sábado, 20 de setembro de 2008

Campanhas eleitorais cegas


Dizer que as próximas duas semanas serão cruciais para a definição das eleições é “chover no molhado”. Todos que acompanham eleições sabem dessa máxima. Intensificar as campanhas todos os candidatos farão, mesmo os com poucas chances. Esse fator será, indubitavelmente, uma constante.

Mas se a intensificação será uma constante, o que explicaria a discrepância entre os resultados das eleições e as pesquisas eleitorais realizadas quinze dias antes? A resposta não é tão simples, entretanto, as diferentes estratégias adotadas pelas campanhas nesses últimos dias pode ser o fator explicativo crucial. Questões cruciais tais como: focalizar a campanha ou ampliar o foco no(s) grupo(s) de eleitores até então adotado? Se focalizar, em qual(is) grupo(s)? Lutar contra os grupos de rejeição ou garantir os eleitores já conquistados? Intensificar os ataques aos adversários ou adotar um discurso eqüidistante e fundamentado em propostas?

Obviamente, todas essas questões dependem do posicionamento e dos tipos de eleitores de cada candidato. Cada grupo de eleitores responderá de forma diferente a cada estímulo, tanto de seus candidatos preferenciais quanto daqueles que rejeitam. Qual candidato terá mais chances de conquistar esses eleitores em Campos? O passo inicial é saber quem e quantos são.

Essas estratégias somente serão bem definidas se contarem com pesquisas precisas – bem precioso e escasso. Os marqueteiros são quase unânimes em afirmar que preferem contratar pesquisas qualitativas, pois possuem mais informações detalhadas sobre o feedback do eleitor, e as quantitativas já são contratadas pelos meios de comunicação e divulgadas periodicamente. Crasso equívoco! Primeiro, os problemas de amostragem com as qualitativas podem trazer conseqüências gravíssimas (o risco de ser uma amostra “bichada” é gigantesco). Segundo, poucos são os resultados das pesquisas quantitativas que podem ser efetivamente interpretados, já que não divulgam os microdados. Dessa forma, ficam com relações bivariadas apenas e com altíssima margem de erro. Os esforços para relacionar mais do que duas variáveis são tantos e tão imprecisos (ampla margem de erro) que não permitem realizar qualquer estatística multivariada inferencial para a população.

Vejamos o gráfico sobre intenção de votos espontânea construído com os dados divulgados pelo IBOPE na última semana:


A barra azul refere-se ao percentual total de votos dos candidatos. As vermelhas e verdes, respectivamente, ao gênero masculino e feminino. Se considerarmos apenas a margem de erro absoluta da pesquisa, de 4 pontos para cima e para baixo, simplesmente não se poderia dizer nada sobre essa clivagem na população – todos as diferenças conteriam o zero! Imaginem se considerarmos a margem de erro por clivagem?! Ou seja, não se pode afirmar com segurança que essas diferenças de gênero constatadas na amostras são também encontradas nas população. Para nenhum candidato! Então, como responder se uma campanha de um determinado candidato deve focalizar suas mensagens e abordagens nas eleitoras ou eleitores?

Em menor grau, esse fenômeno também ocorre para as clivagens escolaridade, idade e renda. Poucas são as dimensões de cada candidato que podem ser generalizadas para a população. Observe o gráfico das intenções por idade. Nada pode ser afirmado sobre as diferenças de idade dos indecisos, dos que irão se abster ou dos eleitores da Odete. Nem mesmo dos eleitores da Rosinha e do Arnaldo, que também ficariam dentre da margem de erro de quatro pontos (volto a dizer, essa é a margem do percentual total, não se refere a cada clivagem, que tende a ser maior!).



Nesse crucial momento, as estratégias contam mais do que nunca. Não existe estratégia bem traçada sem um bom arsenal de informações precisas e confiáveis. Pesquisas quantitativas são fundamentais, porém, caras. Somente as campanhas que dispõe de abundantes recursos terão condições de contratar pesquisas mais precisas, e que divulguem os microdados. Mais um fator onde os recursos de campanha farão a diferença.

Está aí uma boa forma do Estado intervir nas distorções da competição eleitoral provocadas pelas disparidades econômicas dos atores políticos. De que forma? Por meio da democratização das informações: produzindo incentivos às pesquisas institucionais (Universitárias, sobretudo), que se comprometeriam as disponibilizar os resultados, relatórios e os microdados para todos os cidadãos, meios de comunicação, partidos e candidatos.

Toda pesquisa é um chute orientado, mas ainda assim um chute. O que difere um chute de uma campanha com recursos (que dispõe de pesquisas quantitativas sérias) de uma campanha sem recursos é que esta última chuta com olhos vendados uma bola sem guizo.

Sem pesquisas sérias toda inferência é um coletivo de bobagens. Imaginem o que os marqueteiros de plantão estão a dizer sobre os homens, com baixa escolaridade e renda média e as inclinações para o voto em branco?! E sobre em quem esse grupo votará?! Quem são os alvos de suas rejeições?! Haja paciência para bobagens. Melhor esperar um antropólogo visitar uns botequins e trazer notícias sobre os boatos e fofocas – serão menos ineficientes, acreditem.



3 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

assino embaixo Vitor!

É preciso pensar nos problemas metodológicos destas pesquisas.. Sem dúvida é assustadora a margem de erro!

Anônimo disse...

Não entendi. Pesquisa não é chute?
Chute é uma ação de resultado imprevisto certo? Mesmo Zico erravava. Se tem tanta improbabilidade assim não parece ser tão essencial. Afinal, antes das pesquisas ganhavam-se eleições. E mais, cegos fazem gol, vide a nossa seleção campeã, e fazem gol de falta onde o guizo não conta nada.

Vitor Peixoto disse...

Anônimo,

Toda pesquisa é um chute. Porém, um chute com parâmetros e fundamentado na teoria das probabilidades (o intervalo de confiança de 95%, significa que em cada 100 "chutes" apenas 5 irão para fora).

Talvez essa fosse também a probabilidade do Zico perder um pênalti com um goleiro cego. Mas não deixa de ser um chute com probabilidade de ir para fora.

Muito diferente de um chute de um cego do meio de campo, com barreiras, e o Tafarel em melhor fase.

Quanto a inexistencia de pesquisas outrora, lembro-lhe que inexistia para todos. Portanto, uma constante. Ou seja, não causava disparidades na disputa. Repito o que já escrevi no texto: uma constante não pode explicar uma variação!

Essa é a diferença.

Abraços,

Vitor Peixoto