segunda-feira, 21 de abril de 2008

Homem que calculava e as instituições


Com ácidas discussões acerca de teorias que tentam explicar os fundamentos do comportamento político, a Ciência Política vem construindo, desde a segunda metade do século XX, uma série de instrumentos que visa antecipar como os indivíduos se portam diante de determinados fenômenos sociais. E uma eleição é, por excelência, um desses principais fenômenos.

Também conhecidas por Teoria da Escola de Michigan, as concepções dos psicologistas têm suas origens nas teorias de grupo e na psicologia social. O comportamento político de um indivíduo seria predito pelos ambientes nos quais fora socializado, tendo a família um papel preponderante.

Dessa forma, conhecendo-se as crenças, as opiniões e as articulações sociais, poderíamos identificar como um determinado indivíduo reagiria a certos estímulos. As pesquisas de surveys foram, então, os principais instrumentos analíticos dos adeptos da teoria psicológica do voto. Por meio destes, seriam estabelecidos (ou identificados) os fatores que levariam certos indivíduos a tomarem determinadas atitudes.

O meio social, entendendo este como o conjunto de relações estabelecidas entre os indivíduos (antes mesmo de terem idade para votar), era concebido como o principal formador de opinião. Por conseguinte, grande parte da autonomia da escolha individual fora retirada, pois o indivíduo é quase que exclusivamente o reflexo do seu meio, mas nem todos possuem capacidade reflexiva.

O comportamento político do indivíduo estaria, então, em função das interações sociais. É importante notar que estas interações sociais não significam classes sociais, pois, o que realmente estabelecia a preferência do indivíduo era o sistema de crenças, adquirido em seu processo de socialização, e não exatamente a consciência de classe no sentido marxista do termo. Até porque os indivíduos foram diferenciados em graus de estruturação do sistema de crenças, assim cada um teria uma inclinação diferenciada para o interesse pela política.

Outro fator, não menos importante, seria o grau de centralidade de algumas questões políticas. Esta é uma das questões que, por um lado, estabeleceria uma certa coerência em atitudes de um mesmo indivíduo e, por outro lado, o diferenciava dos demais. Assim, certos temas teriam reações distintas em diferentes indivíduos segundo o grau de centralidade que aquele tema representava para cada qual.

A sofisticação conceitual de cada indivíduo também fora outro método utilizado para conceber diferentes atitudes em relação a certos estímulos, ou seja, quanto maior fosse a sofisticação conceitual de um determinado indivíduo, maior seria a abrangência das questões que teriam um maior grau de centralidade. Em indivíduos com pouca sofisticação política, temas locais seriam os de maior centralidade.

A conjunção entre o sistema de crenças, a sofisticação política e o grau de centralidade forma, para a teoria psicológica, o determinante da orientação do comportamento político do indivíduo. Estabelecendo este determinante, poder-se-ia prever em que partido ou candidato os indivíduos votariam.

Outra inovação formulada foi o continuum “engajamento-alienação”, que seria constituído por um conjunto de quatro percepções que os indivíduos desenvolveriam em maior ou menor grau: impotência política, que se refere ao sentimento de influência sobre as decisões governamentais; ininteligibilidade política, que versa sobre o sentimento de imprevisibilidade das decisões políticas; anomia política, sobre o não cumprimento das regras do jogo pelos atores políticos; e por último, isolamento político, o sentimento de rejeição de normas e objetivos políticos aceitos pela maioria dos membros da sociedade. O primeiro e o terceiro comportamento seriam os mais desestabilizadores dos sistemas, pois, são atitudes que não contribuem para legitimidade do sistema.

A motivação do indivíduo para o comparecimento eleitoral seria, então, a união de três fatores: a identidade político-partidária, o engajamento político e uma série de fatores momentâneos não controlados.

Em contraponto às concepções micro da abordagem psicossociológica, a escola de Columbia, como ficaram conhecidos os representantes da escola sociológica, tentaram focar suas análises sobre os macro-elementos da sociedade. Dessa forma, a escola sociológica assume as coletividades sociais como determinantes das escolhas dos eleitores – daí serem chamados de coletivistas metodológicos. Dito de outra forma: o voto de um indivíduo poderia ser previsto a partir do grupo sociológico em que ele estaria inserido. As clivagens sociológicas preditoras clássicas foram classe, renda, escolaridade, cor/etnia e religião.

Para a escola sociológica, o indivíduo era simplesmente reflexo dessas clivagens. Em outros termos: o que determinava o voto do indivíduo seria a estrutura social. Aqui não há espaço para a ação. Exatamente o que torna essa teoria estéril para explicar qualquer mudança na própria estrutura.

A partir da obra de Anthony Downs [“Uma teoria econômica da democracia”], surgem estudos sobre comportamento político-eleitoral que ficaram conhecidos como teoria da escolha racional. Os adeptos desta escola passaram a analisar o homem político como uma transposição, sem esquizofrenias, do homem econômico. Ou seja, os indivíduos agem politicamente da mesma forma que agem na economia, calculando suas ações de forma a maximizar seus objetivos com os menores custos possíveis.

Em outras palavras, o comportamento do homem político é racional, pois, o indivíduo é capaz de formular um ordenamento de desejos (econômicos), antecipar – como num jogo de xadrez – os custos de cada ação disponível e tomar a opção que mais satisfaça aos seus objetivos, com o menor custo possível.

Por este modelo analítico, conhecendo-se os objetivos podemos traçar quais são as opções mais eficazes e prever o comportamento dos indivíduos que agem racionalmente. Assim, a teoria da escolha racional versa sobre os meios de atingirem determinados fins.

Da mesma forma que os eleitores, os políticos também calculam suas estratégias com o objetivo de obter o maior número de votos possíveis. As políticas são construídas com este objetivo, ou seja, potencializar a maior adesão de eleitores. Então, pela teoria da escolha racional, os políticos antecipam os anseios dos eleitores e formulam projetos que possam acolher o maior apoio eleitoral possível. Observem que para esta concepção não existem eleitores feitos para os partidos, mas partidos construídos para o mercado eleitoral.

Os eleitores distinguem os partidos ou candidatos e decidem em qual votar de acordo com o que Downs chama de renda de utilidade, que é o cálculo de ganhos que cada eleitor espera obter, segundo os projetos de governo de cada partido (utilidade esperada). A diferença entre as rendas de utilidades dos partidos resulta no diferencial partidário, que é o real determinante individual do voto. Caso este diferencial fosse igual a zero, o eleitor teria um motivo racional para se abster. Obviamente, outros fatores entram nesse cálculo, como fatores tendenciais, confiabilidade, responsabilidade, credibilidade dos partidos, etc.

A questão é que essa teoria também não consegue explicar as constituições das rendas de utilidades para além das questões econômicas. A vida não se resume aos ganhos econômicos e a atividade política transcende a questão puramente econômica. Uma série de imbróglios e paradoxos ficou sem respostas.

Assim como também não conseguiram resolver os problemas oriundos dos custos da informação. Surveys comprovaram que a maioria do eleitorado americano agia com desinteresse e desinformação diante dos questionamentos acerca dos temas mais sofisticados da política. Se para executarem escolhas racionais os indivíduos precisam estar informados, e a informação não era uma constante, a própria democracia estaria em jogo, ou a democracia não seria um sistema racional. Estaria assim posto o dilema democrático!

Nenhuma dessas abordagens isoladamente conseguiu produzir algo satisfatório quando aplicado à realidade. Entretanto, novos esforços têm sido efetuados por pesquisadores que não se apegaram ao conflito reducionista do coletivismo-individualismo metodológico.

Surge, a despeito desses pseudoconflitos entre as premissas daquelas escolas, os neo-institucionalistas da escolha racional, que se dedicam às análises das instituições políticas como produto das escolhas políticas e, ao mesmo tempo, como estruturas que influenciam e constrangem as ações individuais. Aqui permanece a premissa comportamental da racionalidade individual, entretanto, os comportamentos são curvas que variam em função dos incentivos institucionais.

Ao dilema democrático respondem por meio da análise de instituições que servem como atalhos informacionais aos cidadãos. Para os neo-institucionalistas da escolha racional, o cidadão não é mais o homem que pela manhã vai ao trabalho, à tarde pesca e à noite participa de uma assembléia. A atividade política foi profissionalizada, a prestação de contas é realizada institucionalmente, não individualmente. Diante de assuntos altamente complexos como a economia, por exemplo, não se exige dos cidadãos conhecimentos minuciosos para que possam tomar decisões. Os partidos e a imprensa são, por exemplo, instituições que atuam no sentido de, a partir do conflito, decantar simplificações que possam ser alvo das decisões.

Voltam-se aos estudos das instituições como prossecutoras e viabilizadoras do sistema democrático. Nem os indivíduos têm retiradas suas autonomias de ações, nem mesmo agem num vazio sem constrangimentos ou ilimitadamente. Após 2320 anos a Ciência Política resolveu aceitar algumas proposições de Aristóteles: as instituições contam!

Não obstante os avanços, alguns sérios problemas permanecem, como as variações comportamentais mantido constante o mesmo sistema institucional. Daí outra dificuldade, quais são as instituições políticas que conseguimos realmente isolar? E pior: temos uma definição clara do que é uma instituição e como elas nascem? Está aí a questão de um milhão de dólares.

7 comentários:

Xacal disse...

Caro Vítor...

Não pretendo amealhar o milhão de dólares...
Nem esgotar o tema...
Mas como vc bem disse, se me falta conhecimento, pelo menos não falta coragem e arrogância...

A família seria a primeira exeperiência institucional que vivemos, onde há regras e tradições já estabelecidas pelos seus ascendentes, a possibilidade de intervenção e modificação de espaço e das relações, durante seu crescimento...e em última instância, questionamento da autoridade e repactuação da forma de organização desse núcleo....

Temos instituições formais, onde prevalecem a natureza formal, já pré-estabelecidas, sem que isso signifique impossibilidade de intervenção e estabelecimento de novos estamentos...

Instituições informais, poderiam ser consideradas as atividades humanas que prescindem de regras formais, mas não de normas de convívio...às vezes mais rígidas e eficazes no controle do grupo do que as normas formais...

Os principais exemplos de instituições informais são as que se relacionam a ilegalidade, como o tráfico de drogas e sua expressão nas comunidades onde se fincam...

Ali temos, assim como nas instituições formais:
regras, tradições, ritos de passagem, disputa de poder e permeabilidade maior ou menor em relação a grupos estrangeiros...

Vitor Peixoto disse...

Xacal,

A distinção conceitual entre instituições formais e informais é bastante conhecida e utilizada. Entretanto, não consegue dar conta das interações entre elas. Daí citei o problema da conceitualização. Nem mesmo mencionei o problema da operacionalização destes fenômenos, pois só iria confundir ainda mais o que eu mesmo não tenho claro para mim - muito menos ousaria escrever sobre isso. O que ando vendo na atual produção acadêmica é um bando de proxies (substitutos) pouco convincentes.
Não me refiro à instituições clássicas, como os sistemas eleitorais e seu efeitos, isso é bastante analisado, tem uma vasta literatura e de qualidade (apesar de várias problemas com estas também, estamos engatinhando para explicar como se nasce um sistema democrático, ninguém sabe como começa e por que começa – não tem fator determinante empiricamente comprovado!). Nesse imbróglio, tem uma outra questão: possuir capacidade preditiva nem sempre significa possuir capacidade explicativa. Por exemplo: acabei de ler um artigo sobre a relação de consumo alimentar e preferencia entre Clinton e Obama. Isso para mim não diz muito, pode ser de extrema valia como preditor, mas não explicativo. E é isso que interessa a quem utiliza, pois realmente prediz! Daí dizer que o eleitor democrata que apoia a Hillary o faz porque come comida japonesa é extrapolar o bom senso. Obviamente, eles não dizem isso. Mas utilizam nos modelos e dá certo – é disso que precisam.
Quanto à questão de um milhão de dólares, refiro-me à mescla de instituições informais que permeiam a vida cotidiana e suas relações com as formais, que se transcendem essa dicotomia. Elas são outra coisa que não sabemos identificar muito bem. Muito menos explicar como isso se dá!
Outro assunto que tenho enorme curiosidade é o objeto de análise do Brand e do Roberto: a magia! Está aí um grande assunto que a Ciência Política negligencia. Que tipo de instituição é essa? Isso é uma instituição? Qual é o impacto no comportamento eleitoral? Temos como medir esse fenômeno? Isso é importante, tem gente competente estudando isso, mas permanece pouco explorado.
Outra: o que é o carisma? Isso é uma instituição? O que faz alguém ter, e outros não? O que faz as pessoas reconhecerem o carisma? Isso é uma atitude não-reflexiva ou pré-reflexiva? E o carisma institucional? Alguém nega que o PT tem uma relação com seus filiados tradicionais diferente de outros partidos? O que é isso? Os Republicanos e os Democratas se relacionam assepticamente com seus partidos? Por isso fiz questão de afirmar que muitos paradoxos permanecem. Mas não tenho a solução. Se estivesse, meu caro, convidaria a todos vcs para discutirmos filosofia num belo cruzeiro transatlântico!

Grande abraço,

PS: Agora uma ameaça: eu não disse que vc não tem conhecimento! Coragem eu disse - arrogância é por sua conta. E se vc continuar a dizer isso eu fico de mal, Little Do(..)g! (risos....)

Xacal disse...

Não considero carisma e magia, por exmplo como instituições, embora se nos aproximarmos com um lupa, possamos enxergar ali, alguns elementos institucionais...

São no máximo, instâncias voláteis do comportarmento, agregáveis ou não, às instituições, como alegorias ou, melhor, um liame que sedimente tradições institucionais...

A magia, os rituais é que dão coesão a religiões de toda sorte, mas reduzir essas religiões a esse elemento é um erro...

Embora constitutivo, ela, a magia, apresenta níveis que permitem reconhecê-la de forma explícita, ou diluir sua existência nos ritos institucionais: como a distinção entre instituições religiosas afro-brasileiras e as européias...

PS: a brincadeira do conhecimento é sua uma filigrana estilística...e uma defesa, é claro...me exime de plano das besteiras que possa falar...heheheh

Roberto Torres disse...

Caraos Xacal e Vitor. Fico lendo os debates e acho besteira intervir sempre. As vezes é preciso so ler e ouvir, inclusive por que uma das regras fundamentais de qualquer debate e nao violar o tema a ponto de acabar com o proprio debate. Mas agora fui invocado, junto com o Brand, e vou colocar uma posiçao e uma questao. Em que medida as instituiçoes, sobretudo as da vida moderna como o estado e a economia, conseguem, de fato, romper com a magia e os ritos em sua atividade de determinar e coordenar o comportamento individual(interrogaçao. to sem o simbolo nesse teclado). Em que medida, por exemplo, a midia, ou seja, o mercado agindo na esfera publica, dependem ou nao de rituais e magia em sua atividade. Minha posiçao e que a magia e os rituais sao centrais em todo tipo de vida institucional, inclusive no mundo moderno. O que talvez seja singular na modernidade e que a magia e os rituais sao menos explicitos do que qd eles eram o centro assumido da vida coletiva. Toda a analise de Bourdieu sobre a cultura legitima mostra, por exemplo, que é o simples contato, no seio socializatorio da familia, com objetos e possoas com capacidades de desfrutar bens simbolicos da arte legitima, que transmite ao individuo a disposiçao para agir de acordo com essa cultura. Por outro lado, objetos vuldares usados pelo povao, se enobrecem so por serem usados pelas pessoas dotadas de uma certa inclinação. Praticas tb obedecem a issom, e praticas institucionais como a justiça. O roubo de objetos de alto valor, como quadros, assume aura de um gosto nobre so pelo fato de ser feito por pessoas que nao precisam, por necessidade economica, de roubar qualquer coisa. Entao, a menos que queiramos explicar exemplos como esses com base em intençoes ou ma fe pessoal de uma elite ou grupo que controlam a vida social como um todo, precisamos pensar como ritos e magia nao se afastam da economia e nem da politica.

bill disse...

Gosto desse debate... Porque magia é tema da sociologia do conhecimento, e nosso mestre institucionalista maior (Durkheim) juntou as duas coisas. Acho que meu argumento vai de encontro ao de Roberto. Para Durkheim importa pouco a eficácia da magia, mas as consequências sociais de tal crença é que importam ser estudadas. Por exemplo, até que ponto as crenças compartilhadas contribuem para a coesão social? Cada crença constrói uma determinada forma de organização social e serve de mecanismo que anima a dinâmica de determinadas instituições, por exemplo, na construção de papéis sociais que tão somente pertence aquela forma de organização. Dizer que um cientista seja relativo a um mago é esquecer o sentido específico que cada papel tem para a instituição, também específica, que o agrega. Existe uma dinâmica social que diferencia a maneira de se conhecer, de comprar, de votar, em épocas e lugares diferentes já que esta constroi semânticas também diferentes. Esta é a tese da incomensurabilidade dos significados que a hermenêutica desenvolve. Falar de qualquer objeto sociológico requer especificar seu sentido único para aquela forma de vida sob a qual ele se especifica semanticamente.

Brand Arenari disse...

Queridos amigos, acho que vou surpreendê-los com minha resposta. Talvez vcs jamais esperassem ouvir isso da minha pessoa. Digo de antemão que esta é apenas minha opinião, não tem nenhum outro caráter. Quando topei participar deste blog foi no desejo de dialogar com pessoas foras da academia e fora do meu círculo pessoal. Os debates com o xacal tem sido ótimos quanto a isso, e com outros que aqui tem estado. Tem estado muito feliz com esse resultado. Por isso, por mais caras que questões epistemológicas, ou relativas a natureza da ação e temas deste tipo me sejam, como todos sabem, não tenho eu o interesse de debate-los aqui. Acho que para isso há outros espaços dos quais nos participamos, revistas científicas, congressos etc. E infindas conversas que já tivemos. Acredito que podemos nos ater com muita profundidade a temas concretos. E é isso que eu quero aqui. Nem de longe quero ditar a agenda do blog, coloco essas idéias aqui para o debate Tb, talvez eu esteja errado. Por isso, não responderei, pelo menos aqui (vcs sabem q não corro de debates) certos temas. Tivemos belas discussões aqui que acredito ter auxiliado na construção de um esfera de debate franco e de alto nível em Campos. Espero que continue assim.
Um afetuoso abraço, Brand.

Paulo Sérgio disse...

Caro Brand, penso que a interação com pessoas fora da academia acontece em certa medida neste blog. Mesmo se aqueles que lêem os textos não expressam de imediato suas impressões e idéias. Desde já, louvo a iniciativa.

Abraço,
Paulo