o território, ou seja, de modo a estruturar, a estabilizar expectativas no modo como o corpo ocupa o território. Nos dando um nome e assim dizendo onde é nossa casa, decretando nossa prisão, nos capacitando com recursos materiais e “imateriais” que nos credenciam a ocupar certos espaços etc. Nenhuma sociedade conseguiu tao bem fazer isso em detalhe, ainda que com enormes ansiedades geradas pela própria pretensão do controle sobre o rendimento do processo, como fez a sociedade moderna, espalhada pelo mundo todo. A política moderna vitoriosa é esta do corpo, convenientemente silenciosa, e não a política dos parlamentos, das eleições, da crítica, enfim, da democracia. A política do corpo que estrutura minuciosamente as possibilidades da ocupação do espaço começa na família. É nesta esfera institucional que o controle do espaço, através da exclusividade do território doméstico, e o controle do tempo, através do período reservado para a educação do filho, criam os pressupostos para tomar decisoes. A ideia de que a família é a “célula da sociedade” não poderia ser mais falsa. Tudo o que julgamos natural de ser praticado e estruturado na espera doméstica é o produto artificial (tornado realidade) de estruturas e poder sociais mais complexos que os laços de sangue ou qualquer coisa que possamos imaginar como “afeto espontâneo”. Laços afetivos, mesmo os reproduzidos no íntimo do lar, são socialmente estruturados já (embora também dentro) fora dele.

Um certo “instinto anarquista” incauto nos levaria a concluir que somente a “emancipação” deste poder seria algo em prol da democracia e da liberdade. O triunfalismo envolvendo o muro de Berlin é a visão de direita que insiste em ver somente na “emancipação” da organização estatal o caminho para a liberdade, como se (como sempre....) para participar do mercado não tivéssemos que desde sempre participar de alguma organização. No pano de fundo desta noção de “emancipação” está uma ideia de “liberdade” que nega a sua própria condição de possibilidade ao caracterizar sua negação como “imposição”, como se o indivíduo “livre” existisse contra o poder organizativo da sociedade, como se ele não fosse de modo organizado “tornado livre”. Uma crítica a este “como se”, a este passe de mágica discursivo, estará condenada a reproduzir uma exigência idealizada de democracia, cujo sentido é justamente ignorar que a política do dia a dia não é coordenada pela representação soberana e jurídica dela, enquanto não superar esta semântica da liberdade que esconde a gênese atualizada de todo agir livre: o acesso arbitrário a organizações que detêm a munição cognitiva e motivacional para a escolha e a decisão. Democratizar a política do mundo real é democratizar o acesso a organizações, desde a família nuclear até os meios de comunicação de massa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pensando o Simpósio de Jornalismo Científico na UENF: Ecos da palestra de Marcelo Canellas

Venho divulgar texto publicado no último sábado na Folha da Manhã devidamente comentado pelo jornalista boa praça Gustavo Smiderle da Assessoria de Comunicação de UENF (ASCOM/UENF). Como estamos nas vésperas do evento penso que de fato as questões aí apresentadas possam ser um nutritivo aperitivo do que terá lugar no I Simpósio de Jornalismo Científico.

Boa leitura!

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Em entrevista publicada na edição deste sábado (21/11/09) do jornal Folha da Manhã (www.fmanha.com.br), o jornalista Marcelo Canellas toca em vários pontos que deverão ser debatidos em profundidade durante o 1.º Simpósio Nacional de Jornalismo Científico, que se realizará dias 25 e 26/11, no Centro de Convenções da Uenf. De forma explícita ou implícita, Canellas antecipa diversas questões de fundo da programação do Simpósio.

O jornalista participou do chamado ‘Pré-Simpósio’, na última quinta, 19/11/09, ministrando a palestra ‘O papel do jornalista na comunicação da ciência’. A entrevista foi concedida ao repórter Ewerton Corrêa, do segundo caderno da Folha da Manhã.

Cabe registrar que a inscrição no Simpósio pode ser feita gratuitamente até 23/11/09, em www.uenf.br/simposio.

Eis os pontos levantados por Canellas, com grifos nossos, seguidos dos respectivos comentários:

        I - Traduzir a linguagem técnica, fugir ao hermetismo

        ‘A contribuição que podemos dar é perceber o que a universidade ou instituto de pesquisa fazem pela própria comunidade. Quais são suas ações e de que modo elas interferem na vida de um todo. E essa ideia de que o conhecimento é algo hermético, que deve ficar circunscrito aos muros das universidades vai contra a democracia. É aí que entra o papel do jornalista, no sentido de ajudar os cientistas e os pesquisadores a tornarem o conhecimento gerado por eles acessível à população.’

Comentário:

Este é o aspecto mais básico, o ponto de partida da discussão: a importância da abertura e reforço de canais de interlocução entre a academia e os demais âmbitos da sociedade. Este ponto tende a ser consensual, mas ainda não toca — como o entrevistado fará adiante — em questões teoricamente mais aprofundadas.

        II - Jornalismo com profundidade

        ‘Precisamos formar jornalistas mais familiarizados com esse tema, com mais ferramentas teóricas, para discutir esse assunto e apresentá-lo para a população que é completamente leiga. Eu não acredito que seja necessária uma formação específica, ou seja, ser um médico ou biólogo, basta exercer um jornalismo como deve ser exercido, com profundidade, buscando conexão entre causa e consequência e tentando explicitar realmente como surgiu determinado conhecimento, como foi gerado e para que ele vai servir.’

Comentário:

Jornalismo de verdade, aplicado a qualquer área (Economia, Política, Ciência, Esporte etc), envolve apreciação crítica, consulta a diferentes fontes, explicitação do processo (e não apenas do resultado), abordagem do ingrediente político (quais são os interesses envolvidos, quais foram as concepções ou visões que se confrontaram até que alguma prevalecesse etc.).

Esta temática levantada por Canellas deve permear todo o Simpósio, mas há de ser analisada mais especificamente na mesa ‘Por um jornalismo científico mais crítico’, dia 25/11, quarta, às 16h, com a participação de Cilene Victor da Silva (presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, ABJC), Ricardo André Vasconcelos (blog ‘Eu penso que...) e Adelfran Lacerda (ex-assessor de Comunicação da Uenf). O tema também é tocado pela presidente da ABJC na entrevista ao próximo número da revista Nossa Uenf (http://www.uenf.br/index.php#paginas/1233180726), que circulará a partir do Simpósio.

        III - Prioridades nas pesquisas

        ‘Um exemplo concreto é que das quatro principais doenças negligenciadas do mundo, três acontecem no Brasil. São doenças negligenciadas por falta de pesquisas científicas. A única que não acontece no Brasil é a doença do sono,existente na África. Mas a malária, leishmaniose e a doença de Chagas são todas elas doenças infecciosas originárias da pobreza, e os laboratórios não têm interesse em pesquisar. Então, caberia às universidades e institutos de pesquisa fazerem isso. Além disso, está faltando da parte da imprensa brasileira colocar esta discussão na sociedade. São milhões de brasileiros que estão carentes desse conhecimento’.

Comentário:

Por aqui se vê que a tarefa do Jornalismo Científico é bem mais complexa do que apenas ‘traduzir’ a informação científica para uma linguagem acessível. Quem decide sobre o que é prioridade nos investimentos em ciência e tecnologia? Como decide? Que interesses estão em jogo? Parece claro que o processo será mais transparente e democrático na medida em que setores mais amplos da sociedade sejam informados sobre estas questões.

O Simpósio terá uma mesa com representantes das três principais agências estaduais de fomento do país (Fapesp, Faperj, Fapemig). Eles vão debater os parâmetros que têm regulado o apoio à divulgação científica por parte destas instituições. Será em 26/11, quinta, às 14h.

        IV – Espaços para ciência na mídia

        ‘Existem jornais que têm espaços reservados para ciência e tecnologia, mas ainda é um espaço pequeno. Existe uma demanda reprimida que não é atendida pelos meios de comunicação.’

Comentário:

O aspecto qualitativo das matérias científicas é crucial, mas não é possível pensar em informação qualificada, elaborada e reflexiva sem espaços na mídia. Esta é uma questão nacional, que também cabe no contexto local de Campos (RJ) e região.

No âmbito local, em termos quantitativos, perdemos, junto com a interrupção na circulação do Monitor Campista, uma página semanal de noticiário sobre ciência e tecnologia. Em termos qualitativos, seria o caso de aproveitar o Simpósio para tentar propor a instalação de editorias de ciência nos nossos veículos de comunicação. O material produzido pelas assessorias é um avanço em relação à ausência de matérias sobre ciência, mas o horizonte a ser perseguido provavelmente é o de redações que utilizem estes releases como matéria-prima para suas próprias construções.


Leia também:

Cobertura da palestra de Canellas feita pela Ascom/Uenf:

http://www.uenf.br/index.php#paginas/1233180726

Doação de Cães - UENF

Prezad@s,


Está ocorrendo na UENF uma campanha para que os cães ali do campus, quase patrimônio histórico da instituição, tenham um lar de verdade.

Eis aqui os telefones da UENF: http://www.uenf.br/arquivos/PORTAL_UENF/arquivos/LISTA_TELEFONICA/lista_GERAL_ordem_alfabetica__atualizado_em_15_07_09.pdf

Caso tenham interesse vocês podem tentar entrar em contato com a prefeitura do campus, creio eu, para realizar esta boa ação.

Admito que não entendi exatamente como um animal pode ter morrido sem cuidados veterinários em uma universidade que possui um curso de "medicina veterinária". Ou ao menos eu pensava que existia algo assim por ali...

Mas.. divulgo as informações. Infelizmente aqui o quintal já possui dois adotados o que me impossibilita de dar uma força..

Abçs e divulguem a informação,

George

Adote um cachorro do campus

A Prefeitura da Uenf está dando início a uma campanha para retirar os cães que vivem no campus da Universidade. A ideia é transferir os animais para a Associação de Proteção aos Animais (APA), mas, para isso, a entidade necessita de doações. Quem puder ajudar deve entrar em contato com a Prefeitura da Uenf.

- Muita gente alimenta estes cachorros aqui dentro do campus, só que isso não basta. Eles precisam de um lugar seguro para ficar, porque aqui dentro vêm ocorrendo muitos problemas com eles - explica o prefeito da Uenf, professor Paulo Maia.

Os cachorros deverão ser transferidos para a Associação Protetora dos AnimaisSegundo Paulo Maia, já foram registrados quatro casos de atropelamentos de cães dentro do campus. Uma morte de um animal, por falta de cuidados veterinários. E, recentemente, um caso de ataque de cachorros a uma mulher dentro da Universidade, próximo da entrada principal, sem maior gravidade.

- Alimentar os cães não é suficiente, porque eles também precisam de atendimento veterinário. Além do risco de atropelamentos, há ainda a questão das zoonoses - afirma.

Segundo o professor, existem atualmente nove cães residindo dentro do campus da Uenf. Para cuidar de todos eles, a APA precisa de aproximadamente 15 kg de ração por mês. Os membros da comunidade universitária que se dispuserem a "adotar" um cão receberão da APA a orientação necessária para que as doações sejam efetivadas mensalmente. Paulo Maia informou que, uma vez retirados os cães, serão tomadas providencias para evitar a permanência de outros animais dentro do campus.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Palestra Marcelo Canellas hoje, 16h, no Centro de Convenções - UENF

Repassando recado da ASCOM/UENF

À comunidade universitária,

Reforçamos o convite para a palestra de hoje (quinta, 19/11), às 16h, a ser ministrada pelo jornalista Marcelo Canellas, no Centro de Convenções. Canellas, que ganhou mais de 20 prêmios nacionais ou internacionais, vai falar sobre 'O papel do jornalista na comunicação da ciência'.

Aberta ao público, a palestra é uma prévia do 1.º Simpósio Nacional de Jornalismo Científico, que ocorrerá na próxima semana (quarta e quinta, 25 e 26/11), no Centro de Convenções.

Para quem deseja participar das demais atividades do Simpósio, as inscrições continuam abertas até 23/11, em www.uenf.br/simposio. Já somos mais de 400 inscritos, mas ainda há vagas.

Comissão Organizadora / Ascom

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

XXIV ENCONTRO FRANÇA-BRASIL


- 23 de novembro de 2009 -
19h30: Recepção de boas vindas aos convidados.
Local : Hall do Liceu de Humanidades de Campos.
Exposição de reproduções de pinturas francesas.
20h: Jantar.

- 24 de novembro de 2009-
8h30: Abertura oficial com a execução dos hinos nacionais da França e do Brasil.
Local: Hall do Liceu.
9h: Apresentação de capoeira com Mestre Peixinho e sua equipe.
Local: Quadra de esportes do Liceu.
10h: Apresentação dos alunos do ensino médio.
Local: Quadra e auditório do Liceu.
12h: Almoço.
14h: Apresentação dos alunos do ensino fundamental.
Local: Auditório do Liceu.
16h: Pausa-café.
16h30: Palestra com Mme Chambeu.
Local: Hall do Liceu.
19h: Café Literário na quadra de esportes.
20h: Apresentação dos alunos do CELEMO.
Local: Auditório do Liceu.
21h: Apresentação do Coral da Faculdade de Direito de Campos, sob a regência do Maestro Jardel Maia.

Obrigada por sua presença, ela é muito importante para o sucesso do nosso trabalho !

Merci beaucoup !

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Entrevista ao Jornal O Diário (Parte 1)



A última vez que fui a Campos tive a oportunidade de conceder uma entrevista (que saiu hoje no jornal o diário http://www.odiarionews.net/wordpress/?page_id=35) ao simpático e inteligente jornalista Paulo Renato Pinto Porto. Aproveito este espaço para agradecer-lhe o convite, e ainda dizer que tivemos um interessante papo. Falamos de vários assuntos, desde a política local, passando pela nacional e internacional. Mas como o jornal impresso é limitado materialmente, ou seja, o espaço do papel é pequeno para análises mais profundas, é sempre impossível transmitir para leitor todo o conteúdo da conversa, a qual serve de base para a entrevista. Devido a isso, aproveitando a gancho me concedido pelo jornalista Paulo Renato Pinto Porto na entrevista, lançarei mão de nosso blog para alongar as minhas análises feitas na conversa que tive com ele.

Dedicar-me-ei aqui a respeito de três eixos da entrevista que considero importantes. O primeiro se refere às relações entre a UENF e a cidade de Campos (Parte1), e o segundo ao movimento político muda Campos e as transformações políticas deste movimento, assim também como sobre a figura de maior destaque político deste movimento, i.e., Garotinho (Parte 2), e um terceiro referente às experiências de um goytacá na Prússia, os choques culturais da vida num país tão diferente culturalmente (Parte 3).

Parte 1: A UENF e a cidade de Campos

Ao tentar entender esta difícil relação, não podemos nos furtar de analisar a sua gênese. O processo de implantação da UENF, como nos conta a bela pesquisa feita pelo sociólogo Glauber Rabelo, foi um processo traumático, dentro do qual, uma série de disputas políticas estavam em jogo. De um lado estava a “elite intelectual” local, representada pelas universidades particulares do município, sobretudo aquelas ligadas às humanidades, como a FAFIC e a faculdade de Direito de Campos. Estas tinham um projeto de universidade do norte fluminense, que seria mais ou menos a união delas, formando o que temos hoje na Uni-Flu. Do outro, estava Darcy Ribeiro, um homem cheio de sonhos e vontades titânicas que queria criar no interior do Rio de Janeiro uma universidade de patrão internacional. A partir deste ponto o conflito já estava posto, uma “elite intelectual” local que não queria perder seu poder, e do outro um político sonhador, dado a certos autoritarismos, que não reconhecia qualquer traço intelectual mais profundo na elite local, porque não via neles a vocação para a pesquisa e assim a possibilidade de se formar uma esfera propriamente acadêmica.

O segundo ponto do conflito se dá coma chegada dos professores da UENF. Ocorre aí um estranhamento mútuo, deles para com a cidade e da cidade para com eles. Muitos setores do município, assentados nos seus temores de perder o seu poder, estimularam na população um xenofobismo provinciano de ódio aos professores da UENF. Como se estes fossem forasteiros a sugar algo do município sem ter qualquer relação com ele, ou dar algo em troca. Ou espalhar a falácia que estes recebiam salários faraônicos à custa da pobreza da população local. Por outro lado, muitos professores não mostraram o menor interesse em ter um contato mais estreito com a cultura local, assim de algum modo, estimulando os preconceitos lançados contra eles. Esses dois quadros formaram uma cisão entre a cidade e a universidade de difícil reconciliação.

E é sobre esta reconciliação que queria enfatizar. O desafio das gerações presentes é o de dar novos contornos a essa história. A cidade com um todo, mas em especial as elites intelectuais e políticas locais, precisa entender que a UENF faz parte de Campos, a história de sucesso que a UENF vem construindo é sucesso também de Campos dos Goytacazes. E por outro lado será importante a incorporação de um quadro de professores e funcionários que tenham uma identificação afetiva com a universidade. Isso não quer dizer que seja eu contrário àqueles que não a tenham, mantendo uma relação tão somente profissional com a universidade, porém, só com estes é impossível construir o papel atuante na vida social e política que eu creio que uma universidade deve ter.

Eu sou muito otimista quanto a isso. Eu acredito muito como também espero que, em breve, poderemos olhar para a UENF e ver nela um papel decisivo para a história da cidade e da região no século XXI, tal como a escola de aprendizes e artífices (Escola técnica, CEFET, IFF) teve ao longo do século XX em Campos e na Região.

sábado, 14 de novembro de 2009

Palestra: UFF- Campos - "Cartas Sem Endereço"

CARTAS SEM ENDEREÇO: CONVERSAÇÕES SOBRE PESQUISA, TRABALHO DE CAMPO &ETNOGRAFIA NO MEIO URBANO

PALESTRA

Professor Doutor Marco Antônio da Silva Mello (Coordenador do LeMetro/UFRJ e Professor do Departamento de Antropologia da UFF e da UFRJ)


Na ocasião será exibido o filme etnográfico “10 Rue Lesage-Belleville: arqueologia urbana de um bairro popular parisiense".

Local: Auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC).

Horário: 18-21 hs.

Dia 18/11/09 (quarta-feira)

Realização: Coordenação do Curso de Ciências Sociais do Pólo Universitário da Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes.

Apoio: Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (InEAC/INCT/UFF).

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Prorrogadas as inscrições para o I Simpósio Nacional de Jornalismo Científico (UENF)

I Simpósio Nacional de Jornalismo Científico

Comunicação de temas científicos para a sociedade em geral entra em pauta na Uenf.
Foram prorrogadas até 23/11/09 as inscrições para o 1.º Simpósio Nacional de Jornalismo Científico, que se realizará em 25 e 26/11/09, no Centro de Convenções da Uenf. Numa prévia do evento, o jornalista Marcelo Canellas, repórter especial da Rede Globo, ministra palestra durante o Pré-Simpósio, em 19/11, às 16h, no mesmo local. Cerca de 270 participantes se inscreveram no Simpósio durante o prazo inicialmente estabelecido.

O Simpósio vai reunir alguns dos mais importantes pesquisadores e profissionais da área de jornalismo científico do país, como o editor da revista Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli. Jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em Ciência pela USP, ele vai ministrar, no dia 25/11, às 15h, a palestra de abertura do Simpósio, intitulada 'Percepção pública da ciência: responsabilidades da mídia e do jornalista'.

No mesmo dia, às 16h, a mesa-redonda 'Por um jornalismo científico mais crítico' vai reunir o professor Cidoval Moraes de Souza (Universidade Estadual da Paraíba), a jornalista Cilene Victor da Silva (presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico-ABJC) e o jornalista Ricardo André Vasconcelos (autor do blog 'Eu penso que...'). A mesa será mediada pelo jornalista Martinho Santafé (Revista Visão Social).

Às 18h30, será realizado debate sobre o tema 'Cientista e divulgação: o papel das universidades e instituições de pesquisa', reunindo os jornalistas Maurício Yared (editor do programa Globo Universidade), Cláudio Márcio Magalhães (presidente da Associação Brasileira de TVs Universitárias-ABTU) e Adelfran Lacerda (ex-assessor de Comunicação da Uenf). A mediação do debate ficará a cargo da jornalista Fúlvia D'Alessandri, da Assessoria de Comunicação da Uenf.

No dia 26/11, às 14h, haverá mesa-redonda sobre o tema 'Apoio à divulgação científica', reunindo dirigentes de agências de fomento. As três Fundações de Amparo à Pesquisa mais importantes do país estarão representadas por Roberto Dória (chefe de Gabinete da Presidência da Faperj), Mariluce Moura (diretora de Redação da Revista Fapesp) e Vanessa Oliveira Fagundes (assessora de Comunicação da Fapemig). Em seguida, às 16h, o professor Luiz Antônio da Silva Teixeira, da Fiocruz, ministra palestra sobre o tema 'A cobertura jornalística da gripe suína no Brasil - uma abordagem a partir da História da Ciência'.

Fechando a programação, será realizada às 18h30 a Roda de Ciência sobre o tema 'A compreensão pública da ciência no século XXI'. Os debatedores serão a professora Maria das Graças Caldas (Unesp), o professor Walter Ruggeri Waldman (LCQUI/Uenf) e o jornalista Maurício Tuffani (Assessor de comunicação da Unesp e editor do blog Laudas Críticas). A Roda será moderada pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação do jornal Folha da Manhã, de Campos.

O Simpósio terá ainda dois minicursos (sobre tratamento de imagem digital e confecção de blogs) e uma série de atividades paralelas.

Fonte: http://www.uenf.br/

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Por que Luiz Inácio desagrada Caetano Veloso


Pensei em escrever alguma coisa sobre o Caetano, mas encontrei este texto que diz tudo o que eu gostaria de dizer.


por Marta Peres, Professora da UFRJ,
publicado no blog www.viomundo.com.br, do Luis Carlos Azenha

Grande artista, não faz falta a Caetano Veloso um diploma de nível superior. Seus recentes comentários injuriosos a respeito do presidente com a maior aprovação da História do Brasil são indiscutivelmente coerentes - com sua visão de mundo, com a visão da classe a que pertence, assim como dos meios de comunicação que as constroem incansavelmente, bloqueando qualquer ensaio de questionamento ao seu insistente pensamento único.

Ao se referir a Lula como 'analfabeto', o termo está sendo utilizado de forma equivocada, pois 'analfabetismo' significa 'não saber ler nem escrever'. Imagino que ele esteja se remetendo, de maneira exagerada, ao fato de Lula não ter diploma de graduação, coisa que o compositor tampouco possui. Esse tipo de exigência não é nem mesmo cogitada ante outros artistas geniais como Milton, Chico, Cora Coralina... Gilberto Gil, ex-ministro do governo Lula, graduou-se, mas não em música... 'Ah, mas eles são artistas...'. E não seria a Política uma arte? Um pouco de Platão e Aristóteles não faz mal a ninguém...

Quanto à suposta 'cafonice' de nosso presidente, situado na revista americana Newsweek em 18° lugar entre as pessoas mais poderosas do mundo, Pierre Bourdieu (1930-2002) nos traz uma contribuição preciosa. De origem campesina, como Lula, o sociólogo francês criou conceitos que desmoronam o velho chavão do 'gosto não se discute'. Para Bourdieu, não só se deve discutir, como estudar, compreender, aquilo que se trata de, mais que uma questão de 'classe', uma questão de 'classe social'. Além do enorme abismo do ponto de vista propriamente econômico, os 'gostos diferenciadores', referentes ao 'estilo de vida', consistem na maior marca de violência simbólica e num fundamental instrumento de legitimação da dominação das classes dominadas pelas dominantes. Não somente é desigual a distribuição de renda numa sociedade dividida em classes, mas também o acesso à educação formal e informal - o hábito de freqüentar museus, espetáculos de teatro, música, dança - à sofisticação do vocabulário, às regras de etiqueta, à constituição da apresentação pessoal, dos 'modos' e atitudes corporais.

Obviamente, alcançar maior poder aquisitivo não possibilita a aquisição desse 'capital cultural' adquirido ao longo de toda uma vida no convívio com 'outras pessoas elegantes', ou seja, com a 'elite'. Uma expressão precisa para designá-las, utilizada corriqueiramente na Zona Sul do Rio, é 'gente bonita' - como sinônimo de portadores de determinadas marcas de classe evidentes pelo vestuário, linguajar, cabelos, corpos, modos, atitudes. Bourdieu demonstrou os aspectos, às vezes despercebidos, da 'construção social' do gosto, seja o gosto de Caetano, das elites, dos que gostariam de ser elite, pretendendo se distinguir da massa supostamente 'inculta'. Em outras palavras, as classes às quais pertencemos determinam, em grande parte, nossos critérios aparentemente inatos do que vem a ser elegância, numa relação de constante imitação, pelos 'cafonas', dos considerados detentores dos critérios de julgamento estético.

Lula não segue a corrente dos imitadores: mantém-se fiel à cafonice que o identifica com suas origens populares. Ah, como isso incomoda...

Embora seja assistido desde tempos imemoriais, lembrando que Norbert Elias estudou como a nobreza francesa era imitada por suas congêneres do resto da Europa no Ancien Régime, aqui, no Brasil, o fenômeno da distinção alcança as fronteiras do 'nojo', das reações fisiológicas desagradáveis, diante de tudo que possa remeter a atributos das classes populares, tudo que venha do 'povão'.

Não é à toa que o REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais que tem como objetivo "criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível da graduação, pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas Universidades Federais" - seja alvo de críticas ferrenhas, apesar de vir ao encontro de demandas por mais vagas já presentes nos protestos estudantis da França e do Brasil há quarenta anos, os quais, aqui, jamais sequer haviam sido objeto de atenção pelos governos. A demanda por cidadania e não por privilégios restritos é assunto que dá nojo, dá 'gastura', como se fala no interior do Brasil. Mas isso são outros quinhentos...

Embora o acesso universal à educação deva ser uma meta, podemos questionar - como muitos eminentes acadêmicos questionam - que a universidade seja a única fonte de conhecimento legítimo, sob o risco de repetirmos, em outros moldes, o papel de detentora do saber exercido pela Igreja Católica Medieval. O que seria de nós sem a contribuição inestimável de tantos notáveis que por ela não passaram?

Pode-se argumentar, contudo, que o referido compositor não tem preconceito de classe ou contra a falta de diploma, pois pretende votar em Marina Silva que, como Caetano, não possui graduação, e que, como Lula, tem origem humilde. (O curioso é que, sendo a candidata à sucessão de Lula uma economista, dessa vez, a mesma é cobrada por não possuir mestrado e acusada de ter lutado contra a ditadura militar: sempre inventarão motivos contrários a políticas públicas que ferem ideais de distinção de classe). Ao contrário do que parece, os atributos de Marina caem como uma luva para nossa conservadora classe média leitora do Globo e da Veja e que jamais se assumirá preconceituosa: portar a nobre e indignada bandeira da causa verde faz disparar sua pontuação no quesito 'elegância'. Os que se preocupam ardentemente com a possibilidade de vida de seus netos e bisnetos são tocados em seu íntimo pelas questões ligadas à salvação das florestas.

Só que, mais uma vez, como a História sempre ajuda a enxergar, o buraco - na camada de ozônio - é mais embaixo: a destruição do planeta é a consequência inexorável de um sistema perverso que nele vem se instalando há alguns séculos. Ao longo de suas notáveis transformações, atingiu um ponto em que passou a se dar conta de seu próprio potencial de destruição e de identificar na preocupação com a natureza uma boa - e quem sabe, lucrativa - causa.

Do ponto de vista das chamadas 'Gerações' de Direitos Humanos, ao longo dos desdobramentos do capitalismo, a causa ecológica nasceu como a terceira filha. Enquanto a primeira, a segunda e a terceira gerações são identificadas com os ideais da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - a quarta, mais recente, relaciona-se a questões da Bioética e aos movimentos de segmentos minoritários ou discriminados da sociedade. A liberdade refere-se aos direitos civis e políticos, chamados de 'direitos negativos', pois limitam o poder exorbitante do Estado, que deve deixar o indivíduo viver e atuar politicamente. A igualdade consiste na luta pelos direitos sociais, culturais, econômicos, e demandam uma atuação 'positiva' do Estado no sentido de realizar ações que proporcionem condições de acesso de todos os indivíduos à educação, saúde, moradia, assistência social, dignidade no trabalho. Finalmente, a fraternidade esta ligada à ecologia, à preocupação com o destino da humanidade, irmanada por sua condição de habitante do planeta Terra.

Como se situaria o Brasil nessa História? Não vivemos mais no tempo de Marx, das jornadas de trabalho de 18 horas que não poupavam mulheres e crianças caindo mortas de fome ao redor das grandes máquinas sujas das fábricas. Hoje, longos tentáculos buscam mão de obra barata como a planta se dirige à luz do sol e os dejetos - da poluição e os seres humanos excluídos da participação em suas benesses - são escondidos do campo de visão dos que têm 'bom gosto'. Depois de destruir suas próprias florestas, os países ricos se preocupam e ditam regras da etiqueta politicamente correta aos pobres, abraçando a 'causa ecológica' com a mesma eloqüência que ontem defenderam que a 'mão invisível do mercado' traria a felicidade geral. Hoje, uma mão visível segura imponente a bandeira do orgulho verde. Porém, o corpo do qual faz parte constitui-se de fome, miséria, doença, condições abaixo de qualquer noção de dignidade da pessoa humana. A bandeira parece ser de um médico, mas o sujeito que a segura é um 'elegante' monstro. Chega a ser apelativo falar em salvar o planeta tirando de contexto uma causa que ninguém ousará contestar. Mas que tal pesquisar casos concretos de vínculos incontestáveis entre partidos verdes de diferentes países com os setores mais conservadores das respectivas sociedades? Visualizando a imagem do monstro, de braços dados com uma chiquérrima Brigitte Bardot salvando animais, faz todo sentido. A Bela e a Fera...

De modo algum defendo qualquer teleologia e que tenhamos que passar por fases que os outros já passaram. Nem que os sete anos de Governo Lula tenham se proposto a enfrentar bravamente, contra tudo e contra todos, o capitalismo que domina quase toda a superfície do planeta. Ninguém falou em Revolução, aliás, não era esse o combinado. Apenas assisto a um esforço hercúleo de instaurar políticas que ferem o coração desses mecanismos de violência, real e simbólica, que o julgamento do que é ou não cafona só vem a perpetuar, no sentido de minimizar o enorme fosso que separa os que têm e os que não têm acesso a conquistas históricas impreteríveis do Ocidente, independentemente de obediência a qualquer cronologia, identificadas com os direitos humanos: combate à fome à miséria, acesso universal à educação, à energia elétrica, diminuição da desigualdade ímpar que nos assola. Fraternidade, também quero, mas junto com a Liberdade, e principalmente, o que mais nos falta, Igualdade! Não igualdade no sentido anatômico, igualdade de condições, junto com a quarta geração.

Não indignar-se com a miséria, agarrar-se ferrenhamente a seus privilégios, assim como espernear diante de sinais de mudança, faz parte do aprendizado de cegueira, inércia e arrogância por que passam nossas elites com seu gosto sofisticado. Mas ao contrário de um regime de concordância geral, o ideal de democracia é caracterizado justamente pela coexistência de opiniões diversas a respeito das políticas do governo. À insatisfação proveniente de certo campo ideológico correspondem, certamente, avanços jamais assistidos na História do Brasil. Com vínculos ideológicos resumidos na figura de ACM, nutridora de uma ordem social desigual desde 1500, existe uma indiscutivelmente sincera elite baiana à qual, desagradar, é sinal de que Lula está no caminho certo!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Excluvismo agrário versus democracia rural

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Não causou surpresa a posição da senadora Kátia Abreu (DEM-TO) frente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Não poderia ser diferente por parte da “democrata” (sic) e dos demais intelectuais orgânicos do patronato fazendeiro cuja influência na política agrária se amplia com o monopólio da informação estabelecido neste país. Ademais, seria ingênuo pensar que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do MST é um fato político haurido apenas no calor das discussões sobre a ocupação recente da fazenda Cutrale em Iaras - SP por militantes sem-terra, embora a repercussão do evento tenha sido capitalizada com certo êxito pela bancada ruralista do Congresso em sua oposição àquele movimento social. O interesse de classe latente nessa nova investida contra o MST tem nome, o exclusivismo agrário, uma estrutura de poder que parece ditar o ritmo da mudança social tal como uma doença resistente a quaisquer remédios reformistas surgidos nesta ou naquela conjuntura. Antes de esboçar uma análise do conflito entre donos de terra e sem-terra no Brasil convém delimitar suas razões contrapostas desde a instauração da CPI do MST há pouco mais de duas semanas (21/10).

Comecemos pela justificativa de seus propositores. Em reportagem publicada no Estadão [1], Kátia Abreu, que além de senadora é presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), diz que o objetivo da CPI é apurar possíveis irregularidades decorrentes da não prestação de contas de recursos da União e de organizações internacionais destinados ao MST. O mote para tal investigação parlamentar remete a uma reportagem da Veja. Quanto à linha editorial desta revista reservo ao leitor o melhor juízo (valendo o mesmo para o jornal mencionado). Citando exclusivamente essa revista em um de seus pronunciamentos no Plenário do Senado, Kátia Abreu bebe da fonte e defende que os “atos ilícitos” do MST não podem ser aceitos, entre outros motivos, por reforçar a ausência de transparência pública do financiamento de suas atividades. Lançando mão de tal denúncia, a senadora questiona a legitimidade do movimento para propor uma revisão dos índices de produtividade como critério para a manutenção ou desapropriação de terras, pois, a seu ver, o MST não poderia exercer qualquer contestação desses índices enquanto promover ações que atentem contra o Estado de direito tais como invasões de prédios públicos e de fazendas. A senadora afirma ainda ser inadmissível resumir à noção de latifúndio improdutivo as propriedades rurais cuja produção equivale a um terço do PIB e que constituem o único setor a manter a balança comercial positiva.

Em nota de esclarecimento da Direção Nacional do MST [2], a denúncia passível de ser averiguada por uma CPI assume outro contorno. O movimento defende a convergência de sua causa, a democratização da terra, com a Constituição Federal que preconiza a desapropriação de propriedades rurais que não alcancem uma margem mínima de produtividade prevista em lei; explorem de modo insustentável os recursos naturais; não cumpram os direitos trabalhistas; e promovam o uso da terra para o contrabando ou cultivo de drogas. O critério de ocupação das propriedades rurais adotado pelo MST não é aleatório, pois observa uma ou mais condições legalmente prescritas para enquadrá-las no programa nacional da reforma agrária. Ressalta-se ainda na nota que o resultado do Censo Agropecuário de 2006 [3] aponta a persistência da concentração fundiária no país, uma das maiores do mundo, que alude à situação de uma fração diminuta dos proprietários rurais (1%) deter o controle de quase metade do território nacional (46%). A Direção Nacional do MST não desconhece a ocorrência de “desvios de conduta” em determinadas ocupações que se distanciam de sua linha política e induzem a uma visão distorcida do movimento. No entanto, a Direção ressalva haver em sua militância de base uma “infiltração” de agentes do latifúndio e/ou da polícia que manejariam ardilosamente esses desvios.

A meu ver, o ponto a ser discutido não é a maior ou menor permissividade no recrutamento de quadros do MST ou eventuais ganhos políticos da bancada ruralista em seu trânsito privilegiado com a imprensa tradicional, pois estas variáveis mais refletem do que determinam os limites da ação coletiva orientada por lutas redistributivas quando estendemos o escopo da análise acerca das dificuldades de viabilizar um novo estatuto da terra e, por conseguinte, uma reordenação institucional da estrutura de poder que sustenta o exclusivismo agrário. Uma ponderação feita por Roberto Torres em texto recente aqui no blog, “Sobre a CPI do MST”, ajuda-nos a interpretar o problema: “Como essa gente humilhada e desacreditada todos os dias consegue encontrar força para lutar por um futuro coletivo e construir solidariedade entre si não é nada óbvio, mas um fenômeno altamente improvável”.

Por que improvável? Esta pergunta suscita outras: quais segmentos correspondem ao patronato fazendeiro e à massa de trabalhadores rurais sem-terra e qual o peso relativo de cada um a partir de suas posições antagônicas na estratificação social? Entre os primeiros predominam oligarquias compostas de latifundiários, usineiros e pecuaristas cujo poder funda-se na grande propriedade e no controle da mão-de-obra mediante diversas relações de trabalho que, em alguns casos, recaem em formas contemporâneas de escravidão (vale a leitura do texto "Melaço de sangue", postado por Xacal em http://atrolha.blogspot.com). Essas oligarquias transigem facilmente com o ethos empresarial da agricultura modernizada sem, no entanto, deixar de configurar o segmento mais retrógrado da classe dominante brasileira. Com relação aos sem-terra, mesmo que se queira caracterizá-los pela noção usual de campesinato há de se fazer o devido reparo histórico, pois não se confundem com assalariados rurais, parceiros ou minifundistas senão com uma camada oprimida que se distingue nas classes dominadas do campo ou da cidade por sua luta diária para mobilizar os parcos recursos com os quais consegue minorar a fome e outras privações, não poucas vezes sob ameaça da violência privada de fazendeiros.

Ora, realmente é de se admirar que de um estado de miséria tenha se consolidado uma experiência auto-gestionária como o MST. Subscrevo o argumento de Roberto Torres de que é justamente isso o que assusta. Como esse contingente numeroso, embora pequeno diante das várias categorias de trabalhadores urbanos, provoca tamanha reação em determinados setores da sociedade brasileira? A despeito de valores de feição tradicionalista passíveis de ser atribuídos àquele movimento popular, trata-se, efetivamente, de uma insubordinação às formas arcaicas de vida em que seus membros estão presos antes por constrangimentos objetivos do que por qualquer espécie de apego a uma ilusória comunidade perdida, pois só podem mesmo condenar-se ao futuro ao romperem com as relações de subordinação pessoal vigentes no mundo rural. O temor é que essa idéia de futuro traduza um projeto societário suficientemente abrangente para se contrapor à comunidade de interesses instituída na expansão da fronteira agrícola.

Qual é o projeto dos ruralistas para o Brasil? Em síntese: transformar o país em uma imensa plantation sem deixar nenhuma margem a um modelo de produção que redefina a política social para o mundo rural. A posse da terra parece ser entendida como um direito consuetudinário para a senadora Kátia Abreu e os ruralistas a ela afinados quando expõe com uma clareza desconcertante os limites estreitos do projeto pelo qual ousa defender o indefensável: o acesso aos cofres públicos para financiar suas safras liberado de qualquer mecanismo de revisão dos índices de produtividade agrícola. O que justifica a (falsa) polêmica em torno desses índices, na medida em que ainda são balizados pelo Censo Agropecuário de 1975? Por que há temor entre os ruralistas se o setor agrícola bate recordes de produtividade quase que anualmente? A resposta é simples: qualquer expediente de regulação estatal da propriedade rural deve ser confrontado, porque implica na possibilidade de a terra ser pensada como um bem público e, logo, de esta orientação normativa dotar-se de eficácia nos conflitos de interesses envolvendo a reforma agrária. Daí o questionamento do repasse de recursos públicos ao MST sob a comparação absurda do padrão de produtividade de seus assentamentos com o respectivo à monocultura de exportação da grande propriedade.

Mesmo que quiséssemos resumir o debate a uma questão de desempenho econômico, não deixaria de ser duvidoso o progresso alcançável num quadro de dependência tecnológica de parcela significativa dos insumos (sementes geneticamente modificadas) e adubos pelos quais se pagam royalties a grupos transnacionais titulares de suas patentes. Ademais, a produtividade do setor agrícola ainda é associada ao mito da eterna elasticidade da oferta de terras que resulta, na prática, em grilagem e na ocupação de áreas submetidas à proteção permanente pela legislação ambiental. Um modelo de produção cujo progresso técnico não se converte em saltos qualitativos na oferta de alimentos para o mercado interno. Não obstante, há uma dimensão do problema agrário brasileiro não restrita ao campo econômico. Joel Rufino dos Santos a apreende de modo esclarecedor quando define os sem-terra como a materialização de uma “anomalia histórica” do território brasileiro [4]. Para Santos, o caráter anômalo de nosso processo de territorialização é a convivência de “povo” e “população” no mesmo espaço. Há uma homologia estrutural entre os sem-terra e a escravaria colonial por constituírem antes uma população do que um povo, já que o seu lugar na estratificação social implica estar no Brasil sem ter um lugar em seu território:

“Os elementos característicos do Estado-nação se apresentam no Brasil como retardo. O mais grave desses retardos, o que engole sistematicamente os projetos de desenvolvimento econômico e social, é a desterritorialização primitiva. A posse da terra funda a democracia rural, a apropriação do território funda a nação – esta diferença tem escapado, em geral, aos observadores de nossa história social. Os pobres no Brasil não descendem, como na Europa, de expropriados dos meios de produção, mas de escravos e servos, o que significa despossuídos. O que definia o escravo (negro ou índio) era, antes de tudo, a não-posse do seu próprio corpo – e a ocupação do território é o fundamento do que, no Ocidente, chamamos pessoa humana” (SANTOS, 2004, p.216).

Não é a toa que além dos muitos, mas insuficientes, assentamentos consolidados mediante o aporte do Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra), os integrantes do MST ocupem um lugar intersticial no espaço físico e social – os acampamentos entre a cerca e a estrada –, demarcando para parte das massas rurais a parte que lhes cabe na divisão do trabalho: nada. Mesmo a aspiração acalentada por um militante sem-terra de simplesmente partilhar o mínimo socialmente aceitável na distribuição da riqueza a partir de um papel ancilar ao setor agrícola – os cultivos em pequena escala para o abastecimento de mercados locais – é tomada como uma virtual ameaça à conservação das condições adscritas do poder do latifundiário-oligarca, pois qualquer projeto de reforma agrária esbarra na rede de privilégios instituída no monopólio da terra. Daí a obsessão sociopata com a manutenção da ordem, mesmo que em bases ilegais, como o caso “Cutrale” o confirma, uma vez que a primeira “invasão” praticada fora a da empresa ao grilar terras públicas no município de Iaras - SP para a instalação de sua fábrica de sucos, uma informação que longe esteve de configurar o foco da cobertura jornalística. Um dado “menor” em face do efeito performativo produzido pela imagem de destruição de laranjais. Algo a ser avaliado pelo MST em sua ação estratégica.

Ao menos há um ganho inequívoco nessa ocupação. Na luta pela ampliação do possível o MST alcançou o "improvável": o capital cede terreno às lutas sociais por redistribuição, vide a recente e inédita devolução de terras griladas à União por parte de um representante do patronato fazendeiro, a Cutrale, que publicizou a revelância de as terras serem destinadas à reforma agrária [5]. Pasme, até o staff da Cutrale, cuja totalidade de terras ultrapassa em muito a área que grilou em Iaras - SP, consegue ser menos reacionário do que a bancada ruralista em sua posição irredutível de criminalizar esse movimento social.

[2] Disponível em: http://www.mst.org.br/node/8319.

[3] Disponível em:
[4] Cf. Santos, Joel Rufino de. Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres? São Paulo: Global, 2004.

domingo, 8 de novembro de 2009

Como o PT e Lula deveriam considerar a análise de FHC?

O artigo de FHC publicado no último domingo ainda repercute e talvez ainda irá repercutir por um tempo.... A motivacao do autor, junto com a incoerencia e os interesses implícitos dos argumentos, sao questoes centrais para discutir o "diagnóstico trágico" apresentado por FH. Acho que durante esta semana isto foi bastante discutido....

Por outro lado, será que interessa ao debate político e ao avanco da democracia somente considerar o diagnóstico da perspectiva de uma suspeita sobre seu autor? Será que é desejável, inclusive para o governo e o projeto político do PT, uma recusa a debater e enfrentar com argumentos as críticas do "princíope dos sociólogos"?

Confesso que fui convencido pelo Jornalista Alon Feuerwerker de que o PT e Lula ainda precisam responder com argumentos, sobretudo porque existem argumentos, ao diagnóstico do "caminho da servidão" (subperonismo, autoritarismo popular) do FH..... FH nao é burro, ainda que seja cínico.... e o PT nao pode menosprezar a importancia deste embate intelectual, mais no nível das idéias, ainda que seja indispensável apontar os interesses velados no discurso...


Aqui vai o artigo do Alon que me convenceu....

Eles caíram como patinhos (06/11)

Com seu artigo, FHC pretendeu colocar uma cunha entre o governo Lula e os intelectuais, entre a administração do PT e a crescente classe média. O PT ajudou-o a atingir o alvo.

O PT mordeu a isca atirada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Caiu como um pato. FHC escreveu artigo em jornais no último domingo afirmando que o PT conduz o Brasil para um autoritarismo em moldes “subperonistas”, com partidos e sociedade civil neutralizados, organizações sociais cooptadas e empresariado dependente do capital controlado, direta ou indiretamente, pelo Estado.

Tudo, segundo FHC, encimado pela figura do líder supremo, inquestionável.

Por que o PT se enrolou na armadilha posta por FHC? Pela maneira como reagiu. Recebeu uma crítica política e não respondeu politicamente. As reações variaram, mas tiveram um traço comum: a desqualificação. FHC está com inveja do sucesso de Luiz Inácio Lula da Silva. Suas afirmações nascem do inconformismo, compreensível num intelectual ferido em sua vaidade, suplantado, como presidente, por um metalúrgico de escolaridade formal precária.

Mas, e daí se FHC estiver movido por péssimos sentimentos, ou pelo rancor? No que isso invalida a crítica? Estivessem Lula e o PT menos tomados pela apoteose mental, procurariam fazer algum esforço para rebater FHC no mérito. Nada porém foi dito. O poder comportou-se de modo a reforçar a acusação, colocando-se acima dela a priori, como se parte da sociedade brasileira, mais conservadora (ou mais liberal, ou menos petista), estivesse preliminarmente impedida de participar do debate político, ou de criticar o governo.

Acusado de bonapartismo, o poderoso reagiu com viés bonapartista.

Um comportamento nascido da autossuficiência. Defeito que aliás FHC conhece bem. Ele deve saber o prejuízo que lhe causaram gracinhas como chamar os opositores de “fracassomaníacos”, ou aposentados de “vagabundos”. O tucano foi um mestre da desqualificação. O PT vai pelo mesmo caminho. Turbinados pela popularidade do líder, epígonos elaboram o index de quem pode ou não pode falar, está ou não está autorizado a criticar. Saiu da linha, tomou porrada.

No artigo, FHC acusou Lula de tentar matar moralmente os adversários. E o PT reagiu armando o pelotão de fuzilamento.

O PT e Lula, pouco a pouco, desacostumam-se ao diálogo com quem pensa diferente. Outro dia, o presidente foi surpreendido por um cidadão que lhe disse que não votava nele. “Eu não estou precisando do seu voto”, respondeu Lula, na lata. Para delírio e gargalhadas dos bajuladores em volta. Está tudo no YouTube.

Cercar-se de bajuladores é confortável para o príncipe. Mas nem sempre é saudável.

O Brasil é um país complexo, e os sucessos do governo Lula tornaram-no mais complexo ainda. Segundo um raciocínio tosco, o pobre que saiu da pobreza neste governo vai ser eternamente uma cabeça de gado a mais no curral eleitoral do nosso presidente. Por que é tosco? Porque quem sai da miséria, ou da pobreza, quer mais é ser dono da sua própria vontade. Quanto mais desenvolvida uma sociedade, maior a demanda por um comportamento democrático do governante.

Com seu artigo, FHC pretendeu colocar uma cunha entre o governo Lula e os intelectuais, entre a administração do PT e a crescente classe média. Pretendeu plantar em quem não é ferrenhamente petista a dúvida sobre a sinceridade dos propósitos democráticos do PT.

O PT ajudou-o a atingir o alvo.

IX Semana de Ciências Sociais - UENF - CCH


Programação IX Semana de Ciências Sociais


Seg 09/11

9h – 12h – Credenciamento

14h - Cerimônia de abertura (local: Centro de Convenções)

14:30 - Palestra de abertura da 1° Semana Acadêmica Unificada

16h - Programação Integrada Ética e Deontologia - Antônio Pegorava (UERJ/SEAF)

Local: Centro de Convenções

18h –21h – Mesa (Des)construindo o gênero no Brasil: sexualidade e direitos civis

- Alan Soares dos Reis (advogado)
- Daniela Bogado (UENF)

Local: CCH

Ter 10/11

9h – 12h: Mesa
Racismo e inserção do negro na sociedade brasileira

- Emerson Ferreira Rocha (UFJF)
- Ludmila Gonçalves da Matta (UENF)

Local: Casa Ecológica

14h – 15h: Apresentação de trabalhos

Local: Casa Ecológica

15h – 18h: Mesa

Perspectivas do ambientalismo

- Aristides Soffiati (UFF)
- Felipe Vasconcellos (UENF)
- Luís Eduardo Nogueira (UENF)

Local: Casa Ecológica

18h – 21h: Programação Integrada

Reforma Curricular: um instrumento para o enfrentamento do futuro

-Eunice Trein (UFF)

Local: Centro de Convenções

Qua 11/11

8h – 12h: Programação Integrada

Biodiversidade, agricultura, biotecnologia e o meio ambiente: É possível a sustentabilidade?

- Miguel Pedro Guerra (UFSC)

Local: Centro de Convenções

14h-15h: Apresentação de trabalhos
Local: CCH

15h-18h: Mesa
Mulher e cidadania no Brasil: perspectivas e limites das políticas públicas para mulheres no Brasil

- Ana Paula Sciammarella (ISER)
- Marcella Beraldo (UNICAMP)

Local: CCH

18h – 21h: Mesa
Teoria social e movimentos sociais

- George Gomes Coutinho (UENF)
- Rodrigo Chaves de Mello (UFJF)

Local: CCH

Qui 12/11

9h-11h Palestra

Lutas camponesas e a questão fundiária no Brasil

- Hermes Cipriano de Oliveira (MST)
Local: Casa Ecológica

11h - 12h Apresentação de trabalhos
Local: Casa Ecológica

14h-18h Mesa
Reforma urbana e lutas sociais

- Cassio Brancaleone (IUPERJ)
- Rafael Borges Deminicis (MTD RJ)

Vídeo
Zona de conflito ?
Local: Casa Ecológica

18-20h - Oficina

Cia. Só Pega no Tranco
Local: CCH

Sex 13/11

09h-12h: Mesa

Panorama do sindicalismo brasileiro

- Fernando Perlatto (IUPERJ)
- Maycon Bezerra (SEPE)
Local: CCH

14h- 16h: Cerimônia de encerramento da 1ª Semana Acadêmica Unificada da UENF

Local: Centro de Convenções

PS: No post clique sobre o cartaz para ter uma visão ampliada do mesmo.

CONVITE: Zapatismo, anticapitalismo e movimentos sociais anti-sistêmicos na América Latina contemporânea

UFF-UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

ESR-INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE E DESENVOLMVIMENTO REGIONAL

COORDENAÇÃO DE EXTENSÃO


CONVITE



O Projeto de Extensão Segundas Debates em parceria com a Disciplina de Movimentos Sociais, convida você a participar da Palestra: Zapatismo, anticapitalismo e movimentos sociais anti-sistêmicos na América Latina contemporânea, no dia 12 de novembro – quinta-feira (excepcionalmente), no horário de 16:00 ás 18:00 no ESR/UFF – sala 08, tendo como palestrante: Cássio Cunha Soares (Cientista Social, Doutorando em Sociologia pelo IUPERJ e Pesquisador do Centro de Estudos em Direito e Sociedade) e como debatedor: Hermes Cipriano/Mineiro (Setor de Produção do Assentamento da Reforma Agrária-Antônio de Faria/ MST – Campos dos Goytacazes – RJ).


O evento conta horas acadêmicas para os discentes.


Informações: Rua José do Patrocínio, 71 – Centro – Campos dos Goytacazes; RJ. Tel: 22 – 2722.0622 e 2733.0319, ramal: 4104 e 4112 no horário de 14:30 às 17:30. Os certificados poderão ser solicitados na secretaria da Coordenação de Extensão do ESR/UFF.



P.S: A professora Ana Maria da Costa solicita o incremento da seguinte informação: a atividade do Segundas debates, está sendo organizada em parceria com o Prof. Augusto Cesar de Oliveira/Disciplina: Movimentos sociais/UFF/Esr.

sábado, 7 de novembro de 2009

Perón, Getúlio, Lula - Emir Sader

Perón, Getúlio, Lula - Emir Sader

Quando acusou Lula de uma espécie de neoperonista, FHC vestia, em cheio, o traje da direita oligárquica latinoamericana. Que não perdoou e segue sem perdoar os líderes populares latinoamericanos que lhes arrebataram o Estado de suas mãos e impuseram lideranças nacionais com amplo apoio popular.

Os três – Perón, Getúlio e Lula – têm em comum a personificação de projetos nacionais, articulados em torno do Estado, com ideologia nacional, desenvolvendo o mercado interno de consumo popular, as empresas estatais, realizando políticas sociais de reconhecimento de direitos básicos da massa da população, fortalecendo o peso dos países que governaram ou governam no cenário internacional.

Foi o suficiente para que se tornassem os diabos para as oligarquias tradicionais – brancas, ligadas aos grandes monopólios privados familiares da mídia, aos setores exportadores, discriminando o povo e excluindo-o dos benefícios das políticas estatais. Apesar das políticas de desenvolvimento econômico, especialmente industrial, foram atacados e criminalizados como se tivessem instaurados regimes anticapitalistas, contra os intereses do grande capital. Quando até mesmo os interesses dos grandes proprietários rurais – nos governos dos três líderes mencionados – foram contemplados de maneira significativa.

Perón e Getúlio dirigiram a construção dos Estados nacionais dos nossos dois países, como reações à crise dos modelos primário-exportadores. Fizeram-no, diante da ausência de forças políticas que os assumissem – seja da direita tradicional, seja da esquerda tradicional. Eles compreenderam o caráter do período que viviam, se valeram do refluxo das economias centrais, pelos efeitos da crise de 1929, posteriormente pela concentração de suas economías na II Guerra Mundial, tempo estendido pela guerra da Coréia.

A colocação em prática das chamadas políticas de substituição de importações permitiram a nossos países dar os saltos até aqui mais importantes de nossas histórias, desenvolvendo o mais longo e profundo ciclo expansivo das nossas economias, paralelamente ao mais extenso processo de conquisas de direitos por parte da massa da população, particularmente os trabalhadores urbanos.

Se tornaram os objetos privilegiados do ódio da direita local, dos seus órgãos de imprensa e dos governos imperiais dos EUA. Dos jornais oligárquicos – La Nación, La Prensa, La Razón, na Argentina, ao que se somou depois o Clarin; o Estadao, O Globo, no Brasil, a que se somaram depois os ódios da FSP e da Editora Abril. Os documentos do Senado dos EUA confirmam as articulações entre esses órgãos da imprensa, as FFAA, os partidos tradicionais e o governo dos EUA nas tentativas de golpe, que percorreram todos os governos de Perón e de Getúlio.

Não por acaso bastou terminar aquele longo parêntese da crise de 1929, passando pela Segunda Guerra e pela guerra da Coréia, com o retorno maciço dos investimentos estrangeiros – particularmente norteamericanos, com a indústria automobilística em primeiro lugar -, para que fossem derrubados Getúlio, em 1954, e Perón, em 1955.

Mas os fantasmas continuaram a asombrar os oligarcas brancos, que sentiam que aqueles líderes plebeus – tinham desprezo pelos líderes militares, que deveriam, na opinião deles, limitar-se à repressão dos movimentos populares e aos golpes que lhes restabeleceriam o poder – lhes tinham roubado o Estado e, de alguma forma, o Brasil.

O golpe militar argentino de 1955 inaugurou a expressão “gorila” para designar o que mais tarde o ditador brasileiro Costa e Silva chamaria, de “vacas fardadas”. A direita apelava aos quartéis, porque não conseguia ganhar eleições dos líderes populares. Durante os anos 50, no Brasil, fizeram articulações golpistas o tempo todo contra Getúlio, até que o levaram ao suicídio. Tentaram impedir a posse de JK, alegando que tinha ganho as eleições de maneira fraudulenta. JK teve que enfrentar duas tentativas de levantes militares de setores da Aeronáutica contra seu governo, legitimamente eleito, tentativas sempre apoiadas pela oposição da época, em conivência com os governos dos EUA.

O peronismo esteve proscrito políticamente de 1955 a 1973. Até o nome de Perón era proibido de ser mencionado na imprensa. (Os opositores usavam Juan para designá-lo ou alguns de seus apelidos.) Quando foram feitas eleições com um candidato peronista concorrendo – Hector Campora -, ele triunfou amplamente e – ao contrário de Sarney no Brasil – convocou novas eleições, truiunfando Perón, que governou um ano, até que foi dado o golpe de 1976, pelas mesmas forças gorilas.

No Brasil, o governo João Goulart foi vítima do mesmo tipo de campanha lacerdista, golpista, articulada com organismos da “sociedade civil” financiados pelos EUA, articulados com a imprensa privada, convocando as FFAA para um golpe, que acabou sendo dado em 1964.

Perón, Getúlio e, agora, Lula, tem em comum a liderança popular, projetos de desenolvimento nacional, políticas de redistribuição de renda, papel central do Estado, apoio popular, discurso popular. E o ódio da direita. Que usou todos os “palavrões”: populista, carismático, autoritário, líder dos ”cabecitas negras”, dos “descamisados” (na Argentina). A classe média e o grande empresariado da capital argentina, assim como a clase média (de São Paulo e de Minas, especialmente) e o grande empresariado, sempre a imprensa das rançosas famílias donas de jornais, rádios e televisões.

É o ódio de classe a tudo o que é popular, a tudo o que é nacional, a tudo o que cheira povo, mobilizações populares, sindicatos, movimentos populares, direitos sociais, distribuição de renda, nação, nacional, soberania. FHC se faz herdeiro do que há de mais retrógado na direita latinoamericana – da UDN de Lacerda, passando pelos gorilas do golpe argentino de 1955, pelos golpistas brasileiros de 1964, pelo anti-peronismo e o anti-getulismo, que agora desemboca no anti-lulismo. Ao chamar Lula de neo-peronista, quer usar a o termo como um palavrão, como acontece no vocabulário gorila, mas veste definitivamente a roupa da oligarquia latinoamericana, decrépita, odiosa, antinacional, antipopular. Um fim político coerente com seu governo e com seus amigos aliados.

Postado por Emir Sader


Disponível em: http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1 (acesso em 07 de novembro de 2009)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dois Recados - Simpósio de Jornalismo Científico e Rodrigo Serra Debatendo Royalties

Prezad@s,

Dois recados envolvendo ações da UENF. Um chamando para os minicursos que ocorrerão no "I Simpósio de Jornalismo Científico.

O outro refere-se ao projeto "Participação Política e Estado – implementação institucional de ações para o controle social dos governos locais".


O projeto em questão chama para a aula do professor Rodrigo Serra amanhã no IFF onde terá lugar o fundamental debate para esta região e arredores: a questão dos royalties.

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Prezados(as) inscritos no 1.º Simpósio Nacional de Jornalismo Científico,

Informamos que, além de prorrogar as inscrições para o Simpósio, incluímos dois minicursos na programação: 'Faça o seu blog' e 'Tratamento de imagem digital'. Eles serão ministrados respectivamente por Fabrício Silva Santos e Alexsandro de Azevedo, dois profissionais da área de Comunicação da Uenf. Os minicursos serão simultâneos, em 26/11, das 9h às 11h. Logo não será possível participar dos dois.

Como as vagas são limitadas, quem tiver interesse em um dos minicursos deve se apressar e inscrever-se na própria página do Simposio (www.uenf.br/simposio).

Já somos mais de 300 inscritos, entre jornalistas, estudantes de Comunicação, pesquisadores, pós-graduandos, bolsistas de Iniciação Científica e outros perfis de cidadãos e cidadãs. Apesar da excelente resposta em inscrições, pudemos prorrogar o prazo em vista da capacidade do Centro de Convenções da Uenf.

Agradecemos o interesse de todos e desejamos um excelente Simpósio!

Gustavo Smiderle e Fúlvia D'Alessandri
Jornalistas da Ascom/Uenf e membros da Comissão Organizadora
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Sábado dia 07.11.09 no IFF, no auditório Reginaldo Rangel, Rodrigo Valente Serra Professor/Pesquisador do Mestrado em Engenharia Ambiental do IFF, dará a aula: Royalties do Petróleo: diferentes formas de distribuir e aplicar as rendas do petróleo. Pretende-se apresentar as formas alternativas de distribuir e aplicar os royalties do petróleo à luz dos projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado; Assim como, proporcionar o debate sobre experiências de controle social sobre distribuição e aplicação das rendas do petróleo no Brasil e no mundo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Adeus a Claude Lévi-Strauss


Mesmo aqueles(as) que não optaram pela especialização em antropologia dificilmente passaram imunes pelos textos de Claude Lévi-Strauss, que demarcam mudanças na concepção e aplicação da teoria antropológica e, sobretudo, na própria visão do Ocidente acerca dos povos até então caracterizados pelo que havia de mais arraigado no etnocentrismo eurocêntrico da primeira metade do século XX. Uma síntese do método de pensamento elaborado por Lévi-Strauss pode ser encontrada em "As estruturas elementares do parentesco". Em nossa graduação em ciências sociais na Uenf tivemos o privilégio de ler, fichar e resumir uma das obras magistrais de Lévi-Strauss, "Tristes Trópicos", cuja primeira edição data de 1955. Nesse livro se revela um desejo incontido de narrar suas viagens, as quais "odiava", da capital paulista ao interior do Brasil e deste rumo às fronteiras da civilização em sua passagem como professor vistante da Universidade de São Paulo na década de 1930. O contato com diferentes etnias indígenas, como os Cadiueu, os Bororo e os Nambiquara, fora objeto de pesquisa etnográfica dotada de excepcional tratamento estético e, não menos, de uma angústia ao antever que tais etnias em situação de isolamento quase irrestrito participariam de um tempo e de um espaço conservados apenas nas memórias de um antropólogo experiente. A violência do processo de aculturação e a destruição física e espiritual dos povos ainda tão pouco conhecidos na irreprimível expansão do Ocicente é retratada sem eufemismos na viagem catártica de um cientista solidário à condição humana. Descanse em paz, Lévi-Strauss.

Claude Lévi-Strauss morre aos 100 anos

4/11/2009

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, na madrugada do último domingo (1/11). O anúncio foi feito apenas nesta terça-feira (3/11) pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (França).

Conhecido como o fundador da antropologia estruturalista, Lévi-Strauss participou, na década de 1930, da missão francesa que organizou alguns dos cursos da Universidade de São Paulo (USP) pouco após sua fundação, em 1934.

De acordo com Fernanda Arêas Peixoto, professora do Departamento de Antropologia da USP, a influência intelectual de Lévi-Strauss – que realizou no Brasil seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas – transcende a antropologia.

“Ele foi sem dúvida um dos maiores antropólogos da história e, a partir de seus trabalhos ligados ao âmbito do parentesco e dos mitos, influenciou todos os ramos da antropologia. Mas, especialmente a partir de 1962, com a publicação de Pensamento selvagem, sua obra passou a dialogar com a filosofia. Daí em diante, o estruturalismo adquiriu uma importância enorme, com impacto na filosofia, na psicanálise, na crítica literária e nas ciências humanas de modo geral”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Fernanda, que em 1991 defendeu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a dissertação de mestrado Estrangeiros no Brasil: a missão francesa na USP, o inegável impacto do pensamento de Lévi-Strauss sobre a antropologia brasileira se deu por meio de sua obra posterior à estadia no país.

“Na época da missão francesa, entre 1935 e 1938, ele era um jovem etnógrafo em período de formação. No Brasil, fez suas primeiras pesquisas de campo e trabalhos etnográficos. Publicou aqui seus primeiros trabalhos. Durante a Segunda Guerra Mundial, fixou-se nos Estados Unidos, onde completou sua formação”, contou.

A leitura de Lévi-Strauss feita pelo norte-americano David Mabury-Lewis, na década de 1960, exerceu forte influência na antropologia brasileira, reintroduzindo no país a obra do antropólogo nascido em Bruxelas, de acordo com Fernanda. Segundo ela, Mabury-Lewis participou naquele período do projeto Harvard-Brasil Central, realizado pelo Museu Nacional em parceria com a Universidade de Harvard (Estados Unidos).

Sob orientação de Fernanda, a mestranda Luiza Valentini está atualmente realizando uma pesquisa – com apoio da FAPESP – sobre a interação entre Lévi-Strauss, Dina Dreyfuss (sua esposa na época da missão francesa) e o escritor Mário de Andrade, que na década de 1930 empreendeu um amplo trabalho de campo sobre manifestações da cultura popular brasileira.

O trabalho tem base em documentação inédita da Sociedade de Cultura e Folclore dirigida por Andrade na época. “Mário de Andrade foi muito marcado por essa colaboração”, disse Fernanda.

Tristes trópicos

“Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso Tristes Trópicos, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês”, divulgou a reitoria da USP em nota oficial.

Em 1927, Lévi-Strauss iniciou seus estudos em filosofia. Começou a lecionar em 1932. Em 1935, levado pelo “desejo da experiência vivida das sociedades indígenas”, como contou, aceitou lecionar na USP durante três anos. Nesse período, empreendeu diversas missões de estudo entre os índios Bororo e Nhambiquara, em companhia de sua esposa. O casal se separou em 1939, ao retornar à França. O antropólogo se casou novamente em 1945 e em 1954.

Banido do ensino em seu país, em decorrência das leis antissemitas da França ocupada do regime de Vichy (1940-1944), partiu para Nova York, onde teve contato com os surrealistas e se aproximou de Roman Jakobson, linguista que teve influência decisiva na construção de sua obra.

O pós-guerra foi um período instável para Lévi-Strauss, que publicou então suas primeiras obras de peso, ainda não reconhecidas. Foi adido cultural em Nova York e participou de missões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na Índia e no Paquistão. Em 1950, foi nomeado professor da Escola Prática de Altos Estudos da França.

Em 1955, publicou Tristes trópicos, um relato de suas viagens que se tornou ao mesmo tempo um sucesso literário e uma referência científica. Publicou Antropologia estrutural em 1958 e em 1959 assumiu o Departamento de Antropologia Social do Collège de France, passando a desenvolver atividade intensa como autor e organizador, que lhe valeram crescente reconhecimento internacional. Depois de O Pensamento selvagem (1962) e os quatro volumes de Mitologias, passou a ser reconhecido com um dos grandes autores do século 20.

Em 1973, foi eleito para a Academia Francesa. Em 1985, acompanhou o presidente francês François Mitterrand ao Brasil. Suas coleções de objetos foram expostas no Museu do Homem, em Paris, em 1989. Suas fotografias do Brasil foram editadas em 1994.

O texto acima foi extraído de:
http://www.agencia.fapesp.br/materia/11301/especiais/claude-levi-strauss-morre-aos-100-anos.htm

Lula, o Estadista do Ano


Saiu no Blog da jornalista Christina Lemos:


Depois que Obama chamou Lula de “o cara”, que Chávez o comparou a Cristo, chegou a vez dos ingleses. Nesta quinta-feira, em Londres, o Real Instituto de Assuntos Internacionais do Reino Unido concederá ao presidente o prêmio de “Estadista do Ano”.
Para os ingleses da Chatham House, durante a gestão de Lula o Brasil teria fortalecido sua inserção no cenário global e atuado para alcançar o consenso em foros multilaterais econômicos e comerciais. E, principalmente, o prêmio é concedido pelos resultados atingidos pelo Brasil na redução da pobreza por meio de políticas econômicas que garantiram o equilíbrio fiscal e a estabilidade inflacionária
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domingo, 1 de novembro de 2009

Análise de conjuntura de FHC: a identidade tucana II


Roberto Torres



Para compreendermos o que o PSDB quer para o Brasil precisamos compreender a nocão que eles tem de democracia. Creio que o ponto chave para isto é investigar o apego "afetivo" da reflexao tucana sobre a democracia, embora nem sempre confessável, à tradicao do despotismo esclarecido, ainda que mediada por mecanismos formais de representacao. No texto abaixo, publicado no "Estadao" deste domingo, fica claro como a relacao carismática entre o povo e o presidente é tida sempre como antidemocrática pela inteligência tucana, de modo que a forma apregoada pelo despotismo esclarecido não deixa lugar a uma outra que nao passe pelas organizacoes "originais", como se fosse óbvio que os interesses populares sempre estivessem organizados em partidos, que todos tivessem igual acesso a organizacões ou que nos partidos existentes nao houvesse uma identificacão carismática entre líderes e liderados, sedimentada em afeicões positivas e negativas em relacão a interesses de outros setores da sociedade. Na versao (assumida em público) da democracia tucana é como se não houvesse organizacoes nao partidárias com poder decisório capaz de influenciar o governo, como se o Lula é que tivesse inventado este absurdo - o "dever ser" neste caso serve sempre a fins de dominacão, pois como diria Bourdieu, ele aparece sob a forma de um "como se", como pura mistificacão-. Ora, quando as organizacoes corporativas são apenas a dos "empresários modernos" "pode", mas quando os trabalhadores resolvem tambem fazer o mesmo "assim não pode, assim não dá". A democracia seria o mundo de interesses individuais "soltos" em igualdade de condicoes para influir através de partidos? Nao vejo outra alternativa na inteligência tucana. Para FHC o Brasil continua sendo atrasado na mesma medida em que "desfigura o original"... a questao é dizer com clareza de onde vem este original, se de algum lugar concreto deste planeta ou se da adesao (irrefletida?) de nossa inteligência às mistificacões que as "democracias desenvolvidas do atlântico norte" fazem sobre si mesmas.


Para onde vamos?

Fernando Henrique Cardoso


A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o." Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha Casa, Minha Vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência". Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: "L"État c"est moi." Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.






sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Porque esse povo não sai dessa vida?!



Roberto Torres













Nesta semana foi lançado no 33º Encontro Anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) o livro “A ralé brasileira: quem é e como vive” (UFMG, 2009), organizado pelo Professor Jessé Souza (UFJF), com textos de pesquisadores que durante quatro anos trabalharam no projeto deste livro. Entre eles estamos Fabrício Maciel e eu. O livro é composto por uma serie de estudos empíricos sobre a reprodução da desigualdade e das condições de vida da “ralé” e é escrito numa linguagem acessível ao público não acadêmico. Tentamos tirar os jargões da acadêmica sem abrir mão da precisão analítica e da crítica ao senso comum. Nossa motivação principal: um diálogo entre “leigos” e “especialistas” não é apenas possível, mas sobretudo necessário para enfrentar a visão hegemônica sobre a mazela brasileira. O fundamento deste diálogo é o interesse em romper com o senso comum, com a aliança entre má fé e ignorância que ajuda a reproduzir e a legitimar as condições de vida injustas como as que o Brasil permite à sua “ralé”. “A ralé é a grande questão esquecida. O Brasil não tem 500 problemas, mas um grande problema, que é essa desigualdade abissal do qual decorre mais de mil problemas”, resume Jessé Souza em entrevista.
O livro é um convite ao debate sobre as consequências e os interesses dos encadeamentos ideológicos que se mostram por exemplo na crítica da classe média ao Bolsa Família. O Jornal Globo, por exemplo, insiste em vender a legitimidade de que precisa o sentimento fascista das classes privilegiadas contra os pobres no Brasil. No ultimo domingo mais uma vez fizeram uma reportagem que denuncia o quanto o programa Bolsa Família inibe a geração de empregos formais: “os beneficiados se acomodam ao padrão de vida possível com o beneficio”, eis a sentença, cujo desdobramento condenatório não dizem em publico, mas que o “publico” a qual se dirige entende muito bem: estes pobres acomodados deveriam então ser “incentivados” ao trabalho e a investir no futuro com o fim do programa de transferência de renda que estimula a falta de vontade para mudar de vida. Seria preciso um “choque de capitalismo” para “acordar” este povo “atrasado”.
Esta “polemica” me parece ser um grande exemplo de como se pode tirar proveito da aliança entre ma-fé e ignorância que constitui o senso comum conservador (existe um senso comum progressista constituído pela combinação cognitivo-motivacional entre intuição contra-fática e boa fé). Na reportagem exibida na internet via-se “Bolsa Família inibe Emprego Formal”. Ao clicar lia-se: “85 cidades do país com maior cobertura do Bolsa Família, só um 1,3 % da população trabalha com carteira assinada”. Por fim, no texto, temos a “insignificante ressalva” que, da forma como foi editada a reportagem, é apresentada como se em nada alterasse a relação causal postulada: “ A precariedade do emprego formal nessas cidades - municípios pobres, com população abaixo de 30 mil habitantes - não tem relação direta com a concessão do Bolsa Família. Existem barreiras anteriores ao programa que impedem o acesso dos trabalhadores a empregos: a baixa escolaridade e a falta de capacitação profissional. As parcas vagas com carteira assinada no comércio de Presidente Vargas exigem ensino médio.” O jornal dá o recado na manchete, constrói a legitimidade da tese que o programa Bolsa Família prende os pobres em sua vida miserável, e relativiza os fundamentos cognitivos da tese somente para quem lê “por dentro” sem comprometer o que foi “estampado”.
No dia seguinte estava lá o PSDB em sua página na internet “bebendo da fonte” e criticando o governo por esconder a miséria, sem ter, no entanto, coragem de assumir uma posição clara sobre a “tese”: pobres assistidos pelo Estado desistem de procurar trabalho e continuam pobres. Como se constrói a “plausibilidade” desta tese, como se pode “fundamentar” a mentira? Como Lukács resumiu, toda mentira ideológica é simplesmente uma inversão das causas pelos efeitos. E é precisamente esta inversão, que mesmo sendo condessada pela ressalva do Jornal, não é efetivamente “vista”(no sentido de ser levada em consideração). A pobreza, com suas privações não somente econômicas, mas também morais, culturais e políticas, não é vista em suas conexões causais que reproduzem a exclusão. Sobretudo, no caso da “tese” tornada “plausível” pela reportagem, não “salta aos olhos” de ninguém como a experiência acumulada da privação, e não a ajuda do governo para amenizá-la, impede a formação de uma disposição para “crer” e assim investir no futuro. A aliança entre má-fé e ignorância que sustenta o senso comum conservador não admite o quanto pode ser plausível para um ser humano priorizar o presente ou o futuro imediato, e não o futuro longínquo, em seu modo de conduzir a vida e tomar decisões.
Este senso comum que “naturaliza” a desigualdade e que sempre busca por a culpa do fracasso na própria vitima (ou no Estado, sempre buscando um “bode expiatório”) toma como um fato óbvio da vida “querer estudar” e “investir” numa vida melhor para daqui a 10 ou 20 anos, como se todos os indivíduos, independente de suas condições sociais, pudessem agir e conduzir a vida deste modo. Como pode não ser crível e “racional” para alguem a necessidade de sair da pobreza, por mais que ela se encontre amenizada em comparação com 10 anos antes? Uma questão como esta nunca é feita antes de se proferir a sentença condenatória – “deixem morrer estes pobres que não querem deixar de ser pobres!” - que ninguém assume, mas que todos estão dispostos a aplaudir.
O que faz um indivíduo de uma família pobre como esta que o jornal exibe em sua reportagem não investir no futuro é antes de mais nada o fato dele não ter podido acreditar no futuro. Ninguém investe naquilo que não crê e isto vale também para o mundo da racionalidade econômica com suas estratégias de futuro. Como alguem que herdou dos pais e experimentou por conta própria o saber de que o sentido da vida é protegê-la das ameaças iminentes (defendendo-a da fome, da delinquência etc. ), e cujas condições sociais insistem em confirmar este sentido, pode acreditar que vale a pena se preocupar com daqui a 10 ou 20 anos? Como pode alguem com esta trajetória sem futuro querer procurar um emprego que mude o patamar de vida, e assim achar a “porta de saída” do Bolsa Família sabendo que este emprego nunca foi para ele fonte de nenhuma segurança? Não seria mais compreensivo contar com a segurança, ainda que minguada, do Bolsa Família, do que arriscar sair do critério de cobertura do programa e logo ficar sem emprego e sem amparo do governo? Deveriam aqueles chefes de família, sem escolaridade adequada, procurar um emprego para “subir na vida” e assim arriscar a única fonte de segurança alimentar dos filhos? O que o senso comum conservador chama de “se acomodar com a pobreza” não seria o limite da razoabilidade para os que sabem na pele e no estômago como funciona a “ditadura do presente”?
Nenhuma destas questões pode ser enfrentada por este senso comum “não ilustrado” que se informa através de O Globo, Veja, Folha etc. Mas a má fé misturada com ignorância se protege de tudo isto, deixando fora de questão o “fundamento cognitivo” que motiva sua cumplicidade com a opção por “deixar morrer” os que se mostrem economicamente presos ao passado (inúteis). Com esta cumplicidade se produz uma versão tropical, embora invisível em sua radicalidade, de um totalitarismo bio-político que significativamente em nada difere do nazismo: “só devem viver aqueles corpos saudáveis (sem doencas físicas e "espirituais" como o comodismo) que contribuem para o futuro”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cinema francês contemporâneo em Campos dos Goytacazes


Mais uma boa iniciativa em curso na UENF (clique na imagem)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

I Simpósio Nacional de Jornalismo Científico - UENF - Campos dos Goytacazes - RJ

Prezad@s,

Como é praxe neste espaço divulgamos as boas iniciativas acadêmicas que ocorrem em Campos e alhures. Esta terá lugar justamente em Campos, na UENF, e está sendo cuidadosamente planejada pelo competente grupo da Assessoria de Comunicação da UENF (ASCOM). Trata-se do I Simpósio Nacional de Jornalismo Científico (maiores informações aqui), que ocorrerá nos dias 25 e 26 de novembro do ano corrente.

Na realidade para Campos, especialmente, há um significado especial. Afinal, há aqui a expansão da UFF, o IFF, o campus de pesquisas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a própria e premiadíssima UENF... e um jornalismo científico ainda deficitário, aparentemente pouco preparado para fazer com que a população em geral compreenda o que é feito nas diferentes áreas de pesquisa, muitas vezes apresentando-se enquanto gargalo “em si” para a boa divulgação científica. Talvez esse déficit de formação explique, dentre outras variáveis, a baixa entrada da alta produção de pesquisas na mídia local....Ressalto apenas que o Simpósio, nacional, não objetiva por razões óbvias solucionar essa questão. Mas, decerto oferecerá um bom momento para o debate em diferentes níveis, sobre e para além do nível local.



Este “vácuo” de informação certamente poderia ser enfrentado e iniciativas deste quilate oferecem uma excelente oportunidade para pensarmos a ciência não como elemento exótico das sociedades humanas, vide a imagem caricata do cientista de jaleco branco, óculos e cabelos desgrenhados. O debate sobre ciência deve ter um retorno direto para a sociedade, a grande financiadora dos avanços científicos na periferia, dado que se não fosse o repasse estatal dos impostos arrecadados, simplesmente estaríamos ainda na era da “roca de fiar” dado o nosso empreendedorismo de mercado invariavelmente paralítico.


Não percam! Mas, notem que o prazo para inscrição, on-line e realizado no site do próprio evento, irá até o dia 31 de outubro.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Governo Lula e a identidade do PSDB


Talvez o processo mais traumático que um indivíduo ou uma coletividade pode passar é o completo aniquilamento das bases que sustentam o discurso de sua identidade. Olhar para o espelho e não saber se quem é, é estar a beira do abismo. É não ter um caminho para o sentido de sua existência. É ser incapaz de responder a talvez mais importante questão humana, a saber, “quem sou eu?” ou “quem somos nós?”.

A coletividade que consegue elaborar com sucesso esta resposta tem um futuro longínquo (os Judeus são um grande exemplo disso), e a que não consegue está a um passo do desaparecimento. No plano individual responder essa pergunta é a base para a sanidade mental. Se o amigo leitor nunca passou por uma crise pessoal que lhe colocasse a frente com esse fantasma que eu narrei acima, experimente imaginar esta situação (mas não muito, não chegue muito perto do abismo porque e perigoso, vc pode não conseguir voltar), e aí vc poderá ter uma noção do que passa o PSDB.

O PSDB, assim como todo conservadorismo contemporâneo, criou sua identidade baseada na idéia de eficácia técnica. Acreditavam piamente que eram os portadores do saber técnico administrativo, que eles tinham a formação e o quadro técnico mais capaz (eficaz) de gerir o Estado. Assentados sobre esta ideologia tecnocrata acalentavam o maior sonho da direita, i. e., acabar com a política, no que esta representa a arena de conflitos. Sempre sonharam substituir o debate de valores e sentido do mundo, assim também como conflitos e demandas de classe, por equações e cálculos administrativos e econômicos que, segundo eles, seriam bons para todo mundo. Olhavam-se no espelho, e tinham a certeza de que viam a imagem de grandes tecnocratas, “experts” do gerenciamento do Estado.

Por outro lado, um modo eficaz para se construir uma identidade é criar um idéia do que é o “outro”. Inventando um “outro”, começa-se a desenhar a idéia do que “eu sou”, assim logo sou o “não-outro”, o seu oposto e sua negação. Desse modo o PSDB sempre acreditou que o PT de Lula, na melhor das hipóteses, seria um conjunto de indivíduos bem intencionados até, mas incapazes (por falta de eficácia técnica) de gerir um Estado. Os seus melhores quadros seriam tão somente um bando de voluntaristas, que queriam até o bem, mas não sabiam como fazer, acreditando apenas na boa intenção.

Neste caldo de formação de identidades estavam em jogo um serie de generalizações que formavam oposições entre esses grupos, que de alguma forma se personificavam nas figuras de Lula e FHC. De um lado a excelência acadêmica de FHC, do outro a baixa formação educacional de Lula; o porte e estilo “quase” europeu de FHC que seduzia nossa elite colonizada versus a figura mestiça de um retirante nordestino. Se buscarmos, podemos encontrar muito mais, como o racionalismo acadêmico do PSDB em contraposição ao sentimentalismo da esquerda católica que apoiava o PT etc.

Mas a verdade é que a história se mostrou muito diferente do que pensava o “experts” do PSDB. O governo Lula surpreendeu os mais otimistas, foi muito melhor não só naquilo que podiam se esperar (justiça social, interrupção das privatizações, ensino superior) mas também foi muito melhor nas áreas em que o PSDB construiu seu discurso de identidade. O governo Lula obteve sucesso na economia, na política internacional, no controle da inflação etc. e assim minou os pilares de sustentação do castelo de sonhos dourados do PSDB. O PSDB se encontra a beira daquele abismo que falamos no início do texto, não sabe por onde começar a reconstruir um discurso de identidade, não sabe o que dizer. . . justamente porque não sabe quem é.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O ponto de saturação


Ataques ao governo Lula fazem parte da paisagem jornalística brasileira. Tornaram-se previsíveis como os acidentes geográficos; irremediáveis como o dia e a noite. Naturalizaram-se, a tal ponto que já se lê os jornais pulando essas ocorrências, como os olhos ignoram trechos vulgares de caminhos rotineiros. O que mais espanta, porém – e a cobertura da viagem do São Francisco reforça esse desconcerto - não é a crítica , mas o tom desrespeitoso desse jornalismo. Com a aproximação das eleições de 2010, ansiedade pelo fracasso recrudesceu. A tal ponto ela se tornou caricatural que já aparecem os primeiros sintomas de saturação. O artigo é de Saul Leblon.

“Alojamento de Lula tem risoto, uísque e roda de viola até a madrugada.” Sob esse título auto-explicativo, a Folha [edição de 16-10] resumiu em uma retranca o espírito da cobertura oferecida aos seus leitores durante a viagem de três dias feita pelo Presidente Lula às obras de interligação de bacias do rio São Francisco, uma das mais importantes do seu governo.

O propósito de diminuir e tratar o assunto com escárnio e frivolidade se reafirmou em legendas de primeira página ao longo da visita. No dia 15-10, o jornal carimbava uma foto de Lula e da ministra Dilma Rousseff pescando no São Francisco, em Buritizeiro (MG), com a chamada: 'Conversa de Pescadores' . A associação entre a legenda e o discurso da oposição, para quem as obras são fictícias e a viagem, eleitoreira, sintetiza o engajamento de um jornalismo que já não se preocupa mais em simular isenção.

No dia 17, de novo na primeira página , o jornal estampa a foto do Presidente atravessando o concreto ainda fresco sobre a legenda colegial: ‘A ponte do rio que caiu’. A imagem de Lula equilibrando-se em tábuas improvisadas inoculava no leitor a versão martelada em toda a cobertura: trata-se de uma construção improvisada, feita a toque de caixa, com objetivo apenas eleitoreiro. É enfadonho dizê-lo, mas o próprio jornal se contradiz ao entrevistar Dom Luis Cappio, o bispo de Barra (BA), um crítico ferrenho da obra. Segundo afirmou o religioso ao jornal, ‘as obras avançam como um tsunami’. Sua crítica recai no que afirma ser a ‘marolinha’ das medidas - indispensáveis - de recuperação ambiental do rio. Diga-se a favor do governo que estas, naturalmente, serão de implementação mais lenta, na verdade talvez exijam um programa permanente.

Como o próprio bispo de Barra esclarece, não se trata apenas de promover o saneamento de esgotos e dejetos nas cidades ribeirinhas, como já vem sendo feito, ineditamente, talvez, na história dos rios brasileiros de abrangência interestadual. O resgate efeitvo do São Francisco passa também pela recuperação das matas ciliares, prevista nas obras, mas remete igualmente à recuperação de toda a ecologia à montante e para além dos beiradões, inclusive as veredas distantes onde estão nascentes, olhos d’água, lagoas de reprodução destruídos pela rapinagem madereira e carvoeira. Só quem acredita em milagres pode exigir, como faz Dom Cáppio, que um único governo reverta essa espiral de cinco séculos de omissão pública da parte, inclusive, daqueles que demagogicamente criticam as obras hoje como ‘uma ameaça ao velho Chico’.

O único acesso que a família Frias ofereceu aos leitores para que pudessem avaliar a verdadeira dimensão da obra ficou escondido na página interna da edição do dia 17, na belíssima foto que ilustra a página 12. Ali, um Lula solitário caminha por um gigantesco canal de concreto que rompe o horizonte até lamber o céu sertanejo. Há um simbolismo incontornável na imagem de um Presidente que se despede diluindo-se em uma obra gigantesca. Ela consagra seu retorno à terra de onde partiu como retirante e para onde voltou, Presidente, levando água a quem não tem - compromissos mantidos, apesar de tudo.

A solenidade da foto contrasta com o tom de adolescência abusada da cobertura, o que impediria o jornal de utilizar a imagem na primeira página, embora do ponto de vista estético e jornalístico ela fosse muito superior à escolhida. Tanto que o editor da página 12 não se conteve e abriu cinco colunas para a fotografia.

Ataques ao governo Lula fazem parte da paisagem jornalística brasileira. Tornaram-se previsíveis como os acidentes geográficos; irremediáveis como o dia e a noite. Naturalizaram-se, a tal ponto que já se lê os jornais pulando essas ocorrências, como os olhos ignoram trechos vulgares de caminhos rotineiros.

O que mais espanta, porém – e a cobertura da viagem do São Francisco reforça esse desconcerto - não é a crítica , mas o tom desrespeitoso desse jornalismo. Nesse aspecto não houve rigorosamente qualquer evolução após seis anos em que todos os preconceitos contra Lula foram desmoralizados na prática. A retomada do crescimento com inflação baixa e maior equidade social, por exemplo, distingue seu governo positivamente da paz salazarista imposta pela ortodoxia tucana no segundo mandato de FHC. A popularidade internacional do chefe de Estado brasileiro constitui outro fato sem precedente, só suplantado, talvez, pela velocidade da recuperação da nossa economia em meio à maior crise do capitalismo desde 1930. Tudo desautoriza as previsões catastróficas das viúvas provincianas do tucano poliglota.

Mas se a realidade desmentiu o preconceito, em nenhum momento a mídia conservadora deu trégua a um indisfarçável desejo de vingança que pudesse comprovar a pertinência de uma rejeição de classe ao governo Lula . Com a aproximação das eleições de 2010, a ansiedade pelo fracasso recrudesceu. A tal ponto ela se tornou caricatural que já aparecem os primeiros sintomas de saturação.

Em artigo publicado no Estadão [19-10] o físico José Goldemberg, por exemplo, um quadro de extração tucana, saiu em defesa da construção de hidrelétricas pelo governo Lula, objeto de críticas estridentes de um jornalismo que prefere esquecer a origem do apagão em 2001/2002. Na área da saúde, o respeitado cardiologista Adib Jatene, que já foi secretário de Paulo Maluf mas supera qualquer viés político pela inegável competência científica e discernimento público, tem vindo a campo com freqüência defender a necessidade de um novo imposto, capaz de mitigar o estrago causado à saúde pública pela revogação da CPF. Mais uma ‘obra coletiva’ assinada pela mídia e a coalizão demotucana.

O economista Luiz Carlos Bresser Pereira, do staff serrista, foi outro a manifestar seu desagrado com o estado das coisas. Bresser, que já defendeu abertamente o projeto de Lula para o pré-sal, rechaçou a demonização do MST articulada pela mídia e ruralistas, por conta da derrubada de laranjeiras em terras públicas ocupadas pela Cutrale [artigo na Folha 19-10]. Pode ser apenas miragem do horário de verão, mas o que essas manifestações parecem indicar é uma rebelião da inteligência –ainda que avessa ao PT - contra a a idiotização da agenda nacional promovida pelo jornalismo demotucano.

A patogenia infelizmente não é privilégio brasileiro. Na Argentina, o cerco da grande imprensa ao governo Cristina Kirchner recorre a expedientes idênticos de mentiras, fogo e fel . Com Morales, na Bolívia, não tem sido diferente. Na Venezuela, há tempos, o aparato midiático tornou-se paradigma de um engajamento que atravessou o Rubicão do golpismo impresso para se incorporar fisicamente à quartelada que quase derrubou Chávez em 2002 . Enganam-se os que enxergam aí também a evidência de uma fragilidade congênita à democracia latinoamericana. Acima do Equador as coisas não vão melhores. O democrata Barack Obama é vítima de um cerco raivoso e racista de jornais e redes, como é o caso da Fox, do direitista Rupert Murdoch que detém também o Wall Street Journal.

A repetição e o alcance dos mesmos métodos e argumentos nas mais diferentes latitudes parece indicar que estamos diante de um fenômeno de recorte histórico mais geral. O fato é que o conservadorismo está acuado em diferentes fronteiras após o esfarelamento econômico e político do credo neoliberal. A falência dos mercados financeiros desregulados na maior crise do capitalismo desde 1930 já é reconhecida, à direita e à esquerda, como um novo divisor histórico. Corroído em seus alicerces de legitimidade pela falência de empresas, famílias e bancos, ademais do recrudescimento do desemprego e da insegurança alimentar - inclusive nas sociedades mais ricas - o conservadorismo vê sua base social derreter. A radicalização do seu ‘braço midiático’ soa como uma tentativa derradeira de reverter o processo ainda nos marcos da democracia, desqualificando o adversário mais próximos formado por partidos e governos progressistas. A radicalização é proporcional à ausência de um projeto conservador alternativo a oferecer à sociedade.

Abre-se assim uma etapa de absoluta transparência, uma radicalização aberta; um embate bruto de forças em que a mídia dominante não tem mais espaço para esconder os interesses que representa. Tampouco parece ter pejo em descartar uma neutralidade – que, diga-se, a rigor nunca existiu - mas da qual sempre se avocou guardiã para descartar a democratização efetiva dos meios de comunicação. A isenção parece, enfim, não representar mais um valor passível sequer de ser simulado.

A diferença entre o que acontece no caso brasileiro e o resto do mundo é o grau de envolvimento do governo na reação em sentido contrário a essa ofensiva. A liberdade de informação e o contraditório aqui respiram cada vez mais por uma rede de blogs e sites de gradiente ideológico amplo, qualidade crescente e capacidade analítica incontestável. Mas ainda de alcance restrito. O protagonismo do governo e o dos partidos e sindicatos que poderiam ir além na abrangência de massa, é tíbio. Na Venezuela não é assim. Na Bolívia – que acaba de criar um grande jornal diário de recorte progressista-- não está sendo. Na Argentina onde foi votada uma lei de comunicação que desmonta a estrutura monopolista do conservadorismo midiático, caminha-se também sobre pernas da urgência. Acima da linha do Equador a contundência das respostas oficiais destoa igualmente do acanhamento brasileiro. Na verdade, talvez a caracterização mais dura da decadência dos princípios liberais na mídia tenha partido justamente dos porta-vozes do governo Obama, Anita Dunn, Diretora de Comunicações do Presidente e David Axelrod,principal assessor de comunicação do democrata.

"A rede Fox está em guerra contra Barack Obama (...) não precisamos fingir que o modo como essa organização trabalha é jornalístico. Quando o presidente fala à Fox, já sabe que não falará à imprensa, propriamente dita. O presidente já sabe que estará debatendo com um partido da oposição", resumiu recentemente a atilada Diretora de Comunicações da Casa Branca. Numa escalada de entrevistas e disparos cuidadosamente arquitetados, Dunn e Axelrod falaram alternadamente a diferentes segmentos midiáticos de todo o país. E o fizeram com o mesmo propósito de colocar o dedo numa ferida chamada Rupert Murdoch. "Mr. Rupert Murdoch tem talento para fazer dinheiro, e eu entendo que sua programação é voltada a fazer dinheiro. Só o que argumentamos é que [seus veículos] não são um canal de notícias de verdade. Não só os âncoras, mas a programação toda. Não é notícia de verdade, mas é a pregação de um ponto de vista. E nós vamos tratá-los assim ", bateu Axelrod em seguida ao ataque de Anita Dunn.

O guarda-chuva dos ataques a Obama têm como alvo o projeto de reforma do sistema de saúde, que, entre outras medidas, quer colocar sob responsabilidade do Estado cerca de 50 milhões de norte-americanos hoje ao desabrigo de qualquer cobertura.

A defesa do livre mercado na saúde é só a ponta do iceberg do ataque midiático. Por trás desse biombo o que se move é uma engrenagem endogâmica em que se entrelaçam o fanatismo e o dinheiro da direita republicana, postados dentro e fora da mídia. Sua meta é clara: desconstruir e imobilizar o sucessor de George W. Bush. Não há muita diferença entre o que se passa nos EUA e a divisão de trabalho observada no Brasil, onde as rádios chutam o governo Lula abaixo da linha da cintura; os jornalões desgastam e denunciam, enquanto a Globo faz a edição final no JN, transformando o boa noite diário da dupla Bonner & Fátima uma espécie de ‘meus pêsames, brasileiros pelo governo que escolheram; não repitam isso em 2010’.

No caso dos EUA, um país visceralmente conservador e racista não há , a rigor, grande surpresa pelos ataques da Fox & Cia a um Presidente negro e democrata. O que surpreende, de fato, é que Obama está reagindo. E o faz com um grau de contundência que, oxalá, sirva de inspiração para que um dia também possamos ouvir nos trópicos um porta-voz do Presidente Lula dizer com igual limpidez e serenidade, sem raiva, mas pedagogicamente: "A Folha está em guerra contra Lula(...) não precisamos fingir que o modo como essa organização trabalha é jornalístico. Quando o Presidente fala à Folha já sabe que não falará à imprensa, propriamente dita. O Presidente já sabe que estará debatendo com um partido da oposição."

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sobre a CPI do MST
por Roberto Torres

A instalacao de uma CPI para investigar repasses de verbas do governo a entidades ligadas ao MST e um insulto a democracia, um gesto truculento que conta com o apoio dos inimigos de sempre dos pobres: a midia golpista, os partidos de direita (DEM e PSDB) e a alianca de classe que da vazao ao desejo ruralista, que no fundo e de exterminar fisicamente estes pobres, que ao inves de estarem lambendo os pes dos seus "donos", decidem se organizar autonomamente para defender os proprios interesses. Nem mesmo Bresser Pereira aceitou engolir calado este absurdo e declarou de modo muito preciso que o MST e a unica organizacao que defende os interesses dos pobres neste pais. De fato a Historia parece mostrar que no Brasil foi o MST a experiencia exemplar que consegui ultrapassar os limites do sindicato de fabrica como forma de organizacao popular na politica. E justamente esta exemplaridade anima o odio de classe de gente como Ronaldo Caiado, Katia Abreu e sua turma. Querem liquidar o MST porque so gostam do povo quando este sabe obedecer. Querem matar o MST do mesmo modo que FH achou estar matando Lula em 2006 ("Lula esta morto", dizia ele em comicio no inicio de campanha). Em tempos de revolucao esta gente inauguraria a guilhotina....Quem ainda acha que luta de classes e coisa do passado, por so conseguir ver a classe quando ela se organiza e aparece na rua dizendo "somos uma classe", nao deveria mais duvidar. Mas cegueira cognitiva sempre resulta da identificacao afetiva com os dominantes.
O MST, em toda sua historia, mais do que o movimento operario brasileiro, tem mostrado como a luta de classes e uma luta pela vida, pois a luta pela dignidade no campo sempre encontrou como tarefa imediata a de ter que defender a vida enquanto tal, seja da fome, seja das emboscadas dos fazendeiros. Eu tenho varias criticas a hegemonia intelectual do MST, mas a simples existencia do MST e um fato que os que acreditam na democracia e na mudanca social devem louvar a cada dia no Brasil. Como essa gente humilhada e desacreditada todos os dias consegue encontrar forcar para lutar por um futuro coletivo e construir solidariedade entre si nao e nada obvio, mas um fenomeno altamente improvavel. Nao depende da ajuda do governo para existir, nem do PT, nem de ONG. Mas qual o argumento que se pode usar contra o governo decidir estimular, com dinheiro, a organzacao politica dos pobres a nao ser um argumento politico contra os pobres?
E preciso que todos os partidos de esquerda enfrentem esta luta e mostrem solidariedade politica ao MST. A popularidade do Presidente Lula nao pode ficar pendurada na parede, ou ser usada apenas na campanha eleitoral. Espero que, sendo necessario, ele a use em favor do seu povo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Exposição NU V E M


Car@s,

Lin Lima, que já deu as caras aqui, avisa e pede passagem para a exposição NU V E M, disponível para visitação no Espaço Imaginário (Avenida Gomes Freire - 454/457, Lapa, Rio de Janeiro) até o dia 20 de novembro.

Não perca! Afinal, como informa o release:

"Por sua propriedade de eterno deslocamento e metamorfose, “Nuvem" foi a escolha dos artistas Chang Chi Chai, Lin Lima e Begué para nomear os projetos artísticos desenvolvidos pelo grupo que têm, como questão fundamental, a relação arte e natureza. São trabalhos elaborados a partir da imersão no ambiente em seu sentido mais amplo (físico, geográfico, ecológico, sócio-cultural, afetivo, etc), a partir dos deslocamentos geográficos, do encontro com espaços e temporalidades diversas, das conexões e fragmentações que se estabelecem a partir desses contatos. Trabalhos que interrogam as noções e relações entre natureza e artifício, natureza e cultura, natureza e tecnologia, entre criação e devir. "

terça-feira, 13 de outubro de 2009


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bonnie Azevedo nos brinda com um relato instigante sobre sua inserção profissional, que destoa das expectativas afeitas à visão corrente do ofício do cientista social como exclusivo às instituições de ensino superior. Bonnie fala de um lugar específico, a Antropologia, cujas implicações metodológicas são reveladas em muitos dos desafios (e agruras) da etnografia do consumo de bens e serviços ao tornar-se uma demanda crescente no setor privado. Boa leitura!

O LUGAR DA ANTROPOLOGIA NO "OCEANO AZUL"

Por Bonnie Azevedo

Recordo que nos tempos de minha graduação em Ciências Sociais na UENF, pouco soube sobre Antropologia do Consumo ou da inserção de antropólogos no mundo corporativo. Assisti a uma aula sobre “O mundo dos bens”, considerado o marco inicial dos estudos antropológicos no campo do consumo, tal como o conhecemos hoje, mas na época, talvez por estar envolvida em outra temática de pesquisa, não dei muita importância.

No entanto, a graduação anunciava seu fim e me deparei com a possibilidade de desenvolver um projeto de pesquisa no mestrado que tangenciava o tema do consumo. Ao chegar a UFF, nas minhas primeiras aulas de Antropologia do Consumo, pensei “é isso”. Senti ter encontrado o que faria dentro da Antropologia e, certamente, essa escolha não era apenas acadêmica.

Pragmática por demais, sempre me senti deslocada e angustiada com uma crença, que parecia generalizada entre muitos de meus amigos: a carreira acadêmica era ‘o’ destino que aguardava todos nós. Quero deixar claro que não tenho nada contra a carreira acadêmica, e de todo, nunca a descartei inteiramente. Meu ponto é que ela não deveria ser uma certeza com uma aura de fardo e era exatamente isso o que ela era pra mim. Precisava saber, portanto, que eu tinha uma escolha.

Em 2006, questionando aquela que viria a ser minha orientadora sobre as perspectivas de trabalho para um antropólogo fora da academia, escutei: “Bonnie, as empresas estão desesperadas por antropólogos”.

Decidida e, desde então, sem mais questionar o que estava fazendo dentro da Antropologia, mergulhei nos estudos de consumo, de onde não mais saí, e pesquisei casos onde os antropólogos, ao prestar serviços como consultores, realizaram estudos para grandes empresas. Entre elas estavam Unilever, Xerox, Microsoft, Nokia entre outras. Havia entendido que o papel do antropólogo nessas empresas era o de ser o mediador – ou mesmo interlocutor – entre a empresa e seus clientes/consumidores-alvos, sempre na condição de um consultor. Ele seria contratado para realizar uma etnografia e para analisar os dados qualitativos resultantes das entrevistas e da observação participante, cujo resultado seria entregue num relatório final[1]. No entanto, o que tenho observado em um determinado segmento de atuação de antropólogos no mercado é diferente. Por essa razão, creio que nós, antropólogos em geral, precisamos estar atentos ao que, em minha opinião, anuncia realidades vindouras de pesquisa de campo para o mercado: realidades de ‘etnografias’ que fogem criticamente de seus principais propósitos.

A realização da etnografia, tal como é ensinada nas cadeiras de antropologia nos cursos de Ciências Sociais, preza por treinar os alunos, ao longo de várias disciplinas (e, conseqüentemente, diversos trabalhos finais) na sensibilidade e na atenção necessária ao fazer antropológico, envolvendo alguns pontos que eu discrimino a seguir:


  • Uma imersão no campo que precisa estar atenta à relativização do universo cultural do pesquisador, a fim de que este absorva as riquezas culturais do que ele está se propondo a observar;
  • Olhos, ouvidos, nariz... Enfim, toda sorte de sentidos da percepção aguçados na observação e sensação do ambiente em sua totalidade: físico, social, cultural etc;
  • Observar o ‘outro’, livre de pré-conceitos culturais;
  • Adquirir empatia para com o nativo e sua comunidade;
  • Refletir fundamentado nos instrumentais teóricos para não cair em vãs comparações incomparáveis;
  • Enfim, como diria DaMatta, um longo e exaustivo, porém prazeroso, exercício de tornar o exótico, familiar e o familiar, exótico.

Tudo isso para que o pesquisador tenha os resultados esperados da etnografia, resultados estes que a distinguem como um método ímpar de pesquisa sócio-cultural. Ela nos confere acesso às motivações profundas dos comportamentos individuais e sociais; permite-nos entrar em contato com o “tom emocional” (ethos) dos eventos; alcança o implícito e o explícito, os detalhes, o inconsciente (razão a qual muitos dos contratantes se atraem pelo método); capta o que ‘o nativo’, no nosso caso, ‘o usuário’ ou ‘o cliente’ não sabe e/ou não consegue racionalizar em palavras em um questionário ou grupo focal, métodos comuns na pesquisa de mercado tradicional.

Embora em níveis de profundidade e exigências diferenciados, as razões que expus acima são consideradas os grandes diferenciais e ganhos de se usar a etnografia como método tanto na academia, quanto no mercado.

Casos como o da Xerox [2], entre tantas outras etnografias de mercado bem sucedidas, ilustram que uma pesquisa de campo levada a cabo por antropólogos que passam algum tempo com consumidores em suas situações de compra e consumo pode trazer contribuições importantes à vida desses consumidores.

No entanto, algumas das pesquisas clamadas ‘etnográficas’ que vêm sendo realizadas abdicam justamente daquilo que as distinguem. Isso me leva a acreditar, diante do que tenho observado, que qualquer profissional minimamente treinado em observar usuários, independente de sua formação, pode realizar tal levantamento, pretensamente ‘etnográfico’. Pesquisas que supostamente levariam semanas ou meses para ser executadas e para condensar dados significativos sobre determinado universo sócio-cultural de consumo têm sido realizadas em períodos insignificantes, inconstantes, e mal-planejados. Exatamente por isso suas informações e análises podem ser superficiais.

No macro ambiente de mercado, o excesso de informação se tornou uma conseqüência da “era da informação”, onde o importante era adquirir o máximo de informações possíveis, criar bancos de dados, usar ferramentas estatísticas eficientes para processá-los, estar atento às notícias dos últimos minutos, porque afinal, atualizar-se é uma das competências imprescindíveis do mercado atual. No entanto, como disse recentemente um de meus professores [3], estamos passando por um momento de transição da era da informação para a “era da análise”. Isso não quer dizer que os valores da era da informação não estejam mais presentes. A mudança reflete o atual ‘estado da arte’: há um excesso de informações, mas o potencial de análise dos sistemas é insuficiente para condensá-las de forma significativa para o processo de tomada de decisão.

Em suma, há muita informação e conteúdo e pouca capacidade de análise. Ora, o que somos nós, cientistas sociais, se não treinados analistas de informações? Ir a campo, coletar dados, interagir com ‘nativos’, criar quadros mentais condensando informações, entender os universos simbólicos, comportamentos, formas de associações e relacionamento, valores, concepções de mundo, estilos de vida, histórias de vida, para então refletirmos sobre o que esses dados dizem sobre o mundo para nós. Não é exatamente isso que fazemos desde nossos primeiros ‘trabalhos finais”? Ou seja, o próprio ‘mercado’ está nos dizendo que somos peças necessárias no “oceano azul” que se delineia, onde a estratégia de expansão empresarial é mais voltada para encontrar espaços inexplorados no mercado do que para a acirrada concorrência (por uma pequena fatia) em um mercado saturado [4].

‘Pesquisas etnográficas’ se desprenderam tanto do seu caráter ‘original’ ensinado na Academia, que hoje já começa a haver uma distinção entre antropólogos e etnógrafos. Estes últimos seriam quaisquer uns daqueles que vão a campo com papel e caneta – e/ou todos os equipamentos tecnológicos disponíveis, como gravadores de áudio, câmeras fotográficas e filmadoras digitais (escondidas ou não) – em busca de um determinado comportamento de compra e uso de produtos ou serviços, de um perfil específico de consumidor.

Posso afirmar isso, até como ‘nativa’. Recentemente fui entrevistada por uma aluna de graduação (não uma graduação de antropologia) que procurava saber especificamente sobre os sapatos com os quais eu vinha trabalhar [5]. O tipo de pesquisa que a vi fazer é bem semelhante ao que sou requisitada a realizar em meu trabalho. Estive conversando com ela uns 20 a 30 minutos e por ser antropóloga já supunha algumas das questões que seriam interessantes de se apresentar a ela. Mesmo assim, deixei que ela conduzisse a entrevista e tentei, ao máximo, apresentar o conjunto de coisas que estavam relacionadas à resposta de suas perguntas – que eram gerais, temáticas e não pontuais como num questionário, o que me levava a crer que seu propósito era desenvolver uma pesquisa com um significativo viés qualitativo. No entanto, para minha surpresa, ela não anotou mais do que 10 palavras em no máximo cinco linhas, o que indicava que ela tinha um quadro mental prévio do que ela queria saber e todo o contexto que eu lhe estava sugerindo poderia ser ignorado para os seus propósitos.


O caráter exploratório de uma pesquisa etnográfica no mercado, normalmente, é quase anulado, uma vez que eles já sabem onde querem chegar. No entanto, os antropólogos que vão a campo com tempo e background suficientes, conseguem dados que não só atendem às expectativas da empresa, como apresentam questões que não foram formuladas, mas que também se mostram cruciais aos propósitos da empresa contratante. Como afirma o próprio Tom Kelley [6], antropólogos são

extremamente capazes de resolver o problema sob uma nova ótica – com base nas idéias que desenvolveram durante suas pesquisas de campo – a ponto de a observação certa não raro ser revolucionária (KELLEY, 2007: 16).

Por isso, afirmo que há uma grande difusão da pesquisa qualitativa no mercado, movimento esse que começa a se difundir nos circuitos de Marketing e Comunicação em geral e mais recentemente no Design [7]. Apesar desse reconhecimento, algumas dessas pesquisas não se atêm às características mais valorizadas do método. Um dos principais empecilhos é o tão famoso “tempo”. O texto “Etnografia: a nova pesquisa de mercado” já anuncia isso como uma realidade para a qual as empresas precisam estar atentas.

Esse tipo de processo consome bem mais tempo do que o preenchimento de um questionário ou a organização de uma discussão com a mediação de um especialista. Por isso, outra recomendação dada pelos mais experientes é reservar a esse tipo de pesquisa o tempo realmente necessário. É preciso olhar com reservas para a empresa de pesquisa de mercado que prometer utilizar a etnografia e apresentar um relatório em dez dias; um estudo dessa natureza requererá algumas semanas para soltar apenas uma "primeira avaliação". E será preciso haver uma boa equipe multidisciplinar conduzindo o estudo e representatividade dos grupos observados (HSM Management 60 Jan-fev 2007).

Antropólogos dispostos a “encarar” as etnografias de mercado devem saber que serão felizardos se tiverem a oportunidade de fazer o que é considerado uma etnografia rápida – “quick and dirty” –, levada a cabo de dois a três meses, porque a realidade atual já não mais me permite considerar muito do que tem sido feito, como etnografia, nem mesmo “quick” ou “dirty”. Por mais que eu escute nos mais diversos ambientes falas que revelam a importância de uma pesquisa qualitativa bem conduzida, seja ela etnográfica ou não, estas mesmas falas sempre vem acompanhadas de “a questão é que pesquisa é uma atividade cara e demanda muito tempo”. O que antes se pesquisava em 2 meses, hoje se faz em 1. E é isso que me preocupa. Até quando o “tempo” de pesquisa será “relativizado”.

Como não poderia deixar de atingir a nós, antropólogos, lá estão elas, as re-significações de métodos, de usos, de experiências e a tão famosa adaptação a essas transformações, onde não são os mais fortes que sobrevivem, mas os mais desprendidos dos métodos tal como aprenderam, os que facilmente se tornam “metamorfoses ambulantes”.

Nós, antropólogos, treinados a ver diversos mundos e a considerá-los (e por que não valorizá-los?) pelo que são, deveríamos, supostamente, adaptar-nos facilmente a essas mudanças. Entretanto, acredito que, consciente ou inconscientemente, haja um treinamento tão intenso de valorização da etnografia como o método por excelência da Antropologia, e do resultado que sabemos que ela é capaz de oferecer, que sentimos (ou pelo menos eu sinto) o que não acho palavra melhor para descrever do que “dó” e/ou “frustração” em ver seu potencial ser relegado a um segundo plano pelas contingências temporais, financeiras, enfim... pós-modernas.

..........................................

Seguem abaixo não apenas os artigos que foram citados, mas também os que serviram de inspiração a feitura desse artigo e que são uma excelente fonte para os interessados em entender melhor sobre as etnografias realizadas nas empresas. Eles versam tanto sobre experiências nacionais como internacionais.


BARBOSA, Lívia. Marketing etnográfico: colocando a etnografia em seu devido lugar. RAE. Vol 43. n 3. JUL/SET/2003. PP 100-105. Disponível em http://www.rae.com.br/artigos/1891.pdf. Acessado em 07 de outubro de 2009.

BARROS, Carla. A contribuição da Antropologia ao Marketing nos estudos sobre consumo. Seminário Estilo de vida e Consumo. Senac 2008. Disponível em http://www.rj.senac.br/img/Semin%C3%A1rio%20Estilo%20de%20Vida%20e%20Consumo_18%20e%2019%20de%20setembro%20de%202008.pdf. Acessado em 07 de outubro de 2009.

CAMPOS, R.; CASOTTI, L.; SUAREZ, M. Possibilidades de Contribuição da Sociologia ao Marketing: Itinerários de Consumo. Anais do II Encontro de Marketing da ANPAD – EMA, Rio de Janeiro, 2006. Disponível em http://www2.coppead.ufrj.br/port/pdf/catedra/metodo_itinerarios.pdf. Acessado em 07 de outubro de 2009.

Dossiê ‘Etnografia: a nova pesquisa de mercado.’ HSM Management 60 Jan-fev 2007. Disponível em http://www.novonordisk.com.br/documents/promotion_page/document/etnografia_nova_pesquisa_mercado.asp. Acessado em 07 de outubro de 2009.

KELLEY, Tom. LITTMANN, Jonathan. As 10 faces da inovação: o poder da criatividade e da inovação na empresa. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 2007.

KIM, W. Chan & MAUBORGNE, Renée. A Estratégia do Oceano Azul. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2005.

PEIXOTO, Fabio. Invasão de domicilio. Revista Exame. 08.08.2001. Disponível em http://www.culturaesociedade.org/pdf/Invasaodomicilio.pdf. Acessado em 07 de outubro de 2009.


SURI, Jane Fulton. HOWARD, Suzanne Gibbs. Going deeper, seeing further: enhancing ethnographic interpretations to reveal more meaningful opportunities for design. Journal of Advertising Research, September 2006, pp 246-250. Disponível em http://www.ideo.com/images/uploads/thinking/publications/pdfs/jar_2006.pdf. Acessado em 07 de outubro de 2009.


[1] Poderíamos considerar isso como a tradução do caminho de uma pesquisa acadêmica tradicional para uma pesquisa etnográfica voltada para um objetivo específico, demandada por um contratante: o ponto de partida com a idéia da pesquisa, seguida do planejamento de campo, trabalho de campo, análise dos dados e apresentação dos resultados encontrados.

[2] Em 1979, a Xerox “(...) contratou a antropóloga Lucy Suchman para trabalhar no centro de pesquisa instalado em Paio Alto e a incumbiu de fazer um trabalho de campo: Suchman deveria visitar as empresas que haviam instalado fotocopiadoras da marca e realizar um filme com uma síntese da "experiência" dos profissionais na hora de utilizar o equipamento. Depois de assistir à luta dos operadores com as copiadoras para tirar uma cópia, os engenheiros da Xerox começaram a desenvolver o produto de maneira diferente. A pesquisa feita pela antropóloga resultou nas atuais máquinas copiadoras (de todas as marcas), que hoje ostentam um grande botão verde bastante visível, mas que no passado ninguém conseguia encontrar. Seguindo o exemplo da Xerox, na década de 1980 as agências de design industrial começaram a incluir em seus quadros de funcionários antropólogos e sociólogos.” (HSM Management 60 Jan-fev 2007)

[3] Atualmente curso uma pós-graduação em Marketing Estratégico.

[4] A metáfora do oceano vermelho (concorrência acirrada) e o oceano azul (inovação) é discutida num livro muito comentado nos ambientes organizacionais: “A estratégia do oceano azul” de W. Chan Kim & Renee Mauborgne.

[5] Desnecessário aqui dizer o nome, o curso, ou o propósito da pesquisa.

[6] Gerente da IDEO, empresa que trabalha com Design Thinking como método para desenvolver inovação. Nesse método, a etnografia é o ponto de partida.

[7] A etnografia se destaca como método ou inspiração para os trabalhos que hoje são realizados em marketing etnográfico, branding experience, design thinking, design estratégico, user experience, design sensorial, método de itinerários, entre outros.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Jürgen Habermas

Nenhum filósofo alemão da atualidade desperta tanta atenção mundial como Jürgen Habermas. Um perfil, por ocasião do seu 80º aniversário

por Thomas Assheuer




No final da década de 1970, os livros de Jürgen Habermas eram lidos sob a carteira escolar, às escondidas dos professores do colégio. Hoje, os textos de Habermas são leitura obrigatória. Quem não conhece seus conceitos principais, deve esconder o desconhecimento, pois seu autor tornou-se um clássico ainda em vida e tão famoso, quanto pode ser um professor de Filosofia. Isto não é um bom sinal, pois para um clássico vale a regra: suas fórmulas são con­hecidas. Mas seu motivo filosófico, no qual pulsa o coração do pensamento – isto, a gente esquece.

A motivação básica do pensamento de Jürgen Habermas está às claras e, ainda assim, é difícil de ser encontrada pelos leitores. Às vezes se oculta por trás do terno cinzento da objetividade acadêmica, outras vezes desaparece sob um monte de justificações. Mas desde o início, já nos primeiros trabalhos de estudante, ela não pode passar despercebida. De forma muito simplificada, a motivação é a seguinte: quem faz uma retrospectiva da história da humanidade, descobre uma ladainha de terror, uma história chocante de violência atrás de violência. E, no entanto, há um progresso que não se pode negar, apesar de todos os reveses, uma “evolução” social e, com isto, a possibilidade de civilizar o poder e a violência ou talvez de eliminá-la inteiramente um dia. O instrumento da autocivilização é a língua humana, pois cada fala encerra um objetivo, o “télos da compreensão”. A comunicação interrompe o estado de guerra no mundo.

Quem pressupõe uma vigorosa herança idealista neste pensamento, tem razão inicialmente. Habermas, na época um estudante com pouco mais de vinte anos, confrontou-se com pensamentos grandiosos, mas extremamente especulativos, ao ler o filósofo idealista Schelling, que o fascina ainda hoje. “Deus Pai”, escreveu Schelling, retirou-se da criação, deixando o campo para o ser humano. No entanto, as criaturas beneficiadas com a liberdade têm a obrigação de fazer o uso correto da sua liberdade. Com a ajuda de sua língua, elas têm que estabelecer entre si a mesma relação de reconhecimento, que Deus teve em relação a elas, quando lhes concedeu a autonomia. Quem viola este pacto com Deus, comete novamente um “pecado original”.

Habermas, que veio do mundo de pensamento do filósofo existencial Heidegger e do antropólogo Gehlen, escreveu sua tese de doutoramento sobre Schelling e deu um rumo surpreendente à sua interpretação. Ele estabeleceu uma ligação com os primeiros escritos de Marx, cuja crítica social lhe deu a possibilidade de compreender o discurso de Schelling sobre o pecado original, de forma bem concreta, bem materialista. Um pecado original é quando as relações de poder vencem as relações da língua – quando os “libertados da criação” não escolhem a compreensão, mas sim a violência, como frequentemente na história.

Mas os filósofos não são literatos, isto é, eles têm de dar uma austeridade básica aos temas, com os quais estão “infectados”, expurgando os detritos especulativos e tornando-os compreensível ao público esclarecido, através de conceitos claros. Exatamente isto é o que Jürgen Habermas tomou como programa. Com o frio instrumento da ciência, ele quis provar que a língua não é apenas uma arma na guerra civil babilônica da sociedade, uma máscara do poder. Sua antifórmula é a seguinte: que observa bastante o tecido da língua contra a luz, quem examina o bastante as suas leis, ele reconhecerá que nela está incluída uma normatividade, uma aspiração à verdade, que podemos transgredir, mas não podemos eliminar basicamente. Com palavras, pode-se mentir e exercer o poder, mas não pode existir uma língua que esteja intei­ramente baseada em mentira e engodo. “Mesmo nas comunicações patologicamente deturpadas está fin­cado o ferrão da aspiração pela verdade”.

Não é preciso pensar muito para ver que poder explosivo uma filosofia da comunicação, derivada de Schelling, enriquecida com Marx e temperada com os recursos da linguística, desenvolveu entre os intelectuais famintos de teoria dos anos sessenta. Eles interpretaram Habermas exatamente como ele pensava: como conclamação a uma democracia radical e à crítica radical. A democracia está danificada, onde a “opinião pública” é dominada por monopólios de opinião, manipulada por lobistas e malversada por políticos. E defeituosas são as democracias que se entregam cegamente ao curso do progresso, sem livre arbítrio, que têm “ciência e técnica como ideologia” (segundo um estudo do ano de 1968).

Na época, falou-se muito de “liberdade do poder”. Em seus escritos, Habermas quis reconhecer até mesmo um “interesse objetivo” de emancipação. Hoje, ao contrário, chama a atenção um outro caráter desses livros, um conservadorismo cultural, dito com cuidado, uma profunda ambiva­lência. De um lado, Habermas admira as sociedades modernas, pois elas – fato histórico singular – impuseram processos democráticos e ampliaram a “área de ação” discursiva da razão comunicativa. Mas, por outro lado, as sociedades modernas têm de ser temidas, pois seus sistemas funcionais desenvolvem um excesso de poder. As pressões capitalistas do mercado chocam com a autodeterminação democrática.

Os fios desses pensamentos juntam-se num nó monumental, nos dois tomos da “Teoria da Ação Comunicativa” (1981). Esta obra central foi celebrada, com razão, como despedida do pensamento pessimista da “velha” Escola de Frankfurt, mas nela encontra-se a mesma contradição. O dinamismo sufocante do capitalismo e também a técnica e a ciência empurram a sociedade para frente. Mas, ao mesmo tempo, parte destes “sistemas” complexos uma ameaça invisível. Eles assediam o “mundo da vida” – necessitado de zelo – dos cidadãos. Seus cálculos de proveito infiltram as velhas “tradições inconscientes-cientes” e fixam-se na esfera pré- polí­tica, na vida privada e na família. Em re­sumo: a vida moderna encerra uma contradição. Seus sistemas aliviam da miséria material, mas ao mesmo tempo, quase não podem ser conciliados com o dia-a-dia ou invadem como “senhores coloniais” os “poros” de formas consagradas de vida, infiltrando-as através da comercialização, da burocratização e do cientificismo.

Transposto às relações de hoje, isto significa: uma forma de “colonização” econômica está inerente à reivindicação de que a sociedade tem de ser organizada como um centro de lucro, do berço ao túmulo. O mesmo é válido para a brutal transformação das universidades, visando “eficiência”. E se as ciências biológicas lograrem manipular geneticamente os “antigos sujeitos” e fizer com que perfilem como bonequinhos de Lego no parque humano, então isto seria uma vitória da lógica cien­tífica sobre o mundo da vida.

Sua obra contém uma promessa luminosa de liberdade

Talvez seja esta visão rota da atualidade, turvada pelo ceticismo, o que esclarece a carreira acadêmica e o alcance mundial de Jürgen Habermas. Sem reservas, ele adere ao espírito do modernismo, sua obra contém uma promessa luminosa de liberdade e defende o Estado de direito e a demo­cracia com eloquência patética. Ao mesmo tempo, nutre-se de uma motivação romântica, composta pela reconciliação e a compreensão. Assim, a obra permanece sensível às coações de uma salvação mundial voltada para o mercado, a uma racionalidade sem fortúnio, ao desalento da liberdade vazia e do progresso insensato.

A fórmula salvadora de Habermas nos anos oitenta era: “reconciliação com o modernismo em autodestruição”, pelo que o capitalismo e a democracia, a ciência e a arte deveriam ser reequilibrados, como um móbile. Para a esquerda radical, o projeto era muito carola, os conservadores perseguiam o convicto intelectual de esquerda com franco ódio e denunciavam Habermas como mentor intelectual do terrorismo. Estas foram as batalhas do passado. Quem lê hoje, com que arrojo argumentativo um conservador como Ernst-Wolfgang Böckenförde ajusta as contas com neoliberalismo, com a hegemonia do mercado sobre a democracia legal, não sabe mais exatamente sobre o que se polemizou durante anos, de maneira passional e ofensiva. É como se Habermas tivesse unido a república através da discussão que ele gerou, sendo que tanto seus próprios argumentos, como os dos seus adversários, transformaram-se com o tempo. Ele marcou época na consciência coletiva, nenhum outro marcou a fisionomia intelectual da Alemanha Federal como ele. E ela lhe deve de maneira decisiva a sua recriação moral.

Jürgen Habermas: Biografia

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf em 18 de junho de 1929, estudou Filosofia, Psicologia, Germanística e Eco­nomia em Göttingen, Zurique e Bonn. Em 1956, Habermas tornou-se assistente de pesquisa no Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt do Meno. Após sua habilitação como professor universitário, feita com Wolfgang Abendroth em Marburg, ele foi levado para Heidelberg por Hans-Georg Gadamer. Em 1964, Habermas tornou-se professor de Filosofia e de Sociologia em Frankfurt do Meno. Logo, os estudantes de esquerda passaram a celebrar o astro acadê­mico como seu mentor intelectual. Entre 1971 e 1980, ele foi diretor do Instituto Max Planck de Pesquisa das Condições de Vida no Mundo Científico-Técnico, em Starnberg. Em 1980, seu discurso ao receber o Prêmio Theodor W. Adorno, sobre “O Projeto Inacabado do Modernismo”, Habermas provocou um debate sobre o pós-modernismo e o pós-estruturalismo, que durou muito tempo. Sua intervenção contra o revisionismo histórico do historiador Ernst Nolte, em 1985, deflagrou a polêmica dos historiadores, uma controvérsia sobre a forma de tratar o passado alemão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

UENF mais uma vez!


Uma vez mais a alucinação que decantou na realidade é laureada.

E assim se faz uma Universidade.

Parabéns à comunidade científica uenfiana!


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Uenf ganha de novo Prêmio do CNPq

Pela segunda vez, em seis edições, a Universidade Estadual do Norte Fluminense acaba de receber o Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica, na categoria 'Mérito Institucional'. O Prêmio, conferido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), é atribuído à instituição com maior índice de ex-alunos da Iniciação Científica que se titulam mestres ou doutores em cursos reconhecidos pela Capes/MEC.

A entrega da premiação será feita no dia 19/10/09, às 11h, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF), durante as atividades da Semana Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

A Uenf já tinha sido a primeira vencedora quando o Prêmio Destaque do Ano foi instituído pelo CNPq, em 2003. A Iniciação Científica é um dos pontos fortes da Uenf, e atualmente a Universidade mantém cerca de 380 alunos envolvidos em pesquisas e recebendo bolsas. São 158 bolsas concedidas pelo CNPq (incluindo 18 na modalidade 'ações afirmativas'), 140 pela Uenf (com recursos descentralizados da Faperj) e algo em torno de 80 bolsas obtidas diretamente pelos professores orientadores em diversas agências de fomento.

Em correspondência dirigida ao reitor da Uenf, Almy Junior, o CNPq parabeniza a instituição pela conquista e apresenta os critérios que nortearam a concessão do Prêmio. A Iniciação Científica é uma espécie de ‘celeiro’ de futuros cientistas, e a efetividade do programa é medida em termos do percentual de universitários que passaram pela experiência e se titularam mestres ou doutores em cursos reconhecidos pela Capes/MEC.

— A ênfase na Iniciação Científica é uma das características de origem do modelo Uenf, que já realizou 14 Encontros anuais de I.C. em 16 anos de existência. E a reiteração do Prêmio pelo CNPq é mais uma confirmação objetiva do quanto estamos no caminho certo — avalia o reitor Almy Junior.

DESTAQUES EM SEQUÊNCIA

Primeira vencedora do Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica, em 2003, a Uenf é também a primeira instituição a conquistar o prêmio pela segunda vez. À exceção de 2004, quando não houve vencedor na categoria 'Mérito Institucional', as instituições contempladas nos anos posteriores foram a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ, 2005), a Universidade Federal de Viçosa (UFV, 2006), a Universidade Federal de Lavras (Ufla, 2007) e a Universidade Estadual de Maringá (UEM, 2008).

A concessão do Prêmio pelo CNPq é o terceiro destaque nacional da Uenf neste segundo semestre de 2009. Em agosto, o Ministério da Educação (MEC) confirmou a instituição como uma das 15 melhores universidades do Brasil segundo os parâmetros do Índice Geral de Cursos da Instituição (IGC) - agregado de indicadores de qualidade dos cursos de graduação, mestrado e doutorado. E em setembro, o MEC atribuiu conceitos 4 ou 5 (os melhores) a dez cursos de graduação da Uenf, apontando o de Pedagogia como terceiro melhor do país.

Para a coordenadora do Pibic (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) na Uenf, professora Claudia Dolinski, o novo prêmio do CNPq consolida a Uenf como universidade amadurecida e faz jus à atuação dos professores e alunos do programa. A estudante Evelyn de Almeida Campos, bolsista de Iniciação Científica do curso de Ciências Sociais, diz que o programa lhe permitiu inserir-se num grupo qualificado de pesquisadores e conhecer novas realidades.

Assessoria de Comunicação Social UENF



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

VIVA O RIO!

Fabrício Maciel
O Brasil comemora, neste momento, a vitória do Rio de Janeiro para sede dos jogos olímpicos de 2016. Copacabana está em festa. O discurso de Lula, comovente, agora no início da tarde, é emblemático da condição atual do país na política internacional, por um lado, e da eterna necessidade de legitimação interna, por outro. O evento já é considerado histórico por sua peculiaridade: a primeira vez que um país sul-americano será sede dos jogos.
Como brasileiro, é difícil não se emocionar com Lula. E esta fala é especial. Foram vários minutos em rede nacional de extrema comoção e sinceridade. Lula atualizou todos os mitos sobre o nosso povo. Afirmou nosso mérito pela capacidade que o brasileiro terá de realizar a olimpíada mais bonita de todas. E também que nenhum outro concorrente poderia ganhar pois apenas a gente conseguiu transmitir com os olhos a vontade sincera de realizá-la. Ele considerou o evento a última etapa que faltava para que o mundo reconhecesse totalmente o valor do povo brasileiro. Foi, em sua fala, o último preconceito quebrado. Uma vez já reconhecidos economicamente, agora ninguém mais duvida, em nenhum aspecto, do povo brasileiro. Um ponto alto da fala é que o Brasil consegue agora provar ao mundo seu valor econômico, político e social.
É claro que para nossa política externa e nossa economia o fato deve ser comemorado. Legitima o papel destacado do Brasil no eixo Sul do mundo. Em termos de política internacional de fato estamos muito bem. Alguém brincou que hoje Lula ganhou de Obama. E ele responde bem: o Rio ganhou de Chicago, uma das competidoras. Para fora, a força do mito está cada vez mais atualizada e cumpre uma função importante. No mundo moderno, nenhuma vitória nacional, em termos políticos e econômicos, pode legitimar-se por si mesma. A singularidade cultural é que a legitima, ainda que se trate de um país periférico como o nosso. Todo país precisa disso, seja qual for seu lugar na divisão internacional do trabalho.
O curioso neste fato é que a ênfase abstrata nas relações internacionais, no crescimento de uma nação como a nossa, em termos econômicos e políticos, continua tirando o foco das questões concretas de vida ou morte, como diria Bourdieu, de uma nação moderna. Trata-se da legitimação de desigualdades de classe no mundo moderno sobre as quais os mitos nacionais exercem função fundamental, ao lado da ideologia do mérito. Assim, se externamente o mito parece exercer agora uma função positiva, legitimando e reforçando conquistas nacionais no contexto das relações internacionais, internamente ele continua operando sua função negativa, legitimando nossa desigualdade. Paralelo e articulado ao mito da singularidade cultural nacional, está o mito da estabilidade econômica. A mesma lógica econômica e política assimétrica do capitalismo, enquanto sistema mundial desdobrado em seus subsistemas nacionais, opera então dois movimentos.
De um lado, o crescimento relativo das economias periféricas por conta das necessidades de produção do capitalismo mundial. Por outro, a reprodução das desigualdades de classe internas, nas quais apenas as classes qualificadas participam dos efeitos positivos, em termos objetivos e subjetivos, que o crescimento relativo das economias periféricas proporciona internamente. Neste movimento, o papel ambíguo do mito nacional, perfeitamente exemplificado no evento em foco, parece ainda fundamental.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"Em defesa da democracia e do MST"


Bastou realizarmos mais uma jornada de lutas - cobrando o cumprimento de uma pauta de reivindicações apresentada ao governo Lula ainda em 2005 – e exigirmos a atualização dos índices de produtividade agrícola, como estabelece a Constituição Federal, para que viesse a reação.

Os setores mais conservadores do Congresso e da sociedade, liderados pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO), começaram a orquestrar uma nova ofensiva contra o MST. Na semana passada, os parlamentares ruralistas protocolaram mais uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra o MST - a terceira em menos de 5 anos. É exatamente uma represália à nossa ousadia de solicitar a atualização dos índices de produtividade agrícola, que poderá beneficiar os proprietários rurais que realmente produzem em nosso país.

Os que não produzem, certamente, aprovados os novos índices, terão dificuldades de acessar os recursos dos cofres públicos. Assim, os “modernos” defensores do agronegócio não apenas defendem uma agricultura atrasada, em defesa própria, como também expressam, mais uma vez, seu caráter anti-social e parasitário dos recursos públicos.

Os ruralistas, agora parlamentares, alegam que há uma malversação dos recursos públicos destinados à Reforma Agrária para justificar essa CPI. É um direito deles fazer esse questionamento e elogiamos a disposição de prezar pelos recursos públicos.

Mesmo sabendo que a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que a senadora Kátia Abreu preside, financiou a campanha eleitoral da senadora e até hoje não foi investigada. Mas se há problemas com esses recursos públicos, para que serve o Tribunal de Contas da União (TCU), subordinado ao Congresso Nacional, ou a Receita Federal?

Há a necessidade de criar uma nova CPI ou os objetivos são apenas imobilizar um movimento social e ocupar espaços na mídia para inibir a bandeira da Reforma Agrária? Parlamentares identificados ou coniventes com esses objetivos é que não faltam.

Mas se não nos faltam inimigos da Reforma Agrária, fortalecidos política e economicamente há cinco séculos pela existência do latifúndio, também não nos faltam solidariedade e apoio de incansáveis e valorosas lutadoras e lutadores da Reforma Agrária.

Abaixo, segue o texto do Manifesto. Assine-o e promova sua divulgação. Para assinar, entre em: http://www.petitiononline.com/manifmst/petition.html.

Secretaria Nacional do MST

Manifesto em defesa da Democracia e do MST

“...Legitimam-se não pela propriedade, mas pelo trabalho,

nesse mundo em que o trabalho está em extinção.

Legitimam-se porque fazem História,

num mundo que já proclamou o fim da História.

Esses homens e mulheres são um contra-senso

porque restituem à vida um sentido que se perdeu...”

(“Notícias dos sobreviventes”, Eldorado dos Carajás, 1996)


A reconstrução da democracia no Brasil tem exigido, há trinta anos, enormes sacrifícios dos trabalhadores. Desde a reconstrução de suas organizações, destruídas por duas décadas de repressão da ditadura militar, até a invenção de novas formas de movimentos e de lutas capazes de responder ao desafio de enfrentar uma das sociedades mais desiguais do mundo. Isto tem implicado, também, apresentar aos herdeiros da cultura escravocrata de cinco séculos, os trabalhadores da cidade e do campo como cidadãos e como participantes legítimos não apenas da produção da riqueza do País (como ocorreu desde sempre), mas igualmente como beneficiários da partilha da riqueza produzida.

O ódio das oligarquias rurais e urbanas não perde de vista um único dia, um desses novos instrumentos de organização e luta criados pelos trabalhadores brasileiros a partir de 1984: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. E esse Movimento paga diariamente com suor e sangue – como ocorreu há pouco no Rio Grande do Sul, por sua ousadia de questionar um dos pilares da desigualdade social no Brasil: o monopólio da terra. O gesto de levantar sua bandeira numa ocupação traduz-se numa frase simples de entender e, por isso, intolerável aos ouvidos dos senhores da terra e do agronegócio. Um País, onde 1% da população tem a propriedade de 46% do território, defendida por cercas, agentes do Estado e matadores de aluguel, não podemos considerar uma República. Menos ainda, uma democracia.

A Constituição de 1988 determina que os latifúndios improdutivos e terras usadas para a plantação de matérias primas para a produção de drogas, devem ser destinados à Reforma Agrária. Mas, desde a assinatura da nova Carta, os sucessivos Governos têm negligenciado o seu cumprimento. À ousadia dos trabalhadores rurais de garantir esses direitos conquistados na Constituição, pressionando as autoridades através de ocupações pacíficas, soma-se outra ousadia, igualmente intolerável para os senhores do grande capital do campo e das cidades: a disputa legítima e legal do Orçamento Público.

Em quarenta anos, desde a criação do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), cerca de um milhão de famílias rurais foram assentadas - mais da metade de 2003 pra cá. Para viabilizar a atividade econômica dessas famílias, para integrá-las ao processo produtivo de alimentos e divisas no novo ciclo de desenvolvimento, é necessário travar a disputa diária pelos investimentos públicos. Daí resulta o ódio dos ruralistas e outros setores do grande capital, habituados desde sempre ao acesso exclusivo aos créditos, subsídios e ao perdão periódico de suas dívidas.

O compromisso do Governo de rever os critérios de produtividade para a agricultura brasileira, responde a uma bandeira de quatro décadas de lutas dos movimentos dos trabalhadores do campo. Ao exigir a atualização desses índices, os trabalhadores do campo estão apenas exigindo o cumprimento da Constituição Federal, e que os avanços científicos e tecnológicos ocorridos nas últimas quatro décadas, sejam incorporados aos métodos de medir a produtividade agrícola do nosso País.

É contra essa bandeira que a bancada ruralista do Congresso Nacional reage, e ataca o MST. Como represália, buscam, mais uma vez, articular a formação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra o MST. Seria a terceira em cinco anos. Se a agricultura brasileira é tão moderna e produtiva – como alardeia o agronegócio, por que temem tanto a atualização desses índices?

E, por que não é criada uma única CPI para analisar os recursos públicos destinados às organizações da classe patronal rural? Uma CPI que desse conta, por exemplo, de responder a algumas perguntas, tão simples como: O que ocorreu ao longo desses quarenta anos no campo brasileiro em termos de ganho de produtividade? Quanto a sociedade brasileira investiu para que uma verdadeira revolução – do ponto de vista de incorporação de novas tecnologias – tornasse a agricultura brasileira capaz de alimentar nosso povo e se afirmar como uma das maiores exportadoras de alimentos? Quantos perdões da dívida agrícola foram oferecidos pelos cofres públicos aos grandes proprietários de terra, nesse período?

O ataque ao MST extrapola a luta pela Reforma Agrária. É um ataque contra os avanços democráticos conquistados na Constituição de 1988 – como o que estabelece a função social da propriedade agrícola – e contra os direitos imprescindíveis para a reconstrução democrática do nosso País. É, portanto, contra essa reconstrução democrática que se levantam as lideranças do agronegócio e seus aliados no campo e nas cidades. E isso é grave. E isso é uma ameaça não apenas contra os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, como para toda a sociedade. É a própria reconstrução democrática do Brasil, que custou os esforços e mesmo a vida de muitos brasileiros, que está sendo posta em xeque. É a própria reconstrução democrática do Brasil, que está sendo violentada.

É por essa razão que se arma, hoje, uma nova ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade contra o Movimento dos Sem Terra – seja no Congresso Nacional, seja nos monopólios de comunicação, seja nos lobbies de pressão em todas as esferas de Poder. Trata-se, assim, ainda uma vez, de criminalizar um movimento que se mantém como uma bandeira acesa, inquietando a consciência democrática do país: a nossa democracia só será digna desse nome, quando incorporar todos os brasileiros e lhes conferir, como cidadãos e cidadãs, o direito a participar da partilha da riqueza que produzem ao longo de suas vidas, com suas mãos, o seu talento, o seu amor pela pátria de todos nós.

Contra a criminalização do MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA!

Pelo cumprimento das normas constitucionais que definem as terras destinadas à Reforma Agrária!

Pela adoção imediata dos novos critérios de produtividade para fins de Reforma Agrária!

São Paulo, 21 de setembro de 2009

Alípio Freire – escritor (São Paulo)

Hamilton Pereira, o Pedro Tierra – poeta e membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo

Heloísa Fernandes – socióloga, USP e ENFF

Osvaldo Russo – estatístico, ex-presidente do INCRA (1993-1994), diretor da ABRA e coordenador do núcleo agrário nacional do PT

Plínio de Arruda Sampaio – presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), ex-Deputado Federal Constituinte pelo PT-SP (1985-1991) e ex-consultor da FAO

Confira as demais assinaturas feitas pelo Petition Online.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A ciência social como vocação

Fabrício Maciel
Em meio a contingência e correria da rotina, acabo de reler a "ciência como vocação" de Weber. Não tive como não pensar nos últimos episódios envonvendo os estudantes de ciencias sociais na Uenf e o Enade. Este é um daqueles textos que marcam a gente pra sempre. Cada vez que releio sinto mais vontade de continuar na dura senda de acreditar em algo em nossa profissão. Em meio a conhecida tese da tragédia weberiana, ele consegue apresentar, ironicamente, um fecho de luz para quem deseja ser cientista. Seu ambiente em grande parte era semelhante ao nosso, recheado de medíocres e profetas acadêmicos que ganhavam muito mais destaque do que quem queria fazer ciência de verdade.
Num mundo desencantado, Weber tinha consciência, e por isso aconselha seus alunos nesta palestra, de que a ciência, e especialmente a social, não poderia fornecer o afago que a religião e o pensamento mágico pudera. No entanto, o conselho é positivo. Ele acreditava no que fazia. Acreditava que, dentro da realidade já presente na Alemanha, a da especialização dos pesquisadores, aqueles que tivessem consciência dos limites da ciência poderiam exercer seu intelectualismo e racionalidade, e desta forma fornecer ao mundo um conhecimento especial que pudesse, de forma simples, não afagar todas as suas dores, mas sim contribuir em pequena parte para sua mudança. Quem fizer o contrário disso não é cientista, mas um falso profeta, prometendo aos ouvintes o que não pode dar.
A fórmula de Weber era simples: intuição, idéias, e muito trabalho árduo, concentrado, coinciente de que qualquer obra científica existe como atual apenas em seu tempo, deve ser superada, mas sempre terá valor se lida contextualizada e se for frutírera para trabalhos posteriores. E apenas assim. Até hoje não vi ninguém provar o contrário. Por fim, nosso mestre tinha consciência da tensão entre os fatores subjetivos e aqueles que ele chamava de externos, ou seja, tinha noção de que o mundo não é como a gente quer, de que as forças objetivas, econômicas e de poder, no que certamente concordava com o velho Marx, sempre cercearão nossa vontade, mas nunca poderá assassiná-la, se não formos infantis e quisermos acreditar em algo, porém conscientes dos limites do campo objetivo no qual estamos. Esta foi a lição de Weber para seus alunos. HOje, cem anos depois, me sinto privilegiado de poder apenas ler a lição. Acho que as gerações atuais de alunos de ciências sociais precisam mais do que nunca reler o velho Weber. Sem deixar de crer em um mundo melhor, mas tendo mais conhecimento sobre o mundo que pretendem mudar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Estados Unidos fascistas: Já chegamos lá?



Por Sara Robinson


Através da escuridão dos anos do governo Bush, os progressistas assistiram horrorizados ao sumiço das proteções constitucionais, à retórica nativista, ao uso do discurso de ódio transformado em intimidação e violência e a um presidente dos Estados Unidos que assumiu poderes só exigidos pelos piores ditadores da história. Com cada novo ultraje, o punhado de nós que tinha se tornado expert na cultura e na política da extrema-direita ouvia de novos leitores preocupados: Che gamos lá? Já nos tornamos um estado fascista? Quando vamos chegar lá?

E cada vez que essa pergunta era feita, gente como Chip Berlet e Dave

Neiwert e Fred Clarkson e eu mesma olhava para o mapa como o pai que faz uma longa viagem e respondia com um sorriso confortador. "Bem... estamos numa estrada ruim, se não mudarmos de caminho poderíamos acabar lá em breve. Mas há muito tempo e oportunidades para voltar. Fique de olho, mas não se preocupe. Pode parecer ruim, mas não, ainda não chegamos lá".

Ao investigar a quilometragem nesse caminho para a perdição, muitos de nós nos baseávamos no trabalho do historiador Robert Paxton, que é provavelmente o estudioso mais importante na questão de como os países adotam o fascismo. Em um trabalho publicado em 1998 no Jornal da História Moderna, Paxton argumentou que a melhor forma de reconhecer a emergência de movimentos fascistas não é pela retórica, pela política ou pela estética. Em vez disso, ele afirmou, as democracias se tornam fascistas por um processo reconhecível, um grupo de cinco estágios que identificam toda a família de "fascismos" do século 20. De acordo com nossa leitura de Paxton, ainda não estávamos lá. Havia certos sinais -- um, em particular -- em que estávamos de olho, e ainda não o reconhecíamos.

E agora o reconhecemos. Na verdade, se você sabe o que procura, repentinamente vê isso em todo lugar. É estranho que eu não tenha ouvido a pergunta por um bom tempo; mas se você me fizer a pergunta hoje, eu diria que ainda não chegamos, mas que já entramos no estacionamento e estamos procurando uma vaga. De qualquer forma, o futuro fascista dos Estados Unidos aparece bem grande diante do vidro do automóvel -- e os que dão valor à democracia dos Estados Unidos precisam entender como chegamos aqui, o que está mudando e o que está em jogo no futuro próximo se permitirmos a essa gente vencer -- ou mesmo manter o território.

O que é fascismo?

A palavra tem sido usada por tanta gente, tão erroneamente, por tanto tempo que, como disse Paxton, "todo mundo é o fascista de alguém". Dado isso, sempre gosto de começar a conversa revisitando a definição essencial de Paxton:

"Fascismo é um sistema de autoridade política e ordem social que tem o objetivo de reforçar a unidade, a energia e a pureza de comunidades nas quais a democracia liberal é acusada de produzir divisão e declínio".

Em outro lugar, ele refina o termo como "uma forma de comportamento político marcado pela preocupação obsessiva com o declínio da comunidade, com a humilhação e a vitimização e pelo culto compensatório da unidade, energia e pureza, na qual um partido de massas de militantes nacionalistas, trabalhando em colaboração desconfortável mas efetiva com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e busca através de violência redentora e sem controles éticos ou legais objetivos de limpeza interna e expansão externa".

Não considerando Jonah Goldberg, é uma definição básica com a qual a maioria dos estudiosos concorda e é a que usarei como referência

Do proto-fascismo ao momento-chave

De acordo com Paxton, o fascismo surge em cinco estágios. Os dois primeiros estão solidamente atrás de nós -- e o terceiro deveria ser de particular interesse para os progressistas nesse momento.

No primeiro estágio, um movimento rural emerge em busca de algum tipo de renovação nacionalista (o que Roger Griffin chama de palingenesis, o renascimento das cinzas, como a de fênix). Eles se reúnem para restaurar uma ordem social rompida, como sempre usando temas como unidade, ordem e pureza. A razão é rejeitada em favor da emoção passional. A maneira como a história é contada muda de país para país; mas ela sempre tem raiz na restauração do orgulho nacional perdido pela ressureição dos mitos e valores tradicionais da cultura e na purificação da sociedade das influências tóxicas de estrangeiros e de intelectuais, aos quais cabe o papel de culpados pela miséria atual.

O fascismo somente cresce no solo revolto de uma democracia madura em crise. Paxton sugere que a Ku Klux Klan, que se formou em reação à Restauração pós-Guerra Civil, pode ser o primeiro movimento autenticamente fascista dos tempos modernos. Quase todo país da Europa teve um movimento proto-fascista nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial (quando o Klan experimentou um ressurgimento nos Estados Unidos), mas a maior parte deles empacou no primeiro estágio -- ou no próximo.

Como Rick Perlstein documentou em seus dois livros sobre Barry Goldwater e Richard Nixon, o conservadorismo moderno dos Estados Unidos foi construído sobre esses mesmos temas. Do "Despertar nos Estados Unidos" [tema de campanha de Ronald Reagan] aos grupos religiosos prontos para a Ruptura [os milenaristas], ao nacionalismo branco promovido pelo Partido Republicano através de grupos racistas de vários graus, é fácil identificar como o proto-fascismo americano ofereceu a redenção dos turbulentos anos 60 ao promover a restauração da inocência dos Estados Unidos tradicionais, brancos, cristãos e patriarcais.

Essa visão foi abraçada tão completamente que todo o Partido Republicano agora se define nessa linha. Nesse estágio, é abertamente racista, sexista, repressor, excludente e permanentemente viciado na política do medo e do ódio. Pior: não se envergonha disso. Não se desculpa para ninguém. Essas linhas se teceram em todo movimento fascista da História.

Em um segundo estágio, os movimentos fascistas ganham raízes, se tornam partidos políticos reais e ganham um lugar na mesa do poder.

Interessantemente, em todo caso citado por Paxton a base política veio do mundo rural, das partes menos educadas do país; e quase todos chegaram ao poder se oferecendo especificamente como esquadrões informais organizados para intimidar pequenos proprietários em nome dos latifundiários.

A KKK lutava contra os pequenos agricultores negros [do sul dos Estados Unidos] e se organizou como o braço armado de Jim Crow. Os "squadristi" italianos e os camisas-marrom da Alemanha reprimiam greves rurais. E nos dias de hoje os grupos anti-imigração apoiados pelo Partido Republicano tornam a vida dos trabalhadores rurais hispânicos nos Estados Unidos um inferno. Enquanto a violência contra hispânicos aumenta (cidadãos americanos ou não), os esquadrões da direita estão obtendo treinamento básico que, se o padrão se confirmar, poderão eventualmente usar para nos intimidar.

Paxton escreveu que o sucesso no segundo estágio "depende de certas condições relativamente precisas: a fraqueza do estado liberal, cujas inadequações condenam a nação à desordem, declínio ou humilhação; e a falta de consenso político, quando a direita, herdeira do poder mas incapaz de usá-lo sozinha, se nega a aceitar a esquerda como parceira legítima".

Paxton notou que Hitler e Mussolini assumiram o poder sob essas mesmas circunstâncias: "Paralisia do governo constitucional (produzida em parte pela polarização promovida pelos fascistas); líderes conservadores que se sentiram ameaçados pela perda de capacidade para manter a população sob controle num momento de mobilização popular maciça; o avanço da esquerda; e líderes conservadores que se negaram a trabalhar com a esquerda e que se sentiram incapazes de continuar no governo contra a esquerda sem um reforço de seus poderes".

E, mais perigosamente: "A variável mais importante é aceitação, pela elite conservadora, de trabalhar com os fascistas (com uma flexibilidade recríproca dos líderes fascistas) e a profundidade da crise que os induz a cooperar".

Essa descrição parece muito com a situação difícil em que os congressistas republicanos estão nesse momento. Apesar do partido ter sido humilhado, rejeitado e reduzido a um status terminal por uma série de catástrofes nacionais, a maior parte produzida pelo próprio partido, sua liderança não pode nem imaginar governar cooperativamente com os democratas em ascensão. Sem rotas legítimas para voltar ao poder, sua última esperança é investir no que restou de sua "base dura", dando a ela uma legitimidade que não tem, recrutá-la como tropa de choque e derrubar a democracia americana pela força. Se eles não podem vencer eleições, estão dispostos a levar a disputa política para as ruas e assumir o poder intimidando os americanos a se manterem silenciosos e cúmplices.

Quanto esta aliança "não santa" é feita, o terceiro estágio -- a transição para um governo abertamente fascista -- começa.

O terceiro estágio: chegando lá

Durante os anos do governo Bush, os analistas progressistas da direita se negaram a chamar o que viam de "fascismo" porque, apesar de estarmos de olho, nunca vimos sinais claros e deliberados de uma parceria institucional comprometida entre as elites conservadoras dos Estados Unidos e a horda nacional de camisas-marrom. Vimos sinais de flertes breves -- algumas alianças políticas, apoio financeiro, palavras-de-ordem doidas da direita na boca de líderes conservadores tradicionais. Mas era tudo circunstancial e transitório. Os dois lados mantiveram uma distância discreta um do outro, pelo menos em público. O que acontecia por trás das portas, só dá para imaginar. Eles com certeza não agiam como um casal.

Agora, o jogo de advinhação acabou. Nós sabemos sem qualquer dúvida que o movimento do Teabag foi criado por grupos como o FreedomWorks do Dick Armey e o Americans for Prosperity do Tim Phillips, com ajuda maciça de mídia da Fox News [a TV de Rupert Murdoch, o magnata da mídia, é porta-voz da extrema-direita dos Estados Unidos].

Site da FreedomWorks

Site do Americans For Prosperity

[Nota do Viomundo: O movimento do Teabag foi um protesto em escala nacional, organizado pelos republicanos, com ampla cobertura da Fox, em que eleitores protestaram contra a cobrança de impostos e o tamanho do governo federal. Uma tentativa de trazer de volta a rebelião contra a cobrança de impostos que esteve na origem do movimento de independência dos Estados Unidos. Ver Boston Tea Party]

Vimos a questão dos birther [aqueles que acreditam que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos, mas no Quênia] -- o tipo de lenda urbana que nunca deveria ter saído da capa do [jornal sensacionalista] National Enquirer -- sendo ratificada por congressistas republicanos.

Vimos os manuais produzidos profissionalmente por Armey que instruem grupos de eleitores republicanos na arte de causar distúrbios no processo de governo democrático -- e as imagens de autoridades públicas aterrorizadas e ameaçadas a ponto de requererem guarda-costas armados para sair de prédios [os protestos aconteceram durante audiências públicas para debater o novo sistema de saúde].

Um dos protestos aparece aqui

Vimos o líder da minoria republicana John Boehner aplaudindo e promovendo um vídeo de manifestantes e esperando por "um longo e quente agosto para os democratas no Congresso".

Este é o sinal pelo qual estávamos esperando -- o que nos diria que sim, crianças, chegamos. As elites conservadoras dos Estados Unidos jogaram abertamente seu futuro com o das legiões de descontentes da extrema-direita. Elas deram apoio explícito e poder às legiões para que ajam como um braço político nas ruas americanas, apoiando ameaças físicas e a intimidação de trabalhadores, liberais e autoridades que se neguem a defender seus [das elites] interesses políticos e econômicos.

Este é o momento catalisador em que o fascismo honesto, de Hitler, começa. É nossa última chance de brecá-lo.

O ponto decisivo

De acordo com Paxton, esse momento da aliança do terceiro estágio é decisivo -- e o pior é que quando se chega a esse ponto, é provavelmente tarde para pará-lo. Daqui, há uma escalada, quando pequenos protestos se tornam espancamentos, mortes e a aplicação de rótulos em certos grupos para eliminação, tudo dirigido por pessoas no topo da estrutura de poder. Depois do Dia do Trabalho [Labor Day], quando senadores e deputados democratas voltarem a Washington, grupos organizados para intimidá-los vão permanecer na cidade e usar a mesma tática -- aumentada e aperfeiçoada a cada uso -- contra qualquer pessoa cuja cor, religião ou inclinação política eles não aceitem. Em alguns lugares, eles já estão tomando nota e preparando listas de nomes.

Qual é a linha do perigo? Paxton oferece três rápidas perguntas que nos ajudam a identificar:

1. Estão os neo ou proto-fascistas se tornando arraigados em partidos que representam grandes interesses e sentimentos e conseguem ampla influência na cena política?

2. O sistema econômico ou constitucional está congestionado, de forma aparentemente insuperável, pelas autoridades atuais?

3. A mobilização política rápida está ameaçando sair do controle das elites tradicionais, ao ponto que elas poderiam buscar ajuda para manter o controle?

Pela minha avaliação, a resposta é sim. Estamos muito perto. Muito perto.

O caminho adiante

A História nos diz que uma vez essa aliança [entre a elite e a tropa de choque] é formada, catalisada e tem sucesso em busca do poder, não há mais como pará-la. Como Dave Neiwert escreveu em seu livro recente, The Eliminationists, "se apenas podemos identificar o fascismo em sua forma madura -- os camisas-marrom com passos de ganso, o uso de táticas de intimidação e violência, os comícios de massa -- então será muito tarde para enfrentá-lo".

Paxton (que anteviu que "um autêntico fascismo popular nos Estados Unidos será crente e anti-negros") concorda que se uma aliança entre as corporações e os camisas-marrom tiver uma conquista -- como a nossa aliança tenta agora [barrando a reforma do sistema de saúde proposta por Barack Obama] -- pode rapidamente ascender ao poder e destruir os últimos vestígios de um governo democrático. Assim que ela conseguir algumas vitórias, o país estará condenado a fazer a feia viagem através dos dois últimos estágios, sem saída ou paradas entre agora e o fim.

O que nos espera? No estágio quatro, quando o dueto assumir o controle completo do país, lutas políticas vão emergir entre os crentes do partido dos camisas-marrom e as instituições da elite conservadora -- igreja, militares, profissionais e empresários. O caráter do regime será determinado por quem vencer a disputa. Se os membros do partido (que chegaram ao poder através da força bruta) vencerem, um estado policial autoritário seguirá. Se os conservadores conseguirem controlá-los, um teocracia tradicional, uma corporocracia ou um regime militar podem emergir com o tempo. Mas em nenhum caso o resultado lembrará a democracia que a aliança derrubou.

Paxton caracteriza o estágio cinco como "radicalização ou entropia". Radicalização é provável se o novo regime conseguir um grande vitória militar [Nota do Azenha: sobre a Venezuela, por exemplo], o que consolida seu poder e dá apetite para expansão e uma reengenharia social em grande escala (Veja a Alemanha). Na ausência do evento radicalizador, podemos ter a entropia, com a perda pelo estado de seus objetivos, o que degenera em incoerência política (Ver a Itália).

É fácil neste momento olhar para a confusão na direita e dizer que é puro teatro político do tipo mais absurdamente ridículo. Que é um show patético de marionetes. Que esse povo não pode ser levado a sério. Com certeza, eles estão com raiva -- mas eles são minoria, fora do poder e reduzida a ataques de nervos. Os crescidos devem se preocupar com eles tanto quanto se preocupam com uma menina de cinco anos, furiosa, que ameaça segurar a respiração até ficar azul.

Infelizmente, todo o barulho e as ameaças obscurecem o perigo. Essa gente é tão séria quanto uma multidão linchadora e eles já deram os primeiros passos para se tornar uma. Eles vão se sentir mais altos e mais orgulhosos agora que suas tentativas de desobediência civil estão contando com apoio integral das pessoas mais poderosas do país, que cinicamente os usam numa última tentativa de garantir suas posições de lucro e prestígio.

Chegamos. Estamos estacionados exatamente no lugar onde nossos melhores especialistas dizem que o fascismo nasce. Todos os dias que os conservadores no Congresso, os comentaristas de extrema-direita e seus barulhentos seguidores conseguem segurar nossa capacidade de governar o país, é mais um dia em que caminhamos em direção à linha final, da qual nenhum país, mostra a História, conseguiu retornar.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Alguns apontamentos sobre a eleição legislativa na Alemanha

Roberto Torres

No próximo dia 27 os alemães decidem a nova composição do parlamento nacional (Bundestag). A atual chanceler Angela Merkel, da democracia crista (CDU) é favorita nas pesquisas contra Frank Walter-Steinmeiner (SPD) para compor uma coalização e governar o país por mais quatro anos. Desta vez tudo indica que a coalização será com os Liberais (FDP), e não mais uma grande coalização com a social-democracia (SPD), como foi nos últimos quatro anos. As intenções de formar coalização, junto com o percentual de cadeiras dos partidos afins, decide quem governa o país. A social-democracia namora com os Verdes, descartando tanto a continuidade da grande coalização com a democracia crista, como uma coalização de três partidos que inclua “ a esquerda” ( die Linke), partido que congrega dissidentes do SPD e antigos membros do SED, o partido comunista da antiga Alemanha oriental. No entanto, uma reedição da grande coalizão entre CDU e SPD não é descartada por muitos analistas.
A posição do SPD em recusar uma aliança com o “die Linke” no plano nacional (no plano estadual alianças estão sendo costuradas) pode lhe custar uma derrota histórica, sobretudo porque o “dissidente” rejeitado é o partido que mais cresceu nas eleições estaduais e tende a confirmar este crescimento no plano nacional no próximo dia 27. O crescimento do “die Linke”, puxado pelo carisma de seu maior líder, Oskar Lafontaine, coincide com a radicalização de um discurso baseado em dois pilares: 1) um forte programa distributivista, baseado no aumento de impostos para o capital financeiro e para a grandes fortunas de pessoas físicas e no aumento do salário mínimo e 2) a exigência de que as forcas armadas alemãs deixem imediatamente o Afeganistão.
O partido de esquerda cresceu não apenas no “lado oriental” do país, freando o crescimento dos nazistas (NPD) nas regiões mais estigmatizadas pelo ocidente, onde o desemprego é maior e o regime de aposentadoria, por exemplo, não foi integrado à previdência do lado ocidental, expressando muito claramente que a antiga Alemanha comunista é vista como um “fardo” . Mas como o crescimento do “die Linke” também se deu no segundo estado mais rico (Saarland), não convence mais dizer que foi o resultado dos “pobres desorientados” que não sabem o que estão escolhendo, por não terem aprendido ainda a democracia, como acontece por exemplo no Brasil com o preconceito de São Paulo contra o voto do Nordeste.
O partido de esquerda parece ter abocanhado uma fatia significa do eleitorado de classe média (que talvez votaria no SPD ou nos Verdes) com seu discurso de retirada imediata dos soldados alemães do Afeganistão. O curioso é que, premido pelas possibilidades institucionais do sistema político alemão, o “die Linke” promete aos eleitores simplesmente a continuidade da luta ideológica e política do parlamento, de modo pressionar ou convencer outros partidos sobre os pontos essenciais do seu programa ao longo da legislatura. O partido está aberto a uma coalização com o SPD e com os Verdes, como existe na prefeitura de Berlin, rejeitada pelos social-democratas, que acusam o “die Linke” de prometerem o inviável e de não oferecerem base estável de sustentação para um governo.
Mas o que mais me chama atenção nestas eleições aqui não é nem o leque de opções partidárias, que é muito parecido com o Brasil. (a única diferença significativa é aqui não existe um PMDB), mas sim o efeito que o sistema de governo tem sobre o debate: parece ter forca no que os partidos falam e no que se espera deles uma relação direta, institucionalizada, entre crescimento do número de eleitores e preparação para assumir responsabilidades de governo. As possíveis coalizões são discutidas na campanha como tema que pode decidir o sucesso ou o fracasso dos partidos. Não faz nenhum sentido para um partido como o “die Linke” adotar um discurso de purismo ideológico e/ou rituais de seita imaculada como faz o PSol no Brasil. A necessidade de concessões ou mesmo de fusão de programas para governar é um fato que não é minimizado ou deixado fora do discurso. Se o partido se vê crescendo ele sabe que será procurado para governar uma hora ou outra, e essa atribuição não pode ser deslocada somente para os ombros de um sujeito.
Se não fosse o preconceito contra os supostos herdeiros da Alemanha Oriental, alguns no “die Linke”, a social-democracia poderia aqui formar um governo de esquerda, com um partido disposto a assumir responsabilidades de governo. Mas há um estigma, inclusive na mídia, que rotula uma aproximação com o “die Linke” como evidencia de desapego aos valores democráticos, por supostamente se tratar de um partido que traz de volta o passado. A social-democracia, que se firmou como a esquerda da “Alemanha Ocidental”, parece não escapar deste rótulo, pelo menos a nível nacional.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

É preciso des-privatizar a Universidade Pública

Roberto Torres

Os ganhos de um debate não são apenas as conclusões, mas também as questões em aberto que surgem no decorrer. A acalorada discussão sobre o boicote ao Enade deixou em aberto a questão da possível privatização das Universidades Públicas que viria legitimada pelo Enade. Para além de se o Governo Lula pretende ou não colaborar com esta suposta marcha para a privatização – tese, a meu ver, completamente absurda – cabe discutir em que medida as Universidades Públicas são públicas.
Antes de mais nada, quero ressaltar que devo minha vida à “Universidade Pública realmente existente” , de modo que pude desfrutar, como ainda desfruto, da medida real de acesso republicano à Universidade que existe em nosso país. No entanto, todos sabemos que o acesso à Universidade Pública no Brasil é um privilégio da classe média estatutária, estabelecida . Sempre foi assim entre nós, e não só com a Universidade Pública: com o ensino de qualidade em geral, com a saúde. Ser de classe média no Brasil (tomo essa definição de Brand) é desfrutar de uma privatização bem sucedida das principais esferas da vida (educação, saúde, justiça, política, lazer etc. ). Se o problema do Estado brasileiro é o que muitos chamam de “confusão entre o público e o privado”, este problema existe porque beneficia a classe média.
Muitos amigos meus poderiam dizer: “mas, poxa, apesar de eu ser de classe média, defendo a Universidade pública para todos, quero que ela se expanda, e que outros desfrutem o que eu desfruto”. Mas mão se trata de boas ou más intenções individuais. A “Universidade Pública para todos” defendida pela classe média ainda é muito programada para atender as demandas e os estilos de vida dos filhos da própria classe média estabelecida. As afinidades que tornam a Universidade Pública um bem privado da classe média são muitas. Tomo como exemplo apenas a seguinte: a Universidade Pública é o ambiente ideal para quem pode prorrogar a entrada no mercado de trabalho, para quem pode por um tempo “esquecer” a luta individual pela sobrevivência no mercado de trabalho. Os cursos de bacharelado da Uenf, com suas grades de tempo integral, mostram exatamente isto. Claro que existe espaço para o “outro lado”, nos cursos à noite, mas isto é exceção e não regra.
As Universidades Públicas são tanto menos públicas na medida em que, não só o acesso, mas sobretudo o estilo de vida implicitamente exigido dos estudantes favorece a classe média estabelecida. A “Universidade Pública para todos” é o tipo de formulação que serve apenas para “salvar a alma” dos incluídos, mas nunca para incluir os excluídos, a menos que a expansão do modelo atual de Universidade Pública altere a exigência implícita de um estilo de vida pautado no “afastamento da urgência econômica”, que é privilégio de poucos. Sempre me pareceu muito suspeito o “radicalismo” (que de radicalismo não tem nada) em defesa da Universidade Pública por parte dos incluídos de boa consciência. Hoje posso dizer que esta suspeição tem a ver com o fato de que esta defesa universalista nunca esteve pautada numa disposição de reconhecer que o interesse dos excluídos pela Universidade tende a ser pautado muito mais pela urgência econômica do que o “interesse altruísta” dos incluídos, que podem adiar a luta pelo salário. Para a classe média estatuária a Universidade Pública é o melhor lugar para garantir os interesses econômicos de longo prazo escamoteando uma relação de segurança econômica que sem tem a curdo prazo.
O preconceito com o Pró-Uni e com a Universidade Privada parece também mais um esforço de “monopolizar simbolicamente” o que é ser um “autentico universitário”, privatizando recursos para estilizar a vida a partir da rede de privilégios institucionais que empurram os filhos da classe média para a Universidade Pública. É daí que vem a denuncia de que o Pró Uni vai privatizar a Universidade. Só nao percebe a transformacao radical que o Pró Uni realiza na vida de milhoes de brasileiros que vem de baixo aqueles que sempre esteveram incluídos de modo privilegiado na rede privada que dá acesso à Universidade Pública. Desprezam o efeito de mobilidade que hoje desfrutam milhos de brasileiros simplesmente porque este nao agrada a "estética revolucionária" que serve para mascarar a rede fechada das chances de mobilidade social que define a classe média estabelecida. Mais publicidade na Universidade é torna-la compatível com o estilo de vida de quem vem de baixo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Quem tem medo do Enade?

Por Paulo Sérgio Ribeiro

Os resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) evidenciam uma melhoria do ensino e da aprendizagem na Uenf. Hoje, a Uenf se situa entre as 15 melhores instituições de ensino superior do país, segundo o Índice Geral de Cursos (IGC). Neste índice é tomada para efeito de cálculo a média dos conceitos preliminares dos cursos (CPC) de cada instituição. O CPC, por sua vez, é elaborado mediante os resultados do Enade publicados anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP / MEC). Ainda segundo o IGC, dos cursos de graduação oferecidos pela Uenf, dez estão entre os melhores do país *. Brand Arenari ressaltou com justeza que tais resultados figuram a Uenf como a melhor universidade estadual do país. Um fato não apenas notório, mas meritório.

Não obstante os resultados positivos, o desempenho dos graduandos em ciências sociais destoa dos demais cursos e, não menos, do relativo à primeira avaliação a que fomos submetidos em 2005. Neste ano, fui um dos estudantes selecionados para o Enade como concluinte do curso de ciências sociais. Numa escala de 1 a 5, obtivemos o conceito máximo, confirmando nossa graduação como a melhor entre as IES fluminenses até então. Depois de 2005, houve apenas uma avaliação do curso de ciências sociais, referente ao Enade de 2008, cujo resultado atesta um retrocesso para a Uenf, pois descemos para o conceito 2.

Mesmo que não se queira dimensionar o maior ou menor peso do "boicote" ao Enade para a ocorrência desse resultado vexatório, seus efeitos far-se-ão presentes na trajetória dos ingressantes no curso de ciências sociais em uma universidade desafiada a se institucionalizar com e contra uma realidade extramuros muitas vezes refratária ao campo científico. Antes de uma avaliação política da não adesão ao Enade, convém descrever o procedimento de seleção e avaliação dos estudantes para esse exame. Tais como as provas finais das disciplinas obrigatórias, optativas e eletivas e os trabalhos de conclusão de curso, o Enade é um atributo do currículo, sendo obrigatório para os estudantes selecionados para fazê-lo conforme o processo de amostragem do INEP e facultativo para os não-selecionados, importanto assim em uma exigência para a emissão do histórico escolar. O Enade compreende não apenas prova escrita, mas questionário sócio-econômico, questionário do coordenador de curso ou habilitação e o "questionário de impressões dos estudantes sobre a prova", instrumento que sugere relativizar o argumento que postula o Enade como uma medida unilateral. Lembro-me ainda que naquela ocasião pude responder a algumas perguntas de uma equipe do INEP que realizava uma observação in loco de nosso curso. Expus sem maiores constrangimentos opiniões sobre o que julgava passível de alteração no conteúdo ministrado nas aulas, na composição do corpo docente, da representação política dos estudantes na universidade etc.

Confesso que o resultado daquele primeiro Enade superou expectativas. Por um lado, porque era difícil estimar o grau de comprometimento dos estudantes com o exame, devido às polêmicas em torno do antigo "Provão"; por outro, pela subestimação do capital cultural institucionalizado no Centro de Ciências do Homem (CCH), que, aos meus olhos, já adentrava um caminho sem retorno para uma mediana mediocridade. Afirmo isso sem deixar de ser solidário aos professores e estudantes que, a despeito de tudo o que os separa no CCH, empreendem esforços ingentes para reverter ou, ao menos, atenuar a perda de qualidade de nossa formação, um quadro de deterioriação da graduação enfrentado na maioria das universidades públicas no país.

Creio que esse tema ainda exigirá bastante tempo em nossas discussões, mas alguns consensos entre colaboradores e comentaristas já podem ser delineados aqui no blog, principalmente quanto à crítica à política de avaliação do MEC como dependente exclusivamente da não adesão ao Enade. Ora, não seria equívoco pensar que a realização da prova constituiria uma observação privilegiada de prováveis limitações dos critérios de avaliação ali empregados. Invalidar um instrumento sem testá-lo depõe contra a metodologia que aprendemos, pois, conforme já dito, no Enade o estudante não apenas pode como deve avaliar a prova por meio de questionário específico.

Para além da discussão sobre a melhor metodologia a ser utilizada no Enade, negar-se a fazê-lo sem consultar a comunidade acadêmica, a população que contribui para os fundos públicos destinados às atividades-fim da universidade e, quiçá, os próprios colegas de graduação que se dispuseram a fazer a prova com zelo nos remete ao questionamento da orientação valorativa desse "boicote". Ora, as razões pelas quais um grupo de estudantes optou por não fazer a prova foram publicizadas a todos os interessados? Este "protesto" contra a política de avaliação do MEC foi objeto de discussão e deliberação entre os estudantes para, em seguida, ser levado a cabo em todos os colegiados e conselhos da universidade nos quais os representantes discentes tomam assento? Essa decisão fora divulgada nos jornais de grande circulação ou na blogsfera cuja audiência cresce dia a dia? Acaso essas perguntas não tenham se traduzido no fundamento praxiológico de proposições divergentes que pudessem ser acessíveis na esfera pública, o que justificaria não participar de um exame do desempenho escolar - um instrumento de avaliação da eficência e da eficácia da política de ensino superior -, senão um ato arbitrário de estudantes contrários a uma política de Estado supostamente arbitrária?

A contar com os poucos comentários de graduandos de ciências sociais da Uenf que fizeram ou apoiam aqueles que fizeram o "boicote", penso que esse movimento espontâneo coaduna-se com uma falta de ética. Ética não no que o senso comum atribui à honestidade, mas no sentido grego de fidelidade às normas de sua casa ou de sua circunstância. Noutros termos, o que se manifestou no "boicote" foi o desconhecimento da posição da Uenf nessa política de avaliação, acaso esta seja entendida como um campo de lutas pela aquisição ou ampliação de capital simbólico a que estamos sujeitos em quaisquer modalidades de avaliação que, gostemos ou não, balizam o sucesso escolar na graduação e na pós-graduação. Como bem disse Roberto Torres, aderir ao Enade pode também significar um interesse bem compreendido, na medida em que a concorrência inter-institucional pressupõe apostar no próprio desempenho ao pô-lo à prova em avaliações institucionais rotineiras cujos resultados podem se traduzir em ganhos individuais e coletivos no mercado científico, sem prescindir, claro, de acordos intramuros que viabilizem um padrão de competição favorável a uma solidariedade intergeracional na produção do conhecimento.

Quem ganha e quem perde com o rebaixamento do curso de ciências sociais na Uenf? Tenho dúvida quanto à leitura desse "boicote" apoiada na noção de desobediência civil. Talvez aquele seja a exteriorização de um ethos escolar marcado pelo privilégio de um pequeno grupo de letrados que, num país de analfabetos funcionais, se percebe alheio a qualquer avaliação externa, pervetido pela idéia de que sua competência formal não está em questão, o que torna-se um terreno fértil para a perpetuação da velha sinecura acadêmica. Em suma, um ethos anti-republicano que suprime o debate sobre o controle social do financiamento público do ensino superior.

* Site da Uenf.