sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

"DEZ LIVROS PARA 2009"

por Fabrício Maciel
Caros amigos e visitantes, gostaria de propor esta sessão "Dez livros para 2009" como sugestões de leitura. Penso aqui em clássicos e contemporâneos, que devem andar sempre de mãos dadas.
1 - "O abolicionismo" - Joaquim Nabuco (RJ: Nova Fronteira, 1999) (Para mim, o livro inaugurador do pensamento sociológico no Brasil. Deixa claro como escravidão não era devidamente tematizada em sua época. Seu legado de transformar a síntese entre senhor e escravo em cidadão permanece em aberto ainda hoje, mesmo que tenhamos avançado significativamente)
2 - "A revolução burguesa no Brasil" - Florestan Fernandes (Aqui o mestre Floresta, como grande discípulo de Marx, Weber e Durkheim, percebe a contingência específica da formação de nosso capitalismo, que estabelece ao mesmo tempo uma autonomia relativa das elites e uma heteronomia geral da nação)
3 - "A distinção" - Pierre Bourdieu (há uma edição recente em português) (percebe as dimensões mais imperceptíveis da luta de classes no cotidiano, através de sua dinâmica prática e simbolismo, fundamentais para sua lógica de reprodução no capitalismo contemporâneo)
4 - "Em defesa da sociedade" - Michel Foucault (SP: Martins Fontes, 2005) (nesta coletânea de aulas o mestre Foucault esboça sua teoria do saber-poder historicizando conceitos como raça e nação no ocidente. Tem um final muito bonito sobre o Biopoder desde o séc. XIX)
5 - "Adeus ao trabalho?" - Ricardo Antunes (Corajoso livro onde este brasileiro se posiciona em um debate internacional contra todo o relativismo contemporâneo, cuja esquizofrenia intelectual anuncia os vários fins da história, dentre eles o da sociedade de classes e da centralidade do trabalho)
6 - "A invisibilidade da desigualdade brasileira" - Jessé Souza (org.) (BH: Ufmg, 2006) (Nesta coletânea Jessé responde a críticas nos debates sobre raça, classe e desigualdade no Brasil, suscitados desde seu "construção social da subcidadania", além de apresentar resultados iniciais da pesquisa que explicita a lógica de legitimação e naturalização da ralé na sociedade brasileira)
7 - "O Brasil-nação como ideologia" - Fabrício Maciel (SP: Annablume, 2007) (Neste texto procuro colaborar para uma genealogia da brasilidade, buscando identificar suas principais idéias constitutivas e suas razões de ser históricas, principalmente na obra de autores que considero seminais na reprodução do mito, como José Bonifácio e Gilberto Freyre. Recupero ainda o pensamento de Nabuco como primeiro grande crítico do Brasil ideal)
8 - "A modernidade como desafio teórico" - Brand Arenari; Roberto Torres; et all (orgs) (Porto Alegre: Ufrgs, 2008) (Excelente esboço da singularidade do pensamento alemão, bem como de sua influência no pensamento ocidental como um todo, o que permite ver sua influência no pensamento brasileiro. Destaque para a amplitude do livro, que conseguiu dar conta de uma vasta margem de pensadores e correntes bem distintas naquela tradição)
9 - "Sobrados e mucambos" - Gilberto Freyre (1936) (Curioso notar como nosso maior ideólogo nos deixa esta pérola, onde mostra em detalhes a entrada do estilo de vida moderno, substituindo paulatinamente a sociedade patriarcal, desde o século XIX. Obrigatório para a compreensão do Brasil moderno)
10 - "A ideologia alemã" - Karl Marx (nunca é demais reforçar nosso espírito crítico com um livro inspirador como este. Aqui o jovem Marx desce a lenha em sua tradição de pensamento nacional, detonando o idealismo e esboçando seu materialismo histórico que, salvo todas as críticas recebidas, nos deixa um legado de coragem intelectual perdido em nosso tempo)
A leitura não deve ser feita necessariamente nesta ordem!!

20 comentários:

Xacal disse...

Bela lista...bela lista...um desafio e tanto para "digerir"...

Confesso que aceitarei o desafio...embora um pouco "pesados" para minha hipossuficiência intelectual, pelo menos tentarei...

Gêneros de primeira necessidade...

Fabrício Maciel disse...

Legal Xacal, mande suas sugestões também! um abraço

Rodrigo Manhães disse...

Assim como o Xacal, vou tentar encarar essa também, já que em 2008 não li um livro sequer que não fosse técnico.

Da sua lista eu já li o livro do Ricardo Antunes, vamos ver se consigo cumprir os demais.

Valeu pelas dicas!

Xacal disse...

Bom, sugiro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque...

Memórias de minhas putas tristes, do Gabo...para descontair...

E Deus, um delírio, do Ricard Dawkins, para refletir sobre a onde criacionista que nos ameaça por aqui também...

Fabrício Maciel disse...

Rapaz, você é você mesmo é? ta vivo? legal aparecer aqui no blog meu velho. Se te conheço bem, acho que voce vai gostar do velho barbudo, sempre, e deste do Florestan. Grande abraço camarada.

Fabrício Maciel disse...

Xacal, o clássico raízes eu já li, ele ali aperfeiçoa uma parte fundamental do mito, já germinada em Freyre, com a idéia de homem cordial, sendo esta supostamente nossa maior contribuição ao mundo. O memórias tb já li, lindo livro, endosso. Fiquei curioso quanto ao último, o tema de fato é cortante.

Paulo Sérgio disse...

O exercício proposto por Fabrício é interessante, uma vez que reproduzido por cada um, poderia prover uma amostra, ainda que sumária, de nossos interesses de pesquisa desde à graduação em CS. Provavelmente, surgiria algumas coincidências e divergências cujas mediações serviriam, talvez, de esboço para um programa de estudos.

Fabrício Maciel disse...

É isso ai Paulo, proponha o seu! Há um dossiê na revista Cronos da UFRN sobre ensino médio que você vai gostar. olha lá. Bate no google.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Parabéns pelo post. Gostaria de recomendar alguns livros que estou aproveitando para reler nestas férias. Um abraço!

1 - "Cultura": Raymond Williams

2 - "Estado e políticas sociais no neoliberalismo": Asa Cristina Laurell (org)

3 - "Problemas estruturais do estado capitalista": Claus Offe

4 - "A democracia liberal": C. B. Macpherson

Thiago M. Venancio disse...

Vai ai uma pequena contribuiçao:

Dreams from my father - Barack Obama
O mundo assombrado pelos demonios- Carl Sagan

Fabrício Maciel disse...

Legal Maycon e Thiago. Estou interessado neste do Offe, apesar de discordar bastante de suas orientações como um todo. É um dos teóricos que declara o fim da sociedade do trabalho. Ler algo do Obama tb deve ser interessante. Assisti ontem o filme Nixon, de Oliver Stone, e fiquei pensando em como os presidentes americanos tem algo em comum, em sua identificação com o mito da superioridade das instituições americanas. Nem o bom Obama escapa.

Paulo Sérgio disse...

Obrigado pela indicação, Fabrício. Vou dar uma olhada sim.

Grande abraço.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Olá Fabrício, como vai? Na verdade esta obra do Offe é de 1984, quando ele ainda mantinha uma relação mais estreita com a tradição marxista e não fazia esta referência ao fim da centralidade da categoria trabalho. É um pouco depois disso, se não me engano, com o livro "Capitalismo Organizado" que ele vai desenvolver esta equivocadíssima tese. Apesar de também discordar de algumas posições de Offe neste livro (1984), entendo que é uma fantástica referência na construção de uma sociologia política de grande porte. Aproveito a oportunidade para recomendar mais uns livros que selecionei para estudar nas férias:

1 - "O discurso filosófico da modernidade": Jurgen Habermas

2 - "A grande transformação": Karl Polanyi

3 - "O capitalismo tardio": Ernest Mandel

4 - "Concepção dialética da história": Antonio Gramsci

5 - "Estado e planejamento econômico no Brasil": Octavio Ianni

Um abraço!

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Correção o texto original do Claus Offe ao qual estou fazendo referência é de 1977, a edição brasileira é que é de 1984. Abraço!

Fabrício Maciel disse...

Fala, Maycon. É capitalismo desorganizado, do Offe. Gramsci é um autor que ainda quero estudar, apesar olhei brevemente. E esse do Polanyi eu comecei e naõ terminei, é um livro fundamental mesmo.

Roberto Torres disse...

de todos os livros sugeridos, eu endossaria o "a grande transformacao" do Polany. Acho que, nesse momento de crise aberta do capitalismo (já que o capitalismo), trata-se de uma grande contribuicao sobre a genese do mercado e de seus agentes. Agora eu também acho que é indispensável ir direto a fonte, e voltar a ler o velho Marx.

Fabrício Maciel disse...

É isso ai Roberto, to querendo pegar o Capital em breve. Tem que começar do começo.

Luiz Felipe Muniz disse...

Fabrício, gostei muito da sugestão!

É verdade, não temos como abrir mão dos bons clássicos, entrento, creio que a velocidade das transformações estão nos trazendo desafios assustadores para os próximos anos e, de certa forma, impensados pelos autores clássicos...assim, tentando contribuir, me permita sugerir mais algumas outras fontes de leitura para 2009:

1 - BOFF, Leonardo. Ecologia Grito da Terra, Grito dos Pobres. São Paulo, Ed. Ática, 1995;
2 - CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo. Ed. Cultrix, 1996;
3 - CAPRA, Fritjof. As Conexões Ocultas. São Paulo. Ed. Cultrix, 2002;
4 - DAMÁSIO, Antônio. O Erro de Descartes – emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1996;
5 - MORIN, Edgar. O Enigma do Homem. Rio de Janeiro. Zahar, 1975;
6 - MORIN, Edgar.Ciência com Consciência. Rio de Janeiro. Ed. Bertrand Brasil, 1996;
7 - Edgar MORIN, O Método 1 - a natureza da natureza. Trad. de Ilana Heinberg. 2 ed. Porto Alegre: Sulina, 2003. 479 p. (La Méthode 1 - la nature de la nature. Editions du Seuil, 1977).
8 - MORIN, Edgar. O Método 4. As Idéias: a sua natureza, vida, habitat e organização. Portugal. Biblioteca Universitária, 1991;
9 - Edgar MORIN, O Método 6 - ética. Trad. de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2005. 222 p. (La Méthode 6 - éthique, Edutions du Seuil, 2004);
10 - PRIGOGINE Ilya. O Fim das Certezas - Tempo, Caos e As Leis da Natureza. UNESP 1996.

Boas leituras em 2009.

Luiz Felipe Muniz

Fabrício Maciel disse...

Obrigado Luiz, sua lista é bem nova para mim, vou olhando aos poucos. Grande abraço!

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

Excelente! E a Bíblia? Sem ela as lacunas serão tantas... tantas... tantas...

Seria bom incluir. Machado de Assis lia.
E Machado de Assis é Machado de Assis, né?

Xacal diz: "E Deus, um delírio, do Ricard Dawkins, para refletir sobre a onde criacionista que nos
ameaça por aqui também..."

Ora... se ameaça não seria um bom mote para os Sociólogos analisarem e debaterem? Por que impedir esta ameaça que não está mais só na ameaça? Tem medo de quê? Do Criacionismo provar a quê veio? O Criacionista não tem medo do Evolucionista. Muito pelo contrário...