segunda-feira, 14 de abril de 2008

Dostoievski, o crime e o castigo

por Renato Barreto

Dos livros de minha adolescência “Crime e Castigo” foi o mais impactante e ainda lembro de algumas citações do autor russo. Uma delas me ronda a memória pela adequação ao nosso contexto local. Lá por fins do capítulo quatro da parte cinco Raskólhnikov conversa com Sônia e revela o motivo do crime que cometera. Entre as explicações afirma: “... o poder apenas se entrega a quem se atreve a inclinar-se e a apanhá-lo. Só é preciso uma coisa, só uma coisa: atrevimento para o fazer.”

A cidade de campos vive uma crise política sem precedestes em sua história. O grau de desrespeito às instituições e a suas regras chegou a níveis insuportáveis e o crime substituiu a política. A publicização dos fatos trouxe à luz aquilo que se ouvia nos cafés e corredores. Na TV a imagem de pessoas presas e sendo conduzidas a um avião da Policia Federal ficará para sempre na memória de todos os campistas.

Paralelo a esse quadro, a luta política se radicaliza, grupos ainda mal recompostos da crise se mobilizam em clima de guerra onde até “duelos” são marcados a luz do dia. O debate político desce a níveis abissais. Projetos não são discutidos, acusações são trocadas. Debates radiofônicos se tornam ringues de confrontos verbais onde há lugar para todo o tipo de baixaria. Adversários são transformados em inimigos que devem ser exterminados.

Os efeitos de todos esses episódios nas mentalidades dos cidadãos da planície ainda são obscuros, mas é possível perceber que existe um sentimento de decepção, somado a um crescente descrédito, embalado por uma falta de perspectivas latente. A crise parece ser maior que os homens que se dispõem enfrentá-la. Mas é bom lembrar que os chineses compõem a palavra “crise” com dois caracteres: um representando o perigo, outro a oportunidade.

E a oportunidade que existe nesse momento é justamente a chance de mudança. É preciso catalisar a insatisfação e a decepção que hoje paralisa a cidade e articular uma grande reação propositiva que tenha competência para elaborar um projeto político capaz de superar tantos anos de ostracismo de pequenez intelectual e incapacidade gerencial. É preciso repactuar os compromissos do poder executivo municipal com a sociedade sob a luz da transparência. É preciso abandonar de vez as bravatas verbais e a defesa de honestidades presumidas em nome de eficazes e públicos mecanismos de controles e de prestação de contas.

É urgente uma campanha de resgate da criatividade e da solidariedade desse povo que tem demonstrado uma paciência monástica com suas ineptas lideranças. A cidade precisa de um movimento capaz de projetar um candidato em condições de responder a esses desafios. Não é hora de cálculos eleitorais, é hora de aglutinar energias, reunir forças e realizar uma campanha eleitoral que recupere o território da política que foi invadido pelo crime e pelo achincalhe verbal. Toda expectativa se deposita nas próximas eleições e somente um candidato a prefeito que possa realmente se apresentar como alternativa - a partir de seu absoluto descolamento das forças políticas tradicionais - será capaz de recuperar a credibilidade na solução política dos problemas que nos cercam. Sob pena de testemunhar-mos uma eleição sem projetos, caracterizada pela troca de insultos e outros quatros de “mais do mesmo”.

A cidade precisa recuperar a esperança nas instituições. Os “homens públicos” dessa terra estão diante de um desafio histórico, liderar esse movimento pode não render uma vitória eleitoral, mas certamente terá como prêmios: o acúmulo de um considerável capital político e a consciência do dever cumprido. Fugir a essa responsabilidade será um crime que terá seu proporcional castigo.


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Renato Barreto Souza é doutorando em Ciência Política no IUPERJ e mestre em Políticas Sociais na UENF.

14 comentários:

Xacal disse...

Isso é um tratado político ou uma ameaça...?

Anônimo disse...

Sera que o castigo vira a cavalo?

Vitor Menezes disse...

Bacana, sejam bem-vindos. Colocarei link para vocês no urgente! Abraços.

Vitor Menezes disse...

Ah, no último parágrafo, é "liderar", ou "liberar" mesmo?

Vitor Peixoto disse...

Obrigado, Vitor, pelo apontamento do erro de digitacao.

Abraco,

Vitor Peixoto

Roberto Moraes disse...

Prof. Renato Barreto,

Ótima análise e indicativos.

Necessário se faz ampliar a divulgação dela para que possa gerar ações naqueles em que ela tem condições de produzir os efeitos que a cidade deseja e necessita.

Proponho, além dos blogs a remessa em listas de e-mails.

Abs,
Roberto Moraes

Marcos Cardozo disse...

Parabéns pelo Blog: de altíssimo nível. Não só pelos currículos dos participantes, mas pela "comprovação" dos mesmos: os textos são ótimos!
Especificamente no caso deste (excelente!) - do Renato Barreto - acho que uma frase no último parágrafo faz jus à realidade: (...)"pode não render uma vitória eleitoral"(...). Não vai render mesmo. Quantos eleitores nesta cidade têm acesso e fazem uma análise crítica de textos como este? Quantos ainda dependem da máquina pública (através de vias tortas) para ter comida no prato? Mesmo com tantos desmandos, não é em vão que os bate-bocas que não levam a nada (para a sociedade, bem entendido) continuam. Visam a disputa deste eleitorado que deve corresponder - no mínimo - a 50,01% do total. De qualquer forma vale pelo "acúmulo de um considerável capital político (o futuro...) e a consciência do dever cumprido".
Abraços.

Anônimo disse...

Renato.
Muito animador seu texto, mas gostaria que me apontasse algum município neste enorme país que vive uma situação política próxima a que vc. descreve para a salvação de Campos. Vc. conhece algum?
Poderíamos importar (pessoas, ideías, projetos,etc),afinal temos muito dinheiro...
Mas penso que a questão não é só com os políticos e como eles fazem política.
Ontem na primeira página da Folha da Manhã a manchete era; " Arnaldo quer disputar a eleição com garotinho". Pode uma coisa dessas? Alguém quer saber de Arnaldo e muito menos de garotinho? Com certeza os donos da Folha torcem para que tudo continue na mesma, eles não são políticos mas fazem política.
Tem que mudar a mentalidade geral...

renato disse...

Quando fui aluno do Prof. Sérgio de Azevedo no curso de mestrado da UENF aprendi entre tantas outras coisas que o Brasil é um muito rico em políticas sociais, existem experiências muito bem sucedidas em inúmeras cidades espalhadas no país que contam inclusive com reconhecimento internacional. Todos os grandes problemas de competência do poder local têm iniciativas exitosas. O que falta é vontade política e competência para realizar.

George Gomes Coutinho disse...

O colega anônimo não deve negar peremptoriamente a existência de "boas práticas" e "boa governança" pelo simples fato de não conhecê-las.

Lhe asseguro que praticamente TODOS os estudos sobre a política local realizados de alguma forma trazem contra-exemplos ao que vemos em Campos. Há desde dissertações, monografias, livros, blogs, artigos em jornais, etc.. Nestes sim encontrará exemplos nacionais e internacionais sobre como utilizar recursos públicos.

Não naturalizemos o que é passível de desconstrução.

Anônimo disse...

Caros.
Me desculpem a ignorância, é que ultimamente só tenho lido blogs, não vejo televisão,não leio jornais, muito menos dissertações e monografias. Por isso peço a gentileza de me fornecerem o nome de pelo menos UM município. É que estou pensando em me mudar, deixar de ser campista.

George Gomes Coutinho disse...

Prezado anônimo tão desiludido quanto nós.

Sobre aplicação de royalties com um pouco menos de irresponsabilidade temos Rio das Ostras e Quissamã (discutível, sabemos, mas é um pouco melhor do que aqui).

Por fim há inúmeras cidades no sul do Brasil que conquistaram prêmios de gestão fiscal e orçamentária.

São exemplos tópicos... Sabemos.. Mas podem nos apontar algo nesse momento de trevas não é?

Animação NF1 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Sérgio disse...

Prezad@s, o comentário último foi excluído por mim, pois estava aparecendo com o nome de outra pessoa. Abri uma conta e agora posso falar me indentificando-me. Penso que o fatalismo demonstrado pelo nosso ilustre "anônimo", embora compreensível, não seja uma disposição frutífera para o esforço de redefinição da política local.