terça-feira, 6 de maio de 2008

A luta de classes na UENF

por Fabrício Maciel


Já há algum tempo tenho vontade de escrever um texto sobre a Uenf. Vivi seis anos intensos de minha vida lá, como estudante, sendo quatro deles também como funcionário concursado da instituição. Isto me proporcionou experiências políticas diversas, pois pude atuar em quase todas as frentes políticas imagináveis, tanto como aluno quanto como funcionário, chegando a estar, em momentos diferentes, em lados opostos de um mesmo tabuleiro, e em alguns momentos, lutando por direitos estudantis, trabalhistas e institucionais ao mesmo tempo, este último sempre justificando ideologicamente qualquer engajamento.

Em todo este percurso, um dilema insolúvel sempre pairou misteriosamente sobre a comunidade acadêmica uenfiana, dividida (e este termo não é só formal) em seus três segmentos – estudantes, funcionários técnicos (os famosos burocratas que sempre emperram tudo) e professores: eles jamais conseguiram convergir interesses e unificar um movimento de lutas comuns. Mais do que isso, algo que sempre me incomodou é que a comunicação sempre foi algo meramente simbólico, ou seja, cada segmento jamais entendeu substancialmente as necessidades específicas dos demais. Na verdade, podemos colocar isso em termos mais precisos: uns não reconheciam de fato como justos e importantes as reivindicações dos outros.

Não é difícil notar a semelhança de tal ambiente como a política contemporânea como um todo, seja nos dilemas democráticos chineses ou nos campistas. O que ocorre no mundo, e isto não é um problema de poucas décadas, de conjuntura, como se costuma compreender, é uma dificuldade por parte dos mecanismos formais de representação política e de discussão democrática em administrar as particularidades dos interesses diversos presentes em qualquer sociedade. Tal dilema estritamente moderno não poderia poupar a Uenf, nem a cidade de Campos. Com isso fica claro que não se trata de um problema local, de elites corruptas, falta de bons administradores, etc, toda esta conversa chata que se propaga por aí. Da mesma forma, não podemos cair no conto do bang-bang, onde mocinhos e vilões disputam o poder na Universidade. Muito menos no voluntarismo de que as pessoas na Uenf estão desunidas, não querem pensar no próximo, enfim, daqui a pouco vão dizer que falta Jesus no coração, como inclusive já se faz por parte de alguns políticos mais descarados.

Bem, se o problema do desentendimento entre os três segmentos da Uenf não é uma questão de boa intenção e iniciativa, isto significa que sociologicamente o buraco é mais em baixo. Eu mesmo me cansei, enquanto estive lá, de apelar para a retórica, pegando o microfone em assembléias (de Deus?) e manifestações e pedindo aos colegas (quiçá irmãos, como se faz nas Igrejas evangélicas): vamos dar as mãos, caminhando e cantando chegamos lá, viva 68, viva o sindicalismo...

Passada a euforia messiânica, chegamos à sociologia: os segmentos sociais e interesses diversos presentes tanto na Uenf como em qualquer universidade jamais serão compatíveis, pois se trata de classes sociais distintas em luta constante que jamais reconhecem como legítima nem mesmo a existência, que dirá os interesses das demais. Alguns fatos verídicos (eu juro!) podem comprovar o que digo. Por exemplo, alguns segmentos da comunidade uenfiana nunca reconheceram a legitimidade do Sintuperj, o sindicato dos funcionários, que sempre contou em sua maioria, tanto na diretoria como na base (é bonito falar em base) com funcionários do campo, do trabalho braçal, ou seja, os mais pobres (mas nem tanto) da comunidade acadêmica.

De repente, coisas estranhas aconteciam. Abaixo-assinados paralelos, conversas com o governo, enfim, caminhos obscuros de repente conseguiam vantagens para os funcionários atuando fora do sindicato. Não estou defendendo o sindicato aqui, apenas aproveitando, como um sociólogo oportunista no bom sentido, o fato que implora por explicação. Não por acaso, as ações comunitárias obscuras fora do sindicato tinham seu apoio sempre em funcionários do setor burocrático, de nível médio e superior, principalmente do prédio da reitoria, ou seja, uma classe social que se identificava entre si e jamais reconhecia os funcionários do campo como dignos de serem seus representantes. Notem que o próprio segmento dos funcionários, antes mesmo de não conseguir se comunicar com os demais, não se entende mesmo entre si, pois é fracionado por interesses de classe distintos.

Como já ficou claro em textos de Roberto Torres neste site, a noção de classe aqui não é definida por parâmetros econômicos, mesmo por que dependendo das regras estatutárias da Uenf um funcionário do campo pode ganhar quase igual a um arrumadinho que trabalha no ar condicionado. O conflito em jogo tem a ver com o tipo humano, físico e simbólico, das pessoas em cada classe. Um arrumadinho que chega em seu carro para trabalhar, e quando desce deste quase esbarra, fingindo que não vê, no funcionário do campo capinando no estacionamento, jamais votará neste para seu representante, jamais reconhecerá o corpo desengonçado do trabalhador braçal como um parceiro em comum para lutas democráticas coletivas. E vice-versa, quase sempre. Os engomadinhos são metidos e só pensam neles, é o que geralmente se pensa no campo.

Não por acaso, o último reitor eleito na Uenf, um jovem e entusiasmado professor, muito educado e competente administrador, venceu a eleição mais curiosa que lá presenciei. Havia um vazio político, pois nenhum figurão renomado com um puta currículum, nenhum “parceiro do Nobel”, como se referiu a revista “Nossa Uenf” sobre um professor de física que possui um artigo de 1993 em parceria com o atual alemão (não aquele do Big Brother) ganhador do Nobel em física parece ter aceitado o desafio. Restou ao lado do jovem e ousado professor, ambicionando o cargo, um veterano professor negro com ideais um tanto quanto utópicos e um jovem professor homossexual com larga experiência sindical no segmento dos professores.

Conclusão: quando a comunidade ficou dividida entre o jovem educado e bem arrumado e o explosivo professor homossexual, sempre muito enfático e incisivo nas discussões, o argumento que logo se espalhou e derrotou sorrateiramente o último é que este era uma pessoa emocionalmente desequilibrada para o importante cargo. Era alguém agressivo, que não inspirava confiança, instável. Pude ver pessoalmente como a comunidade acadêmica, e principalmente meus ex-colegas engomadinhos, se identificavam rapidamente com a polidez e boa aparência do candidato agora vencedor.


O que definiu o jogo aqui, sorrateiramente, sem que ninguém perceba, foram os mesmos critérios de avaliação que fazem com que funcionários do campo e do ar condicionado ajam como seres de espécies distintas, quase não podendo ficar próximos por muito tempo, tendo seus contatos restritos a relações cordiais de bom dia. Trata-se aqui dos critérios implícitos de avaliação, no capitalismo, do que é um tipo de gente socialmente aceitável e razoável. Este tipo privilegiado pelo capitalismo é o mesmo incorporado pelo trabalhador produtivo e qualificado. Trata-se de um jeito contido de ser, auto-controlado, polido, sutilmente mais humano. O trabalhador braçal é julgado como bronco, mas ninguém jamais terá a indelicadeza de dizer isso. Na verdade, quase não se pensa nisso, pois ser educado e polido é algo visto como naturalmente bom. Por isso um homossexual visto como agressivo não pode ser reitor. Por isso, a assembléia do sindicato é composta esmagadoramente por trabalhadores braçais. Por isso, cada classe com seu sindicato, cada um na sua, cada qual em seu lugar. Afinal, pra que misturar as coisas? É sempre melhor não mexer com o está quieto, algo que cresci ouvindo na planície.

25 comentários:

bill disse...

Interessante chará, seu texto. Mas, é preciso ir além da identificação pura e simples por meio dos hábitos de conduta ou do vestuário... Seria a dicotomia entre Lula e Collor no que tange a etiqueta o que decidiu a eleição para o último? Acho que não. As classes votam movidas às vezes por uma lógica contrária aos seus interesses, aos seus hábitos...
Obs. para aproveitar a discussão: Lembro-me vagamente dos hábitos dos prefeitos campistas, em especial, Arnaldo Vianna, Ele dormia em reunições e tinha sempre a imagem boêmia estampada na cara... Risível.

Roberto Torres disse...

O texto de fabricio é uma navalha afiadíssima, que rompe o particularismo de um espaço aparentemente isolado, as lutas politicas de uma universidade como a Uenf, para mostrar como a democracia formal contemporânea é falida quanto a sua capacidade normativa de considerar interesses de classe em luta por reconhecimento. O que perdura, sem dúvida,é uma dominação de classe, muito além das consciências de classe, que divide todos os esforços de construir comunidades transclassistas como uma universidade pretende ser. Esta dominação de classe inconsciemte vai muito além de banalidades como Bill quis sugerir em relação aso "habitos de conduta e do vestuario". Trata-se, caro Bill, de códigos binários operando no corpo das pessoas do modo mais visseral em constituir diades de dominação ou solidadiedade com os outros. Alias Bill, cuidado para que sua sólida vinculação teórica com a teoria dos sistemas nao o impeça de ver que a estratificação social é um tema central para compreender a vida social moderna.

Fabrício Maciel disse...

Sem dúvida, chará, não se trata de mera aparencia. Como roberto já começou a rsponder, as imagens que também aparecem distintas no exemplo que voce deu são apenas reflexos do processo de construção social subliminar a nossa consciencia cotidiana que reproduz toda e qualquer forma de desigualdade moderna, como tentei mostrar no texto. é claro que em eleições como a do bonachao arnaldo viana rola uma apelação para a necessidade economica do povo, mas quis ressaltar que na Uenf, como em nossa sociedade, o que faz com que pessoas arrumadinhas e outras desajeitadas não se reconheçam é algo bem mais do que dinheiro. vale lembrar também que nem o pobre gosta do tipo humano bronco, afinal foi o lulinha paz e amor de barba aparada que ganhou a eleição e não o velho sindicalista. Isto é reflexo dos acordos morais que ressaltei no texto e não mera causa. Seria uma tese ingenua e frágil demais achar que apenas a imagem se sustenta sozinha.

Brand Arenari disse...

Fabrício, embora seu texto demonstre uma rara sensibilidade em alguns pontos, analisando com muita sutileza alguns pontos da história política interna na UENF, eu tenho dúvidas sobre algumas de suas proposições.
Quando vc usa a noção de classe para avaliar a falta de coesão interna entre os funcionários me parece um argumento muito bom, porém no início do texto vc usa este mesmo argumento para tratar da falta de coesão entre os três segmentos, como se eles tivessem unidade de classe, argumento estes q vc mesmo desmonta a seguir. Os alunos, por exemplo, tem uma formação de classe muito diversificada. Desse modo, a noção de classe só vale para analisar a coesão interna de cada segmento, não para explicar a ausência de coesão entre os três.
Um movimento político para ter êxito necessariamente precisa extrapolar suas cercanias de classe, seja na construção de um discurso, ou na adoção de certas práticas. O clientelismo funciona pq adota práticas que atendam interesses de classes diferentes, que acabam por unir forcas. A falta de reconhecimento entre grupos diferentes é sempre um desafio para uma coesão e para uma ação política eficaz, mas é apenas um desafio, é raro, mas não impossível de se obter como vc deixa transparecer.

Quanto a eleição para reitor, penso que as unidades de análise teóricas não podem estar completamente descoladas da realidade. Por mais que uma estrutura de valores nos dite ocultamente qual é a maneira digna de se viver, e polidez está dentro disso, como vc bem ressaltou, nem sempre é ela apenas um artifício simbólico oculto. Não há como negar, e isso me refiro a realidade da UENF que eu Tb conheço, que qualquer ser humano, seja ele de qualquer classe, tenha mais simpatia por quem lhe trata com um mínimo de respeito, mesmo que este respeito possa ser apenas polidez, que não sei se é o caso. E que Tb todo ser humano, seja ele de qualquer classe, rejeite que lhe trata com arrogância, grosseria e desrespeito.
Esses são alguns pontos para conversarmos.

bill disse...

Roberto,

Meu argumento não nega a estratificação, nega a base sob a qual o xará a sustenta. Pelo contrário, a tese da estratificação, como sabemos, é estrutural para o estrutural-funcionalismo, entendida no contexto de um conceito mais geral, o de diferenciação. por isso acho que devemos ir além da estritificação (que muitas vezes sugeriu diferenciação econômica)e utilizar o conceito de diferenciação, que produz complexidade simbólica e portanto problemas de integração.
Abraço.

Anônimo disse...

Muito interessante mas, penso que criar as condições gerais de produção que não podem ser asseguradas pelas atividades de todos os membros da classe dominante e reprimir qualquer ameaça das classes dominadas ou de frações particulares das classes dominantes. Com isso poderemos integrar as classes dominadas, garantir que a ideologia da sociedade continue sendo a da classe dominante e, em consequência, que as classes exploradas aceitem sua própria exploração sem o exercício direto da repressão contra elas.

Elba disse...

Mesmo sem ser uma mestranda ou doutoranda em Ciências Sociais ou ter facilidade em expor minhas idéias, vim aqui dizer que adorei esse blog e vou coloca-lo na lista dos meus preferidos.
Em tempo: meu blog não tem nadinha a ver com este (:-D), mas como Assistente Social que sou(muito ultrapassada e há muito, longe dos estudos e livros do assunto), gosto de ler palavras inteligentes e aprender com quem sabe mais do que eu. Vindo aqui, tenho certeza de isso é o que vai acontecer.
Adorei "funcionários técnicos (os famosos burocratas que sempre emperram tudo)". Sou uma quase, quase ex-funcionária burocrata, mas juro nunca emperrei nada. :-D
Adorei também "Na verdade, quase não se pensa nisso, pois ser educado e polido é algo visto como naturalmente bom. Por isso um homossexual visto como agressivo não pode ser reitor." E fiquei com uma dúvida: o que é algo "naturalmente bom"? O que é ser "normal"? Como é estar dentro do que todo mundo pensa ser um estado "normal" das coisas?
Dúvidas, dúvidas, dúvidas...Sou um ser "anormal" porque não me sinto "encaixada" onde as pessoas "normais" se sentem tão bem?
Ai, meus crochês!

Vitor Peixoto disse...

Fabrício,

Não entrarei na discussão do recursos simbólicos de dominação. Mas um trecho me trouxe lembranças particulares e que muito marcaram o que penso até hoje sobre interesses e ação coletiva.

Vejamos o que vc escreveu:

"um dilema insolúvel sempre pairou misteriosamente sobre a comunidade acadêmica uenfiana, dividida (e este termo não é só formal) em seus três segmentos – estudantes, funcionários técnicos (os famosos burocratas que sempre emperram tudo) e professores: eles jamais conseguiram convergir interesses e unificar um movimento de lutas comuns."

Acredito que vc ainda não estava como aluno na UENF em 2000, quando eu e Bill participamos da organização da primeira greve.
Foi um movimento muito particular não pelas especificidades da UENF, mas sim pelas formas que se desenvolveram a estratégias.
Nós os estudantes tínhamos um problema específico: a falta do bandeijão. Sempre reclamávamos... bla,bla,bla.
O funcionários (não-concursados) da segurança e limpeza eram de uma "cooperativa" e estavam sem receber.
Os professores tinham problemas frequentes com financiamento das pesquisas e interferências nas prioridades da área acadêmica (via financiamento).
Tanto os funcionários concursados como os professores não possuiam um plano de cargos e salários.
Ao que recorremos à Universidade para sanar a questão do bandeijão, o então Reitor Salasier nos disse que isso era com a Fenorte. Para nosso espanto. Fomos verificar e havia uma "licitação" em que a empresa que oferecesse maior valor de aluguel ganharia o direito de explorar o local. Nada sobre preço ou qualidade do serviço prestado.
Numa dessas que ninguém explica, resolvemos fazer uma manifestação contra a FENORTE. Os professores e funcionários também viram aí a necessidade e a oportunidade de se organizarem.
Como havíamos apoiado os funcionários da limpeza e da segurança, ficou fácil conseguir o apoio deles. Não na greve, mas nunca nos impossibilitaram qualquer ação, nem mesmo delatavam nossa movimentação nas madrugadas (quem fez isso foi o Salasier). Aliás, davam-nos informações preciosas!
Conseguimos então mobilizar um movimento que contava com os três setores. Cada qual com suas peculiaridades. Cada qual pensando que estava "usando" o outro como bucha de canhão. Em realidade, todos nós nos utilizamos uns aos outros. Mas todos com um objetivo comum: transferir para a UENF as atribuições que estavam sob o domínio da FENORTE. O velho lema da autonomia universitária.

Disse isso, em verdade, para lhe apontar a questão relativa à capacidade de construção de uma agenda comum. Acredito que um fator negativo seja mais poderoso do que um positivo. Em outras palavras, aquilo que nos afeta negativamente (como a FENORTE) tem mais capacidade em reunir grupos distintos do que agendas positivas (como um futuro melhor através das eleições). Em comportamento eleitoral dividimos isso em retrospectivo e prospectivo. São separados apenas abstratamente, na realidade são interativos.

Sobre a dominação e conceito de classe, isso eu deixarei para vcs que entendem. Mas acho que aplicar esses conceitos para eleições da reitoria forçar muito a barra. Assim deixo minha pergunta: votar no Serjão seria consciencia de classe para os funcionários?

Aliás, o que resultado agregado (vitória do Almir) pode significar num universo onde os funcionários possuem 15% somente do peso eleitoral?

Grande abraço,

PS: Bom relembrar esses anos! Como sempre digo, a disciplina mais informativa e formativa que fiz na UENF foi os três anos de Conselho Universitário.

Fabrício Maciel disse...

Brand, caro amigo, de fato são muitos pontos e não deu pra explorar todos suficientemente. Os conceitos de classe e segmento dentro da comunidade academica de fato são distintos. Tentei mostrar dentro do segmento dos funcionários como classes distintas não se reconhecem. quanto a luta entre os segmentos, realmente há mais coisa, não se reconhecem em seus interesses distintos e isso não resume-se apenas a tipos humanos incompatíveis. os interesses profisisonais possuem um peso bem grande neste ponto. não tratei de mera educação na analise da eleição, os candidatos que perderam jamais foram grosseiros e desrespeitosos, até onde sei. o que está em jogo é o medo que temos de pessoas incisivas em suas colocações, e isso não pode ser confundido com grosseria, alguém pode ser grosseiro conosco falando em um tom de voz bem ameno. também nao se trata apenas de valores que guiam nossa conduta, mas do peso sociológico que significa estes estarem incorporados em nosso modo de agir e avaliar o mundo. como voce ressalta bem, na política congraga-se classes diferentes, mas apenas de forma instrumental e jamais substantiva, ou seja, numa mobilização onde todos envolvidos reconheçam os demais como parceiros iguais em busca de objetivos coletivos. isso é uma verdadeira democracia, o contrário são os acordos de cavalheiros que tanto nos enervam, como ocorre em Campos. Se esqueci algo continuamos em seguida, grande abraço.

Fabrício Maciel disse...

Caro bill, as questoes referentes a complexidade simbólica e integração, como voce bem coloca, não podem ser entendidas sem um pano de fundo moral, que é onde sustento minha noção de estratificação que voce critica. Isto por que é na dimensão da moralidade, entendida aqui enquanto nossa coluna vertical de avaliações do mundo que é sempre hierarquizante, onde residem os valores que temos incorporados e que definem a incompatibilidade entre as pessoas sem que elas percebam. Funcionalmente fica vaga a maneira como os valores ao mesmo tempo influem e se reproduzem em nossas ações, e sem isso é impossível entender qualquer forma de hierarquia e desigualdade.

Fabrício Maciel disse...

Cara Elba, obrigado pela força ao blog. Apesar de não ser da área, voce poe perguntas mais inteligentes do que algumas que já vi por aqui. a menção aos burocratas que tudo emperram é irônica, pois é assim que todos vemos tal segmento, que de fato muitas vezes da motivo para tanto. mas arremessamos tal estigma sobre eles como se apenas eles emperrassem coisas em nossa sociedade. O que chamo de "naturalmente bom" é tudo aquilo que em nossa socialização desde a infancia somos acostumados a considerar a melhor maneira de viver e de julgar coisas e pessoas no mundo. Se voce observar em seu cotidiano verá que quase nunca paramos pra pensar em muitas coisas que fazemos espontaneamente, por exemplo no trato com os outros. jamais pensamos que agimos de determinada maneira mas que ela é uma dentre outras, que o mundo poderia ser de outra forma, que dar bom dia por exemplo não é algo natural mas que se convencionou como correto. colocando a questão da normalidade em termos de nossa desigualdade, é importante entender que temos em nossa sociedade uma massa de pessoas inadaptadas para o mercado de trabalho, por motivos que estão fora de sua escolha pessoal, como tentei mostrar nos dois textos que pus ate agora no site, e que de fato se sentem estranhas em uma sociedade onde a posse de conhecimento intelectual adquirido na escola define os melhores lugares na competição pessoal. Em suma, toda sociedade possui padrões do que é bom e bonito, e aqueles que não se enquadram são julgados como anormais, mas nosso imaginário social politicamente correto jamais permite que admitamos isso. Por exemplo, ninguém ousaria dizer que racismo é algo correto. NO entanto, pessoas perdem emprego todos os dias pelo critério de "boa aparência" e a vida continua como se tudo estivesse normal.

Fabrício Maciel disse...

Excelentes questões caro amigo Vitor, peguei o drama da Fenorte no final, mas foi suficiente pra ver bastante coisa. Voce me relata um contexto onde interesses economicos e profissionais convergiram grupos distintos. Imagine se dependessemos disso para a construção de agendas políticas em ambitos maiores, como o municipal e o nacional. É exatamente assim que funciona o congresso, por exemplo. A questão é: isto aproxima de fato as pessoas em busca de metas comuns que não sejam os lucros? Numa primeira leitura, de fato, o mundo é assim como o seu relato nos mostra. NO entanto, analiticamente precisamos dizer o que falta nas relações sociais para que o mundo seja melhor, para que haja mais representatividade e respeito espontaneo, e não apenas formal, entre as pessoas. Somente comprendendo as diferenças identitárias, que não se resumem a interesses financeiros, é que podemos evoluir para um convívio menos instrumental entre pessoas diferentes. Quanto ao voto no Serjão, não é que seria consciencia de classe, fiz uma análise de um ponto que foi fundamental para a derrota dele, mas que pode não ter sido o único. A questão é que para que um cara como ele ganhe uma eleição para reitor, sem mobilizar acordos de bastidores onde laboratórios inteiros votam no candidato do chefe, ele jamais poderia ganhar pelo caminho puro habermasiano da linguagem e do embate entre idéias, pois nada do que ele diz é visto como positivo quando seu perfil já é negativamente avaliado pela maioria esmagadora de todos os segmentos e não apenas pelos 15% de funcionários. Não foram eles que elegeram o Almir, é claro que o que decide é o voto mais pesado proporcionalmente dos professores. Aproveitei o resultado para analisar a ausencia de identificaçao entre candidatos e eleitores. Ate onde me lembro, apenas um pequeno grupo de alunos, que acho serem maioria do CCH, entendeu e assumiu a candidatura do Serjão como a melhor, por conseguir levar em conta suas propostas, caráter e experiência. Mas a grande questão é: quem é capaz de fazer tal avaliação honesta, nesta eleição ou em qualquer outra, quando os únicos interesses que congregam as pessoas politicamente são instrumentais, como voce bem ressaltou? No geral caro amigo, fico contente de discutir isso contigo, pois sempre me identifiquei com seu engajamento e o de outros como bill , brand e roberto pela uenf e questões mais gerais. No entanto, é preciso analisar, como pus no texto, o que é que age para além de nossa boa intenção quando tantas vezes pegávamos os microfones para incendiar assembléias e manifestações. Pra mim, é disso que vive a boa sociologia. Um cara como eu e você só sera reitor algum dia depois de alguns acordos regados a um bom Whisk 12 anos, que aliás eu adoro. Isto enquanto continuarmos nos contentando com uma leitura material do mundo e nos esquecemos de articular os interesses identitários e existenciais que também movem as pessoas.

Brand Arenari disse...

Fabrício quando pus minhas colocacoes a respeito do seu texto, além de alguns apontamentos mais soltos como sobre a utilização muito solta do conceito de classe, queria por a baila a seguinte questao: até onde e como podemos nos valer da teoria sem certos cuidados. A manancial teórico que vc tem na mao é muito rico, pode explicar muito coisa, mas não é uma chave mestra. Embora concorde com ele, acho que ele pouco ajuda no caso que vc aplicou. E quanto a isso destaco dois pontos. O primeiro deles se refere ao fato de a eleição para reitor estar num ambiente muito restrito, que é a UENF, em que as pessoas se conhecem há muito tempo. Isso faz com que questões muito pessoais ganhem um peso maior, enfraquecendo explicações de maior alcance. E nisso a postura pessoal dos candidatos importa muito, se é possível passar uma imagem falsa numa campanha eleitoral que o maior contato se dá na TV, ou em palanques distantes, não é possível fazer isso num convívio de 5 anos. Com isso não quero dizer que exista um pano de fundo oculto que atue no julgamento das pessoas, mas ele se enfraquece um pouco neste quadro. E quanto ao julgamento da postura pessoal dos candidatos, não irei me alongar aqui para não falar de pessoas, mas discordo completamente do seu julgamento.
O segundo e mais importante ponto se refere a explicação da vitória na eleição. No caso da eleição da uenf a participação de funcionários e alunos é meramente simbólica, não tem o menor peso. São incapazes de decidir qualquer coisa. A teoria q vc apresentou Tb ajuda pouco, pq se sustenta no peso da percepção dos funcionários. Volto afirmar, seu manacial teórico é muito rico, mas não se encaixa muito com o caso em questão.

Vitor Peixoto disse...

Fabrício,

Em um momento vc propõe que é a falta da ligação identitária o problema, em outro vc diz que é sua existencia o problema. Não entendo mais nada...

Vc me critica dizendo que eu somente analiso as questões instrumentais. Vejamos:
"Isto enquanto continuarmos nos contentando com uma leitura material do mundo e nos esquecemos de articular os interesses identitários e existenciais que também movem as pessoas."

Mas antes dessa crítica vc mesmo afirma, concordando comigo, que os interesses instrumentais são os únicos que congregam as pessoas:
"quem é capaz de fazer tal avaliação honesta, nesta eleição ou em qualquer outra, quando os únicos interesses que congregam as pessoas politicamente são instrumentais"

Não entendo mais nada...



Grande abraço,

Fabrício Maciel disse...

Brand, estou baseado não apenas na teoria mas em sua aplicação a partir de observações que fiz pessoalmente lá. Concordo no peso de contatos e impressões pessoais no contexto em questão. Mas o que vi foi rapidamente uma avaliação positiva em função da imagem de um e uma em detrimento do outro se espalhar entre colegas que não tinham nenhum contato com os candidatos. Não acredito que mesmo no contexto local da uenf critérios pessoais tenham definido, nunca descartei os mesmos e aproveitei o que vi pra analisar como questões morais sutis são decisivas neste tipo de análise.

Fabrício Maciel disse...

Vitor, não há nenhuma contradição no que digo: constatar a ligação das pessoas por interesses instrumentais meramente economicos é uma coisa onde concordamos; discordamos pois voce se contenta em entender o mundo apenas nesta dimensão, enquanto que eu provoco a uma análise da moral que ao mesmo tempo articula motivos não econômicos e acredita que o mundo será melhor quando conseguirmos convencer a todos que apenas entendendo a dimensão não economica poderemos escapar do instrumentalismo total das relações sociais.

Vitor Peixoto disse...

Fabrício,

Enquanto análise, então, vc concorda que o mundo é predominantemente instrumental? Eu sim, por isso a predominancia dessa categoria nas minhas análises. Não obstante acreditar que não é exclusiva, acredito ser predominante na maioria das relações políticas. Sobre essas relações é que recaem minhas análises.

Enquanto o devir, aí meu caro, são outros quinhentos. Não tenho esse propósito de convencer o mundo. Nem mesmo estou convencido completamente de que seria melhor... ao menos na política julgo que não. Meus esforços é tentar compreender as instituições que administram esses conflitos de interesses. Às vezes, propor engenharias que julgo mais eficazes para essa administração.


Mas continuo achando que há sim uma contradição na sua análise.


Abraços,


ps: Na vida privada, prefiro relações que não sejam instrumentais. Mas apenas na vida privada.

Fabrício Maciel disse...

Vitor caro, não existe esta separação entre privado e público, são as mesmas pessoas instrumentais que amam e constituem família. MInha analise da moralidade não é apenas enquanto devir, é a constatação de uma dimensão normativa da vida social que voce simplesmente desconsidera. Só o senso comum se contenta apenas com uma leitura instrumental da realidade. Alem disso, sem compreender o combustivel moral que impulsiona as pessoas voce não vai aperfeiçoar nenhum mecanismo político. Por isso acho que não ha contradição no que digo, estou apresentando uma teoria da ação social que dá conta de mais dimensões do que aquelas utilizadas na ciencia política, sem obviamente desconsiderá-las.

Fabrício Maciel disse...

Outra coisa Vitor, não há neutralidade em nada que pesquisamos ou escrevemos. Voce me diz que não quer mudar o mundo, esta fala não é neutra, isso não existe meu caro. Só há dois lados, ou muda ou conserva. Se voce não articula os dilemas de nossa sociedade, bem como suas ambiguidades, voce está colaborando pra que ela permaneça como é.

Vitor Peixoto disse...

Fabrício,

As pessoas podem ser as mesmas, mas os objetos que norteiam os interesses mudam. Ou vc acha eu representaria algum interesse seu na política somente por vc ser meu amigo na vida pessoal? Somente o faria se também fosse meu interesse, meu caro.
Conheço a crítica que o Jesse faz, e que vc repete indiscriminadamente, ao DaMata sobre essa distinção entre a casa e a rua. Mas não é isso a que me referi. O que eu me refiro não são privilégios ou qualquer coisa do gênero. Refiro-me aos interesses instrumentais que sou capaz de coordenar politicamente com meus adversários e transforma-los em aliados momentaneos (ou não), mas não com minha esposa. Cuidado ao misturar essas duas coisas, vc pode acabar dormindo com seu inimigo ou com seu adversário. Penso que isso não seria agradável.
Dito de outra: sou capaz de agir orientado de determinados interesses na política, interesses esses que eu não transporia para a minha vida pessoal. Assim como existem comportamentos privados que não deixaria transpor para a vida política. Para o meu próprio bem, não os dos outros.
Mas não fuja do assunto. Vc diz claramente que o problema da política era se restringir aos interesses instrumentais. E reafirma na sua resposta. Depois, de forma esquizofrenica, diz que a vida vai mais além do que isso e não restringe sua análise a essa dimensão.

Ao menos seja claro nas suas respostas. Não será dizendo que eu me restrinjo ao senso comum que vc convencerá ninguém. Se vc alia-se a uma teoria, saiba ao menos explicá-la. Da forma que vc a empregou, prestou um deserviço. Repito: isso que vc escreveu é esquizofrenico. E explico novamente: em um momento é o problema, em outro a solução.

Serei mais claro: Vc escreve que o problema era a união apenas por interesses instrumentais. Diz que deveria e pretende convencer o mundo. Nas suas próprias palavras:

"provoco a uma análise da moral que ao mesmo tempo articula motivos não econômicos e acredita que o mundo será melhor quando conseguirmos convencer a todos que apenas entendendo a dimensão não economica poderemos escapar do instrumentalismo total das relações sociais."

Se vc quer convencer o mundo, é porque o mundo não está convencido, não é mesmo? Vc quer inserir uma dimensão na realidade para que sua teoria valha, meu caro. Não há coerencia nisso! Isso não pára em pé.

Ora vc acha que eu sou limitado por limitar minha análise a dimensão instrumental, ora acha que o mundo é ruim porque se limita a esta mesma dimensão!



A teoria que sigo é feita para humanos, não anjos. Tenta explicar a política realizada por humanos, não santos.


Por fim, não coloque palavras que eu não escrevi. Não disse nada sobre neutralidade. Apenas disse que não quero convencer o mundo daquilo que eu não discordo. Vc sim quer mudar o mundo, inserir uma dimensão moral no mundo que julga que faz falta. As religiões também pensam assim...

Abraços,

bill disse...

Acho que as duas propostas que aqui se apresentam são bastantes claras e em séculos de existência do debate entre elas, não chegamos a consenso algum. Existe uma dimensão normativa e realista muito clara acima, uma faz uso da teoria crítica, outra do positivismo (não entender como crítica aqui). De fato, também acho que há uma contradição, não no texto, mas nas respostas do Fabrício, como afirma o Vítor, embora ache que, tal como o Fabrício coloca, as seleções que vitor faz na análise também é orientada por uma dimensão moral hierarquizante, inclusive ele utiliza um código moral bastante antigo (lembremos que ele é fruto árabe, contado nas mil e uma noites): a diferenciação entre anjos e demônios.
Está ótima a discussão acima.

Abraços.

Fabrício Maciel disse...

Vitor, ao me pedir para não por palavras em sua boca, voce me diz que nada posso interpretar do que fica contextualmente sugerido em seu texto. Mais uma leitura simplista e positivista de sua parte acerca do significado que permeia qualquer afirmação, foi exatamente por isso que te acusei de acreditar ingenuamente em neutralidade, mesmo que jamais diga isso em seu texto. Acho que já respondi mais de uma vez sua crítica, mas vou tentar de novo, pois eu sim acredito na força dos argumentos: identificar que a leitura economicista rasteira que predomina no senso comum e tentar articular em contrapartida a dimensão da moralidade que também incita nossas ações não é nenhuma contradição, é tentar ir além da leitura imediata da realidade que parece te satisfazer tão bem. Quanto à semelhança com a religião que você faz no final, isto para mim não é nenhum problema, pois acredito que a sociologia tem data e objetivo certo na história,não surgiu por acaso, é fruto de ideais iluministas cuja marca inevitável é a busca de transformação do mundo. Agora eu que te digo meu caro, cuidado, religião e ciência social podem ser bem mais semelhantes do que você parece julgar. Quanto a distinção entre espaço público e privado, vai um pouco além da tese do jessé sobre casa e rua do matta, que voce injustamente diz que eu repito indiscriminadamente. Mas não vou perder tempo com esta acusação, e não entenda este termo mal, entre nós ele pode ser usado pois sempre respeitamos os argumentos um do outro. Prefiro ressaltar que tal distinção ocorre no capitalismo como um todo, onde temos a ilusão, que infelizmente voce parece comprar sem nenhuma auto-crítica, de que no espaço privado da família estaremos poupados de nossas ambiguidades pessoais, e da política que fazemos a cada instante, movida por interesses materiais e identitários. Quanto entramos em casa, não tiramos nossas ambiguidades e penduramos atras da porta, como um velho paletó molhado de chuva, elas estão em nós meu caro, não se iluda, não pense que voce não é instrumental com sua esposa e vice-versa, mesmo que não perceba. É melhor viver assumindo nossos dilemas. Como já disse, as mesmas pessoas administram nações inteiras tem família, mulher e filhos. Ah, e ve se não fica jogando pra galera dizendo que não vou convencer ninguém pondo palavras em sua boca. Num debate as únicas armas são os argumentos, mesmo que estes sejam mal intencionados, como creio não ser nosso caso, ou a apresentação de números como você gosta de fazer. Grande abraço, mano velho.

Roberto Torres disse...

O debate está ótimo, e com a exposição pessoal que a ciencia feita por pessoas de coragem deve ter. Vou tentar apenas ressaltar alguns pontos que acho legal a gente nao perder de vista caso continuemos a discussão. Inclusive acho que o debate continuo e a grande singularidade que pode ter este blog. Primeira coisa, fazendo uma ressalva a brand. Uma coisa e a dificuldade de aplicar uma teoria a uma dada realidade, a fim de compreende-la. Pode-se muito frequentemente confundir o "modelo da realidade" com a "realidade do modelo". Isso leva a uma incapacidade nao so de compreender uma realidade especifica como as disputas politicas da uenf, como privar o aprendizado da teoria com as questões empiricas, o que e ruim pra teoria e pro conhecimento como um todo. Outra coisa e simplesmente dizer que uma realidades particulares devem ser compreendidas com teorias particulares. Eu sei brand nao pensa isso, claro que nao.Estou lembrando o quanto e facil e essa tendencia anti-generalizante, e porque ela e pior. Uma teoria da dominação social como a de bourdieu, e especificamente sua teoria da luta de classes, e uma teoria para compreender o mundo. Isso e altamente pretencioso. Mas a petensão baseia-se na premissa, empiricamente atestada so pelo fato de capitalismo hoje ser uma realidade que pauta todas as aspirações sociologicamente importantes encontráveis em qualquer lugar do mundo, de que o sistema social global divide as pessoas, seus interesses, solidariedades e oposições em classes sociais. Vejam bem. A generalidade de uma teoria como essa nao pretende que a classe social e economia das lutas simbólicas de classe explica tudo. Mas afirma veementemente que nada no mundo de hoje pode ser explicado sem recorrer a uma teoria como essa. A uenf nao esta fora disso.

Outra coisa: o debate moralidade x instrumentalidade. De tudo que eu estudei sobre isso, tenho hoje a seguinte impressão, com a qual acho que vcs vao concordar. A oposição entre ação instrumental e moralidade é uma falsa dicotomia que, servindo no máximo como modelo, nunca pode apreender o que de fato e uma ação politica. Concordo que fabricio foi impreciso e caiu nesta falta oposição.

Toda ação social, como toda ação politica, é pautada na busca de metas, definas por uma hierarquia entre coisas e objetivos que se impoem objetivamente na vida de todos nós. Mesmo as metas individuais, como ter uma renda, interesses privados etc, so sao buscadas por que uma certa concepção do que e uma vida desejável se impoe em nossas trajetorias de vida. Poltica nao faz sentido sem isso. Ou melhor, a existência e a legitimação de uma comunidade politica nao fazem sentido sem isso. Isso e a hieraquia de valores que, em sociedades modernas, equivale a todas as metas que giram em torno do individualismo, e das coletividades tipicamente como a nação.

Nesse sentido, mesmo a ação instrumental pautada na relação meios e fins é baseada em valores, mesmo que esses valores estejam naturalizados e vividos como coisa que nao escolhemos.

Por outro lado, toda ação politica pressupoe que o acesso as metas dotadas de desejabilidade seja diferencial, ou seja, que haja uma disputa por bens escassos. A escasses e a condiçao da propria disputa politica. E a desejabiliade comum e a condição da escasses. Toda ação politica e instrumental por que visa mobilizar pi manter os meios disponíveis para alcançar os bens escassos. A ação instrumental e tanto do especialista sem espirito que busca compulsivamente fins naturalizados como o dinheiro, sem nunca por a questao do sentido desse fim, como a do lider carismática e seus seguidores que mobilizam instrumentos para "reinventar" os valores e o estilo de vida.

E meio a tudo isso, podemos ou nao encarar o desafio de dizer que modo de açao politica é mais ou menos valorável de acordo com a relação entre metas e meios para alcanaçar a manter o controle do alcance de metas. Se nao assumirmos essa tarefa de determinar o nivel de aprendizado das lutas politicas nao podemos dizer que queremos aperfeiçoar instituiçoes democráticas que administram conflitos. Sem determinar o valor moral da democracia em relação a outros modos de disputa politica nao faz sentido nem estudar nada disso.

Elba disse...

Fabrício,
Toda sociedade possui padrões do que é ser normal ou anormal.Ou, como disse você "do que é bom e bonito".
Já foi "normal" pegar as pessoas que não eram "políticamente" corretas e as colocarem dentro de navios à deriva, até que morressem todas. Já foi "normal", matar milhões em nome de uma raça superior. Já foi "normal" um monte de anormalidades/barbaridades em nome da normalidade. Agora, acabo de ouvir no JN, é "normal", assassinos de bebês, serem "protegidos". Continuo me perguntando sem encontrar resposta: ou que é ser normal? Na minha "humildíssima" opinião NÃO existe uma resposta definitiva para essa questão.
Para mim, "afinal de contas, só existe uma raça: a humanidade(George Moore)".
Uma última dúvida: seria "normal" eu estar aqui discutindo com doutores e mestres? Claro que não, para a comunidade uenfiana, em primeiro lugar. Eu deveria era estar entre meus pares: os administrativos emperradores, porque como dizia o filósofo: cada um na sua, né, não? :-D
Mas até que alguém me expluse, vou continuar aqui. Aprendendo com vocês.
Vontando aos crochês...

Fabrício Maciel disse...

Cara Elba, sociologicamente o normal é sempre relacional, e seus padrões simbólicos podem mudar com a evolução social. O normal é algo dinâmico, é a definição de algo como positivo sempre em contraposição a construção de algo negativo. se temos nas sociedades cmoplexas contemporaneas uma concepção de normalidade relacionada ao tipo humano contido e auto controlado, esta só existe devido a construção sempre dinâmica do estigma do bárbaro e bruto, que traduzido para a luta de classes contemporâneas resume-se ao trabalhador qualificado pelo ensino formal escolar X o trabalhador braçal desqualificado da ralé. São construções sociais de normalidade e anormalidade que apenas se superam se articulamos a forma implicita como historicamente são construídas. Quanto a voce, é normal sim que debata conosco, pois se não tivesse a mínima condição para isso não teria motivações pessoais para estar aqui. grande abraço.