sexta-feira, 11 de abril de 2008

As instituições e nós ou “a planície também tem seus morros”

O clichê sociológico que mais aparece nas conversas nas quais nós interpretamos nossa sociedade, e tende a ser aquele charmoso ponto final da análise, é sempre aquele que entre outras coisas crê que instituições não têm o poder de mudar uma sociedade. Não poucas vezes ouvimos e repetimos que, práticas sociais enraizadas — aquelas que ganham apelidos pitorescos pelo senso comum e são por vezes apropriadas pela sociologia — são parte fundamental de nossa “essência” e nos acompanharão ad infinitum. Assim falsamente cremos que apenas por vias pessoais e por relações de autoridade tradicional as coisas funcionam em nossa sociedade, no entanto nem sempre é assim. Podemos dizer que, por trás dessas afirmações está a idéia de "cultura" representada como algo estático, intocável e inatingível por qualquer ação, seja ela individual ou coletiva. Nesta lógica, somos levados a acreditar que qualquer possibilidade de mudança será completamente e necessariamente dissolvida pelo "caldo cultural" que seria a essência imutável de nossa identidade. As inovações num grupo social, sejam elas inovações institucionais, jurídicas, etc., são vistas como elementos externos ao que se entende por cultura, e logo, sem qualquer eficácia transformadora. No entanto, acredito que se por um lado instituições possam ser resignificadas quando transplantadas de um determinado entorno cultural para outro, são elas os elementos que possibilitam radicais transformações, justamente por não serem algo externo a "cultura" como pensam alguns, mas sim por serem parte integrante do que entendo por cultura.
Quando inovações institucionais aparecem em um determinado agrupamento social, é a sinalização de que algo está mudando ou propõe-se a mudar. Em geral, instituições não são racionalizações vagas que nada tem a ver com o cotidiano das pessoas, elas trazem dentro de si tanto uma visão de mundo própria como também uma proposição de um conjunto de práticas e valores que atingem em cheio os indivíduos que estão diretamente a elas relacionados, desse modo, desenraizando-os, arrancando-os do seu mundo e apresentando-lhes sorrateiramente um outro mundo, que necessariamente os obriga a reinventar o mundo que os rodeia. O contato com novas instituições tem o poder em algumas situações de tornar o indivíduo um estrangeiro em seu próprio lar. Mas essas mudanças são tão lentas e sutis frente à velocidade do mundo moderno, que nós demoramos muito para nos dar conta. Porém, de modo algum podemos pensar que a sociedade é o reflexo das instituições, ou que as instituições regem tiranamente o destino da vida social, mas podemos dizer que, quando elas chegam, novas possibilidades se abrem. Assim como no plano individual, novos desafios emocionais têm a capacidade de abrir fendas no ego, trazendo novas possibilidades de desenvolvimento para o indivíduo, quando novas instituições aportam numa sociedade elas têm o poder de causar fissuras que permitem possibilidades de mudança.
Em vista disso, podemos perceber como inovações institucionais mudaram e têm mudado a história, até mesmo a história de nossa planície, que por vezes nos parece ser sempre a mesma e contínua planície regida pelas rédeas da tradição. Sua geografia nos sugere a triste metáfora de que não houve relevos transformadores em sua história. Mas ao contrário, não nos faltam exemplos históricos em que inovações institucionais transformaram a nossa história municipal. O nosso último grande evento histórico (o escândalo de corrupção na prefeitura) que parece a primeira vista nada ter a ver com inovações institucionais, revela-se diferente a partir da sofisticada análise do cientista político Vitor Peixoto publicada neste blog, que nos deixa ver como a expansão da promotoria pública e também da polícia federal, permitiu uma maior fiscalização das finanças públicas, atingindo uma série de municípios dentro dos quais se encontra Campos dos Goytacazes.
Um dos mais marcantes traços do poder das instituições em nossas terras foi à criação da antiga Escola Técnica Federal de Campos, hoje CEFET. Essa instituição formou uma classe nova de trabalhadores em Campos, os quais não tinham nenhuma relação pessoal com seu empregador, eram tipos sociais puramente urbanos, deslocados das tradicionais relações de trabalho provindas do campo, ou de outros cargos públicos ligados a relações pessoais. Ali formou-se outros tantos trabalhadores que desempenhariam funções similares aos seus professores, e muitos também se tornariam professores da mesma instituição. Instituição essa que criava tipos sociais cada vez mais distantes dos tradicionais tipos locais, desenraizando-os, arrancando-os dos seus mundos e apresentando-lhes outros. Essa instituição transformou a vida de inúmeros indivíduos e moldou também alguns novos contornos no nosso município. Não por coincidência surgiu dali grande parte de novos grupos políticos progressistas na década de 80, que posteriormente influenciaram a formação de alunos com novas leituras de mundo. Isso para não mencionar um leve, bem leve ar de cosmopolitismo que havia ali, pelo fato dessa instituição capitanear estudantes de várias cidades da região dos lagos e do norte fluminense.
Se por um lado o CEFET representa esse pólo dinâmico e positivo para a cidade, temos outras memórias não tão positivas em nossa cidade a respeito do poder das instituições. Elas provam o seu poder não somente quanto instaladas, mas também quando são boicotadas. A memória municipal narra que elites político-econômicas locais vetaram a vinda da Petrobrás para Campos por temer possíveis revezes econômicos em seus negócios. Nossa mente viciada em análises economicistas tende a lamentar esse fato apenas pelo prejuízo econômico que sofremos com esse veto. No entanto, os prejuízos são muito maiores em relação a outros fatores da vida. Por mais poderoso que o dinheiro seja, ele não tem o poder de transformar a realidade somente por suas forças, ele é sempre dependente de uma série de outros fatores. Para muito além dos recursos materiais que a Petrobrás poderia trazer para Campos, teríamos possivelmente com ela uma expansão das classes médias, e de outros interesses políticos e culturais ligados a essa classe, além do enfraquecimento das relações tradicionais de poder.
Não me cabe aqui, pelo menos agora, elencar todas as marcas de inovações institucionais na história de Campos, citei algumas que julgo importantes e termino mencionando uma nova instituição na cidade, a UENF. Digo nova, porque o tempo das transformações sociais é muito mais lento do que nós e os revolucionários de plantão esperamos. Com apenas 15 anos a UENF já deixa ver timidamente suas marcas na sociedade campista, trouxe gente não só de vários lugares do país como também do mundo, abriu uma leve fenda de cosmopolitismo na tradicional Campos dos Goytacazes, assim alargando suas fronteiras. Porém, ainda é muito cedo para falar dos grandes impactos que a UENF terá na sociedade campista, mencionarei aqui apenas um breve impacto da UENF, a criação deste blog. Desse modo faço jus ao título deste artigo, nós e as instituições. Assim como mencionei que as instituições têm o poder de nos tornar estrangeiros em nosso próprio lar, de nos arrancar de nossas raízes, assim fez a UENF com os cinco membros desse blog. A UENF nos coloca numa posição ambivalente a respeito de Campos, ao mesmo tempo em que estamos dentro sociedade, também estamos fora dela. E é a visão desta posição ambivalente que procuraremos oferecer neste blog, aqui relataremos nossas impressões sobre a sociedade campista, que são também fruto desta instituição que nos arrancou do nosso mundo.

2 comentários:

Manoel disse...

qSaudações caro amigo, parabéns pela sua trajetória acadêmica e pela sua participação na criação deste espaço.
Coaduno com sua visão do importante papel das instituições na formação/ampliação de nossa identidade social e cultural. Sua menção ao CEFET e a UENF muito me emocionam pois, sem dúvida, foram as instituições mais marcantes na minha vida e formação e, sobretudo, dignas de toda nossa gratidão e reconhecimento.
No que diz respeito a crise em nossa querida Campos dos G., para além da simplicidade maniqueísta dos vilões e mocinhos, acredito estar na moral (ou falta dela) que predomina no coletivo da sociedade, ou seja, no modelo ético que define os padrões de comportamento social e político da população (ou da maior parte dela para não ser tão hobesiano) que está a explicação para toda esta crise.
Inegavelmente, o que é bom na dose certa, em excesso, gera prejuízos. Com os royalties não é diferente. Os crescentes valores indenizatórios atingiu um patamar muito alto, convertendo-se numa herança maldita para o nosso povo sofrido. Como nunca, os interesses particulares e privados sobrepõem-se aos coletivos. Nesta conjuntura, mesmo com atos explícitos de corrupção, os políticos que aí estão conseguem perpetuar-se no poder através do favorecimento pessoal que oportunizam a um significativo contigente de eleitores.
Mas... nem tudo está perdido... através de iniciativas como esta de vocês talvez seja possível alterar este quadro conscientizando as pessoas da importância de uma administração consciente, responsável e honesta. E, sobretudo, que esse é o melhor caminho para trazer benefícios, qualidade de vida e perspectiva de futuro para todos os campistas.
Eis aí o desafio!!!

Manoel M. Caetano Jr. (Pedagogo - UENF, Msc. Cognição e Linguagem-UENF /Licenciando em Geografia - CEFETCampos / pós-graduando em História Comtemporânea - FAFIC)

Brand Arenari disse...

Manoel, muito obrigado pela visita e pelos comentários.
um abraco