quinta-feira, 14 de maio de 2009

Em defesa da crítica: sobre a função dos blogs (em Campos e no mundo)


Em virtude do espantoso impacto dos blogs, (vide a reação de importantes instituições como câmara de vereadores, imprensa formal e outros) tem-se nas últimas semanas discutido muito sobre qual é o papel e a função dos blogs na vida social e política. Não vou me arrogar aqui dizer o que os blogs devem ser, até porque acho que eles podem e devem ser coisas muito diversas em relação a propostas e conteúdos, apenas quero pontuar sobre a legitimidade da vertente crítica entre os blogs.

Como primeiro ponto, é importante esclarecer o valor da crítica como elemento genuinamente transformador da realidade, seja esta “realidade” coletiva ou individual, externa ou interna. É através dela (a crítica) que podemos desvelar o universo de idéias que sustentam nossas certezas sobre o mundo e sobre nós, e assim, estão abertas as portas para a transformação e desenvolvimento da personalidade e do mundo como um todo. Como nos diz sua etimologia, a função da crítica é a instauração da crise, e a crise gera sempre o conflito, e o conflito, quando “vencido”, transforma-se em superação e em desenvolvimento. O pólo oposto da crise é a estagnação, o marasmo.

Isso nos mostra que a tríade crítica-crise-conflito faz parte da dinâmica da vida, são como deuses que se impõem frente a nós, pobres mortais. E a história nos ensina que, a atitude mais prudente que os homens devem ter em relação aos deuses é venerá-los no culto, porque caso isso não ocorra, a vingança deles contra nós será implacável. Seguindo esta metáfora, podemos pensar que, se tornar avesso a crítica, negando a existência e o valor do conflito (recalcando-o) é o caminho menos adequado a seguir.

E esse caminho é o que vem sendo tomado pelos conservadores, medrosos, cínicos e covardes de toda ordem que se afeiçoam ao marasmo e a estagnação, seja por covardia ou porque se locupletam de alguma forma desta situação. Através de uma canalhice travestida de “bom mocismo”, querem “higienizar” a esfera pública e a “blogsfera” eliminando a crítica e o conflito, para assim, eliminar a possibilidade de transformação social, o que implicaria no fim de seus privilégios. Deslegitimam a atividade crítica como se essa fosse obra de desocupados, que carecem de polidez necessária a esfera pública, por isso lhes caberia o rótulo de destemperados. Procuram associar a crítica a “faniquitos”, a esperneio infantil. Quanto a estes, o que inclui também os “blogueiros de coleira”, só me resta parafrasear meu amigo Roberto Torres: “Nenhuma tolerância! Nenhuma flexibilidade!”.

7 comentários:

Xacal disse...

"Morte aos infiéis"...rsrs...

Corretíssimo,

arriscaria a dizer(com minha colher suja e desocupada) que a crítica é sempre um bem público, enquanto o marasmo, a assepsia, a "neutralidade" é sempre uma tentativa privada de intervenção e domínio, tanto de sua própria relação com o mundo, quanto uma tentativa de controle sobre a percepção que essa esfera coletiva(senso público)tem de você, ou de sua entidade...

é mais ou menos isso...

um abraço...

e lembrem-se das palavras do mulá xacal abdula mutadra al sadri, líder fundamentalista dos ateus desocupados:

"Em caso de emergência, puxe o pino da granada que trazes consigo, e abraça-te ao teu inimigo...

Na internet, coelhos reproduzem muito mais rápidos que elefantes....

E no fim das contas, o que nos interessa é a preservação da espécie, e não do indivíduo..."

(in, arte da guerrilha na internet, sadri, mulá xacal, 2009)

rsrsrs....

Fabrício Maciel disse...

Endossado Brand, vivemos numa era onde a sociologia tenta implantar um paradigma de que este é o mundo dos acordos, o que na esfera publica brasileira apenas reforça o ideal de brasilidade, avesso ao conflito. neste contexto toda crítica é sinonimo de raivosa e fechamento ao dialogo, quando na verdade o verdadeiro diálogo é o que está aberto a ser ferido pela critica alheia. grande texto

Anônimo disse...

A foto diz tudo! Manera!

Flávia disse...

"Toda unanimidade é burra"...Perfeito post.Adorei!!

Roberto Torres disse...

Belo texto Brand. Somente a crítica pode explicitar os interesses e somente a crítica pode explicitar o interesse dos críticos. Também concordo que em defini-la como um bem público e sua desvalorizacao é correlata com a desvalorizacao de tudo que seja também público.

felixmanhaes disse...

Imagino ser dessa forma, mesmo, equipe redatora do "Outros Campos", parabéns para vocês e a rede blog. Na sua maioria a crítica acirrada e bastante construtiva, aos poucos, parece que caminha deve ser o mesmo, banir, exterminar esses canalhocratas que enveredam pela vida pública, como se fosse um privada. Avante Rede Blog, precisamos incentivar que outros, muitos outros, mesmo com pensamentos diferentes, retomemos a nossa capacidade de nos indignar, de reclamar, de impedir, de substituir. Na nossa cara esses corruptos e corruptores não merecem ficar sozinhos com a maior parte de um tudo que deve ser para todos, com a melhor comida, com o melhor abrigo. São indignos, a maioria deles de ostentarem suas cabines duplas, seus hapy hours em tardes e noites nababescas no baixo pelinca, ao custo e às custas de uma população que corre atrás de um pão seco, de um trabalho que não existe, em uma vida que quase nada vale.

Roberto Torres disse...

Caro Felix, essa capacidade de indignar-se é o que temos que nutrir, recuperar, difundir. Muito aportuno seu recado!