quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O acampamento e o movimento estudantil da UENF.

Por Daniel Soares

Devo dizer, cheio de satisfação, o quão feliz estou com o atual momento do movimento estudantil da nossa universidade. Estamos muito bem organizados e mobilizados em prol de uma bandeira, de uma meta, de um objetivo: a construção de um Restaurante Universitário (o nosso tão querido e ainda ideal Bandejão) que proporcione alimentação de qualidade e a baixo custo aos funcionários, professores e, sobretudo, estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Estamos mostrando na prática (e nas inúmeras discussões em diárias assembléias), que a organização de um segmento da sociedade (nesse caso os estudantes da UENF) é capaz de defender e implementar bandeiras e reivindicações discutidas em grupo.
O Governo do Estado do Rio de Janeiro mata milhares de favelados quase todos os dias e a mídia se omite ou legitima? O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras se organiza pela justa causa do acesso democrático à terra e pelo manejo popular do solo brasileiro e mesmo assim é criminalizado pelo senso comum e pela imprensa vassala que forma a opinião de milhões? O tráfico de armas, de órgãos e de pessoas movimenta bilhões de dólares por dia às custas de iguais bilhões de vidas miseráveis? O trabalho escravo ainda é uma realidade (inclusive ao norte do nosso Estado)? Milhões de indigentes dormem nas ruas e embaixo de pontes? Os EUA invadem o Iraque? Judeus com mísseis e canhões de um lado e Palestinos com pedras de outro? As práticas de tortura como instrumento de construção da verdade jurídica e da obtenção de confissões são recorrentes e legitimadas pela maioria? A Floresta Amazônica está sendo engolida pela sanha do progresso econômico? As prisões e hospícios brasileiros são máquinas que produzem revoltados? Pois bem, gritemos. Reivindiquemos. Nos mobilizemos por uma causa. Temos de guardar a esperança (perdida pela maioria das pessoas de gerações anteriores que viveram o mais terrível período da História recente do Brasil – a ditadura militar) de que a organização popular tem força contestatória; temos de chamar a responsabilidade e nos conceber como agentes capazes de transformar a realidade social que nos cerca. Nossa causa é pequena diante dos horrores atuais – nacionais e globais? Não importa. Nos organizemos. Pelo Bandejão, apenas? Por um Restaurante no campus de uma universidade do interior do Estado de um país miserável? Que seja. No mínimo ele é uma ferramenta de democratização do acesso à universidade pública; no mínimo uma garantia de permanência na universidade de estudantes de baixo poder aquisitivo. Todos nós sabemos que (em qualquer organização social do tempo e do espaço) uma das mais eficientes formas de manutenção da ordem é a manipulação da informação e a ignorância. Embora esteja longe o ideal das universidades públicas serem centros autônomos e de excelência do pensamento, elas ainda constituem o lugar privilegiado de construção de mentes independentes. E é nelas que deve estar a juventude – com todo seu excesso de garra e energia. E o nosso Bandejão pode garantir (ou ajudar a proporcionar) o acesso desses jovens à universidade pública. E é por ele que lutamos. A causa é pequeníssima, mas é justa. Fechemos, então, a BR-101; mandemos ofícios, marquemos reuniões, discutamos, façamos assembléias, acampemos e gritemos: BANDEJÃO JÁ!

8 comentários:

Anônimo disse...

A necessidade do bandeijão é indiscutível, mas a pergunta que faço é se fechar a BR-101 é justo? Os próprios estudantes, pelo manifesto publicado, admitem que a causa é pequena. A BR-101 não é. Seria justo com quem passa ali todos os dias? Não há outra forma de reivindicar a causa estudantil?

E os professores desse blog, concordam com isso?

Vitor Peixoto disse...

Prezado(a),

Esse blog é formado por (ex)alunos da UENF, mas nem por isso é um grupo que compartilha das mesmas idéias e ideologias. Muito antes pelo contrário, a diversidade é sua marca.
Desta forma, posso apenas responder por mim: abandonei o movimento estudantil justamente quando deixei a UENF. O meu retorno à Universidade não significa um retorno ao movimento.
Não obstante compreender a necessidade do bandeijão, os movimentos sociais não fazem parte dos meus objetos de análise. Portanto, não tenho opinião que mereça ser emitida sobre o assunto.

Abraços,

Vitor Peixoto

Fabrício Maciel disse...

Uma sociedade é feita por lutas políticas, operadas sempre por segmentos assimétricos. se o anonimo nao acha justo fechar a BR, deve se manifestar e articular politiamente contra isso, seguindo o exemplo dos estudantes em prol do que acham justo. é assim que se pratica democracia.

marianne disse...

A luta não é pequena! A luta por um bandejão sai dos muros (que não deveriam estar ali!!) da UENF!
Vai contra um processo de sucateamento da Universidade PÚBLICA! A luta pelo bandejão é grande por bater de frente com os interesses deste governo genocida. Essa "pequena causa", aos poucos, une :estudantes, servidores, professores, funcionários- tanto da UENF quanto de outras universidades públicas (que também lutam por melhorias!) e trabalhadores de dentro e de fora da Universidade. E é justamente por proporcionar esta união que a luta é grande e é justa!
Vamos às ruas!
..E vamos mostrar a cara!

chica da silva disse...

meu pai eh ajudante de caminhoneiro e lá em casa só tem comida quando tem frete. as vezes a gente so pensa na gente mesmo, nossa causas eh sempre mais justa do que a du outros. tem gente que vive da br. tem gente que chega de outro municipio precisando de hospital e usa a br pra isso.
sugiro até uma bolsa familia para os estudantes da uenf, mas fechem o aeroporto bartolomeu lisandro invés da br-101. os genocidas do governo chegam por la.

Brand Arenari disse...

Medidas como fechar a „Br“ sao tomadas quando o diálogo se esgota, eu não estou aí para saber em que pé está as negociações, mas posso dizer que em muitos casos é uma medida legítima. E nesses tempos em que a articulação política anda mal, é um orgulho para uma sociedade ter grupos com a capacidade de articulação para fechar uma das vias mais importantes do país no objetivo de lutar por seus direitos. Quem é capaz de fazer isso hj, é capaz de fazer muito mais por sua sociedade no futuro.
Como bem disse a Mariane, lutas concretas como a do bandejão são apenas o símbolo, ou o mote, de lutas maiores com fins bem mais amplos.
Dona Chica, eu não conheço todos os alunos do Movimento estudantil da Uenf, mas alguns deles. Por isso posso lhe garantir que, diferente daqueles que se travestem de defensores dos ultra-pobres e ultra-oprimidos, eles não são insensíveis aos outros problemas da sociedade.

Juliana Tavares disse...

Olá, anônimo!
Você questionou se é justo fechar a BR 101. Eu queria te perguntar: é justo que a universidade pública seja restrita apenas a quem pode sustentar um aluguel caro nos arredores da uenf e comer em restaurante a quilo? É justo que os estudantes desistam de seus cursos por não conseguirem se manter na universidade?
A taxa de evasão na uenf é alta e não são preenchidas todas as vagas em determinados cursos, porque os estudantes tem fome, os estudantes precisam de apoio para que o acesso e a permanência na universidade sejam realmente democratizados.
Protestos como fechar grandes rodovias são justos porque é a única maneira que nós temos de divulgarmos nossa luta, chamar a atenção da mídia e da população. As pessoas precisam saber, participar, apoiar, uma vez que a uenf pertence a toda a comunidade campista.
Durante o protesto, muitos caminhoneiros manifestaram seu apoio à nossa causa e isso é muito gratificante! Quantos deles poderão ter filhos ou netos estudando na uenf?
Gostaríamos que a reitoria, o Estado, todos os órgãos (in)competentes olhassem para nós, nos recebessem sem que precisássemos tomar essas medidas, mas não existem outras vias!
A causa não é pequena! Hoje a uenf tem mais de 3000 alunos entre graduação e pós, funcionários, professores e todos precisam comer. Imagine quantos ainda passarão para uenf e precisarão desse bandejão.
Acho realmente que 30 minutos de estrada parada valem um restaurante universitário por tempo indeterminado!
Respeito sua posição, mas precisamos dimensionar melhor a importância dos atos políticos que são justos e necessários para corrigir as distorções de nossa sociedade.

Acampamento UENF disse...

Os estudantes enviaram ofícios pedindo reuniões com Comissão de Educação da ALERJ, na pessoa do Deputado Comte Bittencourt. Solicitaram também reuniões com o Secretário de Ciencia e Tecnologia, o Secretário de Planejamento e o TCE (Tribunal de Contas do Estado).

Isso deve fazer uns 30 dias já. Nunca recebemos resposta!

Por isso fechamos a rodovia! No entanto a organização se preocupou em manter um espaço aberto para Ambulância ou Carro do Corpo de Bombeiros. Espaço que felizmente não foi utilizado, por não ocorrer nenhuma tragédia na hora.

Os caminhoneiros que se atrasaram devem lutar pelos seus direitos. Se eles acabam culpados por um atraso que não foi culpa deles, então chica e anônimo, vocês devem reclamar com as empresas que os contratam. Não com os estudantes!

O atraso foi no máximo de 1h e meia. Não mais que isso.

O Ato foi um símbolo. Depois do ato estamos tendo muito mais atenção do Estado e da Reitoria. Embora o estado ainda não nos tenha respondido os ofícios e a reitoria ainda não tenha dito:


ONDE ESTÁ A VERBA DO BANDEJÃO?
Saudações e vamos à luta!