quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PERIFERIA É TUDO IGUAL

Fabrício Maciel

Conhecendo algumas partes do Nordeste é impossível não lembrar de Campos. A (des)estrutura de cidades periféricas, inclusive a saudosa Itaperuna do meu chará Bill, é sempre a mesma. A cara sofrida do povo também. Perto de Recife situa-se Caruaru, famosa por sua Feira de pequenos comerciantes e por ser, como várias cidades aqui, terra de poetas e artesãos. Regina Casé se veio aqui certamente disse que o povo daqui é tão feliz quanto o da África, e diria o mesmo de Campos. Sua postura politicamente correta é a mesma da sociologia conservadora que insiste em elogiar a cultura local e não ver as dificuldades materiais do povo. Não há besteira mais inconseqüente na academia do que isso.

Como em qualquer lugar, o capitalismo aqui se apropria das supostas singularidades culturais locais para esconder toda sua força visceral. A força da cultura local na cabeça das pessoas precisa ser explicada. Sempre achei Campos uma cidade desagradável, suja, barulhenta, etc, bem como sempre me indignei com seus níveis de desigualdade, naturalmente. Mas nunca entendi por que muita gente de fora consegue achar Campos aconchegante. Agora entendo. Visitando algumas praias do Nordeste, famosas por suas águas límpidas, pude entender a força que o discurso da localidade tem para dinamizar a economia local e esconder a lógica de desigualdade do capitalismo como um todo, ou seja, para esconder sua condição de sistema mundial, como diria Wallerstein, numa suposta especificidade local. Besteira total. Não existe cultura local ou economia local. Os bonecos de barro que se fazem aqui não são talento exclusivo de quem mora aqui. Alguém que não é daqui pode fazer. Parece simples, mas a esquizofrenia do relativismo que exalta a cultura local consegue construir o contrário disso muito bem.

Voltando às praias, com o olhar do sociólogo chato que estraga prazeres dos discursinhos locais, e para provar que não estou sendo leviano, consegui ver algo ruim nas praias do Recife e em contraste entender por que gente de fora vê algo legal nas praias de mar imundo da região próxima a Campos. As chamadas praias urbanas daqui são tensas, lotadas, com os prédios logo do outro lado assombrando a natureza e impondo o peso da vida urbana. Não se esquece o cotidiano da semana do escritório. Ele está logo ali, diante do mar lindo. Nas regiões de Campos não é assim, o ambiente é distante disso e transmite por isso a sensação de fuga da cidade. Por isso é aconchegante. No entanto, estas diferenças locais são maximizadas pela propaganda do turismo e sempre escondem o mais importante, a vida real das pessoas em suas dificuldades.

O capitalismo se reproduz na lógica centrífuga, do centro para os arredores. O sistema mundial é assim e as diferenças regionais dentro dos países também. Campos e Nordeste são periferias do capitalismo brasileiro que é periferia do capitalismo mundial. Mas para nunca se mostrarem como tais se enfatizará sempre no senso comum o valor da cultura. De fato ela é motivo de orgulho para as pessoas, os artesãos e poetas sentem de verdade o valor do que fazem. Mas sentem também as dificuldades materiais. Muitos sentem a fome, vendendo seus cordéis por um real dentro dos ônibus. Isso não é brincadeira, assim como a sociologia não deveria ser. Não dá pra tolerar mais o discursinho da cultura local e de seu valor. Não dá mais pra tolerar a palhaçada relativista conservadora que legitima a fome das pessoas. Conversando com as pessoas vemos que a cultura é importante, mas é apenas uma pequena parte de seu cotidiano, de seu imaginário, não isenta da angústia de por comida na mesa. Não há identidade no caixão. Chega de palhaçada na sociologia. Lugar de Regina Casé é no Fantástico, cujo nome sugere bem a predominância da fantasia sobre a realidade.

11 comentários:

Roberto Torres disse...

Fabrício, o seu texto faz afrimacoes muito fotes... e por isso mesmo ele é ótimo! rs...Marca uma posicao política presente na ciencia que só nao ver quem nao quer. E a posicao que voce marca é nao só política dentro da ciencia porque afirma uma visao valorativa de mundo ancorada na ciencia, mas também porque ela contribui para uma ciencia melhor, segundos os critérios internos da ciencia. O conceito de cultura é um lixo! Deve ser abolido enquanto conceito. Ela faz parte da semantica da modernidade, foi adotado pela ciencia, no passado com alguma utilidade em libertar a ciencia social de nocoes racialistas, mais hoje ele é completamente engolido pelo senso comum erudito. Cultura pode ser tudo, e um conceito que pode abarcar tudo nao é pode ser usado com conceito.

Fabrício Maciel disse...

òtimo Roberto, a idéia é chutar o balde mesmo, temos que explicitar essas babaquices disfarçadas de ciencia séria e cuidadosa e que ainda estigmatizam como raivosas qualquer postura que tente enfrenta-las. Outro ponto é voltar a usar e definir o conceito de capitalismo, que mesmo quando nós usamos modernidade, esquecemos dele, precisamos reconecta-los, e precisa-los como Vitor já sugeriu.

bill disse...

Alguns arquitetos, "mudernos", dizem que a arquitetura das "vilas" e "favelas" dos grandes centros urbanos é a expressão da arquitetura pura, popular, expressão sem intermediários colonizados ou da avant guarde de qualquer movimento arquitetônico erudito. E segundo eles, é por isso que ela se manifesta mais ou menos da mesma forma em qualquer parte do mundo. A explicação da diferença é somente a cultura. Bem, muitos chamam isso de populismo arquitetônico, e talvez isso seja a expressão do que vc está falando Fabrício. Não dá para afirmar o contrário: estas edificações, os "barracos", são a expressão da "arquitetura da subsistência"! É a falta de tudo o que caracteriza esta arquitetura, da mesma forma que é a pobreza o que carcteriza os lugares periféricos. Enquanto aqueles que olham do centro contemporizando a barbárie com expressões populistas como "expressão popular", naturalizando a pobreza, os que olham da periferia continuarão olhando o centro e reproduzindo sua situação ao reproduzir o olhar daquele, que, mais uma vez, naturaliza e embeleza a subsistência.

Abraço.

Roberto Torres disse...

Como podemos entao pensar num olhar além dos limites que a diferenciacao centro-periferia impoe a ambos..

Fabrício Maciel disse...

Então amigos, temos que ter claro que o olhar de uma cultura legítima, algo considerado bom e belo por todos, perpassa em boa parte a todos. Um bom caminho é explicitar a mentira dos discursos locais que esconde a relação da feiura periférica com a beleza dos centros, sejam nacionais ou mundiais.

Adelia disse...

Não há nada ontologicamente exceto o corpo faminto. Somos animais. Isso é pressuposto. Marx (e não sou arqueóloga) está certo. Se me perguntam se quero ser chamada por meu nome e que escrevam Adelia e não Adelha ou, se jogada na sarjeta, quero um prato de comida, chamem-me de imbecil, dêem-me um tapa na cara, mas, por favor, não me neguem o prato de comida! Nada há de belo na privação de necessidades, Casé! Até aqui concordo com F. Maciel. Depois, discordo, porque a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer ser tratado pelo nome. Não quer que nos violentem. Mas p tal, eu preciso me sentir GENTE. Não se sente GENTE sem cultura, i.e, sem nos sentirmos pertencentes de um GRUPO/COMUNIDADE e sem auto-estima (individual PORQUE coletiva). Se o coletivo são os vizinhos ou a humanidade, daí q é outro papo. Aqui, estréio meus comments ... Abçs aos bloggeros de plantão! Ps: sobre sentir-se estranho em sua "cultura", depois q se mata a fome, novas necessidades surgem (de novo, o Marx ...) ... a da autenticidade e do resconhecimento. O q estamos fazendo aqui - no blog - se não exercendo nossa SUBJETIVIDADE. Nós q não estamos famintos de comida, claro. Outras fomes existem SIM. Obrigada, Fabrício, pela chance de PENSAR JUNTO. Saudades, daqueles q estão em Berlin ... morro de calor por cá.

Fabrício Maciel disse...

Querida profra. que bom ve-la por aqui. Acho que náo discordamos na segunda parte, tenho Marx e Bourdieu o tempo inteiro em mente neste tipo de avaliacao. concordo que temos fome de tudo isso que coloca, o problema da socilogia relativista predominante è dar enfase nas fomes imateriais e usar a funcao social das identidades para ignorar a relevancia analitica da infra estrutura tao cara ao velho barbudo.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Parabéns pelo texto, o combate ao relativismo pós-moderno e conservador é extremamente necessário. O Universalismo nunca foi tão necessário.

P.S: Gostei da referência a Caruaru, meu pai é de lá, mas infelizmente não a conheço.

Um abraço!

Fabrício Maciel disse...

É verdade Maycon, pois o relativismo é o maior particularismo velado já presenciado pela história da humanidade.

Vitor Menezes disse...

Vamos ao que realmente interessa: você foi ou não foi ao forró do Sala de Reboco? (rs rs rs rs)

Fabrício Maciel disse...

Nem tomei conhecimento camarada, diga aí pra gente como é.