quinta-feira, 10 de setembro de 2009

É preciso des-privatizar a Universidade Pública

Roberto Torres

Os ganhos de um debate não são apenas as conclusões, mas também as questões em aberto que surgem no decorrer. A acalorada discussão sobre o boicote ao Enade deixou em aberto a questão da possível privatização das Universidades Públicas que viria legitimada pelo Enade. Para além de se o Governo Lula pretende ou não colaborar com esta suposta marcha para a privatização – tese, a meu ver, completamente absurda – cabe discutir em que medida as Universidades Públicas são públicas.
Antes de mais nada, quero ressaltar que devo minha vida à “Universidade Pública realmente existente” , de modo que pude desfrutar, como ainda desfruto, da medida real de acesso republicano à Universidade que existe em nosso país. No entanto, todos sabemos que o acesso à Universidade Pública no Brasil é um privilégio da classe média estatutária, estabelecida . Sempre foi assim entre nós, e não só com a Universidade Pública: com o ensino de qualidade em geral, com a saúde. Ser de classe média no Brasil (tomo essa definição de Brand) é desfrutar de uma privatização bem sucedida das principais esferas da vida (educação, saúde, justiça, política, lazer etc. ). Se o problema do Estado brasileiro é o que muitos chamam de “confusão entre o público e o privado”, este problema existe porque beneficia a classe média.
Muitos amigos meus poderiam dizer: “mas, poxa, apesar de eu ser de classe média, defendo a Universidade pública para todos, quero que ela se expanda, e que outros desfrutem o que eu desfruto”. Mas mão se trata de boas ou más intenções individuais. A “Universidade Pública para todos” defendida pela classe média ainda é muito programada para atender as demandas e os estilos de vida dos filhos da própria classe média estabelecida. As afinidades que tornam a Universidade Pública um bem privado da classe média são muitas. Tomo como exemplo apenas a seguinte: a Universidade Pública é o ambiente ideal para quem pode prorrogar a entrada no mercado de trabalho, para quem pode por um tempo “esquecer” a luta individual pela sobrevivência no mercado de trabalho. Os cursos de bacharelado da Uenf, com suas grades de tempo integral, mostram exatamente isto. Claro que existe espaço para o “outro lado”, nos cursos à noite, mas isto é exceção e não regra.
As Universidades Públicas são tanto menos públicas na medida em que, não só o acesso, mas sobretudo o estilo de vida implicitamente exigido dos estudantes favorece a classe média estabelecida. A “Universidade Pública para todos” é o tipo de formulação que serve apenas para “salvar a alma” dos incluídos, mas nunca para incluir os excluídos, a menos que a expansão do modelo atual de Universidade Pública altere a exigência implícita de um estilo de vida pautado no “afastamento da urgência econômica”, que é privilégio de poucos. Sempre me pareceu muito suspeito o “radicalismo” (que de radicalismo não tem nada) em defesa da Universidade Pública por parte dos incluídos de boa consciência. Hoje posso dizer que esta suspeição tem a ver com o fato de que esta defesa universalista nunca esteve pautada numa disposição de reconhecer que o interesse dos excluídos pela Universidade tende a ser pautado muito mais pela urgência econômica do que o “interesse altruísta” dos incluídos, que podem adiar a luta pelo salário. Para a classe média estatuária a Universidade Pública é o melhor lugar para garantir os interesses econômicos de longo prazo escamoteando uma relação de segurança econômica que sem tem a curdo prazo.
O preconceito com o Pró-Uni e com a Universidade Privada parece também mais um esforço de “monopolizar simbolicamente” o que é ser um “autentico universitário”, privatizando recursos para estilizar a vida a partir da rede de privilégios institucionais que empurram os filhos da classe média para a Universidade Pública. É daí que vem a denuncia de que o Pró Uni vai privatizar a Universidade. Só nao percebe a transformacao radical que o Pró Uni realiza na vida de milhoes de brasileiros que vem de baixo aqueles que sempre esteveram incluídos de modo privilegiado na rede privada que dá acesso à Universidade Pública. Desprezam o efeito de mobilidade que hoje desfrutam milhos de brasileiros simplesmente porque este nao agrada a "estética revolucionária" que serve para mascarar a rede fechada das chances de mobilidade social que define a classe média estabelecida. Mais publicidade na Universidade é torna-la compatível com o estilo de vida de quem vem de baixo.

29 comentários:

Brand Arenari disse...

Nao vou perder tempo com elogio ao texto, ao elogiar um texto do Roberto corre-se o risco de ser tautológico.
Eu fui convencido por meu amigo Vitor de que a universidade pública deve ser paga. Não todos, mas o que podem, devem pagar. Aqueles que pagaram caro escolas particulares durante a vida e depois cursinhos pré-vestibulares muito caros, devem continuar a pagar a universidade. Repito, a taxa de pagamento deve ser calculada de acordo com a renda da família. Com esta taxa poderemos financiar os estudos dos mais pobres.
A classe média brasileira chora contra o bolsa família, mas este programa não é nada comparado aos auxílios que o governo alemão oferece a sua gente. Aqui tem também o bolsa universidade para os pobres. O governo paga um generoso auxílio aqueles quem a família não pode custear os estudos. Isso significa dinheiro para pagar o aluguel de um quarto numa república, alimentação e uma cervejinha pq ninguém é de ferro, e pobre também tem direito a diversão! O estudante beneficiado deverá pagar o auxílio no futuro, caso ele consiga ser integrado ao mercado.
Fora o problema de ter que entrar logo no mercado de trabalho, como que um pobre no Brasil pode chegar à universidade se a cidade dele não tem universidade? Quem pagará para ele morar fora?
Por enquanto é isso.

Brand Arenari disse...

Queria lembrar àqueles que são contra as privadas e ao pró-uni que, são as particulares que promovem a maior ascensão de classe no Brasil. O Vitor trabalhou estes dados e poderá dar maiores explicações a quem quiser.

Fabrício Maciel disse...

Acho que devemos ver quem apoiou o boicote. Se houver muitos de origem pobre, digo a estes que pensem bem neste tipo de coisa, pois como Roberto ressalta bem, os filhos da classe média possuem uma rede implícita de privilégios e solidariedade que os permitem brincar de revolucionários. Quanto aos pobres, é bom que pensem em suas carreiras e como poderão ajudar suas famílias e sua cidade cooperando para elevar os índices da universidade.

bill disse...

O título é auto-explicativo robertão.
Para mim é vexatório os estacionamentos (gratuitos) lotados na UFRGS, carros importados com adesivos "cota é racismo", "não à privatização da universidade pública". É vexatório as garotinhas e garotinhos da "levi´s, "georggio armani", comendo no RU a 1.30 R$.

abraço.

Paulo Sérgio Ribeiro disse...

Pois é, Bill. A discussão sobre a universidade pública ser paga e sobre a política de cotas ainda vai quebrar muitos cristais.

Djamilla Olivério disse...

Este debate é muito oportuno para pensarmos o caminho da educação pública e privada do ensino Fundamental até o Superior. Devemos refletir sobre quão desigual é este sistema. A maioria dos alunos da Rede Pública não tem condições de pagar um colégio particular que lhes de condições de ingressar no futuro em uma Universidade Pública.
Está aí um dos pontos que já aponta Foucault ao mostrar como as Instituições funcionam para estigmatizar (ou punir nos termos dele) determinada classe: o Estado, no fim das contas, não oferece um ensino que privilegia àqueles que precisam dele para ser digno (porque quem é digno no Brasil, não precisa do Estado para ter reconhecimento e acesso à Economia a não ser quando chega a a hora do Curso Superior ).
Quando então os alunos da escola pública terminado o Segundo Grau o que eles precisam fazer para continuar no sistema de ensino que possa introjetá-los no sistema econômico é: 1) PAGAR cursinhos pré-universitários até passar. 2) PAGAR algum curso técnico. 3) PAGAR uma Universidade Privada. Essa inversão é uma marca da distinção que ocorre via educação Quem é que tem o gosto pela arte erudita? Quem é pode ser conhecedor das artes de outros séculos podendo esquecer-se do hoje para isso? Não se deve esquecer que para se estabelecer em qualquer campo, precisa-se dominar a linguagem compatível a ele. E ter o domínio disso é a luta diária de quem, como muitos que conheço, quer ser qualificado no Mercado e saltar de classe social. Neste caso, exemplos práticos e palavras devem convergir para que haja transformacao. Isto, em todas as dimensoes da vida.

Djamilla Olivério disse...

Para além do debate sobre cotas, sobre isso, ou aquilo, deve-se discutir que tipo de educação queremos, que tipo de País queremos com tal educação Um projeto de país não pode, como mostrou Durkheim em “A Educação Moral” se esquivar da sua responsabilidade enquanto formadora de homens com dignidade.
O Estado deve contribuir com Universidades Privadas e os alunos das Universidades Públicas, devem não só prestar contas do ensino que recebem, mas pagar taxas compatíveis com a sua situação econômica a fim de fazer com que de uma forma segura, os que não têm uma situação financeira que os permita ser “filho do papai” até os 30, possam ter as mesmas chances na esfera Econômica.
Em tempo, cabe comparar Coimbra com o modo como muitos veem ainda hoje o Ensino Público Universitário: Do outro lado de um mar que só quem tem acesso ao barco pode acessar .

Xacal disse...

Há uma premissa básica, um princípio no direito público, especificamente, no direito tributário, que se encaixa bem nesse nosso acalorado debate:

cada um de acordo com sua capacidade, ou seja, paga mais, quem pode mais...e quanto mais ampliamos a base de arrecadação, menores os ônus para todos...

assim, O Estado pode definir quem é o alvo das suas "licenças" ou "renúncias" fiscais...

creio que chegamos a um estado da arte nesse debate: a quem serve a Universidade Pública no Brasil...??? Ao público, e QUE público...???

a grosso modo, essas perguntas podem se estender as demais esferas públicas de atendimento e serviços a população, bem como a intervenção pública nos bens e serviços...

um abraço a todos...

Thiago M. Venancio disse...

Apesar de um tanto fora do contexto aqui, nao podemos deixar de mencionar a questao do ensino basico e medio.

As tentativas de re-equilibrar o cenario no ensino superior (ex. pela implementacao de cotas) acontecem pelo simples fato do ensino medio publico ser muito inferior do privado. Isso ja esta tao sedimentado na sociedade que as medidas de correcao das distorcoes assumem o centro do debate, enquanto a raiz do problema eh sempre deixada em segundo plano ou entao atacada apenas de maneira discreta.

Independente disso, concordo que a universidade publica deva ser paga por quem pode pagar e que os alunos devam ter mais consciencia do seu papel antes de tomar atitudes como o boicote.

Adelia disse...
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Adelia disse...

A universidade "pública" já está privatizada, gente ... vejam a quantidade de pós-graduações que custam fortunas ... cursos de extensão etc.

Qts. professores e funcionários q ganham por estes serviços privatizados e abandonam a graduação, os PIBICs etc.?
Tantos!

A "res" pública, o "bem comum" ... tudo "balela" p muitos q me lêem, não?

Jamais serão para mim ainda que ciente dos maus usos q elites dirigentes fizeram e fazem destes ...

Mas ... a universidade já privatizada resolveu o quê mesmo??

Claro q sou a favor do Pro-Uni. São as "privadas" q fazem a inclusão.

(conferir, dissertação de Shirlena Amaral acerca das cotas raciais, por sinal - PPGPS/2007).

Acerca da inclusão, porém, há de se saber de qual se fala. Seus egressos incluem-se no mercado de trabalho formal? Com quais salários? Em quais postos? Fala-se da inclusão subalterna?

Aposto - como socióloga - bem mais no sistema federal de cursos de formação de tecnólogos.

Roberto argumenta com muita felicidade num ponto: a rotina de vida do universitário é distinta da do trabalhador. Daí que o cinismo está na idéia de que td. a população há de ser universitária. Ainda assim, a justiça está em se proibir de antemão qq. pessoa de sê-lo.

As lutas por justiça social dão-se, no Brasil ainda, na esfera produtiva (qual dúvida??). Não no acesso ao ensino superior!

Mais 1 vez: não se torna uma sociedade + justa por privatizar a universidade pública. Faz-se isso com outros objetivos q concernem à gestão dos "gastos públicos" ...

Morrerei (ou viverei?) defendendo a universidade pública, gratuita, de qualidade na qual produzo e divulgo conhecimento. E lutando em outros fóruns sociais pela justiça distributiva ( do pt. de vista tb. da justiça como equidade) a fim de que um maior e mais diverso número de pessoas possa almejar a "res" pública (no caso, a universidade).

Apenas a boa imaginação republicana ainda deseja ver cidadãos (e cidadãs) exercendo o ofício de reformador@s culturais (remunerando-os, para isso).

Sobre os péssimos servidores públicos - q/ existem - não justificam o fim da universidade pública.

Não enxergo metas coletivas na proposta de privatizaçao de bens básicos de uma nação.

Contudo, controles democráticos sobre os bens e serviços PÚBLICOS já! P/ ontem!!

Vitor Peixoto disse...
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Vitor Peixoto disse...
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Vitor Peixoto disse...
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Vitor Peixoto disse...

Caríssima(o)s,

Apenas para deixar uma questão clara no debate, quando defendo que paguem aqueles que podem pelo curso universitário, não estou me referindo ao protótipo que muitos fazem da privatização do Ensino Superior.
O que denfendo, e foi o argumento apresentado pelo Brand, é algo muito comum nos países comunistas (i.e. Sistema cubano de Medicina), ou seja, não significa transferir para a iniciativa privada pura e simplesmente, mas instituir formas de ressarcimento dos custos que o Estado teve com os indivíduos como, por exemplo, alunos formados em Universidades Públicas serem obrigados a lecionar ou prestar outros tipos de serviços À comunidade que o bancou. Mais claramente, não defendo que haja cobrança de faturas mensais aos alunos com poder econômico, mas que haja mecanismos institucionais para o retorno ao Estado que não seja somente pela via do mercado. Ora, se a condição de origem familiar o possibilitou retardar a entrada no mercado de trabalho, depois de cumprir os créditos na Universidade pública, nada mais justo do que adiar por mais um pouco a entrada no mercado prestando serviços públicos, já que entrará numa condição mais privilegiada do que aqueles que foram impelidos a entrar no mercado em detrimento da continuação dos estudos.

Para ser mais preciso, a idéia de ressarcimento não é em nada original, já acontece faz tempo com os financiamentos do governo federal aos estudantes como o antigo "Crédito Educativo", FIES, entre outros programas. A questão que se coloca é porque a classe média beneficiada com o ensino superior público também não tem que ressarcir o Estado.

E por falar em mercado e Estado, quem foi que ensinou esses meninos que se recusaram a realizar a avaliação da política pública educacional que o conceito de eficiência tem origem capitalista? Porquê o Estado não pode, ou não deveria, empregar recursor de forma a otmizar a produção dos bens públicos?

Interessante também notar a esquizofrenia paranóide dos defensores do boicote, ora defendem que o Estado não pode controlar os investimentos, que eficiência é um conceito imposto pelo capitalismo (como se vivêssemos em outro sistema?!), que deveria existir liberdade para o indivíduo escolher o que ele quer aprender e no que quer ser avaliado (como se não fosse alunos, e sim professores!!!! Como se a academia não fosse meritocraticamente hieráquica!!!!), num sistema absoluto de liberdade individual; surpreendentemente, no mesmo arguemento sustentam que o Estado deveria, e poderia, bancar a qualquer custo todas as demandas imagináveis (como se os recursos fossem ilimitados). Ora, há alguma coisa fora do lugar! Em um momento defendem o indivíduo livre dos constrangimentos sociais imposto pelo Estado e em outro pregam um Estado firme e detentor dos meios de reprodução social? O argumento ou é esquizofrênico ou tem má-fé.

Grande abraço,

Vitor Peixoto

Roberto Torres disse...

Adélia, longe de alguém aqui defender o controle privado das Universidades Públicas. Defendemos o controle público.

Meu argumento é que a privatizacao nao comecou quando as pós graduacoes caras pagas foram implementadas, mas muito antes, já quando o Ensino Privado e o pré vestibular se tornaram mecanismos de acesso que só a classe média tem acess

O ponto em questao é o que fica resumido na fala do Vitor: "a idéia de ressarcimento não é em nada original, já acontece faz tempo com os financiamentos do governo federal aos estudantes como o antigo "Crédito Educativo", FIES, entre outros programas. A questão que se coloca é porque a classe média beneficiada com o ensino superior público também não tem que ressarcir o Estado."


Um abraco

Decio disse...

Bom galera, eu sou calouro de Ciências Sociais, e acho bem interessante essas propostas que colocam aqui.Lógico não vou me atrever a debater mas achei o texto bem interessante pra mostrar um ponto de vista que tenho hj.

Realmente a universidade públca é privatizada, pois como ela é nosso "serviço" por quatro anos ficamos só por conta dela.E será que a classe média tem a preocupação de saber se paga um aluguel perto da facul ou paga um cursinho de inglês?Claro que não, pois os dois são simples para eles.Porque a universidade pública não tem um curso de línguas para os alunos?É claro que é porque quem tem que sair do Brasil pra fazer doutorado já sabe falar fluentemente a língua.Essa semana saiu no jornal o globo que somente 10% da população brasileira tem um curso superior.É uma pena não ter mostrado mais dados como quanto a universidade pública forma, quantos desistem, etc..
E quanto ao boicote, eu não sei como foi a UENF de vocês, mas a de hoje tem muita ideologia, então a explicação dos boicotadores pode ser política, mas eu confirmo pra vocês que não...

Roberto Torres disse...

Décio, eu acho essa coisa do curso de línguas fundamental. É uma barreira de classe forte que a Universidade poderia ajudar a amenizar se for levado a sério os cursos de língua.

Um abraco

Vitor Peixoto disse...

Caro Decio,

Aconselharia procurar informações no LEEL sobre o curso de linguas na UENF.
Por motivos vários que limitam a possibilidade de realizar cursos para todos os níveis, geralmente oferecem cursos instrumentais.

Tenho consciência também de várias dificuldades enfrentadas por quem não tem condições de bancar cursos (pode acreditar, isso dificultou muito a minha vida), mas hoje existem alternativas tais como os cursos online gratuitos. Experimente visitar o blog http://www.inglesonline.com.br/category/curso-de-ingles-on-line-gratis/P10/ . Aqui você encontrará uma série de sites que oferecem o serviço.

Grande abraço, e boa sorte


Vitor Peixoto

Decio disse...

Vitor, valeu pelo site.Eu sei que o LEEL tem cursos instrumentais,pra quem já tem alguma base de inglês é bom, mas pra quem não tem nenhuma é pouquíssimo.A universidade pública ela molda o ensino de uma forma que os alunos tem que chegar sabendo de um tudo ali dentro.Estou fazendo um trabalho sobre epicuro e em português tem muito pouca coisa, o francês é o que mais tem escritos dele, pra mim que só sei falar Bonjournão dá pra nada, e com isso a universidade se elitiza em algum ponto.Não sou extremista de direita nem de esquerda, só queria expor um problema que de longe parece pequeno, mas que se quem se preocupa em boicotar o vestibular se preocupasse,muita coisa com certeza mudaria.

Tahiana disse...

Roberto, Brand e Vitor, esse argumento desenvolvido aqui me fez pensar... não havia até então olhado por este ângulo. Penso que infelizmente não é possível que a Universidade Publica como a conhecemos seja para todos, visto a "experiência" das cotas, eu sou da segunda turma de cotistas para negros e estudantes de colégios publicos e percebia claramente na minha turma e na turma anterior uma dificuldade para acompanhar os textos e o ritmo das aulas, a maioria aqui já leu Bourdieu e sabe dos estudos dele sobre a escola. O Próuni foi uma alternativa válida e como Adélia já expos aqui, funcional. Mas esse pensamento que vocês desenvolvem aqui deve ser ampliado também, para outros setores e não só para a educação. E se fizermos a opção por um caminho que "cada um paga o que pode" isso também pode ser um tiro nos pés dos milhões de brasileiros que pertencem a classe mais necessitada do país. Não sei se estou sendo clara, mas o imposto de renda por exemplo, a classe média estatutária paga, porque é descontado na fonte, não tem como fugir. Os ricos sempre dão um jeito de pagar o mínimo possivel, e os pobres não pagam, esse imposto garante educação e saude publicas e quem utiliza? Se é classe média ou alta, pagam pelo melhor, se é pobre disfruta do público. Então, penso assim, se vamos reformular o acesso, se vamos pagar por ele mesmo que seja ao Governo e não necessariamente a instituições privadas, tudo bem, mas então me recusaria a pagar impostos para garantir beneficios que servem como repasse de renda para classe menos favorecida (que os serviços na maioria das vezes não são de qualidade), estaria assim pagando para todos terem acesso ao publico e no entanto pagarria novamente para desfrutar do publico.
vejam, é uma opção, e pode funcionar.

Vitor Peixoto disse...

Prezada Tahiana,

O imposto de renda não é a única forma de arrecadação do Estado. Sugiro a leitura dos trabalhos do Marcelo Neri (FGV) e do Serguei Soares (IPEA) acerca dos impactos dos impostos sobre as camadas mais baixas no Brasil.

Ao comprar arroz e feijão também se paga impostos. E muitos! Por isso, afirma-se que os impostos no Brasil não são progressivos, e sim regressivos. Se se comparar o montante de recursos arrecados pelo Estado, os mais pobres são os que mais contribuem. Ou seja, o seu argumento pode não ser exatamente sustentável deste ponto de vista.


Grande abraço,


Vitor Peixoto

Vitor Peixoto disse...

Esqueci-me de acrescentar que muitos gastos da classe média são abatidos do imposto de renda, como os dos planos de saúde, por exemplo. E pior: mesmo a classe média que paga planos de saúde (em parte abatidos dos imposto de renda) quando utiliza os serviços do SUS (os de excelência, como INCA, INCOR entre outros tantos que existem), os planos não reembolsam o Estado pelos custos. O mesmo acontece quando a classe média sofre acidentes de trânsito e são socorridos nos centros de excelência públicos, e não os privados.

Esse é um assunto batido entre os especialistas em política pública em saúde.

Grande abraço,


Vitor Peixoto

Adelia disse...

Cientistas Sociais do Blog
uso o termo não p discriminar os debatedores aqui. Apenas como "ação afirmativa" de uma profissão pouco conhecida ainda no espaço público cujo principal papel, em meu entendimento, é a reflexividade mesma acerca de seu tempo)

Sim. Os mecanismos de controle democrático sobre a Universidade Pública são fundamentais. Tomara q Vítor nos ajude nisto como cientista político mais atento, pois, aos institutos de participação democrática. Quer no trato das federais, quer no trato das estaduais.

Vc está certo, Roberto. A privatização se deu há muito. O acesso à graduação tb. é privado. Acolho seu argumento.

Queremos, então, desprivatizá-la (um pouco!) ao PUBLICIZÁ-LA. Já q sabemos q não podemos - ainda - "mexer" na estrutura produtiva q efetivamente "mexeria" no perfil real de seus ingressos.

Queremos q a classe média q usufrui da universidade pública preste contas à população ...

No mínimo, q sejam alunos dedicadíssimos aos estudos!

Aqui (UFES), tenho feito tal discurso q não é "blá, blá, blá". É respeito a quem mantém o aluno lá dentro. E. com certeza, quem nos paga, a nós, os professores.

Sem demagogia, mas q seja dito em alto e bom som: o/atrabalhador/a, a dona de casa ... (q tb. é trabalhadora por produzi-los e mantê-los).

Bom domingo a tod@s!

Ps: onde vc está, Roberto?

Roberto Torres disse...

Oi Adélia, estou em Berlin. Estive no Brasil um tempo, mas já voltei.

um abraco

Adelia Miglievich disse...

Pois é, gente ... privatizar (cobrar serviços dos usuários) sob a justificativa de "desprivatizar" (dada a constatação de q as classes populares não acessam a universidade pública) é traiçoeiro ...

"Penalizar" as classes médias + 1 vez não é atacar a concentração de renda no país.

E as classes médias já pagam não pagam pelos serviços privados na educação básica de seus filhos, na saúde de td. a família, nos transportes urbanos (haja carros em nossas cidades!! Que absurdo!) e na aposentadoria q não + é direito, lamentavelmente?

E ... agora, deverá realmente pagar tb. pelo acesso à universidade pública?

Mantenho a perspectiva de que se devem rever os mecanismos de controle dos usos de um bem público assim como realizar estratégias de justiça distributiva com políticas de reconhecimento de vários grupos (digamos, no caso da UENF, podem-se priorizar alunos da região nos vestibulares).

Aliás, tb. as condições de sobrevivência do estudante em Campos ( a tal conquista de bandejão + alojamento ...).

P/ além da desejabilidade, importa criar mecanismos de arrecadação (e isto deixo com os cientistas políticos, sobretudo). Contudo, não penso q seja este o bolso da família de classe média ... mais ainda, hem?

Porque se falarmos em impostos, entramos em várias contendas. O mercado imobiliário, por exemplo. É aviltante que tds. os impostos sobre a moradia recaiam sobre o inquilino e não sobre o proprietário. O contrário desestimularia certa acumulação, não acham?

O q apreciava na UENF - espero q ainda exista - é a bolsa p absolutamente todos os alunos, ainda q aquela de "apoio administrativo".

Em meus 8 anos de UENF, nunca vi 1 aluno nas CS sem bolsa, exceto se assim quisesse; ou claro, fosse impedido por lei. O caso dos q possuíam vínculo empregatício. Um professor-doutor do quadro permanente poderia capitanear por ano algo em torno de 4 a 8 bolsas p/ alunos ou recém-formados como no caso da "universidade aberta".

Roberto, o q tem lido por aí? Adoraria saber por cá. no blog. O q estão Vcs discutindo, caso a Am. Latina surja, de algum modo, por aí?

Conte-nos, se possível, tb. + sobre as políticas imigratórias e o multiculturalismo, hem?

Pois é ... aproveito esta "coluna do leitor-falador" p fazer demandas.

Abçs a tds!

Roberto Torres disse...

Adélia, o conceito de classe média precisa antes ser definido, para ai sim vermos se é ou nao justo que sejam ou nao onerados financeiramente. Isso é uma tarefa difícil, mas acho que podemos comecar seguindo uma sugestao do Brand: no Brasil ser de classe média é desfrutar da privatizacao das principais esferas da vida.

Num estudo recente sobre o crescimento da "nova classe média" o Neri da FGV poe uma discussao muito instigante: as classes A e B se acostumaram a monopolizar uma auto-definicao de classe classe média, de modo que ai se encontra o cerne da luta simbólica contra a "nova classe média", que (ainda?) nao se apoderou dos meios para privatizar a vida (incluíndo universidade pública). Acontece que, em termos estatísticos, classe média (o meio), com o novo cenario de mobilidade social no brasil, corresponde à classe C.

Esta discussao me faz concluir provisoriamente que grande parte dos que choram o peso dos impostos, o perseguicao da classe média, sao "elite", classe A e B. Entao na hora de se fazer de vítima um funcionario público de Brasília que ganha 15 mil fala que é de classe média! Esse cara nao paga nada de imposto em comparacao com os ricos de países ricos. Esse cara deve ser onerado sim! rsrs A deve! Sem isso nao podemos sequer falar em justica social.....

Um abraco,

te falo sobre minhas leituras em email

Adelia Miglievich disse...
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Adelia Miglievich disse...

Pensarei ainda neste argumento, Roberto. Mas, ainda q estejamos trabalhando questões demais ao mesmo tempo ... se se pensar novamente na questão da "privatização da universidade pública", tenho sérias dúvidas se os + prejudicados seriam os funcionários públicos q percebem mensalmente 15 000 reais. Num país de pobres e muiseráveis, seria um "marajá"?

Peço que repense tb seu argumento. Entendo a tentativa de definição de Brand de "classe média": aquela q ainda consegue pagar um plano de sáude p sua família. É uma boa tradução?

Mas, as "classes altas", entendidas como aquelas que, no mercado financeiro, mobilizam diariamente cerca de 100 000 reais ... cujos patrimõnios comprados e vendidos regularmente equivalem a algo q, na realidade brasileira, o "pobre" jamais terá (assertivas como esta, p mim, serão sempre a prova de uma perversão social) e o "cidadão de classe média" teria (será??) como ambicionar (sei não ...) após 30 anos de trabalho, vejo q as classes médias estão, de fato, cada vez mais pobres (e haja dívidas!). E os poucos ricos lembram quase uma casta de intocáveis, às avessas. Os brâmanes, é isto??

Juro q a blasfêmia é apenas gerada pela idéia de "imobilidade social" p mim claríssima (galera: o Brasil tem classes, não castas!)

Pensemos + sobre a privatização dos serviços públicos ...

Pensemos + sobre a "imobilidade de classes" tb. ...

E lutemos tb. pelos citados "controles democráticos". Isto, como questão de justiça.

Em se tratando da Universidade Pública. Que esse compromisso seja alardeado!