terça-feira, 24 de junho de 2008

Porque debater um fenômeno como o clientelismo?

O cúmulo de toda arrogância é a afirmação arbitrária de que não se deve dizer o “óbvio”. E eu estou aqui querendo sim falar do óbvio, de algo que é tão óbvio que às vezes perdemos o sentido do que ele significa. Parece muito evidente para todos nós o que fazemos neste Blog, numa atividade de debate. Mas acho que essa evidência do que fazemos contribui para que as vezes desprezemos a definição do nosso objeto de debate (o tema) na sua relação com o mundo em que vivemos. Parece óbvio discutir clientelismo, o voto e a representação política. Desde quanto eu comecei a me preocupar com política, eu percebo o clientelismo como algo vulgar e desprezível enquanto prática. Sentia e sinto desprezo tanto pelos patrons como também pelos clientes.
E todos nós aqui sentimos esse desprezo, pois ele é objetivo. Nenhum de nós aqui pode negar isso, pois agir assim seria cair na incoerência absoluta entre o que fazemos e os valores que usamos para prezar e desprezar as pessoas de acordo com o engajamento que elas também mantêm com esses valores. Porque estudar o clientelismo é a primeira questão para pautar o debate sobre esse tema, pois ela é a que deve fazer o inquérito de nossos valores, daquelas crenças que moram no mais profundo de nossa alma, devoções que nos vinculam ao mundo e às pessoas de um modo sem o qual não nos imaginamos vivos. Então podemos sair da obviedade é por em questão, ou seja, trazer para o debate e a análise racional, o que Weber chamava de “relevância valorativa do objeto”.
Queremos estudar o clientelismo porque ele está em tensão com nossos valores. A análise racional, que um senso comum ilustrado pode fazer tão bem ou melhor que um especialista, é uma arma cognitiva que usamos para “reduzir a complexidade” (ou o poder, diria Foucault em vez de Luhmann, ) de algo que o mundo nos põem em relevo, ou seja, em estado de destaque, positivo ou negativo, com nossa visão de mundo e com nossa “estadia no mundo”.Vivemos, nosso corpo e nossa identidade, em ameaça diante do mundo, na medida em que não somos o mesmo que ele, que vivemos em tensão com sua ordem. Na história humana, boa parte dessa tensão deve-se aos impasses entre o mundo “como ele é” e os valores morais que ganharam nossa adesão. Precisamos então saber quais os valores que nos põem em tensão com o mundo do clientelismo.
Essa pergunta deve focar antes de tudo a visão global de mundo, pelo menos na política, que o clientelismo contraria. Falar disso não é algo menos importante, por a princípio tratar somente de algo que já está dado, que não tem a ver com o futuro e as mudanças. Quando não falamos sobre nossos valores esquecemos as condições necessárias para que alguém os pratique e os leve a sério. Assim achamos que eles são universalmente bons para todos. É por não sabermos justificar os valores que o relativismo ganha tanta força hoje; que cientistas sociais tenham o cinismo de defender o “respeito à diferença” com o clientelismo.
O clientelismo trai uma visão de mundo politicamente ordenado por pessoas autônomas que podem escolher seus interesses em acordo com uma visão a longo prazo sobre sua comunidade, mais ou menos inclusiva, como a comunidade nacional ou a de classe. A democracia só faz sentido como algo, ainda inexistente, que imaginamos para o dia em que as pessoas puderem, no mínimo, votar com autonomia, a começar pelo sentido primário de não “escolher com o estômago”. Nesta prisão à urgência, em interesses cuja relevância obedece à privação de alimento para uma pessoa, ninguém pode ser autônomo, nem mesmo votar com autonomia.
Autonomia é sempre o ato de “nomear”, de se apropriar de algo pelo nome, dominando uma certa linguagem, de modo a mostrar seu caráter político, advindo da arbitrariedade da força, e propondo uma “reavaliação” da própria ordem. Nesse sentido, a educação é tudo sem o que não se tem mais nada, e vencer os obstáculos a uma educação que favoreça à escolha consciente começa por abolir a fome, como pensa o Governo Lula, e que o faz muito superior ao de FHC. Se, como Vitor e Renato propuseram, a desvinculação de um patron significa que o Bolsa Família não é clientelista e logo permite uma liberdade de escolha na vida política, é somente na condição de que as pessoas de fato se acostumem com o regime de alimento garantido, e tenham na vida cotidiana a “segurança alimentar”. Se matar a fome deixa de ser uma preocupação, a escolha política sobre a vida torna-se possível, livre da prisão à mera sobrevivência. Certamente, quanto maior for o consenso político em torno do Bolsa Família, mais ele tem chances de atingir sua meta de “libertar o povo”, de tornar cidadãos os filhos ou netos dos que hoje votam no Lula porque ele é a certeza do Bolsa Família. Não há nada mais justo do que esse motivo, mas nada menos opressor também. Entre comer e escolher qualquer outra coisa a não comer não se pode escolher senão comer, caso ainda se lute por ficar vivo. Ai não há autonomia.
E quando dizemos que os interesses imediatos não devem ser menos legítimos do que os de longo prazo, esquecemos que a possibilidade de ter os de longo prazo é o que diferencia um pobre sem futuro na vida de nós que gozamos o presente sem nos reduzir a ele e que assim lançamos nosso valor num futuro. Há uma concepção de homem, junto com nossa visão de mundo, que nos faz enquadrar alguém que vende votos como alguém que não pensa no futuro e por isso mesmo valendo menos do que os que pensam e agem em vista dele. Talvez a duração e a melhoria do que é hoje o Bolsa Família, possa, a longo prazo, trazer uma segurança alimentar mínima, para que famílias planejem a vida antes de ter que defendê-la da fome e da subnutrição. Para isso é indispensável fazer o que Fábio Wanderley Reis queria dizer com “democratizar o clientelismo”, ou seja, fazer dos pobres clientes permanentes de um Estado Providência que cumpra a função de criar condições para que futuras famílias se formem no contexto precário e predatório, onde as solidariedades mais contextuais em torno dos interesses mais decisivos da vida, que dão sentido a qualquer solidariedade política mais ampla, não se estabilizam.

2 comentários:

Paulo Sérgio disse...

Caro Roberto,

Sua abordagem do clientelismo vem ao encontro do que venho estudando acerca do programa dos CIEPs, pois toca numa das questões que dividem águas na avaliação política desse programa de educação integral: a acusação de instrumentalização dos “pobres” como reiteração de uma relação de subordinação entre o público-alvo dessa política educacional e o Estado, consagrada pela associação imediata entre brizolismo e populismo (outro tema a ser discutido, pois padece do espraiamento que o último termo ganhou no senso comum e na acolhida deste no debate acadêmico). Uma questão-de-fundo talvez seja por que uma política social “reparatória” (tratar desigualmente os desiguais, reconhecimento das carências econômicas como fator impeditivo da universalização do ensino e do desempenho socialmente valorizado em torno deste) não ser facilmente aceita por seus beneficiários potenciais – o estigma de “ser pobre”. Entre acertos e erros, a experiência dos CIEPs talvez tenham antecipado o alcance e a relevância do “reconhecimento” na vida social, mesmo que seus defensores jamais o tenham expressado tal como se tornou corrente na teoria social hoje.

Abraço,
Paulo

Roberto Torres disse...

Paulo, muito instingante sua análise dos CIEPs! Sobre essa coisa de instrumentalização dos pobres eu penso o senguinte: os pobres são instrumentalizados o tempo todo pelo mercado e pela violência simbólica do não reconhecimento no trabalhado e na família, o que tanto se reforça como reproduz o fracasso escolar. Assim, uma instrumentalização pelo Estado, como uma relação de dependência dotada de uma certa previsibilidade, deve ser o ponto de partida de uma transformação, cujo alcance emancipatório, eu acho, vai depender de se conseguir subverter a violência simbólica, nem sempre por meios racionais discursivos, que rouba o futuro das famílias pobres, ao colocá-las em "regime de urgência" com relação ao tempo. Parece que associar uma politica como a que se pretendeu ser a dos CIEPs a algo pejorativo como populismo é a mais pura expressao desta violência simbólica que ignora a necessidade dos pobres de terem uma ajuda a longo prazo para que se rompe o circulo automatico de reprodução da probreza. E essa ajuda so quem pode dar é o Estado.

O grande problema é que o descaso com CIEPs no fundo se legitimou neste circulo de reprodução que o CIEPs não tiveram condição de romper. Tenho a impressão que a concepção não era tão cega quanto a necessidade de se estruturar a acumulação primitiva de certo capital simbólico no seio da família a fim de planejar o desempenho escolar. Não é? Mas acho que uma certa idealização dos pobres impediu de ver e de agir com radicalidade na construção de solidariedades familiares, cuja inexistência não foi devidamente percebida.