quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A NATURALIZAÇÃO MODERNA DA MORTE

Fabrício Maciel
Os últimos posts de Roberto tem sido muito pertinentes para mostrar a gravidade da situação entre Israel e palestinos, com episódios novos de uma velha história. Isto nos obriga a arriscar uma análise sobre seu significado. Que a mídia inventa mentiras, sensacionaliza, induz a visão, etc, já sabemos, e o trabalho de jornalistas sérios que tentam nadar contra tal poder sempre será fundamental. O intrigante é tentar compreender qual são os mecanismos e a lógica de legitimação do tipo de morte identitária ou coletiva que presenciamos nos últimos tempos.
Em todas as épocas humanos de diferentes interesses e orientações cognitivas ou impulsivas se mataram constantemente. Basta assistir qualquer filme sobre queda do império romano pra ver. É óbvio que sempre houve uma razão para tais fatos. Explicar as mortes de antigamente é relativamente fácil, basta atribuir tudo à barbárie que já se diminui bastante o problema. Mas como justificar a barbárie em tempos considerados civilizados? Não apenas em Israel, mas também no recente Kosovo e muitos outros casos é desnecessário dizer que os massacres são brutais. Por que nosso mundo consegue conviver com eles? Por que não há uma mobilização de sociedades civis inteiras, ou de uma sociedade civil transnacional, nem de governos, contra eles?
Dizer que é interesse material de alguns governos hegemônicos é pouco. Nenhum interesse material no mundo moderno se legitima por si mesmo. Logo, caímos no argumento da cultura, são choques culturais, choques de civilização, etc. Aqui me parece residir o problema. A noção de cultura é tão sacralizada e engessada na modernidade que ela é o ponto final de qualquer análise. São interesses culturais em choque e pronto. Por isso, apesar de todo nosso espanto, todo o massacre que assistimos agora é legitimo. Legítimo por que em última instância são interesses humanos em conflito. Não legítimo para mim, sociólogo, mas para o imaginário ocidental como um todo, para o nosso senso comum mundial. É assim que qualquer ação humana se naturaliza, se banaliza, sendo baseada em um argumento inquestionável. Quem questiona a legitimidade da cultura, da singuralidade cultural?
Por isso, vivemos uma tensão constante em nosso imaginário, o pavor diante de ações como tais mortes e a incapacidade de combate-las com ações civis, restando apenas as militares. Isto por que o conceito de cultura, vago e impreciso, é o naturalizador por excelência. Quando acaba a análise joga-se tudo na sacola da cultura e está resolvido. Não é um problema de cultura. É uma questão de contingência histórica que coloca interesses e impulsos antagônicos em choque.
Mas vamos para as soluções. Sempre pensamos em soluções institucionais. Nos mecanismos internacionais, ou na sociedade civil mundial. Esta está aprisionada pelo senso comum da cultura. Os primeiros devem ser analisados. As instituições internacionais democráticas são universalistas em sua função manifesta, e são as mesmas que em boa parte apoiam os Eua e Israel. E agora? Isto por que as instituições são ambíguas, em seu potencial de desdobramento prático, e não são neutras, ou seja, são recheadas de valores e significado, os mesmos que naturalizam a cultura e o expansionismo universalista com os desdobramento de guerra que presenciamos. Logo, temos um imbróglio. O papel da ciência é tentar explicitar ao máximo a contingência histórica que levou as instituições e sociedades modernas à dificuldade de praticar sua função manifesta. Este é nosso longo caminho.

2 comentários:

O Pescador disse...

Além da relativização da cultura - que nada mais é do que uma outra forma de universalismo, como muito bem demonstrou Bourdieu - temos um afrouxamento de um valor universalista que constitui elemento fundamental de nossa moral ocidental moderna que é o respeito a vida. Sua manifestação normativa expressa nos direitos humanos e nos chamados crimes contra a humanidade está sendo posta em suspensão em nome da doutrina da guerra preventiva que procura ter legitimidade na auto-defesa contra ameaças externas. Dessa forma, as forças bélicas mobilizam eufemismos discursivos, a exemplo de "danos colaterais", para responder aos casos de genocídio praticados por eles. Pois é, Fabrício! temo que o que estamos vivenciando é na verdade uma naturalização do assassinato em massa.
Abraços e parabéns pelo texto!

Fabrício Maciel disse...

Obrigado cara. Tudo isso só comprova que as forças da cultura objetiva, como confirmariam Simmel e Weber, já chegaram ao limiar de não apenas ameaçar, mas de fato destruir a vida humana real e as subjetividades, dos que morrem e dos que permanecem afetados de alguma maneira, como todos nós. E nós continuamos desesperadamente tentando explicitar a especificidade deste mundo, pois só assim se consegue vislumbrar e agir em direção a outro.