sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sobre botequins, botecos e afins

George Gomes Coutinho

Ao me deparar hoje com o delicioso tema da Rede de Blogs de Campos-RJ não resisti e fui impelido a escrever essas parcas linhas sobre o tema. Botecos, botequins e bares na cidade. Nada mais citadino na nossa sociabilidade moderna.

Campos não tem cafés livres, literários, com uma pequena burguesia pulsante e ávida por novidades da avant-garde pós-nacional. Neste sentido os botequins ocupam um papel central na sociabilidade sócio-política-cultural na planície. É o espaço onde os grandes temas circulam, são discutidos com paixão e, não poucas vezes, onde são alicerçados os arranjos que só são possíveis em reuniões face-a-face. Os botecos e botequins fazem parte desta grande teia fluida chamada “Esfera Pública” onde os fluxos comunicativos encontram vazão e podem redundar em ações políticas, sociais e culturais relevantes para o nosso cotidiano e dos partícipes da cidade.

Nestes termos que me recordo de um determinado jornalista (sic), hoje em baixa, que não poucas vezes maldizia sobre o famoso “Therapia´s Bar”. Amaldiçoava publicamente o espaço e seus freqüentadores, referindo-se ao boteco alvinegro com franca hostilidade, justamente pode este simbolizar ainda algo de subversivo. Talvez mal soubesse ele que justamente ao invés de esvaziar o conteúdo político das espontâneas reuniões do Therapia´s este o reforçava ao trazer a tona o rótulo de um bar de “meio de esquerda e de meio intelectuais” como dizia o célebre Mário Prata. Não compreendia, o tal jornalista, o bem que fez ao destilar sua cólera irascível e uma falsa moral carola.

Na verdade os temas que já pude discutir neste famoso boteco, dos proprietários Assis e Dona Ângela, envolviam a insatisfação com o uso perdulário e irresponsável de recursos públicos, as patologias da sociabilidade campista, a corrupção sistêmica. Enfim, tudo aquilo que justamente representava simbolicamente o que a pena do referido jornalista defendia. Cada momento em que fazia suas ponderações implicava compreender que estávamos do lado correto. Não há legado do jornalista de coleira, lembrando aqui o Xacal, mas o Therapia´s continua.

Todavia não pensem que o botequim seja um espaço eminentemente anômico, sem regras estabelecidas. O boteco, como todo micro-cosmo social, estabelece suas regras tácitas para definir quem serão de fato seus freqüentadores, qual será o repertório das conversas, quais posturas devem ser incentivadas ou rechaçadas. É um espaço de interação social que explica porque determinados agrupamentos urbanos elegem espaço “a” e não espaço “b” para seus conluios. O boteco é um espaço seletivo, reproduz ali as regras sociais macro, e não podemos perder este ponto de partida. Em caso oposto estaremos idealizando esta importante instituição citadina e esquecendo o que de fato é: um espaço não harmônico, contraditório e em certos momentos até mesmo reprodutor de uma lógica agonística.

Prosseguindo, para além do Therapia´s, lamento profundamente que o “Mineiro Maneiro”, ali no “baixo Pelinca”, esteja neste momento fechado. Espero mesmo que retorne pois trazia uma das melhores cartas de cachaça da região, onde fui apresentado à deliciosa Germana, além de um cardápio portentoso, mineiro, com tudo o que esta cozinha tem de mais aprazível.

Por fim não poderia deixar de trazer a tona um boteco não campista.. O bar de Carlinhos Pisca-Pisca onde tive o prazer de fazer um breve e divertido trabalho de campo sobre a sociabilidade dos botecos na praia de Atafona. Este me ensinou esse importante detalhe das regras que se impõem sobre todo e qualquer espaço social. Incluso aí os botecos.

Longa vida aos botecos e botequins. São fundamentais para a Esfera Pública e para as nossas gargantas secas em dias suorentos de verão. Como diriam os alemães: "Prost!".

10 comentários:

Roberto Torres disse...

Até me deu vontade de toma uma no Therapia,s agora! A comunicacao cotidiana (noturna) dos botecos talvez seja mesmo muito mais pujante do que a aura dos cafés. Eu particularmente nao gosto da esfera pública sóbria, onde a polidez e o distanciamento burgues nao deixam fluir o calor das boas discussoes. O alcool é indispensável pra que a esfera pública ensaie sempre, no momento dos debates racionais, a carga afetiva necessariamente vinculada a todos os argumentos. As reunioes em casa tambem sao muito interessantes, porque, juntos com os botecos, liberam as pessoas de terem que ser muito comedidas em suas expressoes. Sinto saudades.

George Gomes Coutinho disse...

Sim meu velho..

Apolo e Dionísio são faces de uma mesma moeda...É estupidez negar um ou outro e absolutizar qualquer dos lados.

Há tempo e hora para tudo.

E certamente sentimos sua falta aqui nos porres homéricos (risos).

Grande abraço!

tainá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Sérgio disse...

Belo texto, George! Engraçado... a última vez que estive no Terapas foi justamente para tomar uma contigo e com o Roberto. Saudades dessa turma boa!

Abraços.

Anônimo disse...

Por favor! Me digam em qual (ais) botecos vcs. estaram, pois quero manter distância...
Gente chata! Que papo esquisito...

Em tempo; O Carlinhos pisca-pisca não será mais o mesmo depois que a esfera pública passou por lá!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Roberto Torres disse...

Esse anonimo me fez lembrar uma Tia minha analfabeta na primeira vez que viu alguem falar ingles: "esse povo fala enrolado ne?", rs

Mas, assim como eu fiz com minha simpática tia, faco com vc, prezado anonimo: o que é um papo esquisito? O que é um papo nao esquitsito?

George Gomes Coutinho disse...

Pois é...

Chato neste caso é o oposto de superficialidade....

E há algo que nos separa.

Eu assino o que eu escrevo. E vc?

Anne Petit disse...

George! Belíssimo texto...os botecos, botequins e afins são de fato um dos mais prazeirosos lugares para inflamar discussões sobre os mais diversos propósitos...e nada melhor do que discutir bebericando e trocando além de idéias, risos. Nesses momentos podemos partilhar um pouco do que nos constrói e tentar compreender o que de diferente se constrói no outro. E como disse o Roberto o alcool faz fluir os ensaios e emanar o calor, que parte das boas amizades, ou talvez de uma simples vontade de saber.
Abração.

George Gomes Coutinho disse...

Muito obrigado pela generosidade de sempre Anne!

Grande abraço.. e... porque não...salut!