sexta-feira, 17 de julho de 2009







O “pobrismo” dos ambientalistas

Roberto Torres

Niklas Luhmann, o grande sociólogo alemão da segunda metade do século XX, trouxe no fim de sua carreira um prognóstico bastante incômodo para a consciência crítica ambiental de seus compatriotas, a pedra angular do orgulho moralizador da Alemanha enquanto vanguarda preservacionista no mundo. Luhmann, de modo sistemático em “Die Gesellschaft der Gesellschaft” e “Die Religion der Gesellschaft”, previu que, além dos limites ambientais, a sociedade moderna haveria que enfrentar no século XXI um outro problema estrutural incapaz de ser resolvido pela compreensão consolidada que esta sociedade moderna mundial tem sobre si mesma: o problema da exclusão crescente e duradoura de indivíduos que atravessa todos os sistemas da sociedade (economia, política, direito, sistema de ensino, família), exceto a religião.

Para Luhmann, esta exclusão intersistêmica cria uma “funesta integração negativa” da sociedade (mundial), por meio de uma convergência de status que funciona como uma espécie de espiral para baixo. Esta “integração negativa” é a “sombra da modernidade”, ou seja, aquilo que a auto-compreensão moderna deseja atribuir a um outro externo (ao “ ambiente” – Umwelt – como atraso pré-moderno) para não assumir como parte necessária de sua afirmação enquanto sociedade moderna. A sociedade moderna se representa como a sociedade da inclusão; a exclusão deve ser representada como algo que não e produzido por ela, como algo sobre o que a modernidade ainda não chegou. A projeção no passado se torna a operação básica da justificação ideológica. A semântica que produz a auto- compreensão da modernidade parte do pressuposto de que a modernidade funciona num ambiente de indivíduos que não provém de uma origem social que lhes atribua um status diferenciado capaz de fazer convergir uma dinâmica de exclusão de modo integrado por sistemas de funções diferenciados entre si. Assim a exclusão é sempre percebida como passageira no tempo e restrita a um ou outro sistema funcional. Sorte no jogo, azar no amor.......

O aviso de Luhmann de que o problema ambiental poderia não ser o maior impasse no futuro da sociedade moderna parece não ter nenhum eco entre os ambientalistas que desejam ensinar os povos da Amazônia a conservar a floresta recuperando a “vocação indígena” dos “povos nativos” ou adaptá-la para reafirmar as virtudes da família camponesa pobre e feliz, destinada a conciliar o passado idílico de uma vida plena pré-capitalista com os desígnios da consciência crítica ambiental. Estes arautos da modernização ambiental desejam, como disse o ex- Ministro Mangabeira Unger, que a floresta seja o jardim onde a humanidade possa se reabilitar dos dissabores da Historia. Imaginam camponeses convictos em rejeitar o consumo e a “ vida falsa” do mundo urbano,fora do mercado e da busca por produtividade e eficiência econômica. A vanguarda que busca redimir o mundo da destruição capitalista sonha com um bom selvagem civilizado pela ecologia como estilo e horizonte de vida para os 25 milhões de brasileiros da Amazônia.

Os que desejam progresso econômico, aumento da renda e os confortos de uma vida de classe media são vistos como os pequeno-burgueses que reproduzem cegamente as ambições materiais responsáveis por destruir o mundo. Enquanto isso os ativistas da classe media internacionalizada se percebem como os portadores da mensagem para salvar o mundo. Acontece que o Brasil de Lula e de sua base social deslumbrada com a possibilidade de levar uma vida de classe media seriam por demais atrasados para atender ao chamado da consciência critica ambiental. Os ativistas não entendem porque o “pobrismo” não seduz o Brasil de Lula como proposta de vida feliz para preservar a Amazônia. Não entendem a recusa de brasileiros em abrir mão dos “dissabores trazidos pela prosperidade moderna” em nome do que, para os ambientalistas, seria a grande questão do mundo. Não entendem porque esses pobres, ao invés de buscarem conservar o mundo, inclusive sua posição fora dele, querem levar uma vida parecida com a dos que se empenham para salvar o planeta.

14 comentários:

Fabrício Maciel disse...

Muito bom, parece que Luhmann percebeu que a exclusão nivelaria o sistema social mundial por baixo. A postura da classe média internacional só se apresenta como engajada e consciente por estar livre da escravidão ao reino das necessidades, e assim fica fácil dizer para os pobres: faça o que eu digo, e não o que eu faço, ou melhor, adaptando, faça mais o que eu digo do que o que eu faço, não seja tão burgues como eu.

George Gomes Coutinho disse...

cara.. que porrada... estou digerindo ainda para ver se sou capaz de fazer algum comentário decente. Mas, foi uma das apropriações mais hardcore que já li do Luhmann.

Fabrício Maciel disse...

É verdade Georg, trata-se de um grande pensador que possui vários livros aplicando sua teoria sistemica a dimensões específicas da realidade, como religião e poder, que pouco conhecemos, e Roberto nos mostra um pouco muito bem. Estou agora com Billy aprendendo um pouco mais sobre Luhmann. abraço

Roberto Torres disse...

A discussao do Luhmann sobre a exlusao e muito fascinante. Ainda to comecando a estudar o cara, e com certeza vale a pena para todos nos num momento da carreira tirar um tempo para ele.
Quando ele fala da exclusao, ele fala de um paradoxo da sociedade funcionalmente diferenciada, no sentido mesmo de uma contradicao fundamental. Provocando os marxistas, Luhmann afirma que termos como exploracao e opressao sao amenos demais para observar o ramo da exlusao.

bill disse...

Acho que a grande questão é que observamos a "questão ambiental" com a diferença sociedade/natureza, nesta, Luhmann (La ciencia de la sociedad) também nos alerta que este será um impasse fundamental na reprodução da sociedade moderna futura (ecological comunications). O fato é que os limites da vida tem pressionado os limites da própria sociedade, e as chances de crise generalizada (atingindo ricos e pobres, negros e brancos, mulheres e homens, sociólogos e médicos...) é algo que estrutura a consciência moderna. A semântica ambiental tem sensibilizado tal consciência porque ela atinge a todos, ou seja, não pode ser observada por diferenças como inclusão/exclusão. As catástrofes recentes nos eua, Santa Catarina, Chile, França o atesta. Não adianta ter dinheiro para comprar ar-condicionado, isto só esquenta mais o caldeirão. Nicholas stern, emitiu um relatório para a OCDE em que era taxativo, se não diminuir a emissão de CO2, as chances de lucro das grande empresas decairão muito, como consequência, os mais pobres sofrerão com desemprego. Ou seja, tais consequências econômicas atingirão a todos (todos são incluídos nas consequências não premeditadas do aquecimento). Não adianta também fazer a revolução comunista, e continuar poluindo da mesma forma. Pela primeira vez na história temos um risco realmente global que não oferece às classes privilegiadas chances de serem excluídas de suas consequências nefastas, como foi a revolução industrial.

é um grande debate Robertão. abraço.

George Gomes Coutinho disse...

Caríssimos companheiros,

Inegável a falta destes debates aqui no cotidiano! Nem preciso entrar muito nessa constatação.....

Mas... vamos lá em comentários agora que digeri minimamente o petardo neosistemista disparado pelo Robert:

a) De fato Luhmann, no debate exclusão/inclusão, coloca em outro patamar qualquer argumento social democrata ou liberal das possibilidades de ferramentas de inserção dentro dos limites sistêmicos. A questão é que não há, sistemicamente, essa possibilidade real de todos se incluirem e é bom que tenhamos em mente essa dinâmica dado que o funcionamento dos diferentes subsistemas não depende exclusivamente da vontade humana para o seu funcionamento.. estes se autonomizam o que nos faz pensar, de maneira tão realista quanto cruel, o binômio exclusão/inclusão.

b) Concordo igualmente que em algum momento todos os preocupados com as grand theories devam se dedicar ao universo fascinante proposto por Luhmann... É um investimento de treinamento cognitivo aprender a pensar com essas categorias (risos) por isso estou indo bem devagar... Embora ressalte que o autor invariavelmente acabe sendo interpretado, em uma primeira mirada, em seu exotismo e não naquilo que ele melhor nos oferece: uma leitura explicativa altamente eficiente da sociedade moderna. Não sei quando teremos uma apropriação à altura, em sentido generalizado, da obra do autor.

c) Robert... concordo com o Bill... Acho que você está corretíssimo em trazer a tona a hipocrisia autointeressada dos euroambientalistas e igualmente devemos denunciar o "pobrismo". Mas.... Há limites objetivos para a nossa relação homem/natureza, algo que o Mészáros igualmente ataca. Se não pensarmos os limites sistêmicos estaremos, objetivamente, lascados.

d) Grande abraço pra vcs aí rapaziada! Alguém sabe dizer se o Bill já defendeu??? E quando esse cara vai dar um curso condensado de sociologia luhmanniana para gente???

George

bill disse...

Grande George,

o Bill defende nesta quinta. Ele me disse que será um linchamento público. Como eu adoro este tipo de coisa, eu irei assistí-lo.

Grande abraço.

George Gomes Coutinho disse...

Oxalá Nossa Senhora do Bom Parto dê uma boa hora ao Bill! Até porque, pelo relato de seu alter-ego, será uma reedição do Massacre da Praça da Paz Celestial.

Roberto Torres disse...
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Roberto Torres disse...
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Roberto Torres disse...

Oi Bill, eu na verdade nao conheco ainda a discussao de Luhmann sobre a comunicacao ecológica. Somente tirei consequencias das obervacoes que ele faz nos textos sobre exclusao/inclusao. A meu ver, nestas observacoes, ele tende a "embaralhar" a tese de que a consciencia da crise ambiental, a pressao dos limites da vida sobre os limites da sociedade, seja, de modo generalizado, o grande problema estrutural da soc. moderna. Porque? Porque a diferenca sociedade/natureza usada para observar a questao ambiental so estrutura a observacao no ramo da inclusao, quando pessoas compartilham a condicao de sociedade humana. No ramo da exclusao, onde ao existem pessoas, mas sim corpos despidos de "humanidade", nao se pode usar a diferenca sociedade/natureza, uma vez que os corpos já estao "do lado de lá" da sociedade. O risco nao pressupoe a existencia de alternativa, de uma contigencia do agir? O excluido nao corre mais nenhum risco, poque ele sequer pode deixar de poluir, na medida em que ja é irrelevante para a economia. No seu caso a questao ambiental seja somente um perigo, sem alternativa. O cara que antes de tudo precisa defender a sua vida da sociedade que o exclui nao pode ser sensibilizado pela semantica ambiental que busca trazer para o foco o fato de que as ameaças da natureza decorrem do risco implicado em nossas acoes (as consequencias nao premeditadas). O mundo para o exluido, antes que se possa ter consciencia de qualquer risco ambiental, é um emaranhado de perigos, de ameacas arbitrárias.

bill disse...

Isso mesmo Roberto, está mais claro seu argumento. A semântica ambiental é típica do incluídos, sejam aqueles incluídos nas disputas políticas (partido verde), sejam aqueles incluídos na economia (empresa sustentável, selo verde...).

joice disse...
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Roberto Torres disse...

No ramo do consumo diário, e curioso obeservar como empresas agricolas da colombia especializam uma producao para um nico de mercado ambietalista da alemanha, onde o Estado banca, com muitos subsidios, uma significativa generalizacao do consumo ambientalista.