sábado, 22 de novembro de 2008

O que significa ser velho no Brasil?


por Roberto Torres


Segundo projeção do IBGE, em 2025 o Brasil terá 40% dos idosos de toda a América Latina. O estrato significativo de idosos já é um tema político que preocupa os formuladores de políticas de Estado. Como Michel Foucault queria mostrar, a questão mais importante do Estado moderno é o patrocínio da vida dos “amigos da sociedade” e o descaso estratégico com seus “inimigos”. Assim se dá, para ele, a “luta de racas” em todas as sua dimensões possíveis: entre pessoas de diferentes cores, origens sociais, faixas etárias e tudo que mais possa configurar uma diferenciação entre os que representam uma existência bem sucedida e aqueles que mostram a assustadora face de uma vida decadente.

O Estado moderno precisa assegurar publicamente que ele consegue controlar a circulação dos inimigos, ou seja, de todos aqueles que representam a decadência de uma modelo de “boa vida” que os cidadãos compartilham ainda que implicitamente, pelos medos e reações automáticas que demonstram diante dos “doentes”, “ inválidos”, “brochas”, e mórbidos de todo tipo. Sem dúvida prolongar a vida é a meta mais importante que o Estado mobiliza para formular, legitimar e implementar suas políticas tendo em vista o comportamento dos diferentes estratos sociais e do restante da sociedade em relação a esses estratos específicos.

O envelhecimento é sempre um problema porque ele ameaça exibir pessoas muito perto da morte e que nos fazem lembrar que, no limite, não se pode controlar pela quantificação a questão da vida; esta que, somente no Estado moderno, se tornou uma questão pública. Parece que quando um estrato envelhecido da população assume visibilidade ele poem em xeque o critério de legitimação da noção de boa vida que orienta toda a relação umbilical entre Estado e ciência nas sociedades ocidentalizadas de todo o Planeta. A questão do “sentido qualitativo” da vida parece assumir certa proeminência quando o desafio não é mais o de fazer as vidas individuais durarem e sim o de atribuir um sentido ao resultado bem sucedido.

O que significa ser velho num país hiper-sexualizado como o Brasil, onde a exaltação da juventude é, explícita ou implicitamente, a base de todos os nossos valores nacionais?

4 comentários:

Fabrício Maciel disse...

Como se já não bastasse a condição objetiva de ralé da maioria deles, ainda sao punidos nesta dimensão primária da auto-estima e do reconhecimento. Não por acaso, muitos velhos com dinheiro compram exatamente o sexo como compensação para outras frustrações. Excelente insight Roberto.

Roberto Torres disse...

Como encontrar reconhecimento social na velhice, e que tipo de reconhecimento pode trazer sentido nesta altura da vida?

Paulo Sérgio disse...

A distinção entre ser ou não “velho” pode ser discernível também pelo pensamento substancialista de que fala Bourdieu, que, como bem frisou Roberto, é um condicionante das práticas racistas. Uma questão (talvez não tão óbvia) no que se refira à não-dissociabilidade do planejamento das políticas públicas de uma noção compartilhada de boa vida é a re-significação da velhice como um atributo incontornável dessa noção. Assim, a juvenilização da sociedade é cada vez mais contraposta a um ideal de ancianidade como justa medida de uma existência dotada não apenas por segurança econômica, mas por novas demandas de reconhecimento social. Uma pergunta correlata àquela que encerra o texto: o que é envelhecer num quadro de privatização agressiva dos serviços sociais? É um pouco prosaico formular uma questão nestes termos, mas quem pode “comprar” o futuro, face à ausência de políticas públicas que sejam de fato universalistas?

Roberto Torres disse...

A quem a sociedade permite envelhecer de modo digno..