quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A ciência social como vocação

Fabrício Maciel
Em meio a contingência e correria da rotina, acabo de reler a "ciência como vocação" de Weber. Não tive como não pensar nos últimos episódios envonvendo os estudantes de ciencias sociais na Uenf e o Enade. Este é um daqueles textos que marcam a gente pra sempre. Cada vez que releio sinto mais vontade de continuar na dura senda de acreditar em algo em nossa profissão. Em meio a conhecida tese da tragédia weberiana, ele consegue apresentar, ironicamente, um fecho de luz para quem deseja ser cientista. Seu ambiente em grande parte era semelhante ao nosso, recheado de medíocres e profetas acadêmicos que ganhavam muito mais destaque do que quem queria fazer ciência de verdade.
Num mundo desencantado, Weber tinha consciência, e por isso aconselha seus alunos nesta palestra, de que a ciência, e especialmente a social, não poderia fornecer o afago que a religião e o pensamento mágico pudera. No entanto, o conselho é positivo. Ele acreditava no que fazia. Acreditava que, dentro da realidade já presente na Alemanha, a da especialização dos pesquisadores, aqueles que tivessem consciência dos limites da ciência poderiam exercer seu intelectualismo e racionalidade, e desta forma fornecer ao mundo um conhecimento especial que pudesse, de forma simples, não afagar todas as suas dores, mas sim contribuir em pequena parte para sua mudança. Quem fizer o contrário disso não é cientista, mas um falso profeta, prometendo aos ouvintes o que não pode dar.
A fórmula de Weber era simples: intuição, idéias, e muito trabalho árduo, concentrado, coinciente de que qualquer obra científica existe como atual apenas em seu tempo, deve ser superada, mas sempre terá valor se lida contextualizada e se for frutírera para trabalhos posteriores. E apenas assim. Até hoje não vi ninguém provar o contrário. Por fim, nosso mestre tinha consciência da tensão entre os fatores subjetivos e aqueles que ele chamava de externos, ou seja, tinha noção de que o mundo não é como a gente quer, de que as forças objetivas, econômicas e de poder, no que certamente concordava com o velho Marx, sempre cercearão nossa vontade, mas nunca poderá assassiná-la, se não formos infantis e quisermos acreditar em algo, porém conscientes dos limites do campo objetivo no qual estamos. Esta foi a lição de Weber para seus alunos. HOje, cem anos depois, me sinto privilegiado de poder apenas ler a lição. Acho que as gerações atuais de alunos de ciências sociais precisam mais do que nunca reler o velho Weber. Sem deixar de crer em um mundo melhor, mas tendo mais conhecimento sobre o mundo que pretendem mudar.

16 comentários:

Claudio Kezen disse...

Roberto Torres;

Vc fez uma colocação no blog do Roberto Moraes segundo à qual minha crítica ao governo Lula é puramente estética. Talvez, esta entrevista da professora e pesquisadora do CNPQ Virgínia Fontes, especialista em estudos sobre os movimentos sociais de base e atuante junto ao MST, feita pela equipe da revista Caros Amigos, explique minha visão do Lula e o FH como parte do mesmo processo político.

Renato Pompeu – E qual a ligação com o Senado?
Isso é para chegar ao Senado, né. O segundo movimento é o Lula, esse movimento é mais importante ainda. Se o FHC já cumpre esse papel de levar para o conjunto das instituições de representação política no Brasil uma espécie de aparência limpa, apesar do braço dado com o PFL, a eleição do Lula tem papel muito mais importante para estabilizar o chamado jogo burguês no Brasil, uma vez que ela consolida essa trajetória que já vinha sendo feita antes, mas agora com mais cacife, pois agora traz a CUT,traz uma parcela grande do PT, liquida politicamente o elo que este partido tinha com os movimentos de base, não só liquida o elo como converte essa ligação numa ligação adequada para o jogo político. Lógico que em todos os casos isso significa que há um adiamento das condições da crise institucional e há um mergulho desses partidos limpos, entre aspas, dessas pessoas limpas no mundo da representação razoavelmente falseada. Acho que isso é um problema grave. Eu discuti isso num artigo dizendo que o PT se deslocou do papel ético-político – que o Gramsci sugere – para o papel de definidor do que seria o papel moral, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. O resultado disso é que ele perdeu o horizonte ético, que era o horizonte principal e que devia estar ligado com os movimentos de base. Portanto eu acho que o problema do Senado é um problema estrutural nosso, primeiro nós temos uma estrutura representativa problemática, nós temos um sistema bicameral que é outro problema.

Para ler a entrevista no site:

http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=132&iditens=308

Roberto Torres disse...

Vou ler a entrevista Claudio e depois te respondo.
Um abraco,

Paulo Sérgio Ribeiro disse...

Belo texto, Fabrício. Traduz à perfeição o significado dessa obra.

Xacal disse...

o debate está la na TROLha e no sociedade...preciso de "reforço acadêmico"...rsrsrs...

vamos a "caça" desses "infiéis"...rsrsrsr...

Xacal disse...

PS: desculpe Fabrício, pela deselegância de ignorar o tema aqui tratado...

mas creio que por sua natureza, são "correlatos"...

belo texto...um abraço

Fabrício Maciel disse...

Beleza meus caros, é só uma tentativa tardia de contribuir um pouco teoricamente com o último grande debate ocorrido aqui, a visão de Weber sobre compreender os limites da ciência inclui compreender os limites de seu campo, e inclui entender que a ciência não está aqui para dizer qual a melhor direção a se seguir no mundo, como faz a religião, e como parece ser apropriada a ciência por posturas estudantis que refletem pouco sobre a realidade das instituições. a ciência está aqui, para Weber, para explicar as direções tomadas no mundo.

Xacal disse...

sem retoques...

Décio Vieira disse...

O texto é realmente fascinante.Não li ainda "a ciência como vocação" mas com certeza agora mas do que nunca devo fazê-lo.Realmente esse texto tem que ser colado nas paredes do CCH e de muitas outra universidades também por aí a fora que pregam a "religião marxista".A ciência é o melhor caminho para chegarmos a um sociedade mais racional,só que os que mais deveriam se mostrar racionais que são os cientistas que estudam para isso,pegam textos simples e querem transformá-los em uma bíblia(referência ao manifesto comunista).
O grande problema da questão é que esses "engenheiros sociais" que criam suas teorias de forma inadequada querendo se apropriar do conhecimento para se fazer um deus.Acho que esse é o maior problema que a ciência encontra hoje,um uso descuidado da ciência,um abuso "intelectual" da sabedoria para fazer aglomerações sociais a seu favor.
Esse tema é bastante importante.É uma questão tão óbvia(que acontece principalmente nas ciências sociais)que eu como aluno do segundo período já consigo notar uma alienção por parte de pessoas que já estão em períodos avançados(e não me refiro somente a graduandos da UENF).
Obs:se puder falar mais da obra com tópicos mais detalhados(para um calouro,hauahau)eu agradeceria e acredito que outros também.

Tahiana disse...

Concordo, mas vai ver que a gente lê o texto do Weber muito cedo e não absorve bem, depois os alunos tem tanto para ler que esquecem de relerem textos importantes. Esse texto do Weber e o "campo cientifico" do Bourdieu foram os que mais me ensinaram sobre o ethos academico :)

gostei do texto, bjs

Paulo Sérgio Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Sérgio Ribeiro disse...

Caros Décio e Tahiana, partilho da preocupação de fundo de suas falas: a não submissão de nossa curiosidade intelectual a preconceitos desta ou daquela "escola de pensamento". Sobre Marx e Weber, vale a pena lembrar que o último não desconsiderou a possibilidade das categorias marxistas serem empregadas para conhecer cientificamente a realidade se, e somente se, o respectivo método fosse considerado uma alternativa entre outras para tal fim, pois jamais cedeu à tentação de postular uma pretensão ao absoluto no trabalho científico. Para Weber, o objeto de pesquisa não pode ser construído segundo um juízo apriorístico sobre uma idéia de “totalidade” que lhe seja intrínseca. Em suma, nossa percepção cientificamente orientada da realidade é sempre parcial. Sobre Marx, também não podemos nos esquecer que ele, ao fim de sua vida, legou a seguinte frase (esquecida propositalmente por alguns): "Je ne suis pas marxiste". O "velho barbudo" já desconfiava da vulgata marxista que se constituíra em torno de seus escritos ainda no século XIX! O mais importante, creio, é reconhecermos as categorias e métodos como ferramentas voltadas para fins sociais que se alteram, entre outros motivos, pelo próprio trabalho de reconstrução de uma determinada tradição sociológica da qual todos nós partimos necessariamente. Bourdieu e Habermas, só para citar dois exemplos, fizeram cada um ao seu modo esse movimento em sua leitura dos clássicos.

Abraços.

Fabrício Maciel disse...

Concordo Decio e Tahiana, e agradeço a Paulo pela excelente resposta. O campo científico também me marcou bastante. Acrescento o Ideologia alemã do velho barbudo, pois ainda que nao trate especificamente de episteme ou campos científico, é um acerto de contas fulminante com sua tradição nacional, semelhante ao ciencia como vocação neste aspecto, guardadas as proporções contextuais.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Fabrício, entendo que esta visão weberiana já é hegemônica na Academia. Com todo respeito, me parece a expressão de uma rebeldia a favor do status quo acadêmico estabelecido no país.

Esta perspectiva segundo à qual a ciência, e de um modo mais amplo, a razão, não pode/deve dar respostas ao "mundo da vida", cabendo a ela apenas abordar de modo fragmentário os infinitos fragmentos da realidade é equivocada e nociva sob vários ângulos.

Em primeiro lugar a realidade não é, como pretendem os empiristas das mais diversas matrizes e graus, um amontoado caótico de fatos desconexos entre si. Os fatos são apenas aspectos de uma realidade que é em si mesma uma totalidade concreta, ou seja, um todo articulado de uma determinada forma, que cabe à ciência e à razão conhecer.

Renunciar a compreender a estrutura da totalidade concreta que é o real é ficar na limitação de compreender apenas o aspecto fenomênico da realidade ou, nas palavras de Karel Kosik, ficar no plano da pseudo-concreticidade.

No que se refere mais diretamente à relação entre ciência social e política, a perspectiva weberiana que, baseada em seu individualismo metodológico, aponta para a impossibilidade da razão/ciência fornecer respostas válidas para a ação política é uma expressão perfeita da razão racionalista ou da razão do individualismo burguês que estabelece como ponto de partida para a atividade racional, justamente, o indivíduo abstratamente considerado, atirando para longe qualquer possibilidade de a razão compreender este indivíduo e estabelecer os parâmetros válidos para sua ação no mundo, ficando este plano aberto para a intervenção dos elementos imponderáves e irracionais da vontade ou coisa que o valha.

Por último, é preciso ficar claro que é justamente o impedir a razão de balizar a conduta humana que abre espaço aí para todo irracionalismo anti-social que conhecemos, do nazi-fascismo aos fundamentalismos religiosos.

Fraterno abraço e sigamos o debate!

Roberto Torres disse...

Caro Maycon,

o que define se um autor e conservador ou critico e sempre a apropriacao que se faz dele. Autores como Bourdieu incorporaram Weber, Durkheiem e Weber e souberam combinar rigor e vocacao cientifica com engajamento politico.
Bourdieu viu que Weber propos um arcabouco muito melhor do que Marx para analsiar, com acuidade empirica, a estratificacao social moderna, o que de modo algum e anti marxista. Florestan Fernandes fez a mesma coisa: embora fazendo uso do conceito de capitalismo como totalidade, na hora de interpretar a estrutura de classes na periferia ele usou Weber.

Eu sinceramente acho que boa parte do pensamento social, assim como da esquerda no Brasil, ainda precisa se libertar da vulgata marxista... em nome de um aprofundamento do pensamento marxista.

Eu concordo com voce que o muro entre e ciencia e politia erguido por Weber (para defender a razao no campo da ciencia contra o irracionalismo na politica nazista da epoca, e bom sempre lembrar)nao e bom nem para a ciencia e nem para a politica. Mas e preciso que a ciencia seja autonoma o bastante para objetivar tambem a esquerda, e apontar suas contradicoes e iniquidades analiticas, como e o caso da quase totalidade do que se identifica como esquerda radical no Brasil (que justamente por sua paralisia analitica nao tem nada de radical)

Um abraco

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Caro Roberto,

Fica em aberto o que você entende como sendo marxismo e como sendo vulgata marxista. De qualquer forma isto pode dar lugar a outro debate. De qualquer forma farei alguns apontamentos sobre teu comentário.

1)Discordo de ti quando afirmas que o caráter político de um autor está dado apenas em função de sua recepção. Os pensamentos de um autor são progressistas ou reacionários em função do ponto de vista consciente ou inconsciente que expressam no que se refere ao contexto sócio-histórico em que são produzidos, assim como pelas tendências políticas e ideológicas que fortalecem socialmente.

2) Muitos intelectuais não-marxistas, e que inclusive desenvolveram intensa polêmica contra o marxismo, mantiveram sempre uma postura política progressista (como Sartre, Habbermas, Merleau-Ponty, Bourdieu, etc), mas este não é o caso de Weber (nem de Durkheim). Weber, que foi classificado por sua esposa como o "Marx da burguesia", construiu sua obra em grande medida como um enfrentamento contra as principais teses de Marx e seu debate na "ciência como vocação" é contra a intelectualidade social-democrata e não contra os nazistas. É bom lembrar que o sociólogo alemão, como deputado no parlamento, votou a favor da legislação que atirou o Partido Social-Democrata de Marx e Engels na ilegalidade.

Roberto Torres disse...

Maycon, a questao e simples. A ciencia tem autonomia relativa em relacao a politica e dentro da ciencia Weber e indispensavel, assim como Durkheim. Nenhum dos dois precisa ser visto como refutacao de Marx. Por causa desta autonomia relativa e possivel interpretar a realidade de modo mais critico com Weber do que com Marx, isto depende de como e para que fim se usa o autor.

A teoria da estratificacao de Marx e tosca, embora ensaisticamente (como em 18 Brumario) ela seja elegante, mas esta elegancia nao resulta em conceitos que supere a dicotomia simples capital x trabalho. O melhor sociologo marxista brasileiro, Florestan Fernandes, usou o modelo de Weber para interpretar a sociedade de classes na periferia.