segunda-feira, 12 de maio de 2008

O que é arcaico e o que é moderno

Já durante as eleições municipais de 2004, os crimes eleitorais cometidos de parte a parte (e de início sem punição) faziam supor que Campos se enquadrasse naquela categoria que os jornalistas e analistas políticos costumam chamar de “os rincões”. Sem muita precisão conceitual, muitos terão dito ou pensado que esta é uma terra de “coronéis” onde a disputa eleitoral é empreendida na base do vale-tudo. É verdade que a dissertação de mestrado do Renato Barreto de Souza, concluída por aquela época (“Clientelismo e voto em Campos dos Goytacazes”), já mostrava um cenário ultra-competitivo onde não caberia a idéia dos “currais eleitorais”, ou seja, dos votos perpetuamente cativos deste ou daquele político. Mas para o senso comum o que chamava a atenção era o poder das máquinas e, portanto, de quem as controlava naquele momento.

Pois esta — a referência aos coronéis — é a maneira que encontro para fazer um link entre o assunto que nos mobiliza a todos em Campos e o tema da pesquisa que desenvolvi durante o mestrado em Políticas Sociais na Uenf e que, por sugestão do George Gomes Coutinho, compartilho neste espaço. Meu orientador foi o professor Marcelo Gantos, do CCH/Uenf. O problema sociológico abordado dizia respeito à súbita introdução em Campos, no início da década de 1990, de uma massa de professores doutores vindos de todas as regiões do Brasil e de vários países, por ocasião da implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e a sua problemática convivência com os segmentos “nativos” da sociedade ou estabelecidos em Campos de longa data[1]. Como seria de se esperar, deu-se um estranhamento recíproco, e as representações sociais que estes dois pólos de sociabilidade construíram mutuamente podem ser resumidas no título de um artigo recentemente publicado pela revista Agenda Social: “O principado dos professores doutores na província dos coronéis”. (Disponível aqui).

O que ocorreu naquele contexto foi o encontro de dois mundos: um, o dos professores doutores, notoriamente cosmopolita; outro, o da massa da população campista, eminentemente local; um, identificado com a modernidade e quem sabe com sua versão “alta”, “tardia” ou “pós”; outro, marcado por traços de uma sociabilidade tradicional. Neste encontro, pareceu a princípio que ambas as instâncias pouco interagissem ou se “misturassem”, como água e óleo. Enquanto os informadores de Campos, ouvidos pela pesquisa, representavam a Uenf como “fechada”, estranha e distante, os professores doutores geralmente representavam a cidade através da mediação de variados símbolos do “atraso” socioeconômico, entre os quais a monocultura canavieira, a força das oligarquias e a herança colonial e escravocrata. Em outras palavras, Campos era representada como um lugar de coronéis.

Procurei trabalhar atento ao fato de que o campo da pesquisa era um autêntico campo minado, já que o então aprendiz de sociólogo tinha uma perna no antigo mundo campista (do qual era nativo) e outra no novo mundo acadêmico (do qual fazia parte como servidor público da Uenf).

Como esta conversa não é longa, já devo apresentar alguns trechos de depoimentos colhidos em entrevistas semi-estruturadas que marcam bem claramente o conflito em questão. Para não alongar, vou citar apenas dois informadores de cada lado:

Informador campista 1: (...) quando ela (a Uenf) se instalou, ela parecia um disco voador pousado e com as portas fechadas por dentro. Era um corpo estranho à sociedade campista. [...]

Informador campista 2: É como se a universidade, se ela ficar em Campos ou em Marte, não faria muita diferença... ou nos anéis de Saturno, não sei.

Informador professor doutor 1: (descrevendo suas primeiras impressões sobre Campos): Uma cidade marcada pela atividade canavieira, né? Uma situação bem típica de região de monocultura, está certo? Uma oligarquia muito forte e ... representantes, entre aspas, da cidade e o resto...

Informador professor doutor 2: [...] Minha mãe toda hora falava... (...) A gente ouvia falar de Campos, “é, parece que deve ter um monte de cana lá...” (risos) “tudo ignorante”. E minha mãe falava muito mal. [...]

De um lado, o ambiente social e cultural dos professores doutores percebido por nativos campistas como estranho, exótico, distante, indiferente. De outro lado, o ambiente sócio-cultural de Campos percebido pelos novos habitantes como um lugar atrasado e ainda sem acesso às luzes da modernidade. Embora estas representações tão contrastantes sugerissem que os dois mundos considerados não se misturariam, esse encontro efetivamente ocorreu, e de forma privilegiada, no ambiente do campus universitário. O conflito entre os estrangeiros/marcianos da Universidade e os filhos da sociedade escravista e coronelista de Campos se traduzia em um conflito entre professores doutores (em geral estranhos ao ambiente cultural campista) e servidores de menor grau de qualificação (em geral campistas). Aí, a noção do que seja moderno e do que seja tradicional se complica, já que a visão hierárquica e um tanto aristocrática — geralmente típica do ambiente tradicional — mostrava bastante vigor no pólo que se supunha moderno.

Este foi um quadro pintado em 2004, que certamente teve mudanças significativas. Os últimos reitores da Uenf, por exemplo, têm se esforçado para integrar a Universidade à vida social, econômica e política de Campos. O título de doutor também já não comporta, entre nós, a carga simbólica que lhe foi atribuída nos primeiros anos da Uenf. De todo modo, voltando ao mote inicial, continuamos todos aguardando (ou tentando construir) um desfecho para essa tensão entre o arcaico e o moderno que parece marcar não apenas a relação entre a Uenf e a sociedade, mas também toda a história recente da nossa cidade.

Por Gustavo Smiderle - Doutorando em Sociologia Política - CCH/UENF





[1] Onze anos depois da implantação, em 2004, a Uenf tinha 17% de professores doutores estrangeiros. Somando-se os estrangeiros aos naturais de outros estados brasileiros, que não o Rio de Janeiro, a proporção era de 61%.

25 comentários:

Vitor Peixoto disse...

Bom relembrar essas questões... O mundo que estava resumido ali no início da UENF foi um experiência fantástica! Ainda deve ser, mas não estou mais presente para servir de objeto de análise do Gustavo.

Meu caro, não sei das suas abordagens teóricas ou mesmo das conclusões que chegastes, mas uma coisa posso afirmar: vc abordou um tema interessantíssimo! E de difícil análise, diga-se de passagem.

Sempre me emociono quando leio análises sobre a UENF. Ainda mais quando me parecem bem realistas, daquelas que nos trazem aspectos esquecidos... pode ter se passado pouco tempo, mas nas nossas vidas o tempo cronológico não conta muito.

Tenho um outro olhar por ter estado fora dos dois níveis de análise que vc relatou. Como minha origem é Itaperuna, sempre vislumbrei ir para a antiga Capital (Niterói). Não tinha grana e conheci uma mulher que me levou até a UENF. Lá vivi por alguns anos. Só que um pouco alheio ao conflito entre o "moderno" e "arcaico", pois a UENF não me pareceu tão "moderna" assim, nem mesmo Campos me parecia "arcaico". Afinal eu vinha de Itaperuna! Campos significava uma melhora... rs,rs,rs,rs.... e a Universidade era um gato de sapatos para mim! Aquilo não parecia fazer sentido (modernidade? sei lá!). Demorei um tempo para começar a entender. E quando achava que entendia... boom! Não era nada daquilo. rs,rs,rs,rs...

Não quero objetar nada na sua análise. Muito pelo contrário. Apenas lhe saudar pelo trabalho. E dizer que é ótimo ouvir relatos e análises como vc postou.

Fica aqui não somente os elogios, mas também a provocação, a saber, sobre os impactos do Pré-vest. Essa História também merece atenção. Há de se falar que o maior programa de extensão da universidade foi realizado pelos próprios alunos dela, sem qualquer aporte financeiro da universidade (apenas com uma sala disponibilizada). Esse foi um dos maiores entrelaçamentos da unversidade com a população campista. Antes de ser primeira opção da classe média campista para muitos cursos, como é hoje, conquistou um público de baixa renda. E que transformou a vida de vários deles!

Sempre receio citar nomes, por vários motivos... mas... vá lá, quem quiser contar essa História poderia começar a procurar Ximoda, Yoanes, Marcelo, Apostolos, Pancinha. Outros nomes surgirão, obviamente. Lembro destes que foram da minha época (com certeza esqueci de muitos). Mas podem ter certeza, estes saberão puxar o fio da meada para se entender como o "moderno" e o "atrasado" começaram se misturar.


Grande abraço, e mais uma vez, parabéns!

Vitor Peixoto

Brand Arenari disse...

Gustavo, bom te ver aqui no nosso blog, seja sempre bem-vindo, ainda mais com bons posts como esse. Assim como o Vitor, não sei até aonde vc foi nas suas pesquisas, mas lembro Tb que a pré-história da UENF parece ser bastante significativa no que tange a relação da UENF com a sociedade campista. Por pouco a UENF não teve um destino parecido com o da Petrobras em Campos. Teve o projeto UENF que enfrentar de certa forma a resistência da “intelectualidade local”. Quanto a isso tem muita historia pra ser contada Tb. . .
Gustavo um forte abraço, e imagino que vc como o Eurico Miranda do Futebol do CCH deve estar sentindo falta de um certo jogador talentoso e . . . ahahahah

bill disse...

Faço minhas as palavras de meus amigos, Gustavo, e fico desconcertado por ter acesso a sua pesquisa por aqui, afinal fomos colegas (amigos!) de turma. Lembrava-me do tema. Sempre pensei em Campos, em uma alusão metafórica, como a penínsola Ibérica do Rio de Janeiro. Como na análise de Sérgio Buarque. Explico-me nos mesmos termos do Vítor, afinal também era de Itaperuna, e minha passagem à "modernidade" dava-se a meio caminho da capital, no meu caso, Rio de Janeiro. Campos era assim o lugar por onde passaria, porém fiquei na metade do caminho, até me formar... Campos é este híbrido entre suas duas categorias, arcaico e moderno, e talvez por isso a figura do lobisomen nos seja útil como o foi para José Cândido de Carvalho. Recentemente entrevistei um professor da UFMG que tinha ido para a UENF logo no início, 1994, e havia saído 4 anos depois. Ele se referiu a Campos como um lugar de passagem, ficaria ali, publicaria alguns artigos, mas buscaria uma capital. Campos é um lugar de passagem para carreiras científicas em construção (ou no fim!). A ironia é que modernidade geralmente é relacionada com esta intensa mudança...

Abraço.

Anônimo disse...

Por vários motivos eu não deveria pensar assim e dizer isto...
É uma questão de custo/benefício.
Façamos uma conta de todo o recurso público(salários,edificações,projetos,etc) colocado na UENF ao longo desses 15 anos.
Este valor empregado na vocação da região, agropecuária e petróleo, o povo campista estaria ganhando mais...
É uma questão de custo/benefício.

*Se não estou enganado o CCH foi o último centro a ser implementado, só recentemente com doutorado e se não estou mais uma vez enganado, com dois cursos descredênciado.
"Moderno" e "Arcaico"?
"Atrasados" e "Doutores"
Tudo muito relativo!

Anônimo disse...

Nativos são os "Doutores" que vieram para o CCTA.
Usavam calça de tergal e suas cidades natal são de difícil localização até no mapa.
Continuam de passagem, pois só ficam em Campos de segunda a sexta.

Vitor Peixoto disse...

Caro anonimo,

Não tenho qualquer problema em discutir os custos de uma universidade. Eles são facilmente mensuraveis. Os benefícios é que são problemáticos, por isso discordo teremos algumas divergencias.

Mas não vejo qualquer problema em discuti-los. Comparar talvez seja um importante exercício.

Por exemplo, vamos colocar na ponta do lápis o que Campos recebeu de royalties e veremos o quanto a cidade ganharia se toda a verba destinada á UENF fosse direcionada ao Município?

E ainda existe uma outra questão que julgo ser igualmente importante, será a UENF um investimento somente em Campos? Se não, então a verba destinada à universidade e distribuída à Campos seria também distribuída aos outros municípios da Região. Isso colocaria a comparação dos custos um pouco mais relativo.

Veja anonimo, não discordo em discutir esses aspectos. Aliás, acho até mesmo importante. Eu topo o debate.

Quanto custa ter uma instituição de ensino como a UENF em Campos? Isso deve ser debatido. Qual seria o destino alternativo, ou quais seriam?

Produção de conhecimento não é algo tão tangível assim. Mas podemos nos exercitar comparativamente. Aliás, poderíamos também debater o que a sociedade campista conseguiu investir nos últimos 20 anos com os recursos dos royalties. Quais foram os resultados? Da UENF é difícil mensurar, mas se pode verificar o número de teses, artigos científicos, alunos formados, patentes, etc.

Esse pode ser um caminho para se verificar o impacto dos recursos investidos na universidade, e o que vc tem para dizer acerca do que foi feito com os royalties?

Grande abraço,


Vitor Peixoto

Vitor Peixoto disse...

Em complemento ao comentário anterior, pensei se os royalties não teriam melhores resultados se investidos na UENF demais instituições públicas de ensino ... Está aí uma questão que deveriámos discutir. Que tal?

Grande abraço,

bill disse...

Não há dúvida de que a relação entre universidade e empresa se inverteu. antigamente as empresas se instalavam em uma região e as universidades iam se achegando, criando o que ficou conhecido como clusters. Hoje ocorre o contrário. As universidades atraem as empresas, e isso ocorreu com os tigres asiáticos e com os Estados Unidos a partir da década de 70. Os exemplos são as empresas de software da califórnia e as empresas de chip asiáticas. Isto é o que se convencionou chamar de sociedade do conhecimento: cria-se uma base cognitiva para se inovar nas empresas. é claro que isto não é linear (ciência básica-ciência aplicada-tecnologia)... mas uma coisa os modelos os modelos não negam: a economia tem se deslocado para o arredores de grandes universidades, sendo mais humilde, para os arredores de regiões com capital cognitivo elevado. Isto se analisarmos as vantagens atuais em termos econômicos... porque uma grande universidade extende seu valor para além de sua utilidade econômica, isto o vitor acima se pergunta, e é fundamental que se responda. Campos só entra no mapa acadêmico do Brasil com a UENF, e ponto. Congressos em que fui falavam da "UENF de Campos". Ademais, é melhor se conhecido como produtor de conhecimento do que como produtor de cana ou petróleo (é hoje ambientalmente incorreto falar dessas indústrias, né?). Mas, é claro que frutos são só a longo prazo... o que a cana trouxe para Campos (em 3 séculos)? poluição? coronéis? escravidão sec. XXI? e os royaties (em 2 décadas)? Corrupção? Essas são as vocações de Campos? a UENF tem 15 anos. Seja lá o que acontecer, doutores são menores males em terra de coronéis e corruptos... Abraço

George Gomes Coutinho disse...

Acho interessante a questão do anônimo pois ela revela de forma inegável um tipo específico de ethos presente nos tais "rincões" que Gustavo Smiderle refere-se. A própria universidade pública, com um nível de produção per capita de produtos científicos, como a uenf, já deveria ser motivo suficiente para justificar sua existência.

Mas é difícil ou quase impossível mensurar massa crítica. E sem dúvida ninguém a absorve por osmose.

Prosseguindo...

Como estou ainda no CCH digo que não houve qualquer curso descredenciado.

Houve sim um início de processo sobre o curso de Cognição e Linguagem onde havia a possibilidade de recurso. Diante deste o descredenciamento foi revertido mediante a reelaboração de um relatório.

Quanto ao fato do CCH ter sido criado por último, sim, sem dúvida a vocação da UENF era massivamente tecnológica ou no campo de ciências radicalmente aplicadas. Eu gostaria apenas de entender se a ordem de criação dos centros cria um atestado de qualidade... Para esta ou qualquer outra instituição.

Quanto a ser o centro que cria por último o seu curso de doutorado... Bem, este é o ÚNICO curso de doutorado na área de humanas fora da região metropolitana do Rio de Janeiro. Até o presente momento... E não sei também se isto é demérito.

Por fim, creio que se somarmos todos os investimentos na UENF nos últimos 15 anos talvez eles não consigam se equiparar sequer aos últimos dois anos de repasse de verbas de royalties.

Como disse o Vitor... Sabemos o que produzimos. Conhecimento é patrimônio da humanidade...

Mas será que o pessoal do PMCG sabe o que produziu de fato com o tal montante?

Não bastam os recursos investidos na agricultura nas últimas décadas? Ou tenho que lembrar sobre os empréstimos não pagos até hoje? Será que a petrobrás precisa dos recursos da UENF para investir em si própria?

Falando francamente a UENF produz pesquisa que é aplicada nas duas áreas que o anônimo cita... Melhoramente genético, consultoria para a formação de cooperativas, técnicas de pesquisa de prospecção de petróleo em águas profundas....


Tacanhas observações motivadas pelo mais abissal desconhecimento... A questão é que eu diria que possivelmente a UENF fez muito mais do que os investimentos nesta permitiriam.

Ainda bem que está não precisa se justificar para Campos ou para qualquer cidade.. Como lembrou Bill... Por fim o cito: "Seja lá o que acontecer, doutores são menores males em terra de coronéis e corruptos".

Abçs

PS: Eu poderia ficar aqui citando mais trocentos pontos... Todavia creio que o que está aqui presente seja suficiente.

George Gomes Coutinho disse...

Ah....

Os professores do CCTA, como os outros, são 40 horas (oficialmente pois usualmente trabalham muito mais do que isso).

Nas horas restantes tem o direito constitucional de morarem onde desejarem.. Usarem a roupa que desejarem... E isto não afeta em nada a produtividade do CCTA...

Ciência, ainda bem, não depende do tecido que usamos em nossas calças...

Brand Arenari disse...

Nao nos damos conta do vício que criamos. Estamos viciados em fazer análises economicistas das coisas, tudo tem que ser convertido em lucros e ganhos financeiros, como se o mundo fosse uma grande empresa, como se jogássemos na bolsa de valores a cada instante. Isso revela a nossa pequenez em interpretar o mundo. Crescimento econômico não corresponde necessariamente em uma melhoria de vida para as pessoas, o Brasil foi o país que mais cresceu no século XX e continua semi-escravocrata. Campos não carece de investimentos financeiros, já tem o terceiro PIB municipal do país, Campos precisa de investimento humano. Raras foram as vezes que a houve investimento humano em Campos, e a UENF é uma delas, mas esses resultados levam gerações para aparecer.

Vitor Peixoto disse...

Até o anônimo expor novamente seus argumento julgo que poderíamos continuar com o debate.

Talvez uma participação do Gustavo se faça interessante. Principalmente, sobre o que ele aponta como fator explicativo para essa carga simbólica que carrega o título de doutorado nas terras campistas.

Ao que entendi, essa titulação era pejorativa, mas onde está a sua justificação? Poderia ser um ressentimento personificado na figura dos seus representantes (professores?)? Quero dizer, o choque causado pelo que era estranho, exótico, etc. era transubstanciado na figura dos professores?

Sobre o ressentimento em Campos, tenho apenas dois apontamentos: primeiro, quando cheguei na imigração aqui nos EUA, cheguei com muito medo, afinal era um brasileiro com pouco dinheiro. Fui atendido por um policial que de longe não me parecia muito gentil. Eu carregava um visto e uma carta do consulado americano. Essa carta era lacrada e, avisaram-me, somente o agente da imigração poderá abrir. Portanto, eu com minha síndrome de vira-latas, achei que era um sinal para eles não me deixarem entrar. Tinha como certo que iriam pedir alguma comprovação que eu não tivesse... Para minha surpresa o agente quando abriu o tal envelope soltou uma expressão de exclamação e me mostrou o conteúdo da carta. Lá dizia que minha presença faria bem aos EUA. E explicava, mais ou menos assim, “ este Sr. contribuirá para a ciência em ao nosso país, que lhe seja possibilitado trânsito em terras americanas, assim como todas as atividades de pesquisa e ensino.” Elencava umas dez atividades que eu poderia realizar de forma remunerada. A partir de então o agente disse meia dúzia de elogios, perguntou de onde eu era no Brasil com um ar de curiosidade, deu-me as boas vindas e desejou boa sorte.

O segundo fato aconteceu já nas cidades-gêmeas onde está a universidade. Champaign-Urbana são majoritariamente habitadas por pessoas da universidade, e quase tudo pertence à UIUC. São cerca de 90.000 hab, uma estação de trem e um aeroporto. Também é uma cidade de passagem. Todos os que têm condições passam os finais de semana em Chicago. Ficam no meio de um milharal, essa é a expressão que ouço diariamente aqui como forma de denegrir as duas cidades. Mas ao contrário de Campos, nunca ouvi sequer um único repúdio aos que aqui estão. É comum pessoas do comércio local pedirem identificação (exigido por lei para bebidas e cigarro), quando vêem que sou do Brasil, sempre perguntam sobre o país e sobre o que eu faço aqui. Ao responder, novamente a expressão do agente da imigração se repete. É batata! São somente elogios e desejos de boa sorte.

Aqui não me cabe comparar Champaign-Urbana com Campos (seria uma desonestidade). Até porque a universidade está aqui faz muito mais tempo. Estas cidades foram construídas praticamente pela UIUC. Mas não posso negar que aqui, mesmo sendo latino etc. e tal, o fato de vc fazer doutorado, ser professor e pesquisador é um fator que lhe faz ser admirado. Em Campos é motivo para ser rechaçado.

Grande abraço,

Anônimo disse...

Pois é, vcs. que estão estudando, sendo custeados com dinheiro público, tem por obrigação de reverter este investimento na região. Voltem agora mesmo para Itaperuna (um dos rincões deste estado onde tb. encontramos um tipo específico de ethos) e contribuam para que a região saia do atraso e o arcaico seja coisa do passado. Caso contrário vcs. acabarão indo (muito provavelmente por convite de "amigos") fazer parte de uma universidade que estará sendo implantada em um local de gente atrasada , com alguma monocultura e evidentemente um “curral eleitoral”, aí um aluno fará um trabalho semelhante ao do Gustavo, usará como referência bibliográfica e a estória continua...

Anônimo disse...

Vitor.
Talvez voces precisem fazer mais e falar menos.
Até porque obter o título de doutor não é uma coisa que só uns poucos conseguem, está ao alcançe de qualquer universitário e só querer.

Brand Arenari disse...

Vitor o debate é tao bom que eu pretendo postar algo sobre ele. A questão com a qual nos deparamos é muito maior do que parece. E pela a lógica de investimento de recursos proposta pelo anônimo, deveremos acabar com todas as escolas e investir somente economia, gerar incentivos para empresas e etc. Isso é apenas um aperitivo.
Abraço a todos e um agradecimento ao anônimo por expor questões que nos são tão caras.

Vitor Peixoto disse...

Anonimo,

Não preciso estar presente para contribuir com a região. Essa não é a única forma de contribuir com Estado que me financia. Serei obrigado a voltar para o Brasil, isso por lei! Que eu concordo e apoio plenamente.

Quanto a ir para outros lugares, provalmente, esse será o meu destino. Afinal, o que o Governo Federal está a fazer é incentivar a descentralização através das aberturas de vagas e criação de novas universidades em lugares bem mais distantes do que Campos. Pessoalmente, prefiriria ficar no Rio, não somente pelos atrativos da capital, mas por ser lá uma cidade onde não sou rechaçado como os "doutores" são em Campos. Apesar de lembrar dessa cidade sempre com bons pensamentos.

Ao contrário do que vc imagina, a rotatividade de pessoas na academia é salutar e até incentivada. Eu mesmo fui incentivado a procurar uma outra instituição para continuar meus estudos.

Quanto a fazer mais e falar menos, eu lhe convido a fazer uma visita ao Lattes. Lá vc encontrará minha produção acadêmica, apesar de não ser um anônimo quem irá julgar se é válida ou não. Mas está ao seu alcance.

Sobre o impacto desta produção, se vc lesse mais entenderia do que falo.

Mesmo sem saber quem vc é, eu lhe desafio a também mostrar sua contribuição para o Brasil acerca do conhecimento. O posso mostrar o que eu fiz (inclusive presto contas periodicamente aos órgão competentes), e vc? Aliás, poderia agora a dizer quem tu és?

No que concerne ao doutorado, eu concordo em parte. Infelizmente, não é só querer. E aqui está mais um problema do país. Não por questão de mérito dos que não conseguem, mas por questão financeira. A bolsa é muito curta para a titulação necessária. É desproporcional. Assim as pessoas acabam por migrar para o mercado em busca de melhores condições. Se vc, anonimo, fizer uma comparação com os salários do poder judiciário, por exemplo, irá encontrar um indivíduo com apenas o 1º grau completo e com um salário (férias, 13º, etc.) superior ao de um doutorando. Se vc comparar com salário mínimo, vá lá, mas é isso que o país quer? Não existe PROPORCIONALIDADE entre instrução e rendimento? Essa comparação só é feita por quem despreza o conhecimento (e o governo federal já deu provas do contrário, concedeu 2 reajustes das bolsas, e está previsto o 3º para julho, é pouco, mas é muito melhor do que havia sido feito até então).

Lembro-me que o primeiro reajuste (de R$ 724 para R$ 850), quando ainda estava no mestrado, possibilitou que eu me mudasse de Itaboraí para o Rio. Isso faz diferença! Em vez de passar quase 3 horas no transito, passaria "apenas" 1 hora e 40min. Afinal, fui parar na zona oeste. Com o segundo aumento eu consegui morar a poucas quadras do IUPERJ (num cubículo, mas com tempo agora podendo ser investido em estudo, e sem cansaço). Isso fez diferença. Da mesma forma, num primeiro momento, a UENF em Campos me possibilitou o que não conseguiria no Rio, sobreviver! Isso também fez a diferença.



Essa estória de que os "doutores" ganham salários exorbitantes é uma falácia. Isso somente seria verdade se não levassem o grau de instrução em consideração. Isso se faz em Campos o tempo inteiro para justificar o preconceito. Ouvi da Srª. ex-presidenta da FENORTE várias vezes esse discurso.

Essa discussão nesse nível pode não ser tão profícua. Mas é interessante por outros lados e pode, quem sabe?, servir de material para o próprio Gustavo, se assim o continuar com o tema. Para mim está ainda mais claro como o ressentimento pode ser justificativa para o preconceito.


Grande abraço,


Vitor Peixoto





Grande abraço,

Anônimo disse...

todos os cientistas querem fugir de Campos, a cidade agora só interesa aos antropólogos, hahahahaha eles não nos aguentam mais hahahahaha

George Gomes Coutinho disse...

somente para auxiliar ao nosso visitante anônimo:

http://lattes.cnpq.br/

Aqui poderás acessar os currículos dos colaboradores deste blog... Algo que fatalmente não será tão simples para ver o que outros profissionais de outros espaços fazem com suas carreiras.

Um dos princípios da produção de conhecimento é a transparência e a socialização do que fazemos de modo que qualquer membro da sociedade posssa até mesmo, como está fazendo, questionar os investimentos realizados.

Todavia recomendo que trace um paralelo com outros agrupamentos sociais de Campos para pautar sua análise. A nossa contribuição é dada cotidianamente no processo de elaboração de conhecimento.

Mas, note que o mérito, acadêmico ou de conhecimento de causa, não tem efeito por aqui dado o número de contratados na poder local que provavelmente não tem suas competências passíveis de controle social. Me pergunto se todos os cargos de chefia são ocupados por pessoas com conhecimento técnico e com capacidade gestora.

Finalizando, o conhecimento não opera milagres... Não temos como, tão simplesmente, "nos voltarmos" para qualquer cidade ou região e realizarmos uma mágica calcada em sentimentos voluntaristas se os administradores locais sequer o desejam.

Não há mérito como valor meu caro.. E falo de cadeira pois sou professor de uma instituição privada em Itaperuna e também funcionário, concursado, na prefeitura de Campos. Ao menos por enquanto.

George Gomes Coutinho disse...

Ah sim...

Os salários dos "doutores" da UENF, particularmente, são defasados.

E as bolsas hoje não são um estímulo para a vida em pesquisa se procurar, minimamente, se informar.

Busque saber quanto um bolsista FAPERJ hoje ganha para trabalhar em uma rotina inclusive em que não há feriados.. Em que trabalha-se em pesquisa muito mais do que as 08 horas diárias de um trabalhador "comum"... Isso a despeito da área, se humanas, exatas, biológicas...

Por fim acho interessante o fato de que doutores (ou doutorandos) sejam hostilizados. Justamente por agrupamentos que detém a mais abissal ignorância sobre as reais condições da produção de conhecimento em um país capitalista periférico.

Renato Barreto disse...

Caro Gustavo, Gostei muito do seu post e Foi muito bom encontrar suas letras por aqui. Espero ler outros trabalhos seus. Fiquei apenas com uma dúvida: Quando você entrevistou os campistas sobre a UENF foi possível fazer algum corte de seleção dos entrevistados?

Roberto Torres disse...

Obrigado pela colaboração Gustavo! O tema é muito interessante, sobretudo para nos deste blog que, não tendo vindo de muito longe para campos(Brand, Fabricio e George são campistas mesmo), sempre tivemos uma relação de estranhamento com a cidade, devido em grande parte à pŕopria uenf.Acho que a uenf deu uma cara institucional a este estranhamento, pois ele já havia em alguma medida em setores mais criticos da classe media local (muito reduzidos, é verdade). Eu só discordo da perspectiva teórica que opõe tradicional e moderno para interpretar os dois mundos que se estranham. Assim a gente fica na descrissão que os atores fazem de sua condição e nao percebe que, sendo Campos expressao das contradições e ambiguidades da vida moderna, a oposição entre tradicional e moderno é um recurso ideológico que devemos explicar e nao tomar com explicação.

Carlos Gustavo Sarmet Moreira Smiderle disse...

Caros amigos,

Obrigado pela oportunidade de participar deste âmbito de debates e "rever" bons amigos.

Quero acrescentar aqui algo na linha do que sugeriu o Vítor, ou seja, algum fator explicativo para a carga simbólica atribuída ao título de doutor em terras campistas. Em síntese, seria o que se segue. Achei pertinente, na época, analisar a condição de professor doutor à luz do conceito de símbolo focal ou dominante de Victor Turner. Segundo Turner, os símbolos dominantes apresentam três propriedades básicas: condensação, unificação de significados díspares e polarização do significado. Destas, as duas primeiras me pareceram bastante úteis para analisar o conflito em questão.

A propriedade da condensação sugere que muitas coisas e ações podem ser representadas por um mesmo símbolo. Já a propriedade da unificação de significados díspares reivindica que, nesta condensação, podem ser agrupados não apenas significados afins ou ligeiramente distintos, mas até opostos.

No que se refere à condensação, teríamos vários significados acoplados ao símbolo do professor doutor. Primeiro, a excelência acadêmica que teria marcado a implantação da Uenf. Era o cientista (portanto o professor doutor) quem encerrava as prerrogativas para gerar o desenvolvimento regional nos termos da leitura messiânica do projeto de Darcy Ribeiro. O doutorado era o passaporte para o "Olimpo", como sugestivamente citou uma informadora do grupo de doutores entrevistados. O doutorado também pode ser descrito como o rito de passagem que transformou o primeiro professor doutor da Uenf em um “semideus" à vista de seus antigos amigos. O doutorado ancorava uma certa “sacralização” dos professores da Universidade, como referiu outra informadora (esta, campista e professora doutora). Até aqui, condensação.

Quanto à unificação de significados díspares, a figura do professor doutor também encarnava coisas negativas, como a alegada barreira à inserção de campistas no corpo docente da nascente universidade. Mais: os professores doutores, por um lado reverenciados, por outro eram maliciosamente referidos como PhDeuses, “intelectuais guepardos” (reféns de sua ultraespecialização). Eles eram também aqueles que oprimiam subalternos segundo percepção então amplamente difundida na Universidade.

É isso, já falei demais. Só gostaria de dizer que a universidade pública precisa mesmo ser cobrada, avaliada, como ensaiou um de nossos anônimos. Só não precisa ser uma cobrança tão estreita.

Carlos Gustavo Sarmet Moreira Smiderle disse...

Prezado Renato, infelizmente o material desta pesquisa não permite fazer corte por renda. Foram feitas longas entrevistas não-diretivas, mas envolvendo um número limitado de pessoas (em geral ligadas à imprensa de Campos, sendo algumas vinculadas às antigas instituições de ensino superior da cidade). Como lembrou o Brand, a pré-história da Uenf de fato é reveladora para se entenderem os conflitos que se seguiram.

Anônimo disse...

Piorou muiiiinnntoooo!

Anônimo disse...

Bolsas Universitárias Estudantil Superior,BUES ???????
É facil falar da UENF, prá UENF, de dentro da UENF, não sei de que lado estas, mas prá mim desenvolvimento é uma anarquia do modernismo pop, ex: engarrafamento.
Arcaico, sim senhor!
O moderno mudou tudo do lugar certo sem saber o que estava fazendo, e ainda não caiu na real.Estudar é um dever, e o governo tem que dar e até pagar prá isso. Prá todos, sempre, em primeiro lugar.SE quiserem podem fazer mais umas trintas, uma pra cada distrito, bairro, brisolão...