domingo, 21 de dezembro de 2008

FÉ NA POLÍTICA?

por Fabrício Maciel
Como meus colegas do blog já vêm ressaltando, esta semana nos faz lembrar da fé. A fé em si mesma é uma prática social universal na história da humanidade. Seu conteúdo, diria o sociólogo clássico Durkheim, reflete sempre a forma das ações intersubjetivas de uma coletividade. O conteúdo da fé evolui, ou se diferencia, historicamente. A fé no Deus uno da trindade não existiu sempre. Mas as sociedades sem ele tiveram seus deuses, enquanto representações imediatas de sua configuração social, que operaram a mesma força objetiva que Bill parece ter em mente em seu texto anterior. Seja qual for o conteúdo da fé, é fato que ele tem força, tem poder, e influencia as ações humanas. Assim, o conteúdo pode contribuir para a direção das ações e mudar a história das sociedades.
Sobre a temática "O que esperar da política em 2009", ela mesma já põe a questão da fé (O que "esperar"). Também temos fé nas questões do mundo laico, e seu conteúdo geralmente é definido pelo senso comum. Bourdieu definiria este como o terreno por excelência dos acordos. Assim, não há dúvida de que todo mundo quer uma política melhor para seu país, Estado ou cidade. Ao mesmo tempo, nosso senso comum, como espaço do conhecimento fragmento, das verdades incompletas e dispersas, que como diria Evans-Pritchard sobre os Azande, se justificam através de conteúdos místicos e nunca se contrariando logicamente, sustenta um mal-estar com a política e com os políticos. O brasileiro comum geralmente demoniza a política.
Particularmente quero propor um tipo de fé específico sobre a política. Algo que lembra os "homens bons" de que falava Sérgio Buarque. Só podemos acreditar na política se acreditarmos que homens de fé ocupem a política. Mas não cristãos, meramente, ou evangélicos, não é isso. Trata-se de homens que tenham fé em suas próprias ações, fé na sociedade, fé no potencial de mudança que toda realidade social apresenta. Homens de fé tentarão identificar tal potencial. Como já tratei em textos anteriores aqui, o senso comum mundial contemporâneo, que afeta nossa política, é niilista, anti-utópico, nem mesmo o cristianismo parece superá-lo. É preciso fé, de eleitores e políticos, para superar este senso comum negativo. Ele é histórico, fruto do fim da guerra-fria e de vários outros fins articulados, montados pela ciência: fim das história, das grandes utopias, do socialismo, do marxismo. Ou seja, fim da fé, da capacidade de ter fé. Uma era onde não se pode ter fé. Mas esta interpretação de nosso tempo está equivocada, pois todas as sociedades tem fé em em algo. Talvez a nossa seja a fé na incapacidade da fé.
Por isso é preciso acreditar na ação política, mas em homens e mulheres que acreditem também. E acreditar também é compreender. Se compreendemos que valores objetivos de cunho universalista podem ser desenvolvidos e compartilhados na prática, então temos fé. E como diria uma das frases clássicas no tema "a fé sem obras está morta". Portanto, eleitores, políticos, intelectuais, vamos à luta, acreditando que cada ação consciente no mundo pode alterar significativamente sua direção.

8 comentários:

Roberto Torres disse...
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Roberto Torres disse...
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Roberto Torres disse...

Ótima Análise Fabrício! Concordo plenamente com voce que o componente da fé é decisivo na capacidade de mobilzacao política, de renovacao, de engajamento etc. O carisma do líder, quando ele consegue mobilizar seus "liderados" (que na verdade também produzem o lider) sempre tem a ver com a fé. A fé que ele demonstra ao criar rituais onde ele se doa para os liderados, doacao está que, como Marcel Mausss iria dizer, cria um circuito de "trocas morais" capaz de produzir e reproduzir a obrigacao de doar-se, de engajar-se. Quando Lula fala que depois dele nao temos mais nenhum lider nacional, acho que ele percebe que nao nenhuma trajetória que possa ser identificada como sendo de doacao para a nacao. Eu acho que quando se pergunta sobre as esperancas políticas de Campos o que se busca é a possibilidade de haver um circuito de trocas morais entre os grupos, fracoes e classes sociais capaz de produzir uma forca coletiva diferente do clientelismo (uma troca moralmente inferior de favores, diferente do que acredita a antropologia cínica da política) que define a relacao entre Garotinho, Arnaldo, suas respectivas gangues e seguidores.

Fabrício Maciel disse...

òtima idéia esta do Mauss, Roberto. Uma troca moralmente universalista depende da crença na ação individual, e não individualista, no melhor sentido do liberalismo político, que infelizmente aprendemos pouco em nossa formação.

Roberto Torres disse...

Fabrício, o negócio é que, em termos concretos, quem realizou o componente virtuoso do liberalismo foi a social-democracia e o socialismo real em alguns casos. Nao podemos creditar na conta dos liberais a virtude do liberalismo. Com a enfase bitolada no individualismo atomista, o liberalismo político "realmente existente" nao consegue reconhecer e nem icentivar outro tipo de "troca moral" que nao seja fundada nas regras fáticas do mercado. Nao se reconhece, em termos concretos, os avancos reais do socialismo em termos de republicanismo, nos sistemas de saúde e educacao de Cuba, por exemplo.

Fabrício Maciel disse...

De fato brother, eu estava pensando na dimensão utópica do liberalismo político, que segundo Florestan seria a parte que não tivemos em nossa modernização.

Vitor Peixoto disse...

Fabrício,

Parabenizo pela ousadia de colocar um tema espinhoso em debate. Ainda mais por ter a coragem em declarar-se em favor de alguns princípios.
A partir de então me sinto confortável em discordar. Se toda a humanidade fora constituída e fundamentada em crenças e por toda a sua história assim se manteve, não carecemos de crença. Estamos vivos, ora!
Concordo absolutamente que nenhuma sociedade se estabeleceu sem crenças. Porém, causa-me certo desconforto seu prognóstico por mais crenças. A questão não seria melhor colocada se fosse direcionada moralmente? Afinal, não se pode negar que muitos carrascos nazistas acreditavam piamente na ideologia que seguiam. Muitos justiceiros agem acreditando em suas próprias ações tanto quanto aqueles que se sentaram na santa ceia.
Em resumo, será que a questão não seria "no que acreditar?" em vez de somente "acreditar"?

Grande abraço,


PS: E agora os parabéns publicamente que você merece por mais estes obstáculos que ultrapassara recentemente.

Fabrício Maciel disse...

Querido Vitor, muito obrigado pela força e apoio de sempre. De fato, você está certo, a questão é sobre o conteúdo mesmo. Este debate é bem interessante. NO final do texto eu aludi brevemente a valores universalistas como temos feito em vários textos aqui, não só meus. Mas mesmo dentro destes tivemos historicamente desdobramentos esquizofrênicos, pois podemos dizer que o Nazismo é uma de suas distorções. Neste ponto nao podemos fugir do conteúdo universalista na forma como se desdobrou mais civilizadamente, como nas social-democracias que Roberto lembrou bem. É certo que o modelo de política que políticos sérios no Brasil tentam praticar vem daí. Quando falo em homens de fé estou pensando em uma situação dramática que temos aqui. Antes de pensar no conteúdo, como voce sugere bem, nem mesmo homens de fé temos. Em Campos mesmo, qualquer pessoa que se liga á política só acredita no dinheiro. Então nao podemos ser oito ou oitenta né. Nem nazistas nem interesseiros sem nenhum ideal. O meio termo deve se aproximar da idéia de Habermas sobre espaço público, através do embate de pretensões de validade. Eu e Roberto já criticamos a dificuldade de tal modelo por este sugerir seres humanos substancialmente iguais. Mas como ideal é fato que não temos algo melhor.