quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Jürgen Habermas

Nenhum filósofo alemão da atualidade desperta tanta atenção mundial como Jürgen Habermas. Um perfil, por ocasião do seu 80º aniversário

por Thomas Assheuer




No final da década de 1970, os livros de Jürgen Habermas eram lidos sob a carteira escolar, às escondidas dos professores do colégio. Hoje, os textos de Habermas são leitura obrigatória. Quem não conhece seus conceitos principais, deve esconder o desconhecimento, pois seu autor tornou-se um clássico ainda em vida e tão famoso, quanto pode ser um professor de Filosofia. Isto não é um bom sinal, pois para um clássico vale a regra: suas fórmulas são con­hecidas. Mas seu motivo filosófico, no qual pulsa o coração do pensamento – isto, a gente esquece.

A motivação básica do pensamento de Jürgen Habermas está às claras e, ainda assim, é difícil de ser encontrada pelos leitores. Às vezes se oculta por trás do terno cinzento da objetividade acadêmica, outras vezes desaparece sob um monte de justificações. Mas desde o início, já nos primeiros trabalhos de estudante, ela não pode passar despercebida. De forma muito simplificada, a motivação é a seguinte: quem faz uma retrospectiva da história da humanidade, descobre uma ladainha de terror, uma história chocante de violência atrás de violência. E, no entanto, há um progresso que não se pode negar, apesar de todos os reveses, uma “evolução” social e, com isto, a possibilidade de civilizar o poder e a violência ou talvez de eliminá-la inteiramente um dia. O instrumento da autocivilização é a língua humana, pois cada fala encerra um objetivo, o “télos da compreensão”. A comunicação interrompe o estado de guerra no mundo.

Quem pressupõe uma vigorosa herança idealista neste pensamento, tem razão inicialmente. Habermas, na época um estudante com pouco mais de vinte anos, confrontou-se com pensamentos grandiosos, mas extremamente especulativos, ao ler o filósofo idealista Schelling, que o fascina ainda hoje. “Deus Pai”, escreveu Schelling, retirou-se da criação, deixando o campo para o ser humano. No entanto, as criaturas beneficiadas com a liberdade têm a obrigação de fazer o uso correto da sua liberdade. Com a ajuda de sua língua, elas têm que estabelecer entre si a mesma relação de reconhecimento, que Deus teve em relação a elas, quando lhes concedeu a autonomia. Quem viola este pacto com Deus, comete novamente um “pecado original”.

Habermas, que veio do mundo de pensamento do filósofo existencial Heidegger e do antropólogo Gehlen, escreveu sua tese de doutoramento sobre Schelling e deu um rumo surpreendente à sua interpretação. Ele estabeleceu uma ligação com os primeiros escritos de Marx, cuja crítica social lhe deu a possibilidade de compreender o discurso de Schelling sobre o pecado original, de forma bem concreta, bem materialista. Um pecado original é quando as relações de poder vencem as relações da língua – quando os “libertados da criação” não escolhem a compreensão, mas sim a violência, como frequentemente na história.

Mas os filósofos não são literatos, isto é, eles têm de dar uma austeridade básica aos temas, com os quais estão “infectados”, expurgando os detritos especulativos e tornando-os compreensível ao público esclarecido, através de conceitos claros. Exatamente isto é o que Jürgen Habermas tomou como programa. Com o frio instrumento da ciência, ele quis provar que a língua não é apenas uma arma na guerra civil babilônica da sociedade, uma máscara do poder. Sua antifórmula é a seguinte: que observa bastante o tecido da língua contra a luz, quem examina o bastante as suas leis, ele reconhecerá que nela está incluída uma normatividade, uma aspiração à verdade, que podemos transgredir, mas não podemos eliminar basicamente. Com palavras, pode-se mentir e exercer o poder, mas não pode existir uma língua que esteja intei­ramente baseada em mentira e engodo. “Mesmo nas comunicações patologicamente deturpadas está fin­cado o ferrão da aspiração pela verdade”.

Não é preciso pensar muito para ver que poder explosivo uma filosofia da comunicação, derivada de Schelling, enriquecida com Marx e temperada com os recursos da linguística, desenvolveu entre os intelectuais famintos de teoria dos anos sessenta. Eles interpretaram Habermas exatamente como ele pensava: como conclamação a uma democracia radical e à crítica radical. A democracia está danificada, onde a “opinião pública” é dominada por monopólios de opinião, manipulada por lobistas e malversada por políticos. E defeituosas são as democracias que se entregam cegamente ao curso do progresso, sem livre arbítrio, que têm “ciência e técnica como ideologia” (segundo um estudo do ano de 1968).

Na época, falou-se muito de “liberdade do poder”. Em seus escritos, Habermas quis reconhecer até mesmo um “interesse objetivo” de emancipação. Hoje, ao contrário, chama a atenção um outro caráter desses livros, um conservadorismo cultural, dito com cuidado, uma profunda ambiva­lência. De um lado, Habermas admira as sociedades modernas, pois elas – fato histórico singular – impuseram processos democráticos e ampliaram a “área de ação” discursiva da razão comunicativa. Mas, por outro lado, as sociedades modernas têm de ser temidas, pois seus sistemas funcionais desenvolvem um excesso de poder. As pressões capitalistas do mercado chocam com a autodeterminação democrática.

Os fios desses pensamentos juntam-se num nó monumental, nos dois tomos da “Teoria da Ação Comunicativa” (1981). Esta obra central foi celebrada, com razão, como despedida do pensamento pessimista da “velha” Escola de Frankfurt, mas nela encontra-se a mesma contradição. O dinamismo sufocante do capitalismo e também a técnica e a ciência empurram a sociedade para frente. Mas, ao mesmo tempo, parte destes “sistemas” complexos uma ameaça invisível. Eles assediam o “mundo da vida” – necessitado de zelo – dos cidadãos. Seus cálculos de proveito infiltram as velhas “tradições inconscientes-cientes” e fixam-se na esfera pré- polí­tica, na vida privada e na família. Em re­sumo: a vida moderna encerra uma contradição. Seus sistemas aliviam da miséria material, mas ao mesmo tempo, quase não podem ser conciliados com o dia-a-dia ou invadem como “senhores coloniais” os “poros” de formas consagradas de vida, infiltrando-as através da comercialização, da burocratização e do cientificismo.

Transposto às relações de hoje, isto significa: uma forma de “colonização” econômica está inerente à reivindicação de que a sociedade tem de ser organizada como um centro de lucro, do berço ao túmulo. O mesmo é válido para a brutal transformação das universidades, visando “eficiência”. E se as ciências biológicas lograrem manipular geneticamente os “antigos sujeitos” e fizer com que perfilem como bonequinhos de Lego no parque humano, então isto seria uma vitória da lógica cien­tífica sobre o mundo da vida.

Sua obra contém uma promessa luminosa de liberdade

Talvez seja esta visão rota da atualidade, turvada pelo ceticismo, o que esclarece a carreira acadêmica e o alcance mundial de Jürgen Habermas. Sem reservas, ele adere ao espírito do modernismo, sua obra contém uma promessa luminosa de liberdade e defende o Estado de direito e a demo­cracia com eloquência patética. Ao mesmo tempo, nutre-se de uma motivação romântica, composta pela reconciliação e a compreensão. Assim, a obra permanece sensível às coações de uma salvação mundial voltada para o mercado, a uma racionalidade sem fortúnio, ao desalento da liberdade vazia e do progresso insensato.

A fórmula salvadora de Habermas nos anos oitenta era: “reconciliação com o modernismo em autodestruição”, pelo que o capitalismo e a democracia, a ciência e a arte deveriam ser reequilibrados, como um móbile. Para a esquerda radical, o projeto era muito carola, os conservadores perseguiam o convicto intelectual de esquerda com franco ódio e denunciavam Habermas como mentor intelectual do terrorismo. Estas foram as batalhas do passado. Quem lê hoje, com que arrojo argumentativo um conservador como Ernst-Wolfgang Böckenförde ajusta as contas com neoliberalismo, com a hegemonia do mercado sobre a democracia legal, não sabe mais exatamente sobre o que se polemizou durante anos, de maneira passional e ofensiva. É como se Habermas tivesse unido a república através da discussão que ele gerou, sendo que tanto seus próprios argumentos, como os dos seus adversários, transformaram-se com o tempo. Ele marcou época na consciência coletiva, nenhum outro marcou a fisionomia intelectual da Alemanha Federal como ele. E ela lhe deve de maneira decisiva a sua recriação moral.

Jürgen Habermas: Biografia

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf em 18 de junho de 1929, estudou Filosofia, Psicologia, Germanística e Eco­nomia em Göttingen, Zurique e Bonn. Em 1956, Habermas tornou-se assistente de pesquisa no Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt do Meno. Após sua habilitação como professor universitário, feita com Wolfgang Abendroth em Marburg, ele foi levado para Heidelberg por Hans-Georg Gadamer. Em 1964, Habermas tornou-se professor de Filosofia e de Sociologia em Frankfurt do Meno. Logo, os estudantes de esquerda passaram a celebrar o astro acadê­mico como seu mentor intelectual. Entre 1971 e 1980, ele foi diretor do Instituto Max Planck de Pesquisa das Condições de Vida no Mundo Científico-Técnico, em Starnberg. Em 1980, seu discurso ao receber o Prêmio Theodor W. Adorno, sobre “O Projeto Inacabado do Modernismo”, Habermas provocou um debate sobre o pós-modernismo e o pós-estruturalismo, que durou muito tempo. Sua intervenção contra o revisionismo histórico do historiador Ernst Nolte, em 1985, deflagrou a polêmica dos historiadores, uma controvérsia sobre a forma de tratar o passado alemão.

4 comentários:

bill disse...

Comecei a ler Habermas por conta de um comentário desprestigioso de um professor. Segundo ele, Habermas contribuiu para a reformulação do marxismo ocidental, e a parte que lhe coube foi exatamente a de sepultar a classe trabalhadora, não a considerando mais como a "dentetora histórica dos destinos da humanidade". Habermas, continua nosso professor, depositou em um elemento simbólico tal esperança, "na construção de esferas ideais de fala", em que, abstraídos de nosso interesses retóricos, de poder, econômicos, pudessemos alcançar a "plenitude celestial" nas palavras de rawls. Segundo nosso professor, um tanto com raiva, a luta é pela emancipação da ação comunicativa das amarras sistêmicas. Após tal aula, nunca mais deixei de lê-lo (Habermas, não o professor).

Roberto Torres disse...

A classe trabalhadora nao pode deter o destino da humanidade justamente porque o destino nao pertence a nenhum ator especifico, para Habermas (com que concordo absolutamente), mas ao processo de construcao de consensos, que podem ser mais ou menos emancipatorios de acordo com o grau de liberdade da fala que atua neste processo. Tomado internamente acho que ninguem pode refutar esta ideia, o problema surge quando se considera a contingencia das experiencias sociais que formam um comunicacao baseada no melhor argumento e, acima de tudo, a contigencia da instancia que diz o que e um melhor argumento. De todo modo, acho que todas estas criticas sao de algum modo fruto de Habermas e bebem e avancao a partir de sua fascinante formulacao.

Para a esquerda, acredito tambem, que apesar e sobrevivendo a todas as criticas (mesmo a de que ele subjuga o conflito nao enquadrado na etica discursiva), Habermas mostra que a tanto na tatica como na estrategia o caminho e radicalizar o Estado de direito e a democracia.

No Brasil de hoje, onde a democratizacao encontra os conglomerados comerciais da midia como maior inimigo, Habermas tem muito a dizer.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Acho muito interessante a leitura que Perry Anderson faz de Habermas, e com a qual compartilho no fundamental.

O britânico, partindo de um ponto de vista mais ortodoxo no marxismo polemiza com Habermas basicamente no que se refere à substituição do trabalho pela comunicação como fundamento daquilo que podemos definir como o ser social produzido pelos seres humanos.

Será esta substituição fundamental a origem de todas as demais diferenças de Habermas com a perspectiva mais estrita do marxismo. No entanto, Perry Anderson faz questão de destacar que enquanto a linguagem, em Habermas, é fundamento da razão e de uma espécie de sóbrio iluminismo alemão progressista, na França, com os novos filósofos, a linguagem é a base para o irracionalismo e para uma concepção de mundo niilista que transita da esquerda para a direita do espectro político ao sabor das conjunturas.

Como faço questão de conversar com alguns alunos que perseguem o aprofundamento da compreensão das ciências sociais, o pensamento de Habermas é a forma mais progressista de fazer crítica ao marxismo, ainda que não compartilhe com o seu ponto de vista.

Roberto Torres disse...

Maycon, eu tambem compartilho em certa medida desta visao do Anderson. Em teoria da acao comunicativa e quase impossivel concluir outra coisa senao que Habermas concebe o trabalhao como acao instrumental, em si destituida de uma normatividade que vincule os homens. Mas devemos ser generosos, para o nosso proprio bem, de modo que assim podemos perceber que uma teoria da evolucao normativa centrada na linguagem nao precisa excluir o trabalho como atividade dotada de normatividade imanente, pois o trabalho social se desenvolve no contexto de regras mediada pela linguagem. Axel Honneth, que muitos acusam injustamente de idealista, tem um conceito de cooperacao reflexiva, com o qual ele busca justamente resgatar o vinculo entre comunicacao racional e engajamento pratico no mundo para a reproducao da vida.