domingo, 19 de julho de 2009

CRACK. NEM PENSAR (?)

Fabrício Maciel
A propaganda atual contra o uso do crack, droga sinistra que tem matado rápido parte considerável da ralé brasileira, toma dimensões curiosas. Foi rápida a difusão desta droga e tem sido igualmente também seus efeitos. Já há um site e adesivos em carros de classe média. O crack está assustando. Chama a atenção da sociedade, já ameaçando todas as classes. Na ralé ele já é um problema de saúde pública, não enfrentado pelo Estado.
A chamada "Crack, nem pensar", sugere naturalmente que não devemos nem pensar em seu uso. Correto. Mas devíamos pensar em quem mais o usa. Por todas as cidades onde passei vi a ralé se matando nas "cracolândias". A droga já parece substituir a tradicional "pedra", onde os bebedores de cachaça se matavam antigamente e ainda se matam. A "pedra" agora é outra, pois este é o apelido mais comum do crack.
Uma espécie de lixo da cocaína e algo mais, o crack tem efeito cruel. Sua onda, dizem, é intensa e rápida, ou seja, uma espécie de viagem do inferno ao céu de ida e volta em poucos segundos. A sequencia é marcada pela busca incessante de mais, o que se traduz praticamente em prostituição e roubo. È uma droga suja, o que deve contribuir para seu estigma. É a cocaína da ralém, porém aditivada, como todos os problemas desta subclasse.
Estudos e políticas públicas de saúde e de classe são urgentes. Ao invés do slogan "nem pensar", acho que temos muito o que pensar e agir diante deste fenômeno. Ele é de todos nós, assim como todas as desgraças sociais que geralmente atribuímos apenas àqueles que "não pensaram". E agora, como sempre, as classes incluídas dizem: "nem pensar".

10 comentários:

Roberto Torres disse...

A Campanha da mídia e para a protecao da classe media.

Xacal disse...

claro, como sempre...

o "nem pensar" reflete uma tentativa(idiota)de ignorar os aspectos dramáticos do problema, e reduzir a prevenção a uma simplista questão de escolha(ou de caráter)...

não é bem assim...

o crack(cloridrato de cocaína), uma mistura(explosiva, por isso o nome crack-estalar) de bicarbonato de sódio, amônia e o que sobra do refino da cocaína, por ser fumada, atinge rapidamente a corrente sangüínea, e faz rapidamente as ligações neurocelulares, as famosas chaves receptoras e emissoras, onde as proteínas como a serotonina agem com indutoras...

o alto grau de amônia permite uma "condutibilidade" rápida nesse "circuito", aliás, como no caso do cigarro, que também tem seus níveis de amônia manipulados pela indústria do tabaco quando as vendas caem...

a logística do tráfico de "pedras" não é sofisticada, e requer pouco investimento, uma vez que é um refugo da cocaína, e se aproveita de suas redes de distribuição...

as chances de recuperação são pequenas frente ao poder devastador do entorpecente e da crise de abstinência que causa...

uma coisa é certa:

com a ignorância das elites, com o estabelecimento de dogmas e preconceitos, ausência de um debate científico(lato sensu) e a exacerbação da política fracassada do "war on drugs", nossas autoridades tendem a nos levar para uma "bad trip"...mais uma...

Fabrício Maciel disse...

Caro Xacal, muito obrigado pelo esclarecimento mais detalhado, que ajuda na sensibilização intelectual sobre o drama e sofrimento de uma fração de classe, mas que só é sentido na dimensão individual. Uma política específica para este caso de saúde pública precisa ser articulada imediatamente. grande abraço.

George Gomes Coutinho disse...

Sem dúvida Fabrício.... é uma questão de saúde pública e precisa ser encarada assim essa questão.

rafaelpcd disse...

isso me lembrou o governo americano e a biliardária campanha "Just Say No"...deu no que deu

Flávio Mussa Tavares disse...

Estou há 3 meses trabalhando como psiquiatra do PU Psiquiátrico da Saldanha Marinho e constatei o alto índice de dependentes de crack, todos vitimas da síndrome de intoxicação aguda e/ou da abstinência, ambas severas e de complexa abordagem terapêutica. A explicação do Chacval é pertinente e acrescentaria apenas a altíssima capacidade de produzir o efeito de tolerância e quase de imediato a abstinência. A toleância é a necessidade de mais droga para produzir a sensação da primeira e inigualável "onda" e a aabstinência é auma série grande de efeitros biológicos que surgem com a carência da substância. É uma síndrome de abstiN~encia em alguns casos mais severa que a alóólica e apenas menos grave que a opióide.

cachacaria maledita disse...

gostei do seu blog, te convido para conhecer o meu, abraço

Fabrício Maciel disse...

Obrigado caros, em breve respondo com calma. abraço

Anônimo disse...

No convênio celebrado entre a prefeitura e a Fundação Rural, onde a prefeitura dá a fundação o valor de 400 mil reais, onde diz que;” A Fundação Rural dará suporte as atividades e eventos futuros, de forma que o Parque de Exposições seja permanentemente usado pelos munícipes, visando sempre as finalidades estatutárias da entidade agregadas ao interesse público oferecendo desta forma, instrumentos de desenvolvimento sócio-cultural e econômico do município.”
Nesta última exposição a FRC já poderia ter pelo menos liberado os portões no último domingo , aliás, como sempre foi feito e, deixar os pais com seus filhos poderem se divertir um pouco sem pagar entrada.
Vamos cobrar esse nosso dinheiro investido.

Fabrício Maciel disse...

Legal Flávio, a abstinência da droga exprime a abstinência social, de realizações e perspectivas, daqueles presos ao reino das necessidades.