quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Do Futebol, multidões e vaias


Ontem mais uma vez a Seleção brasileira de futebol fez um jogo pífio. Depois de uma boa partida contra o time chileno, novamente assistimos uma partida medíocre. Como era de se esperar, a platéia no Estádio João Havelange (o Engenhão) vaiou por diversas vezes.

Vaias são manifestações de desaprovação por excelência. Quando realizadas por aglomerados de indivíduos se tornam ainda mais contundentes. Quem vaia é quase sempre fácil de identificar. Mas e o vaiado? Quem é o alvo daquela catártica manifestação coletiva? Mesmo quando alguém está em destaque, isolado, no pedestal ou no coreto não é óbvio que seja ele o alvo das vaias.

Lembro-me de uma apresentação, em meados da década de 90, do Lulu Santos no Estádio do Americano (o Godofredo Cruz). O cantor e compositor voltou do intervalo enquanto a multidão entoava uma frase típica da daquela década “ah, eu to maluco!”. O público foi repreendido pelo artista com um esbregue desses que envergonham até meretriz aposentada. Logo em seguida uma vaia um tanto tímida começou a ser ensaiada e rapidamente contaminou boa parte dos presentes. Fiquei um tanto intrigado e comentei minha dúvida com uma amiga que me acompanhava. Recordo que ela acreditava que a vaia era direcionada ao intérprete, já que ela havia abandonado o palco para consumir substâncias proibidas e voltara com aquela deselegância – afinal ninguém estava ali para levar sermão de chincheiro, afirmava ela. Eu acreditava que era parte da multidão desaprovando os que cantarolavam aquele néscio grito, ou seja, era um apoio ao esbregue do artista. Acabamos indo dormir, a querela era indecifrável!

Hoje pela manhã, abro os jornais e me deparo com interpretações conflitantes sobre as vaias do jogo de ontem. Um colunista inferiu que as vaias no momento da substituição do Ronaldinho Gaúcho eram direcionadas ao técnico Dunga, já que os torcedores estavam há muito descontentes com o esquema tático da seleção. Nos telejornais, outros jornalistas/comentaristas interpretaram que o próprio jogador era o alvo das vaias, pois havia sido vaiado as poucas vezes que estava com a posse de bola.

Novamente fiquei intrigado. Afinal, para quem eram aquelas vaias? Foi quando me lembrei de uma aula sobre individualismo metodológico e inferência ecológica. O curso era sobre racionalidade, e o assunto-chave era os modelos explicativos do voto. Lá aprendi que não se pode fazer inferência para os indivíduos por meio de dados agregados, sob o risco de cometer a tal da inferência ecológica – pecado quase mortal para nós Cientistas Políticos (apesar de cometermos quase sempre).

A forma para se eximir este equívoco metodológico é perguntar aqueles que tomam as decisões os motivos pelos quais aquelas decisões foram tomadas. Pronto, está aí a principal justificativa para os surveys! Se quiseres saber como os indivíduos votam, pergunte aos eleitores. Da mesma forma, se a dúvida é para quem a vaia foi direcionada, dever-se-ia perguntar aos que vaiaram. Há até mesmo a possibilidade das vaias não serem direcionada a qualquer um dos dois. Somente os que tomaram a decisão de vaiar podem responder os motivos e os alvos das vaias.

Como futebol não é Ciência, continuo a acreditar que as vaias de ontem eram tanto para técnico quanto para o jogador. Se eu tivesse como pagar a extorsiva entrada do jogo de ontem, ao menos eu teria vaiado os dois.

2 comentários:

Amaro disse...

Vitor

Sou de opinião que o voto nulo, em branco ou a abstenção, só deve ser exercido no segundo turno. Porque ao fazermos essa opção no primeiro turno, estamos baixando o coeficiente eleitoral, e favorecendo exatamente aos grupos que são o principal alvo de nosso repudio.

Com o coeficiente eleitoral baixo um deles conseguirá, certamente, se eleger no primeiro turno. E passará a usar isso, como uma forma de propaganda política, tipo o povo de Campos em sua maioria nos preferiu logo no primeiro turno, e “esqueceram” de informar que essa vitória aparentemente consagradora, só foi conseguida devido ao grande índice de votos brancos, nulos e abstenções.

Defendo, portanto que todos nós, que não estamos satisfeitos com o rumo da política em Campos. No primeiro turno, votemos em qualquer um dos candidatos a prefeito que não seja Rosinha e Arnaldo, para obrigarmos a ter um segundo turno.

E ai sim, no segundo turno vamos votar nulo, em branco ou nos abstermos, mostrando assim de forma direta o nosso repúdio a esse grupo político que domina a política de nosso município há vinte anos e tanto nos envergonha.

Qual é a sua opinião sobre o assunto? E do restante do grupo?

Vitor Peixoto disse...

Amaro,

Sua lógica é correta, ou ao menos coerente.
Apenas o termo "coeficiente eleitoral" não é o mais apropriado para eleições majoritárias. Mas não compromete o raciocínio.
Sobre o ato de se abster, já discutimos aqui no blog sobre esse comportamento. Se o fizer, faça com o voto BRANCO, não com o nulo. Na realidade, não produz efeito algum, ambos serão absolutamente desconsiderados. Entretanto, o voto nulo se "perderá" entre os equívocos (aqueles eleitores que tentaram votar em determinado candidato, mas que por algum motivo não conseguiram se lembrar do número correto). Para o voto BRANCO existe uma tecla específica para ele, ou seja, quem o fizer, o fará conscientemente.

Não sei do posicionamento do grupo, eu não voto em Campos.

Abraços,