sexta-feira, 6 de março de 2009

Lula e seus antípodas

Esta entrevista do grande ator Carlos Vereza ao Jô é extremamente lúcida ao mostrar o que pensa uma parte do país não muito eufórica com as conquistas do atual governo. Cortando as normais arestas intempestivas que todo descontente apresenta, a entrevista pode ser uma boa apresentação para a discussão do blog a respeito do governo Lula, que já caminha para a substituição. Ou não...

Segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=AP4iBgKl1mQ

Abraço.

14 comentários:

O Pescador disse...

Sei o quanto é desgastante para os leitores do blog acompanhar um raciocínio longo desenvolvido em um post. Mas, dada a minha falta de competência sintética, vou assim mesmo desenvolver possíveis respostas a fragmentos ( dei o acabamento de forma de sentenças), que extrai do discurso inflamado e pseudo-crítico do ator Carlos Vereza. O objetivo é explicitar o efeito de pura retórica do discurso.

1 O governo do PT é um partido com um “Projetor de poder”

Sobre esssa primeira sentença, até um estudante de introdução a ciência política sabe como responder: todo e qualquer partido político moderno tem projeto de poder. Permanecer perpetuamente no poder é a própria razão de existir dos partidos. Isso não é uma sentença exclusiva da teoria política marxista. Os teóricos da chamada “teoria das elites” (Mosca, Michels, Pareto, Shumpeter, etc.) dizem a mesma coisa. As lutas das elites na esfera política não são apenas por posse do poder, mas também para a conservação do poder. Ou alguém acredita que o DEM e o PSDB querem apenas governar para realizar mudanças e depois ceder o poder? Portanto esse discurso é apenas para efeito de retórica.

2. A “esquerda progressista” é aquela que reconhece o desenvolvimento irreversível do capitalismo e aprende a trafegar dentro das contradições inerentes ao sistema.

Nessa sentença se observa uma falácia bastante capciosa, pois se confunde pensamento de esquerda com algo que implica idéia “nova” ou “progresso”. Assim, tudo que envolve a defesa do passado é reconhecido como atitude conservadora ou reacionária. Nessa lógica, aqueles que defendem idéias socialistas são “conservadores” ou “retrógrados”. Por outro lado, a “nova” ou “esquerda moderninha” reconhece as maravilhas da sociedade capitalista e suas mudanças estruturais como algo “natural”. Portanto, é compreensível o PSDB ser identificado com essa “esquerda progressista”, visto que mobiliza o discurso organizacional da moda atual, como “choque de gestão”, “reformas”, “choque de capitalismo” e “governança”. E viva o capitalismo flexível!!! Essa atitude nada mais é do que a outra face do pensamento maniqueísta (sempre atribuído às “viúvas da queda do muro de Berlim). Efeito de retórica!

3. O discurso da ética

Aqui entramos num campo pantanoso, pois como já lembrava Maquiavel e depois Weber, a lógica de funcionamento da política não segue normativamente imperativos éticos ou valorativos de outras esferas do social. Ao contrário, é um espaço de uma pluralidade de valores que são mobilizados conforme a sua eficácia simbólica. Por exemplo, tomar decisões políticas ou fazer acordos com base estritamente na ética da convicção pode garantir um lugar no céu, mas não necessariamente produzir efeitos sociais desejados de um ponto de vista uma “moral justa” (sempre há uma defasagem). Como assinalava Weber, “boas ações podem resultar num mal maior, assim como ações reprovadas moralmente podem resultar num bem maior”. Assim como na vida, também na política, a relação entre causa e efeito não é unilinear e previsível.

4. A idéia de ausência de projeto de nação

Bom, realmente eu concordo plenamente com essa sentença com relação ao PT. E não vejo isso como um problema, na medida que compreendo que um projeto de nação deve ser construído a partir da participação efetiva da sociedade, e não em um instituto fechado apenas para tecnocratas, tal como foi o projeto do PSDB. Aliás, qual é projeto do PSDB no fim das contas? Resumidamente, romper com o “patrimonialismo político” e promover um “choque de capitalismo” no Brasil. Um projeto criado por uma elite liberal que entende que o Brasil precisa se submeter a transformações dirigidas de cima, sem a participação da sociedade. Afinal essa (representada nos movimentos sociais e na classe trabalhadora) não sabe conduzir ou não tem competência para conduzir a nação em direção ao “progresso”. Nesse sentido, concordo com a provocação do meu orientador de pós-graduação. Entre outras coisas, o que difere fundamentalmente a maneira de fazer política do PT e do PSDB é que, o primeiro faz política pensando no contratualismo roussiniano, enquanto o segundo é hegeliano com força. Que o diga o Fernando Henrique (nosso “Geist” ou “farol de Alexandria”)



5 A guinada para o populismo e totalitarismo

Como já coloquei em outros textos, em concordância com a posição de Renato Lessa, considero a noção de “populismo” uma categoria “demofóbica”, isto é, expressa um certo sentimento de temor a tudo o que se refere a política popular ou do povo. O que se observa aqui é a diluição da idéia de cidadania social (conforme H.T.Marshall) como elemento tão importante quanto a cidadanias civil e política. Em seu lugar, o ideal de política é aquele que cumpre a função de facilitador das transformações institucionais em curso na sociedade capitalista. Parte-se de uma idéia evolucionista de que o sistema sempre se modifica historicamente no sentido de auto-aperfeiçoamento. E nesse sentido acho interessante lembrar a fala de Arminio Fraga (quando em entrevista dada a Folha de SP no ano de 2007) afirmando que a universalização das finanças no Brasil representava uma revolução em direção a modernidade. Assim, toda e qualquer crítica dirigida a “doxa” econômica atual (dominação financeira) é vista como arcaísmo e atitude retrograda. Dentro desse modelo, políticas de bem-estar são sempre vistas como o retorno do atraso. No que se refere ao “totalitarismo”, Noam Chomsky sempre provocador dizia: “Como pode se chamar de democracia uma nação onde os processos decisórios são dirigidos para atender a demandas exclusivas de um mercado histérico?” “o mercado está nervoso”, “o mercado avalia com maus olhos medidas de intervenção”. É totalitarismo querer romper com essa lógica perversa?

tainá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bill disse...

Bem, com o "dossiê pescador", não tenho nada a declarar, só assinar em baixo.

Roberto Torres disse...

Eu só tenho a acrescentar uma algo sobre o pano de fundo do discurso do ator, que para mim é sintomático do ódio de classe que motiva toda sua fala: quando ele diz que Lula é uma "apologia à ignorancia", ele está resumindo como o pensamento liberal no Brasil ve os pobres na política. Como o pescador já disse em outros textos, parte-da da diferenciacao ignorancia-esclarescimento de modo que as demandas dos pobres sao desqualificadas como demandas legítimas. Sustentar um presidente da república porque ele consegue criar uma política eficiente capaz, de entre outras coisas, melhorar a alimentacao de uma gente é percebido como apologia à ignorancia.... o pano de fundo de valores que se funda na oposicao corpo-alma vem com forca. Saciar necessidades do corpo é visto como algo menor na política, assim como a opiniao, o voto a vida dos que possuem essa necessidade. Meu caros, para mim este é o espaco de luta simbólica decisiva que vai acompanhar o pleito do proximo ano.

O Pescador disse...

Olha, Roberto!

Sinceramente, gostaria muito de acreditar que o debate em torno de que tipo de cidadania (civil, política e social) queremos ter como modelo, entrasse nas eleições do próximo ano. Mas dado o contexto atual de presidenciáveis (Dilma, Serra e Ciro), acho que o debate vai se polarizar em torno, mesmo, dos temas da "gestão pública eficiente" e da "política econômica". Novamente, a problematização acerca da idéia de cidadania plena e dos direitos sociais que isso envolve, vai ficar em segundo plano.Suspeito que o debate se restrinja a debater quem é o melhor "gerente" do Estado (Serra ou Dilma).

Roberto Torres disse...

Pescador,

Eu sou um pouco mais otimista. Acho que interessa ao governo abrir o leque do debate para o tema do "modelo de desenvolvimento", o que possibilita incluir questoes relativas à nocao de cidadania. Só nao sei como Dilma poderia participar disso.

O Pescador disse...

É justamente esse o problema, Roberto! Os dois nomes do PT mais capacitados para tematizar a cidadania e o social seriam Tarso Genro e o Patrus Ananias. Mas nenhum dos dois apresenta condição mínima de sair candidato. Quanto a José Serra, esse já tomou posição no sentido de mobilizar o discurso de "boa" gestão e administração "competente". Isso significa tratar o Estado como uma empresa e esvaziar a política e o social. Resta a aposta mesmo na capacidade de Lula de agregar votos em torno de seu candidato, ou seja, dá um caráter plebiscitário à eleição.

Anônimo disse...

Interessante o debate... Continuem!

Anônimo disse...

O problema do Lula nao e ser pobre.

A questao e que o Lula é ignorante e não faz o menor esforço para modificar tal condição. E a resposta é simples. Lula faz isso porque assim se torna o Deus dos ignorantes, que constituem a maioria esmagadora dos eleitores.

Além disso, faz vista grossa para os mensaleiros e sanguessugas, mostrando que não se importa com os milhões desviados. Apenas tirou as pessoas das cameras, mas Palocci, Dirceu e a quadrilha ainda está toda aí desfrutando das benesses.

Como diria Lobão: Peidei, mas não fui eu.

Anônimo 2 disse...

Não confiro importância a tais coisas, mas como o anônimo acima valoriza tanto a instrução formal, deveria saber escrever textos de dois parágrafos sem cometer erros gritantes de concordância.

Anônimo disse...

Sim claro.

O mensalão não tem importância.
Afinal, o mensalão nem existiu, não é mesmo ?

Roberto Torres disse...

Caro anonimo das 17:15, quem sao entao os eleitores nao ignorantes? Uma forma muito honesta de debater a gente se dispor e dizer o sentido dos termos que usamos. Entao o que voce considera como essa ignorancia?

George Gomes Coutinho disse...

É impressionante.

O mensalão evidentemente existiu e provavelmente ainda existe. É prática corrente na câmara sendo que inclusive FH fez uso deste artifício (vide o escândalo da emenda pró-reeleição).

O equívoco de parte do setor executivo do governo foi é PROSSEGUIR com a prática. Como possivelmente assim prosseguem governos municipais e estaduais. O problema do mensalão só revelou uma face estrutural de um problema que se reproduz em diversos espaços.

Não reconhecer isso é ou ignorância ou simplesmente má fé.

No mais a análise do Kadu foi bastante precisa. Também assino embaixo...

Mas, também sou um pouco cético quanto vermos no próximo pleito um debate concentrado na tipologia de cidadania tripartite. O que penso que deve permanecer é a definição de qual direção o Estado deve ir... Mais ou menos interventivo.

Não esqueçamos que em 2010 a crise terá deixado de ser marolinha há tempos.

Abçs

George

PS: Certamente haverá a politização da crise no pleito de 2010...

Fabrício Maciel disse...

é fundamental em vesperas de eleição a guerra nos segmentos da sociedade que se acham engajados. a articulaçao na midia de atores como este representa segmentos de classe dominantes extremamente conservadores. o fato de ele falar ainda em verdadeira ou falsa esquerda é curioso. mostra que tal linguagem, dita ultrapassada, sutilmente precisa ser mobilizada instrumentalmente para a reivindicação de quem é o bem.