quinta-feira, 12 de junho de 2008

Eurocopa 2008: quando a bola carrega mais do que ar



A sentença que nos diz que o futebol, assim como outras atividades esportivas, é a sublimação da guerra, não é novidade pra ninguém. Isso fica óbvio quando o ARTILHEIRO ataca pelos flancos e solta uma BOMBA, e depois de fazer muitos gols é chamado de MATADOR. Essas são algumas dentre muitas metáforas aplicadas ao futebol que nos revelam essa faceta dessa paixão que não é só nacional, mas de boa parte do mundo.
No entanto, mesmo que isso seja uma característica geral do futebol, há momentos em que ela se intensifica, nos quais a alma belicosa que dorme calma dentro do “Fair Play” mostra um pouco mais as suas garras. O estado de tensão normal de uma partida de futebol se altera quando conflitos extra-campo tomam corpo na partida. Quem não se lembra do duelo entre Argentina e Inglaterra com um gostinho de vingança da guerra das Malvinas, ou o confronto recheado de tensão entre E.U.A. e Irã na copa do mundo de 1998. Assim como esses outros campeonatos, parece que a Eurocopa 2008 poderá também ter essas batalhas em que a bola carrega mais do ar, corre cheia de raiva, humilhação, ressentimento, desejo de vingança e ás vezes até de morte.
Na década de “70”, o “boom” da construção civil em São Paulo exigiu um contingente de mão-de-obra que não poderia ser suprido pelos trabalhadores locais, o resto desta história todos nós já conhecemos, uma migração em massa de nordestinos para São Paulo. Nesta mesma década de “70”, o processo de reconstrução da Alemanha gerou um fenômeno parecido, e neste caso, os alemães também tiveram seus “nordestinos”. Ocorreu neste período uma massiva migração de turcos que vinham para trabalhar na construção civil. Esse processo criou uma via de migração entre esses países, fazendo com que hoje Berlim esteja entre as cinco maiores cidades turcas do mundo. Com o tempo os turcos se estabeleceram no comércio, com vários estabelecimentos, em especial com restaurantes em que vendem seus deliciosos sanduíches, os Dönner Kebab. Em Berlim eles estão em todo canto, nós bairros dominantemente turcos como Kreuzberg, Neuköln e Wedding, não é raro ver letreiros escritos em turco e alemão. Contudo, nem de longe isso significa que os turcos estão integrados na sociedade alemã. Um forte choque cultural com posições endurecidas de ambos os lados, aliado a velha dificuldade teutônica de lidar com estrangeiros, geraram uma forte tensão nesta relação. Existem “turcos” de várias gerações na Alemanha que não são considerados alemães nem legalmente e muito menos socialmente. A negação de reconhecimento social, essa dinâmica social que pode ser chamada de uma “fábrica de ódio”, pode entrar em campo, e por conseqüência, entrar também nas ruas na próxima fase da Eurocopa.
Existe uma possibilidade (agora remota com a derrota da Alemanha para a Croácia) de Turquia e Alemanha se cruzarem na segunda fase da Eurocopa. Essa possibilidade é suficiente para deixar as autoridades, e principalmente a polícia alemã em alerta. O aumento de ataques de grupos neonazistas a estabelecimentos comerciais turcos só incrementam a tensão existente. Os turcos, por seu lado, que se sentem alvo de preconceito por parte da sociedade alemã, podem enxergar esse jogo como uma chance, mesmo que “quixotesca”, de se vingar das humilhações que se sentem atingidos. Temos aí um conjunto de fatores perigosos. Resta torcer que Martinho Lutero e Maomé segurem os ânimos de seus amados filhos, porque, caso esse jogo aconteça, essa bola carregará bem mais do que ar, rolará ela inflada de tensão social, esse combustível inflamável que pode explodir a qualquer momento.

13 comentários:

Renato Barreto disse...

Belo texto Brand, Belo texto.

Brand Arenari disse...

Obrigado Renato.

Fabrício Maciel disse...

Muito bom Brand, a incompatibilidade identitária é um dilema que a humanidade ainda está longe de resolver, se é que o fará. O universalismo é patamar de avanço maior que temos, apesar de seus paradoxos. A suposta neutralidade dos mecanismos formais de integração não pode compreender que a autenticidade é inerente a qualquer identidade, o que implica em conflito e não em conciliação. Não por acaso, o Brasil, cuja identidade orgulha-se de ser pacífica e lidar maleavelmente com os conflitos, possui no futebol a maior sublimação da guerra, mobilizando massas aos estádios, onde a violência é natural e rotineira.

Brand Arenari disse...

Nao acho que violencia no Futebol seja uma peculiaridade do Brasil, Fabricio. Acho que isso é universal, há violencia no Futebol em quase todos lugares.

Xacal disse...

Concordo com Brand...

O futebol apresenta manifestações violentas em todo mundo, e em alguns casos, essas manifestações têm uma marca própria como os "hooligans"...

No Brasil as torcidas organizadas como Raça-Fla e Gaviões da Fiel entre outras também dão conotação fascista ao ato de torcer, e em suma, o espetáculo futebolístico é algo de sublimação fascista...

Onde mais você, em nome de uma símbolo, de cores e esquadrões se dilui na massa e substitui sua vontade pela orientação coletiva...?

Só um detalhe...O mito de paz do Brasil é apenal isso: um mito...

Lembremo-nos que fomos protagonistas do maior massacre nas Américas (guerra do Paraguai) que só perde para a guerra de secessão estadunidense...


O fato de flexibilixar os conflitos, e seus resultados não significa que eles não existiram...

Talvez por isso, a nossa violência no futebol não realce os elementos europeus (racismo, separatismo, etc.)...

Nossas torcidas praticam uma violência mais "primitiva", pois está deslocada de aspectos "políticos", como nosso "banditismo social" que não consegue romper as barreiras da reação instintiva, presentes em napoleão e conselheiro...

Xacal disse...

perdão, não é napoleão, putz é lampião...rsrsrs

Vitor Peixoto disse...

O texto é primoroso! Parabéns, Brand.

Um outro elemento que me chama a atenção é os estilos diferenciados dos jogadores de distintos países nas ligas européias.
Nos clubes essas diferenças ficam ainda mais patentes (apesar de achar que quando envolvem seleções nacionais os elementos que o Brand destacou ficam mais fortes). Digo interessante, pois os clubes trazem uma dualidade consigo, ao mesmo tempo que representam uma parte da identidade nacional - por mais que seja uma fração dela - , permite a atuação de jogadores de várias nacionalidades.
Num campeonato espanhol, ou italiano, ou inglês, se encontram jogadores de quase todo o mundo, não é verdade? Não são seleções nacionais, mas as nacionalidades estão presentes também.
Pois bem, em uma discussão sobre guerras civis aqui no departamento um amigo sacou um estudo onde o autor se volta para essa convivência. O que o cara fez foi o seguinte: analisou o número de cartões amarelos e vermelhos das ligas nacionais. Segundo suas estatísticas, os jogadores que tinham origem em países com histórico de guerra civil tinham de 3 a 4 vezes mais chances de levarem um cartão amarelo ou vermelho do que um jogador de qualquer outro país.
Eu duvidei ardorosamente desse argumento. E estou a esperar o paper para ler com atenção. Mas pelo que me disseram o autor teve o cuidado de inserir uma série enorme de controles de posições em campo, tipo de partida (classificatória, semi-final, final) e etc.

Se está correto, eu não sei. Não irei ser leviano de duvidar daquilo que não li. No mínimo é interessante.

Sei lá por que eu escrevi isso também. Talvez porque fala de futebol e disso eu não entendo qualquer coisa.

Abraços,

Brand Arenari disse...

Acredito que o meu texto se torna um pouco confuso porque toca em dois aspectos desta dinâmica sem ser muito claro, ou seja, o futebol dentro das quatro linhas (1) e os impactos nas “arquibancadas” (2). O primeiro diz respeito a um universal humano em que conceitos sociológicos contribuem pouco, fala de como sociedades em que a guerra não é mais uma constante, encontraram um meio de extravasar estes sentimentos de forma civilizada. Já no segundo a sociologia tem um papel de destaque. E a pergunta sobre isso é; quem compõe esses grupos chamados “hooligans”, os quais existem tanto no Brasil, na Argentina, na Europa e etc? E sobre esta questão, o conceito de “reconhecimento social” pode ajudar bastante.
E o outro ponto que eu ainda destaco no texto é a possibilidade que se abre de pensar a (S)ociologia como uma ciência da sociedade, no momento em que entende que fenômenos humanos podem ser universais da espécie , podem se apresentar de forma muito semelhante seja na Europa ou no Brasil. Com isso podemos tentar fazer uma sociologia diferente dos jornalistas.

Brand Arenari disse...

Vitor, achei interessante a ideia do artigo, gostaria de ler. Embora ache que é uma tarefa difícil, pelo menos tem o valor de ser ambiciosa, neste tempo em que a mediocridade domina a ciencias sociais. De começo já enxergo um problema, que é a cultura diferenciada do futebol. Por exemplo, no Brasil os juízes são mais rigorosos com faltas e cartões, aqui na Europa a porrada come e o juiz não faz nada. Por isso os campeonatos no Brasil têm mais cartões. E tem gente que diz que é porque os europeus são mais civilizados. . .

Vitor Peixoto disse...

Brand,

Quando me falaram desse artigo eu fiquei muito cético também. E discutir em outra língua é muito mais complexo, vc sabe disso, rs,rs,rs... Mas nessa eu não recuei, também fiz objeções dessa ordem. Como o autor não estava presente, e eu também não havia lido o artigo, preferi colocar minha viola no saco e esperar o artigo chegar.
Mas, segundo me disseram, essas variáveis foram controladas. Na sua objeção específica sobre os juízes, eu sei que o cara utilizou somente campeonatos europeus. Obviamente, tem o fator de o jogador ser recem chegado ao campeonato, isso deveria fazer com que houvesse choques de comportamento - uma determinada jogada é punida em um país e não em outra, etc. Ou mesmo o tipo de cartão amarelo, pode ser uma jogada mais forte ou uma reclamação, por exemplo. São coisas distintas, não? Ou um cartão cartão vermelho por uma entrada criminosa ou por ter sido o segundo amarelo.
Eu não defenderei nem atacarei (terminologias da guerra, do futebol e da ciência!) o artigo aqui por motivos óbvios, mas assim que tiver eu lhe envio o texto. É no mínimo curioso. Se é bom ou não, isso é outra história...
O que eu sei é que esse texto se inseri num debate muito difundido acerca de acatar regras e autoridades. E o autor utilizou as partidas de futebol para testar isso. Criativo ele foi!


Abraços,

Fabrício Maciel disse...

Claro, a violência não é peculiaridade de nosso futebol, apenas acho que toma dimensões desastrosas em nosso caso pela singularidade de nossa negação do conflito, ou seja, quanto mais negação, mais sublimação.

Brand Arenari disse...

Fabrício eu nao entendi muito bem este seu último comentário. Vc está falando sobre o que ocorre dentro ou fora de campo? E ainda acho que sublimação, ao menos na lógica freudiana, não é algo negativo, pelo contrário, é um processo necessário para que se possa existir civilização. Acho que o que vc se referiu foi ao recalcamento, como pólo negativo nesta dinâmica.
Eu não muito claro para mim o que o nosso mito de identidade nacional tem a ver com a violência nos estádios. De minha parte só quis pontuar que a violência no futebol (nas arquibancadas) tem uma afinidade eletiva com a negação de reconhecimento social a determinados grupos. Nos jogos da segunda divisão do campeonato alemão ocorrem batalhas campais entre as torcidas organizadas não menos violentas do que as nossas.

Roberto Torres disse...

Tendo a acreditar que haja racismo nos cartões amarelos em campeonatos europeus. Sociologicamente faz todo sentido supor que os árbitros,pre-reflexivamente claro, apliquem em campo julgamentos sobre o comportamento dos jogadores que nunca deixam de ser julgamentos racistas.

Agora o tema da violencia das torcidas e o nao reconhecimento social é fascinante.

O estádios e todo o contexto de rivalidade entre torcidas criam as condições adequadas para que o ódio criado pelo não reconhecimento torne-se violência física, saindo de seu estado de latência. Ao contrário dos campos, acontece nas ruas, nos bares etc. uma dessublimação da violência, resignificada pelos conflitos atuais.